quarta-feira, 1 de outubro de 2025

[CONTO] O futuro

 Valex City, 14 de Abril de 2059


O vento sussurrava contra os vidros reforçados da mansão em Templeton Hill, trazendo consigo o brilho enevoado da cidade que se estendia como um mar de néon vermelho e azul no horizonte. Dentro do escritório de Archibald Reese, o espaço parecia mais um templo da razão do que uma sala de estar: paredes forradas de painéis pretos, prateleiras repletas de monografias raras em suportes holográficos, e no centro, dominando tudo, um holopad.

O aparelho projetava colunas de dados translúcidos no ar, cascatas de informação que subiam e desciam em ritmo vertiginoso, como se respirassem. Gráficos pulsavam em linhas verdes e azuis, mapas genômicos e circuitos positrônicos se sobrepunham a relatórios estratégicos. Reese observava-os com olhos fixos, quase estáticos, as pupilas refletindo linhas de código.

Atrás dele, o som sutil de passos: metálicos, mas leves, precisos, quase humanos demais para serem apenas programados.

PeaX entrou no cômodo. Seu cabelo prateado caía sobre a testa numa franja rebelde, e a jaqueta preta colava-se ao corpo com naturalidade. Os olhos, de um tom vermelho-brunido, carregavam uma vivacidade incomum entre os de sua espécie.

— Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você, Reese? — disse ela, com a voz suave, quase num tom íntimo.

Reese não desviou o olhar dos dados. Seu dedo deslizava pelo ar, rearranjando gráficos e relatórios.

— Hoje não, PeaX. — respondeu mecanicamente, como se fosse apenas parte do ruído das máquinas.

Ela ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça.

— Então… estou dispensada? — perguntou, com uma respiração leve, quase cansada.

Reese girou lentamente a cadeira. O estofado de couro rangeu suavemente. Seus olhos pousaram nela, firmes, e uma linha de exaustão atravessava seu rosto. Ele estendeu a mão.

PeaX sorriu com doçura, caminhou até ele e segurou a mão dele com um gesto contido, mas carregado de proximidade.

— Você merece descansar. — disse Reese, com um calor raro na voz. — Obrigado pela amizade, pela fidelidade… pela competência. Tenho orgulho de você. Foi a primeira fixer replorgue da história de qualquer corporação. E saber que foi a NeuralDesk quem ousou dar esse passo… isso é uma grande alegria para mim.

PeaX corou — algo improvável, mas real. Sua pele assumiu um rubor quase humano. Sorriu tímida, mas nada respondeu de imediato.

— Ao fim da missão divide et impera, prometo… Você terá seis meses de férias totalmente merecidas. — completou Reese.

Os olhos dela se arregalaram, surpreendidos.

— Seis meses? Isso é muito mais do que qualquer funcionário. A maioria recebe quinze dias, no máximo um mês. O Togall mesmo teve dois meses e já achou um luxo.

— Você merece. — respondeu Reese, firme. — Só lamento não poder desfrutar disso com você. Assim como não pude participar das atividades lúdicas do Togall durante o recesso dele.

O silêncio ficou por alguns instantes. Ela desviou os olhos para a grande janela panorâmica atrás dele. A vista a partir de Templeton Hill era magnífica: o centro financeiro de Valex City, para além do Rio Valex, brilhava em infinitos pontos de luz, torres monolíticas com bordas marcadas por linhas de néon vermelho cortando a névoa.

PeaX virou-se novamente para Reese, depois olhou para o holopad ainda ativo.

— E então? — perguntou, a voz mais baixa. — Achou algo importante além de tecnicidades sobre os modelos 1.5 e 2.0 da BioMechaCorp? São dados bem antigos que a 0045 obteve dos servidores da Hard Light.

— Não chame-a assim... Ela escolheu o nome, Eeire, não foi?

— Foi. - Ela respondeu resignada, até com algum incômodo.

— Ao longo da minha vida aprendi a não confiar nas pessoas... E encontrei confiança justamente nos replorgues... Vocês são uma versão superior de nós mesmos... O Mindshift é uma distorção disso, mas se assenta numa premissa verdadeira. Vocês são o futuro. Podem ser um espelho melhor de nós mesmos. Por isso eu respeito a Eerie e todos os replorgues.

Reese respirou fundo. Seu rosto endureceu. Os dedos pararam sobre o teclado.

— Quanto ao que achei... — disse, em tom grave. — Descobri o Projeto Control 1.0.

O sorriso nos lábios de PeaX desapareceu. Ela ficou séria, quase sombria.

— Então… é grave.

Reese assentiu lentamente, os olhos carregados de indignação.

— Mais do que grave. — murmurou. — É a maior ameaça à humanidade já concebida. Uma afronta. Uma abominação. Nojento. Tirânico.

O holopad projetava, agora, imagens fragmentadas do esquema conceitual dos neurobloqueadores desenhados por Ferguson e Gómez.

PeaX se aproximou dele, a expressão carregada de pesar e tensão.

— Reese… o que eles estão tentando controlar?

Reese fechou os olhos por um instante, como se a resposta lhe pesasse mais que qualquer dado técnico.

— Tudo. — disse, num fio de voz. 


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