domingo, 14 de setembro de 2025

[CONTO] TRAÍDA

06 de Abril de 2059

O néon da Hard Light Corporation reverberava pelas janelas foscas do 112º andar do edifício Howard, na borda do Centro Financeiro de Valex City. As luzes pulsavam como artérias sobre os arranha-céus negros, e lá dentro, num escritório envidraçado e silencioso, Harley Crimson respirava fundo. Aquela era sua primeira missão como fixer de inteligência da ValexSynthesis.

No seu ouvido, um ponto eletrônico emitia um leve chiado — a voz de Adrian Valex Junior, carregada de tensão:

— Lembre-se, Crimson: o futuro da Valex… e da minha irmã… dependem disso. Traga o que precisamos da Hard Light. Custe o que custar.

Ela engoliu seco, ajeitando a gola do sobretudo preto sobre um vestido de lantejoulas vermelhas com pequenas fitas de led rosa na gola, e empurrou a porta automática. A sala da Hard Light era um espaço minimalista com móveis metálicos pretos, cinzas, cortados por finas fitas de led azul clara. O led azul estava na moda.

Lá dentro, o CEO da Hard Light Corporation, James Harvey Razer, esperava.

Razer era um homem alto, de cabelos grisalhos penteados com precisão militar e um terno cinza grafite perfeitamente alinhado, possuíndo uma linha de led fazendo o contorno do logo da hardlight no terno. Mas o que chamava atenção era o seu sotaque britânico — impecável, cortante como lâmina de bisturi.

Dois assistentes, Sr. Eliah e Sra. Pearce, cochichavam discretamente no fundo da sala, trocando olhares quando Crimson entrou.

— Ela veio da SlutStudio, sabia? — sussurrou Eliah.

— Exato o tipo que Adrian gosta. Moldáveis. Descartáveis — respondeu Pearce, sem erguer os olhos do holopad.

— Ele fez isso com aquela outra... Como era o nome? Potter Grey?

— Sophia Potter, mas que na ValexCorp recebeu o nome de Riley Grey.

Crimson ouviu, mas manteve o rosto impassível, como Adrian lhe ensinara.

Razer ergueu os olhos, um sorriso de canto surgindo como se ela fosse um detalhe intrigante em meio à rotina monolítica.

— Então… a nova voz da Valex. Interessante. Já começa ousando vir sozinha. É ousada... Sabe o que dizem sobre o cargo de fixers de grandes corporações? Que é o pior melhor emprego do mundo.

— Por que dizem isso? — perguntou Crimson.

— Porque um fixer faz acordos que são ilegais e criminosos. E sabe demais. Gente que sabe demais não dura muito nesse meio, e a prova disso é que você está aqui sozinha.

— Não venho sozinha, senhor Razer. Venho em nome de Adrian Valex Junior — disse ela com firmeza.

No seu ouvido, Adrian interveio apressado:

— Corte o barato dele. Ele tem que saber que está negociando com a maior entidade do planeta. Diga que exigimos acesso ao núcleo do Projeto MindShift. Sem rodeios.

Razer, antes que ela pudesse transmitir a mensagem, serviu-se de um scotch.

— Aceita, senhorita Crimson?

— Aceito sim — respondeu ela, tomando o copo na mão enquanto Razer a servia.

— Diga-me, como se chamava quando estava na SlutStudio? Não pense que eu não sei disso.

— Não tenho vergonha do meu passado.

— Sei que não. Não estaria aqui se tivesse. Mas não respondeu minha pergunta.

— Que droga de conversa é essa, Harley?! Vamos ao que importa! — protestou Adrian no ponto.

Crimson, incomodada, respondeu rapidamente:

— Harley Cum.

— Gostei. Clássico. Sem invenções.

— A ValexSynthesis exige acesso imediato ao núcleo do Projeto MindShift — declarou Crimson.

Razer se levantou lentamente da cadeira, como um predador calculando cada músculo antes do bote. Seu sotaque britânico ficou ainda mais marcado, como se cada palavra tivesse sido afiada na pedra do orgulho.

— Exigem? Oh… Que adorável.

Ele caminhou até ela. Crimson manteve a postura, mas seus dedos se crisparam dentro do bolso. Razer inclinou-se — e, num gesto desconcertante, beijou-a nos lábios. Ao mesmo tempo, seus dedos deslizaram com destreza, retirando o ponto eletrônico de seu ouvido.

Crimson ficou imóvel, sentindo o vazio súbito do silêncio onde antes estava a voz de Adrian.

Razer ergueu o pequeno dispositivo na altura dos olhos, como se fosse uma joia.

— A Hard Light não te deve nada, Senhor Valex — disse ele para o ponto.

— E não seja arrogante… Você não é nem um décimo do visionário que seu pai foi.

Ele se virou lentamente, caminhando até a janela de vidro que revelava o abismo luminoso da cidade.

— Só respeito, e só respeitarei, um Valex: Adrian Valex Senior. Resigne-se à sua insignificância histórica.

Razer então girou nos calcanhares e cravou o olhar gelado na direção do ponto eletrônico, como se encarasse Adrian através dele:

— Você não está em posição de me exigir nada. Se quer salvar sua irmã, cumpra o acordo que falhou em 2056 com aquela desastrada da Jennifer Andersen… e dê a Archibald Reese o que ele precisa para entender que nunca será um de nós. Aí, sim… eu vou te respeitar.

Por um instante, só o som dos servidores resfriando o ar preencheu a sala. Então, o ponto eletrônico chiou e ficou mudo — Adrian havia desligado.

Os assistentes trocaram olhares tensos.

— Queria ver a cara dele explodindo depois do Razer o enfrentar assim… — murmurou Eliah. — Ou implodindo. A diferença é irrelevante — respondeu Pearce.

Razer caminhou de volta até Crimson, pegando a mão dela com uma gentileza inesperada e depositando o ponto em sua palma. Seu tom suavizou-se como seda.

— Você é bonita… e esperta. Se um dia precisar de um emprego aqui, está à disposição — disse, com um sorriso de canto.

— Mas não demore muito. Essa cidade vai ferver.

— O senhor Valex me deu minha primeira grande chance, não quero traí-lo — respondeu Crimson.

— Ele é dono do segundo maior poder militar da Terra. Atrás apenas do Exército Popular da China. Acredite quando eu digo, senhorita Crimson... Você já foi traída só de estar neste cargo.

Crimson fechou os dedos sobre o ponto, respirando fundo. Lá fora, os néons da ValexSynthesis continuavam a piscar, como se nada tivesse acontecido — como se o destino da cidade não tivesse acabado de ser decidido por um beijo e uma humilhação.

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