Valex City, 14 de Abril de 2059
O aparelho projetava colunas de dados translúcidos no ar, cascatas de informação que subiam e desciam em ritmo vertiginoso, como se respirassem. Gráficos pulsavam em linhas verdes e azuis, mapas genômicos e circuitos positrônicos se sobrepunham a relatórios estratégicos. Reese observava-os com olhos fixos, quase estáticos, as pupilas refletindo linhas de código.
Atrás dele, o som sutil de passos: metálicos, mas leves, precisos, quase humanos demais para serem apenas programados.
PeaX entrou no cômodo. Seu cabelo prateado caía sobre a testa numa franja rebelde, e a jaqueta preta colava-se ao corpo com naturalidade. Os olhos, de um tom vermelho-brunido, carregavam uma vivacidade incomum entre os de sua espécie.
— Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você, Reese? — disse ela, com a voz suave, quase num tom íntimo.
Reese não desviou o olhar dos dados. Seu dedo deslizava pelo ar, rearranjando gráficos e relatórios.
— Hoje não, PeaX. — respondeu mecanicamente, como se fosse apenas parte do ruído das máquinas.
Ela ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça.
— Então… estou dispensada? — perguntou, com uma respiração leve, quase cansada.
Reese girou lentamente a cadeira. O estofado de couro rangeu suavemente. Seus olhos pousaram nela, firmes, e uma linha de exaustão atravessava seu rosto. Ele estendeu a mão.
PeaX sorriu com doçura, caminhou até ele e segurou a mão dele com um gesto contido, mas carregado de proximidade.
— Você merece descansar. — disse Reese, com um calor raro na voz. — Obrigado pela amizade, pela fidelidade… pela competência. Tenho orgulho de você. Foi a primeira fixer replorgue da história de qualquer corporação. E saber que foi a NeuralDesk quem ousou dar esse passo… isso é uma grande alegria para mim.
PeaX corou — algo improvável, mas real. Sua pele assumiu um rubor quase humano. Sorriu tímida, mas nada respondeu de imediato.
— Ao fim da missão divide et impera, prometo… Você terá seis meses de férias totalmente merecidas. — completou Reese.
Os olhos dela se arregalaram, surpreendidos.
— Seis meses? Isso é muito mais do que qualquer funcionário. A maioria recebe quinze dias, no máximo um mês. O Togall mesmo teve dois meses e já achou um luxo.
— Você merece. — respondeu Reese, firme. — Só lamento não poder desfrutar disso com você. Assim como não pude participar das atividades lúdicas do Togall durante o recesso dele.
O silêncio ficou por alguns instantes. Ela desviou os olhos para a grande janela panorâmica atrás dele. A vista a partir de Templeton Hill era magnífica: o centro financeiro de Valex City, para além do Rio Valex, brilhava em infinitos pontos de luz, torres monolíticas com bordas marcadas por linhas de néon vermelho cortando a névoa.
PeaX virou-se novamente para Reese, depois olhou para o holopad ainda ativo.
— E então? — perguntou, a voz mais baixa. — Achou algo importante além de tecnicidades sobre os modelos 1.5 e 2.0 da BioMechaCorp? São dados bem antigos que a 0045 obteve dos servidores da Hard Light.
— Não chame-a assim... Ela escolheu o nome, Eeire, não foi?
— Foi. - Ela respondeu resignada, até com algum incômodo.
— Ao longo da minha vida aprendi a não confiar nas pessoas... E encontrei confiança justamente nos replorgues... Vocês são uma versão superior de nós mesmos... O Mindshift é uma distorção disso, mas se assenta numa premissa verdadeira. Vocês são o futuro. Podem ser um espelho melhor de nós mesmos. Por isso eu respeito a Eerie e todos os replorgues.
Reese respirou fundo. Seu rosto endureceu. Os dedos pararam sobre o teclado.
— Quanto ao que achei... — disse, em tom grave. — Descobri o Projeto Control 1.0.
O sorriso nos lábios de PeaX desapareceu. Ela ficou séria, quase sombria.
— Então… é grave.
Reese assentiu lentamente, os olhos carregados de indignação.
— Mais do que grave. — murmurou. — É a maior ameaça à humanidade já concebida. Uma afronta. Uma abominação. Nojento. Tirânico.
O holopad projetava, agora, imagens fragmentadas do esquema conceitual dos neurobloqueadores desenhados por Ferguson e Gómez.
PeaX se aproximou dele, a expressão carregada de pesar e tensão.
— Reese… o que eles estão tentando controlar?
Reese fechou os olhos por um instante, como se a resposta lhe pesasse mais que qualquer dado técnico.
— Tudo. — disse, num fio de voz.

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