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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

[CONTO] Espere


Drasa arrumava as malas como quem tenta organizar o caos por dentro. Cada dobra era uma tentativa de alinhar o que se quebrara — não o tecido, mas o sentido. A luz fria do dormitório realçava a mistura estranha de rigidez e vulnerabilidade que ela carregava no olhar. O som do zíper cortava o ar, metódico, quase ritualístico. Sua pele de synthcells era indistinguível da humana, produto que o caos das Guerras de 30 e 38 aperfeiçoaram. Hanzo dissera que já falara com a Roxxy, representante da DSM. A transferência estava pronta. Ela seria vendida — e, enfim, livre do peso de sentir. Livre da confusão que os sentimentos estavam provocando em seus NBs.

Dissera isso com a calma calculada de quem se resigna. Drasa sabia que aquilo estava machucando Hanzo por dentro, mas parecia ser o certo. Ela estava ferindo seu proprietário e a quem devia guardar por instabilidades de processamento. As portas se abriram com um ruído suave. Xin entrou. Parou ali por um instante, observando a amiga — a irmã de alma — dobrar uma camisa pela terceira vez.

— Então é verdade — disse, sem rodeios. — Vai mesmo?

Drasa não respondeu. Continuou arrumando a mala, obstinada.

— Hanzo já resolveu tudo. Amanhã cedo irei.

Xin deu um passo à frente.

— E você quer isso?

Drasa hesitou.

— Quero o que é certo.

— Cuidado — respondeu Xin, calma. — “Certo” nem sempre é o mesmo que “se salvar”.

Drasa apertou a camisa nas mãos, os nós dos dedos brancos.

— Eu não sei mais o que é meu, Xin. Não sei se o que sinto é real ou se são os NBs distorcendo os sinais.

— E o que você acha?

— Acho que ele tem razão — disse, num sopro. — Eu… eu sinto medo. Medo de fazer algo que o machuque. Medo de perder o controle. Medo de… querer ficar. — Seus olhos piscaram e sua voz titubeou na hora de dizer. Xin percebeu.

Então, se aproximou mais.

— Olha, quando eu não gosto de algo, tendo a ser muito rigorosa, e tive uma conversa com ele que sinceramente... eu acho que passei do ponto.

Drasa olhou curiosa.

— Acho que vivi em meio ao caos e a desordem tanto tempo, vendo gângsteres de vida caótica me explorando, que acabei vendo um pouco deles no Hanzo.

— Trauma?

— Não quero falar sobre isso. O que importa e o que eu quero dizer é que vou tentar quebrar esse padrão, começando por você. e depois pedirei desculpas pra ele.

— E o que isso tem a ver comigo?

— O que eu quero dizer é que você não está com defeito, Drasa. Está sentindo. Isso é o que sempre tentaram arrancar dos replorgues. Nós humanos valorizamos a liberdade de forma hipócrita, e criamos replorgues porque não sabemos lidar com a liberdade de outros humanos. A liberdade de fazer o que quiser, por ser universal, implica na liberdade de não se ser amado. Não se pode obrigar os outros a te amar. A liberdade de não se ser servido. A não ser que pague alguém por isso, ninguém obrigado a te servir. A liberdade de não se ser cultuado. A não ser que você seja realmente especial, ninguém te admirará. Eu aprendi isso vivendo anos sob as mais variadas tiranias, e quando você é uma mola pressionada sempre, é praticamente impossível não passar da conta quando você se sente livre. Hanzo escolheu beber, eu escolhi... Soltar os cachorros.

Drasa balançou a cabeça.

— Eu fui feita pra lutar, Xin. Não pra me perder num beijo. E não preciso ser pagar por isso.

— Quem decidiu isso? Você? - pontuou Xin. — Ou o que colocaram na sua cabeça?

Drasa sentiu sua cabeça latejar.

— Eu sou um objeto. Não posso ser amada.

— Ele já te tratou como coisa alguma vez?

A dor aumentou.

— N-não... Mas eu não mereço ser amada.

— Quando se é cativa de outros, saber reconhecer pequenos trejeitos, saber diferenciar raiva verdadeira de ameaça simples é essencial para sobreviver. È a diferença entre uma surra ou um pouco de respiro... Eu aprendi a ler minúcias facilmente. E eu sei ver amor. Mesmo que nunca tenha amado ninguém.

Xin respirou fundo e falou:

— Drasa, não há ninguém. Nenhum ser humano na face da Terra que mereça ser amado. O amor é dado. Sem porquês. Sem motivos aparentes. Beleza, dinheiro, carisma, são coisas que atraem alguém pra tentar algo, mas só a vontade de duas pessoas de darem-se uma a outra as mantém juntas. Você quer?

Drasa pensou, seus NBs novamente dispararam, ela sentiu dor e vertigem. Xin a apoiou.

A lembrança veio como uma lâmina: o toque rápido, o gosto suave, o olhar inocente e surpreso de Hanzo antes de ela se afastar. E o vazio depois.

— Ele não me pediu pra ir — continuou Drasa. — Fui eu quem disse que devia. Que era o melhor. E ele não me impediu.

Xin respirou fundo.

— Então espera. Espera pelo menos uns dias. Você não pode decidir nada agora, não com tudo isso latejando. Dá tempo pros NBs serem contornados… e pra você escutar o que sobra quando o eles se calam.

Drasa olhou para a mala fechada. Por um instante, parecia enorme. Pesada demais para uma decisão tão leve quanto “ir”.

— Cinco dias — murmurou.

Xin assentiu.

— Cinco dias. Se ainda quiser ir, eu mesma acompanho. Mas se ficar… a gente descobre juntas o que fazer com esse coração novo.

Drasa ergueu o olhar, uma centelha tímida de alívio no meio do medo.

— Não conta pra ele. Ele acha que eu não sinto medo.

Xin sorriu, melancólica.

— Eu duvido que ele pense isso... Mas não contarei. Você deve contar.

A porta se fechou atrás dela.

Drasa ficou sozinha, o som do zíper ecoando outra vez.

Mas, dessa vez, ela não fechava a mala.

Ela apenas a abria — como quem admite que ainda não está pronta para partir.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

[CONTO] Decisões questionáveis

 Valex, 15 de outubro de 2059

A chuva caía sobre Valex como se o céu chorasse por aqueles que já não podiam. Do alto do edifício Pável, a sede da NeuralDesk, era possível ver o Edifício Howard, sede da Hard Light de frente, com seus letreiros verdes e piscantes. Ao lado um telão de led de propaganda da Radio 1st Station que bruxuleava em roxo. Ambos se erguiam como lâminas de vidro, atravessando o nevoeiro digital que cobria a cidade. O som das gotas sobre o metal lembrava um código se repetindo, sem fim, ecoando no coração da metrópole de 3 milhões de almas.

Nos corredores do 80º andar, Togall, um replorgue 2.1-M, caminhava com passos pesados, em marcha. Cada movimento era fluido, preciso. Seu corpo era biotecido, pulsante, sustentado por reações neuroquímicas complexas. De longe, poderia ser confundido com um humano. Apenas os olohos vermelho, o cabelo branco, e o leve albedo azulado de sua pele — visível sob certas luzes muito raras durante o dia — revelava o que realmente era: um replorgue.

Ele entrou esvoaçando seus cabelos brancos longos no escritório do proprietário da empresa. Archibald Reese. O ambiente estava mergulhado em uma penumbra fria. Do lado de fora, a cidade refletia-se nas janelas de vidro fumê por opção, a taxa de iluminação poderia ser regulada por controle remoto. Reese permanecia sentado, o olhar fixo em seu holopad, onde camadas de dados giravam lentamente. As notícias projetavam-se no ar — investigações, relatórios, acusações veladas. Tudo convergia para um mesmo ponto: a NeuralDesk.

Togall aproximou-se.

— Reese... o que devo fazer? A Hard Light já levantou uma lista de suspeitos, e a NeuralDesk figura entre as três primeiras.

O homem ergueu os olhos, cansados, fundos, marcados por noites em claro.

— Por hora, nada.

Sua voz soava distante, quase fria.

— A General Security Inc colocou aquela Reyna e um outro 2.1-M na investigação. Temo que a Eerie não tenha sido tão meticulosa assim.

— Ela foi... - Reese falou. — Reyna é que é acima da média. — Deixe os investigadores chegarem à verdade. A NeuralDesk não tem força para enfrentar a Valexsynthesis... nem a Hard Light. Quem dirá as duas juntas. Então, precisamos guiar os investigadores até a verdade. Sem que nosso nome apareça.

Togall manteve-se de pé, em silêncio, absorvendo a resposta. Então, falou:

— Jogo difícil... Margem estreita... Você não fez nada quando PeaX autorizou Eerie a matar Hooligan.

O tom era contido, mas havia um toque de acusação ali.

— E até onde consta... Hooligan era um homem bom.

Reese desviou o olhar. O som da chuva pareceu aumentar, batendo contra o vidro com insistência.

— PeaX não tem culpa. — respondeu, baixo. — Eu autorizei. Ela apenas cumpriu minhas ordens.

Por um instante, Togall hesitou. Suas sinapses químicas oscilaram, Togall não teve tempo de processar o que os humanos chamariam de decepção, seu NB2, num disparo único, reduziu a intensidade daquela sensação a um mero desconforto.

— Você e eu sabemos que isso não é verdade. - Togall falou em tom de voz travante.

Deu um passo à frente.

— Você e PeaX têm uma amizade linda, mas isso não legitima autorizar a morte de alguém inocente.

Reese ficou em silêncio. As mãos apoiadas sobre a mesa tremiam imperceptivelmente. Então, murmurou:

— Você tem razão. Sinal de que os treinamentos de empatia e superestimulação estão funcionando... Mas não havia escolhas.

Levantou-se devagar.

— Hooligan não concordava com o projeto MindShift. Nem com o Control 1.0.

Deu alguns passos até a janela, ajustou a luminosidade no controle, permitindo uma iluminação maior. Os letreiros holográficos pulsavam mesmo durante o dia. A cidade era sempre escura, mesmo em dias de sol. E era sobretudo escura naquele dia chuvoso e nevoento. De costas, Reese retomou o raciocínio enquanto Togall pegava, curioso, um globo de neve com uma folha de ácer sobre a mesa de Reese.

— Mesmo assim, ele não seria um obstáculo. PeaX o convidou para vir até aqui, sob fachada de proposta de trabalho. Queríamos que ele se unisse a nós. Ele hesitou. Desconversou. Depois convidei ele para um Open House da Fundação. Fiz a proposta pessoalmente. Mas ele não confiou.

O reflexo da cidade cobria o rosto de Reese como uma máscara.

— Ele ia entregar um upgrade importante no MindShift — a versão 5.0. Aquela que resolveria o problema da testemunha constante. O HCC. Eu... não podia permitir.

Togall nada disse. Apenas observou o homem diante da paisagem de Valex, as luzes se dissolvendo nas gotas que desciam pelo vidro.

Então, colocando o globo de neve sobre a mesa, deixou sua voz romper o silêncio, baixa, firme:

— Tudo isso... pra honrar Pàvel? Já o vingou...

Reese permaneceu imóvel. Seu silêncio era resposta. Um silêncio pesado, denso, saturado de lembranças.

— Até quando vai se sentir em dívida? — perguntou Togall.

Nenhuma resposta. Apenas o som da chuva.

Mas o rosto de Reese denunciava a dor: os olhos marejados, o maxilar tenso, a alma presa a uma culpa que nem o tempo podia dissolver. Togall aproximou-se da mesa. Sobre o holopad, as imagens pairavam no ar — registros de Haya e Reyna filmados por drone no laboratório ultrassecreto de Ostermann Heights.

Ele apontou para ambos.

— Vou eliminar as provas vivas. Se ficarem, eles vão chegar até você.

Sua voz era firme, convicta.

Reese girou-se bruscamente.

— Não. Precisamos deles. Além do mais...

Deu um passo à frente.

— Você não teria chances, Togall. Reyna, segundo nossa informante na GS Inc recebeu uma série de melhorias que estão acima das capacidades da própria NeuralDesk.

Sua expressão suavizou-se.

— E... não quero perder meu amigo.

O replorgue recuou um pouco, confuso. “Amigo.” A palavra ecoou em suas redes químicas como um pulso de calor. Não estava preparado para senti-la, e não teve tempo, suas pupilas piscaram freneticamente, enquanto uma sensação de anestesia mental pairava sobre sua mente, fazendo aquela sensação desaparecer, como se fosse uma lembrança que se perdia.

Reese aproximou-se e, num gesto inesperado, o abraçou.

Togall ficou imóvel. Seu corpo reagiu com lentidão, absorvendo o toque, o calor, a dor compartilhada. Dessa vez o NB2 não teve como obstaculizar. Ele sentiu o coração aquecer. "Ternura" pensou. "Isso é... Ser humano?"

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

[CONTO] O futuro

 Valex City, 14 de Abril de 2059


O vento sussurrava contra os vidros reforçados da mansão em Templeton Hill, trazendo consigo o brilho enevoado da cidade que se estendia como um mar de néon vermelho e azul no horizonte. Dentro do escritório de Archibald Reese, o espaço parecia mais um templo da razão do que uma sala de estar: paredes forradas de painéis pretos, prateleiras repletas de monografias raras em suportes holográficos, e no centro, dominando tudo, um holopad.

O aparelho projetava colunas de dados translúcidos no ar, cascatas de informação que subiam e desciam em ritmo vertiginoso, como se respirassem. Gráficos pulsavam em linhas verdes e azuis, mapas genômicos e circuitos positrônicos se sobrepunham a relatórios estratégicos. Reese observava-os com olhos fixos, quase estáticos, as pupilas refletindo linhas de código.

Atrás dele, o som sutil de passos: metálicos, mas leves, precisos, quase humanos demais para serem apenas programados.

PeaX entrou no cômodo. Seu cabelo prateado caía sobre a testa numa franja rebelde, e a jaqueta preta colava-se ao corpo com naturalidade. Os olhos, de um tom vermelho-brunido, carregavam uma vivacidade incomum entre os de sua espécie.

— Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você, Reese? — disse ela, com a voz suave, quase num tom íntimo.

Reese não desviou o olhar dos dados. Seu dedo deslizava pelo ar, rearranjando gráficos e relatórios.

— Hoje não, PeaX. — respondeu mecanicamente, como se fosse apenas parte do ruído das máquinas.

Ela ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça.

— Então… estou dispensada? — perguntou, com uma respiração leve, quase cansada.

Reese girou lentamente a cadeira. O estofado de couro rangeu suavemente. Seus olhos pousaram nela, firmes, e uma linha de exaustão atravessava seu rosto. Ele estendeu a mão.

PeaX sorriu com doçura, caminhou até ele e segurou a mão dele com um gesto contido, mas carregado de proximidade.

— Você merece descansar. — disse Reese, com um calor raro na voz. — Obrigado pela amizade, pela fidelidade… pela competência. Tenho orgulho de você. Foi a primeira fixer replorgue da história de qualquer corporação. E saber que foi a NeuralDesk quem ousou dar esse passo… isso é uma grande alegria para mim.

PeaX corou — algo improvável, mas real. Sua pele assumiu um rubor quase humano. Sorriu tímida, mas nada respondeu de imediato.

— Ao fim da missão divide et impera, prometo… Você terá seis meses de férias totalmente merecidas. — completou Reese.

Os olhos dela se arregalaram, surpreendidos.

— Seis meses? Isso é muito mais do que qualquer funcionário. A maioria recebe quinze dias, no máximo um mês. O Togall mesmo teve dois meses e já achou um luxo.

— Você merece. — respondeu Reese, firme. — Só lamento não poder desfrutar disso com você. Assim como não pude participar das atividades lúdicas do Togall durante o recesso dele.

O silêncio ficou por alguns instantes. Ela desviou os olhos para a grande janela panorâmica atrás dele. A vista a partir de Templeton Hill era magnífica: o centro financeiro de Valex City, para além do Rio Valex, brilhava em infinitos pontos de luz, torres monolíticas com bordas marcadas por linhas de néon vermelho cortando a névoa.

PeaX virou-se novamente para Reese, depois olhou para o holopad ainda ativo.

— E então? — perguntou, a voz mais baixa. — Achou algo importante além de tecnicidades sobre os modelos 1.5 e 2.0 da BioMechaCorp? São dados bem antigos que a 0045 obteve dos servidores da Hard Light.

— Não chame-a assim... Ela escolheu o nome, Eeire, não foi?

— Foi. - Ela respondeu resignada, até com algum incômodo.

— Ao longo da minha vida aprendi a não confiar nas pessoas... E encontrei confiança justamente nos replorgues... Vocês são uma versão superior de nós mesmos... O Mindshift é uma distorção disso, mas se assenta numa premissa verdadeira. Vocês são o futuro. Podem ser um espelho melhor de nós mesmos. Por isso eu respeito a Eerie e todos os replorgues.

Reese respirou fundo. Seu rosto endureceu. Os dedos pararam sobre o teclado.

— Quanto ao que achei... — disse, em tom grave. — Descobri o Projeto Control 1.0.

O sorriso nos lábios de PeaX desapareceu. Ela ficou séria, quase sombria.

— Então… é grave.

Reese assentiu lentamente, os olhos carregados de indignação.

— Mais do que grave. — murmurou. — É a maior ameaça à humanidade já concebida. Uma afronta. Uma abominação. Nojento. Tirânico.

O holopad projetava, agora, imagens fragmentadas do esquema conceitual dos neurobloqueadores desenhados por Ferguson e Gómez.

PeaX se aproximou dele, a expressão carregada de pesar e tensão.

— Reese… o que eles estão tentando controlar?

Reese fechou os olhos por um instante, como se a resposta lhe pesasse mais que qualquer dado técnico.

— Tudo. — disse, num fio de voz. 


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O Sistema sempre vence



A máxima "o sistema sempre vence" é uma conclusão extremamente apropriada para o cenário de The Replorg. A narrativa demonstra repetidamente que, independentemente das ações, motivações ou vitórias pessoais dos personagens, a estrutura de poder subjacente—a corporocracia—não apenas sobrevive, mas se adapta, se fortalece e coopta as próprias forças que tentam desafiá-la.
O "sistema" aqui não é uma única entidade, mas sim o ecossistema de hipercorporações (como a ValexSynthesis), suas subsidiárias de segurança (General Security Inc.) e a lógica de mercado que governa a vida em Valex City e além. A vitória do sistema não significa que os protagonistas sempre perdem; significa que suas vitórias, no final, servem aos interesses do próprio sistema.
Podemos ver essa máxima se manifestar de várias maneiras nos eventos descritos:
1. A Rebelião é o Motor da Evolução do Sistema
O exemplo mais claro disso é Archibald Reese. Sua motivação era nobre: vingar seu mentor, Neill Pável, e destruir a tecnologia da NetLife para honrar seus ideais e dar um golpe profundo no sistema corporativo. Ele consegue exatamente o que queria: a pesquisa é destruída para sempre, e a NetLife vai à falência.
No entanto, o resultado final de sua "vitória" é a consolidação do sistema de uma nova forma:
• Crise e Reestruturação: A queda da NetLife provoca o "DarkWed Crash", uma crise financeira que causa 15.000 mortes e 40.000 feridos entre a população civil. O sistema sobrevive ao caos, enquanto a população paga o preço.
• De Rebelde a CEO: No meio da crise que ele mesmo criou, Reese compra todo o espólio da falida NetLife por 1 Dólar Austro-Zelandês (AZ$).
• Nasce uma Nova Corporação: Ele funda a NeuralDesk Corporation, tornando-se ele mesmo um poderoso ator corporativo. Ele não destruiu o sistema; ele eliminou um concorrente e tomou seu lugar, rebatizando-o com uma fachada idealista, mas operando dentro da mesma lógica de mercado. A vitória de Reese foi a vitória do sistema, que se reconfigurou de forma mais eficiente em torno dele.
2. O Sistema Coopta e Mercantiliza o Idealismo
Personagens que agem por idealismo ou conseguem escapar veem suas lutas transformadas em produtos ou narrativas que o próprio sistema absorve e vende.
• Neill Pável: O cientista idealista que se sacrifica para impedir que sua tecnologia seja usada para o mal. Seu plano, continuado por Reese, resulta na criação de uma nova corporação, a NeuralDesk, que opera sob seu nome e de seu amor, Julya Karpova, mas ainda é uma entidade com fins lucrativos. Seu sacrifício foi transformado em branding.
• A.J. Brooks e Carol Brooks: Eles são um dos poucos casos de sucesso em escapar do controle corporativo direto, fugindo para o Uruguai. No entanto, sua história de amor e fuga se torna um fenômeno cultural. A Valex Editorial publica biografias não autorizadas, e a Netprime planeja uma série ficcional sobre eles. Sua rebelião pessoal foi comoditizada, transformada em entretenimento e lucro para o sistema midiático de Valex.
3. As Vitórias Pessoais Não Alteram a Estrutura
Muitos personagens alcançam seus objetivos pessoais, mas essas vitórias são irrelevantes para a estrutura de poder.
• Jenny Leatherjacket: Seu principal objetivo era vingar sua família, ganhar dinheiro suficiente para sobreviver e viver em paz. Ela consegue tudo isso: recebe AZ$ 2.000.000 e foge com sucesso. No entanto, suas ações foram o catalisador para o "DarkWed Crash" e a ascensão de Reese. Ela ganhou seu dinheiro, mas o sistema apenas trocou de peças, mantendo-se intacto.
• Akira Sato: Ela usa sua posição na General Security para orquestrar o resultado do NetLife Heist, se vingar de Riley Grey e consolidar seu poder. Ela não luta contra o sistema; pelo contrário, ela é a personificação de como o sistema recompensa seus agentes mais eficazes. Sua ascensão, com rumores de que se tornará a próxima Chefe de Polícia, apenas fortalece o braço repressivo do sistema.
4. O Sistema se Autocorrige e Purga Suas Falhas
O sistema também "vence" ao eliminar elementos que se tornam instáveis ou uma ameaça à sua imagem.
• Riley Grey (Sophia Potter): Uma agente de inteligência da ValexCorp que usou o aparato da empresa para vingança pessoal. Quando suas ações expuseram a corporação, o sistema a descartou. Ela foi forçada a fugir e, no final, foi presa nas Ilhas Falkland.
• BioMechaCorp: Após o Incidente Brooks e as Guerras de Kazuma, a reputação e as finanças da corporação foram abaladas. O sistema não permitiu um vácuo de poder: a BioMechaCorp foi rapidamente adquirida pela concorrente BioSynthesis, que então se fundiu com a ValexCorp para criar a hipercorporação ValexSynthesis, um monopólio ainda mais poderoso. A falha de uma parte levou a uma consolidação ainda maior do poder sistêmico.
Em resumo, o cenário de The Replorg ilustra que qualquer tentativa de ataque frontal, subversão idealista ou busca por ganho pessoal acaba, invariavelmente, por ser absorvida, reconfigurada ou esmagada pela estrutura corporativa dominante. Os heróis podem ganhar suas batalhas, mas o sistema sempre vence a guerra, adaptando-se para se tornar mais resiliente e perpetuando seu controle.

domingo, 10 de agosto de 2025

[VALEX TIMES] Nova cidade privada em construção.

BRASÍLIA, 4 de maio de 2056. 

Logo da Brazil Robotics

No mundo corporativo Valex City foi considerado um empreendimento de tanto sucesso, que o governo do Brasil anunciou hoje em parceria com a Brazil Robotics um ambicioso projeto de construção de uma cidade privada.

Devido a mais recente crise econômica, resultado das colonizações corporativas no hemisfério norte recém descongelado, a República Federativa do Brasil decidiu vender à Brasil Robotics a cidade de Guaçuí, no estado do Espírito Santo. O projeto liderado por Gorov Silva, CEO da Brazil Robotics, visa pegar a pequena cidade falida de 40 mil habitantes, e em 8 anos transformá-la numa pequena metrópole regional com pelo menos 1 milhão de habitantes. Muito da infraestrutura histórica da pequena cidade será preservada, mas será expandida, como a remoção de morros, a criação de um lago artificial enorme com direito a marina, e uma floresta holográfica similar ao Valex Park. Essa pequena concessão de preservação de infraestrutura histórica da cidade veio com um preço alto. As proibições a fabricação e comercialização de replorgues em território brasileiro deve ser suspenso no espaço urbano da cidade nova, o que foi aceito pelo governo. A cidade que deverá ser renomeada para Laguna-nova pretende ser uma zona de soberania corporativa liderada pela Brazil Robotics, que se inspira no caso da ValexSynthesis. 

Gorov declarou a VCN News: "Faz parte da inserção da companhia no cenário mundial, podendo disputar com as gigantes no ramo de biorrobótica, deixando assim o status de empresa emergente, e se consolidar no mercado".

As obras devem começar ainda em dezembro de 2056, e a Brazil Robotics já anunciou que pretende mover seu HQ para a nova cidade por volta de 2064. Outra que já garantiu uma filial em Laguna-nova é a Hard Light Corporation. Mas essa não é a única novidade, segundo Gorov: "Faremos um mega-show de abertura para inaugurar as obras. Aysha Halford já está contratada como atração internacional e ainda o sucesso local, MC de cyberfunk Ferro no Cabelinho".

Projeto apresentado


quarta-feira, 18 de junho de 2025

[PERSONAGENS] Archibald Reese


Archibald Reese (Vancouver, 04 de Abril de 2023) é Programador de Roteiro da NetLife, é um dos principais cientistas do programa "Viva no seu mundo" da corporação em que trabalha. Ele é o personagem-avatar do autor. Ele aparece no conto "Amor e Ficção" e na versão HQ "Um mundo melhor para nós". Entre seus amigos estavam o falecido dr. Neill Pável, a PlorgTech 2.0-P PeaX e seu guarda-costas Togall, um PlorgTech 2.1-M.
PeaX


Togall

 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

[CONTO] Post-Cleansing

O bar em Templeton Hill era um antro de neon barato e paredes revestidas de aço tijolos vermelhos repletos de mofo e fuligem, cheirando a álcool velho e promessas vazias. Pierre e Mac estavam sentados no balcão, assistindo ao noticiário na HoloTV acima das garrafas alinhadas, cada um com uma garrafa de cerveja Patagoniana nas mãos, um simulacro de Pilsen com gosto de urina.

Um jingle animado tocava na tela.

"Mike Herrera retorna com seu novo single, 'Dreams of Neon Fire'! Já disponível em todas as plataformas sensoriais!"

A tela mudou para um anúncio vibrante. Uma voz feminina, carregada de sensualidade artificial, sussurrou:

"Liberte seus desejos com os novos nanorrobôs afrodisíacos da ValexSynthesis. Compatíveis com o seu amigão!"

Mac bufou e tomou um gole de sua cerveja.

— Essa cidade tá indo pro inferno.

Pierre sorriu de canto.

— Se tivesse ido, já teria chegado.

A programação voltou ao jornal. O âncora, um homem de terno cinza impecável, encarava a câmera com um sorriso polido.

— A recém-fundada ValexSynthesis comemora hoje o sucesso absoluto do programa Cleansing. De acordo com os dados mais recentes, 89% dos modelos Replorg PlorgTech 2.0, considerados defeituosos, foram ou eliminados, ou devidamente recolhidos e substituídos pelo modelo atualizado, PlorgTech 2.1. Apenas 15% dos PlorgTech 2.0 foram eliminados. O porta-voz da empresa, Nicholas Rutger, declarou que a atualização garante maior estabilidade e eficiência dos replorgues em setores industriais e domésticos. Vamos agora à entrevista com a chefe do conselhod e acionistas Jordan Evans, que nos fala direto da sede da ValexSynthesis em Valex City.

A câmera cortou para uma belíssima mulher ruiva com um sorriso autossuficiente.

— Estamos comprometidos em garantir que todos os nossos produtos atendam aos mais altos padrões de qualidade. O Cleansing não apenas aprimora a experiência dos consumidores, mas também assegura que as unidades defeituosas sejam devidamente tratadas e substituídas sem custos adicionais.

A notícia seguiu, mas Pierre já tinha largado o copo na mesa.

— Cleansing, Mac. Eles chamam isso de Cleansing. Dizem que havia pouco mais 1.5 milhão de PlorgTech 2.0, se quinze porcento foram eliminados nas ruas, isso significa mais de 200 mil desses pobres diabos foram assassinados pela General Security... Isso devia se chamar genocídio.

Mac suspirou e girou a garrafa de cerveja na mão.

— Não exagera, Pierre... Esses livros de mulherzinha que você anda lendo estão bagunçando teus miolos... São autômatos, Pierre. Robôs. Se um processador dá defeito, você troca. É assim que funciona.

— Eles são humanos.

— Eles são máquinas.

Nesse momento, uma mulher entrou no bar.

Seus cabelos eram naturalmente brancos, um detalhe que chamava atenção demais. Por isso, usava um boné de beisebol e uma bandana por baixo. Mas o real problema eram seus olhos: as íris vermelhas eram uma assinatura dos replorgues, então os óculos escuros eram obrigatórios acima de lentes de contato castanhas. Possuía, ainda, pesada maquiagem vermelha nas bochechas, como mandava a ascendente moda ClownQuinn.


Ela andou com um equilíbrio estudado até o balcão, sentou-se ao lado dos dois homens e fez sinal para o barman.

— Tequila. Dose dupla.

O barman, Dan, hesitou por um segundo antes de servir a bebida. Ele era um homem magro, de olhar sempre cansado, e preferia não se envolver em discussões.

Ela escutava a discussão entre Pierre e Mac.

— A obra do professor Brooks é essencial pra entender... — Pierre protestava.

— E por que diabos você fica lendo essas quinquilharias... Não basta a Bíblia? — protestou Mac, sempre muito mais conservador.

— Você ficaria surpreso com quantas coisas horríveis já foram feitas em nome da Bíblia e de Deus... — Pierre replicou.

— Balela...

Ela conhecia essa conversa. Já a ouvira antes, em outras bocas, em outros tons, mas o conteúdo era o mesmo. Mac a fazia ferver por dentro, mas ela se forçou a manter a calma. Sequer podia reagir sem se expor.

— Pierre — disse Mac, rindo. — Você leva essa história longe demais. Você acha mesmo que essas coisas sentem? Que pensam?

Pierre se inclinou para frente.

— Você frequenta O’Higgins, Mac. Casas noturnas. Casas de prostituição. Você tem uma favorita lá, não tem? Emilia era o nome daquela PlorgTech 1.0 do tipo P. Me diz, Mac, ela não é diferente das outras? Você não sente alguma coisa por ela? Afinal, você mesmo casado, sempre está lá, e faz questão sempre dela.

O barman, Dan, soltou uma risada seca, enxugando um copo. A mulher-replorgue virou a cabeça levemente na direção deles, curiosa.

Mac hesitou. Bateu a ponta dos dedos na madeira do balcão.

— Não fale como se você também não frequentasse... — Mac ficou corado com a denúncia de sua infidelidade em tons tão claros.

— É... É verdade, mas eu não sou casado... — Pierre riu debochadamente, enquanto Mac tentava recuperar a dignidade, se é que havia alguma.

— Ok. Talvez eu esteja exagerando. Não são só máquinas. Mas também não são humanos.

— Então, se não são máquinas nem humanos — disse Pierre, aproximando-se —, eles ocupam uma posição intermediária entre os dois, certo?

Mac franziu a testa.

— Sim, suponho que sim.

— Então me diz, Mac. Eu nem preciso recorrer ao "livro de mulherzinha" do professor Brooks e ao conceito de Darwinorrobótica, para isso que vou lhe eprguntar... Quais direitos humanos deveriam ser concedidos aos replorgues, e quais não deveriam?

Silêncio.

Mac abriu a boca, mas não saiu nada.

Porque a verdade é que não havia diferença real entre humanos e replorgues em Valex City. Nenhum deles tinha direitos de verdade. Na melhor das hipóteses, humanos gozavam de uma maior tolerância enquanto mercado consumidor... Mas apenas isso, tolerância.

A mulher sorriu de canto, um brilho amargo de satisfação.

Mac soltou um suspiro, pegou a carteira e deixou algumas notas na mesa.

— Você venceu essa, Pierre. Vejo você depois de expediente amanhã. Tenho uma família pra cuidar.

Ele se foi, deixando Pierre sozinho com sua longneck.

A mulher se virou para ele e, pela primeira vez, tirou os óculos escuros e as lentes.

— Eu pago a próxima.

Pierre levantou as sobrancelhas, surpreso, mas sorriu.

— Nesse caso, tequila. Dose dupla.

O barman, que estava de costas, não reparou nos olhos da mulher... Ele estava tão habituado a discussões que muitas vezes resvalavam na agressão física, que o papo de Mac e Pierre caiu na desatenção pela trivialidade. Ele se limitou a servi-la.

— Pierre. — Se apresentou o homem negro de sotaque afrancesado.

— Yulia — Se apresentou a mulher.

sábado, 28 de dezembro de 2024

Capítulo 14.1 - Cânon Recente

 No universo de The Replorg um evento recente muito importante é o Street Cleansing, do qual a parte inicial dele foi retratada na aventura The Replorg: A Caçada, streamada no canal RPGUltimate no Youtube. O Street Cleansing é lembrado como um dos períodos mais conturbados de Valex City, um marco que expôs as fragilidades éticas, políticas e sociais de uma cidade controlada pelo neon e pelas sombras. Dividido em três períodos principais, esse evento moldou o futuro da relação entre humanos e os Replorgues.

Capa da Aventura

1. O Incidente Brooks (Dezembro de 2053)

Em dezembro de 2053, o professor A.J. Brooks, um historiador respeitado da Teller Academy, vivia uma existência solitária em meio aos arranha-céus cinzentos e iluminados por neon de Valex City. Solteiro e sem familiares próximos, Brooks procurou no mercado de Replorgues uma companhia para preencher o vazio que sua vida havia se tornado. Ele adquiriu um modelo PlorgTech 2.0-P, projetado para servir como um "companion de uso adulto", oferecendo interação social e suporte emocional.

O professor esperava uma máquina que seguisse ordens, limitada pelos neurobloqueadores que impediam qualquer traço de iniciativa própria. Porém, ao receber sua nova "companheira", percebeu algo inesperado: ela não era como os outros modelos. A Replorgue demonstrava uma consciência que desafiava os parâmetros de sua programação. Suas respostas eram espontâneas, suas ações refletiam escolhas próprias e, por vezes, ela questionava as ordens de Brooks.

O professor, inicialmente confuso, passou a admirar a singularidade da Replorgue. Para Brooks, que há anos se sentia desconectado do mundo, a Replorgue se tornou mais do que uma máquina; ela era uma amiga, talvez a única que ele tinha.Mas o que era um alívio para sua solidão logo se transformou em perigo. Durante uma tentativa de roubo orquestrada pela gangue DogFart, que visava roubar o autômato, a Replorgue agiu de forma inesperada. Em um ato de autodefesa, eliminou um dos assaltantes. O incidente chamou a atenção da gangue rival Al-Haz, que também estava interessada na Replorgue, reconhecendo sua singularidade. Brooks, reconhecendo o valor dela tê-lo salvado, deu a ela um nome, Carol.

A situação rapidamente fugiu ao controle quando a polícia foi chamada, e a BioMechaCorp, que produziu o autômato, interveio. A corporação, temendo que a descoberta do livre-arbítrio em um de seus modelos arruinasse sua reputação e desafiasse o controle sobre seus produtos, pressionou a General Security a localizar e eliminar tanto Brooks quanto a Replorgue.

Brooks, horrorizado, percebeu que a cidade inteira havia se tornado um campo de caça. Mas ele não estava sozinho. Dentro da General Security, alguns agentes simpatizantes se mobilizaram para ajudá-lo. Para eles, a BioMechaCorp era a verdadeira ameaça, e o caso Brooks simbolizava algo maior: a luta pela autonomia em um mundo de controle corporativo.

Com a ajuda dessa rede clandestina, o professor e sua Replorgue fugiram para o Uruguai. A jornada foi marcada por perigo constante, mas também por uma conexão cada vez mais profunda entre o homem e a máquina. No final, o Incidente Brooks não foi apenas o início de uma crise; foi um marco que expôs as falhas éticas e tecnológicas de um mundo controlado por megacorporações, deixando Valex City à beira de uma nova era de conflitos.

Para acompanhar a aventura na íntegra, basta acompanhar os vídeos abaixo:

2. Street Cleansing (Janeiro a Julho de 2054)

O segundo período, conhecido como a Street Cleansing ou varredura, foi marcado pela resposta da BioMechaCorp à crise de confiança gerada pelo Incidente Brooks. Em janeiro de 2054, foi lançada uma campanha de devolução voluntária para recolher os modelos PlorgTech 2.0, prometendo substituí-los por unidades mais seguras. A adesão foi pífia.

Com o fracasso inicial, a BioMechaCorp recorreu à ValexCorp, que emitiu uma ordem executiva obrigando todos os proprietários de Replorgues da série PlorgTech 2.0 – linhas D e P – a devolvê-los para descarte. Isso gerou revolta em boa parte da população. Para muitos, esses autômatos não eram apenas máquinas, mas companheiros, amigos e até membros da família.

Foi então, em meados de março, que aconteceu o Street Cleansing propriamente dito. Como forma de evitar terem suas casas invadidas e serem presos, proprietários ocultaram seus autômatos, outros renderam-se ao medo, e deram ordens para que seus Replorgues deixassem suas casas, vivendo como indivíduos autônomos. Enquanto alguns recebiam apoio clandestino, muitos caíram nas ruas, abandonados à própria sorte. A situação levou a uma caça implacável: drones, esquadrões da General Security e BioMechaCorpers patrulhavam Valex City em busca de Replorgues para destruir. Os becos viraram cemitérios biorrobóticos, mas nem todos os autômatos sucumbiram. Alguns encontraram refúgio com gangues como a DogFart, a Alfajor, Wakizashi, a Beetches e a Al-Haz, enquanto outros se esconderam nas profundezas da cidade, em esgotos ou na área de usinas nucleares.

Por volta deste mesmo período de tempo ocorreu as Guerras de Kazuma, evento que foi coberto na série de aventuras Kazuma Nights, onde se formou a mega gangue conhecida como Grupo dos Três (Unindo as Beetches, a Katana Krew e a Sete de Setembro) e o ataque a Takahashi e a Wakziashi, praticamente exterminando a gangue. Os eventos levaram a completa desmoralização pública de Akira Sato com acusações falsas de corrupção plantadas na mídia por Sophia Potter, que sob a nova identidade de Riley Grey, era a fixer da inteligência da ValexCorp. Esta por usa vez, também não terminou bem, após usar o aparato da empresa para fins de vingança pessoal contra Sato, Caio e Yeagger. Como as ações de Grey expuseram a companhia, ela foi obrigada a fugir com seus aliados e amigos para as Ilhas Falkland.

A atuação de Sato levou a BioSynthesis, maior concorrente da BioMechaCorp, a adquirir a maior rival, que estava com as ações em baixa. E após isso foi anunciado uma joint venture com a ValexCorp fundando a ValexSynthesis Corporation.

Capa da aventura Kazuma Nights

Para acompanhar a aventura, basta acessar os links abaixo:


3. Late Cleansing 

Este é o status quo, em 2055, a General Security está investigando bem como a ValexSynthesis quem poderia ter sabotado os neurobloqueadores. Uma decisão desastrada, porém, do conselho de acionistas da BioMechaCorp atrasou a investigação, eles fizeram demissões em massa em suas fábricas e linhas de montagem para cortar o mal pela raiz, e ficou bem difícil para as autoridades localizarem os suspeitos, com muitos desaparecendo temendo serem mortos ou não conseguir outro emprego. O número de filiados a gangues cresceu exponencialmente no período, com muitos tendo nelas um mantenedor devido ao desemprego e insegurança.

Ao mesmo tempo, grupos de mercenários e investigadores independentes em busca de recompensa ou oferecem seus serviços terceirizados a recém-fundada ValexSynthesis para uma enorme gama de atividades, desde localizar e eliminar Replorgues fugitivos, até encontrar os responsáveis por essa sabotagem industrial.

4. Figuras-Chave:

Durante a etapa inicial do Street Cleansing Sophia Potter, ex-camgil, forjou sua morte e se tornu sob a identidade nova de Riley Grey chefe de inteligência e fixer da ValexCorp, atualmente refugiada nas Ilhas Falkland.

Akira Sato investigou e liderou uma contra-medida para efraquecer o chefe de polícia da GeneralSecurity Rafiq al-Osmund e sua gestão corrupta, com isso ela auxiliou na fuga de Carol e A.J. Brooks. Foi de popstar a persona non grata em 4 meses.

Caio de Souza Castro, cafetão e canal das Beetches ajudou a GeneralSecurity em troca de uma liberação para atuar no bairro da luz vermelha no distrito luminar legalmente e ainda recebeu cerca de 35.000 AZ$ pela operação. Depois disso mediu a fundação do Grupo dos Três, uma união tática de três gangues que destruíram a Wakizashi e os expurgaram de Kazuma.

Arceus Yeagger, médico cirurgião da Pogos HealthService foi contactado como legista pela GeneralSceutiry e acabou arrastado para a confusão, vendo na fuga de Carol e A.J. Brooks uma forma de se livrar da queima de arquivo de Rafiq. Morto por Bloom, a mando de Riley/Sophia durante os eventos das Guerras de Kazuma.

Jenny Leatherjacket, analista independente, acabou chantageada por Rafiq e o sacaneou por puro prazer e sadismo, além do desejo de vingar seu irmão e recuperar o TesyD New Delorean dele, a única lembrança que sobrou do mesmo. Apesar disso, acabou tendo que abrir mão do carro para fugir com Riley, antes que terminasse morta pela ValexCorp.

Rafiq al-Osmund: Ex-chefe da divisão de polícia da GeneralSecurity, desapareceu após os eventos do Incidente Brooks, sua última aparição pública foi cercado de repórteres da 1stStation e da VCN News na saída da DP dizendo que "se defenderia das acusações fraudulentas de ter sido membro da Al-Haz, ordenado a morte da camgirl Sophia Potter, e de perseguir um professor inocente a mando de uma corporação". Ou fugiu de Valex ou está no fundo da Baía de Falkland View.

Sean Monteith: Representante da BioMechaCorp, foi rebaixado de cargo e é um informante de Adrian Valex Jr. na BioMechaCorp;

Susie Gaijin: Ela é uma hacker e livelocker amiga de Jenny. Assim como a amiga, ela é uma independente, vendendo os serviços dela para quem pagar mais. Ela acaba terminando seu relacionamento com Paul Kyle, e se tornando a nova hacker do Grupo dos Três (Beetches+Katana Krew+07/09)

Sasha, PlorgTech 2.0-D: Uma autômato (replorgue) de uso doméstico que passou por poucas e boas em seus três anos de vida, tendo sido adquirida pela família Broon de Libertyhood, abandonada a própria sorte no início do cleansing, se refugiado com as Beetches, teve o NB2 fritado por Kenneth na tentativa de reprogramá-la num modelo P (uso adulto), quando Kenneth morreu foi salva pelos worldbuilders e se refugiou com eles, jurando proteção a eles. Atualmente divide sua lealdade entre o Grupo dos Três (Caio Castro) e os Worldbuilders.

Yoshikato Tanaka - Líder da Katana Krew, atualmente aliado de Caio de Souza Castro.

Castor de Castro - Líder da Sete de Setembro (07/09) e pai de Caio de Souza Castro.

Vera Summer - Líder da Beetches e amiga de Caio de Souza Castro.

Chris Balder - Novo chefe de polícia na VCPD/GeneralSecurity.

Rinnosuke Ackerman - Imigrante recém-chegado do Japão a Valex City, atualmente residente em Libertyhood, está sob a guarda e proteção do Grupo dos Três (Beetches, Katana Krew e 07/09), é um ex-Wakizashi e irmão mais velho de Yumi Ackerman.

Paul M. Kyle - Um worldbuilder e ex-namorado de Susie Gaijin, após virar vítima no ataque da Katana Krew a Takahashi Inc, abandonou Susie a própria sorte está refugiado no Porto Abandonado da zona de Uzinas Nucleares.

5. NetLife Heist

Capa da Aventura

Em 2056, Jenny Leatherjacket retorna a Valex com seus crimes prescritos. Ela passa a atuar como testa de ferro de criminosos e replorgues fugitivos desejosos de atuar no mercado financeiro (VC Stockmarket), por isso Jenny, agora conhecida como Jenny Andersen, é chamada ás vezes de "a laranja". Seu verdadeiro intento ao retornar a Valex é fazer um último trabalho para Riley Grey, pagando assim sua dívida por tê-la ajudado a fugir das consequências das Guerras de Kazuma. Ela deseja recuperar a pesquisa sobre o projeto "Viva no seu Mundo" da NetLife (ver conto Amor e Ficção) que usava a tecnologia de worldbuilding para criar mundos simulados para ricaços no fim da vida terem um paraíso para o post-mortem.

Inicialmente ela contrata uma equipe de mercenários composto por Roxxy (17 anos), uma protética freelancer; Nyx Valenne uma Punisher mercenária, Rinnosuke (Punisher do Grupo dos Três), Shizimaki Reyna (agente de infiltração da General Secutiry) e Bruna Castro (Furtiva e irmã de Caio de Castro manda-chuva da Gangue dos Três - ver BH2055) para atacar depósitos da gangue Alfajor onde se descobre tráfico de orgãos sintéticos removidos de replorgues assassinados. Jenny usa isso para vingança pessoal (ela é adepta da causa dos replorgues) e teste para saber se a equipe daria conta do Heist a Netlife.








segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Capítulo 11.3 - BioMechaCorp Scientific

 


BioMechaCorp: A Revolução Biônica em Valex City

Fundação e História

A BioMechaCorp Scientific, ou simplesmente, BioMechaCorp, foi fundada em 2028 como uma subsidiária de pesquisa biotecnológica da ValexCorp. Originalmente, seu objetivo era desenvolver tecnologias avançadas para próteses e implantes médicos que poderiam ajudar a população sobrevivente do Inverno Nuclear. Contudo, a empresa rapidamente evoluiu para se tornar a líder no desenvolvimento de PlorgTechs, os ciborgues de última geração que redefiniram o papel da biotecnologia em Valex City.

Sob a liderança da visionária cientista e CEO Dr. Sophia Ishiguro, a BioMechaCorp consolidou-se como a principal força inovadora no mercado de biotecnologia, sempre na linha tênue entre ética e progresso científico. Ishiguro, uma bioengenheira com um passado controverso, é conhecida por empurrar os limites do que é moralmente aceitável em nome da ciência. No entanto, seu nome mais sonante atual é o do Dr. Desmond Glazer, responsável pelos PlorgTechs 2.0, considerados o santograll da biogenética, e candidato ao Prêmio KriptBank em Memória de Alfred Nobel em 2053.

Principais Linhas de Produtos e Tecnologias

A BioMechaCorp é responsável pela criação e manutenção de todas as linhas de PlorgTechs, além de outras tecnologias biônicas utilizadas na cidade.

Linhas de PlorgTechs:

  1. Linha M (Militar):

    • Ciborgues projetados para combate e segurança.
    • Força e resistência amplificadas, programados para missões de alta intensidade.
  2. Linha D (Doméstica):

    • Modelos destinados a trabalhos pesados e assistência em tarefas cotidianas.
    • Amplamente utilizados por indústrias e famílias da elite de Valex City.
  3. Linha P (Uso Adulto):

    • Ciborgues criados para a indústria do entretenimento adulto.
    • Popular entre a elite devido à sua aparência quase indistinguível de humanos reais.

Outras Tecnologias:

  • Carbonato de Zerônio: Um material biometálico usado em implantes avançados e nos esqueletos sintéticos dos PlorgTechs.
  • Próteses Modulares: Equipamentos projetados para integração direta com sistemas humanos, como membros biônicos e implantes cerebrais para processamento de informações.

Colaborações e Pesquisa

A BioMechaCorp trabalha em estreita colaboração com a GeneralSecurity Inc., fornecendo modelos avançados de PlorgTechs para segurança e operações militares. Além disso, a empresa realiza experimentos controversos que exploram a fusão de biologia e tecnologia, gerando debates éticos em Valex City.

Polêmicas e Desafios

A BioMechaCorp frequentemente enfrenta críticas devido aos riscos associados ao desenvolvimento de tecnologias biônicas:

  • Exploração de Recursos Humanos: Muitos corpos para experimentos são oriundos de campos de batalha e populações marginalizadas, frequentemente sem consentimento.
  • Controle Total dos PlorgTechs: Todos os ciborgues são equipados com Neurobloqueadores (NBs), que limitam suas capacidades e garantem obediência total.

Impacto em Valex City

Apesar das controvérsias, a BioMechaCorp é vista como indispensável para a manutenção da infraestrutura de Valex City. Suas inovações biônicas sustentam tanto a economia quanto a segurança da ilha, embora ao custo de questionamentos éticos e desigualdade social crescente.

Capítulo 4: Os Replorgues

PlorgTech 2.0

A tecnologia sempre esteve no centro da sobrevivência de Valex City, mas o desenvolvimento dos PlorgTechs redefiniu o conceito de humanidade e ampliou os limites éticos da ciência. Em um mundo devastado pela Guerra Nuclear e pelo colapso social, as corporações encontraram nos PlorgTechs uma solução lucrativa para reconstrução, trabalho e conforto das elites.


Os PlorgTechs 1.0: Ciborgues Reutilizados

Os PlorgTechs 1.0 foram o primeiro passo nessa evolução tecnológica, desenvolvidos nos anos seguintes ao Inverno Nuclear. Eles eram criados a partir de corpos humanos recuperados dos campos de batalha, hospitais, cemitérios ou mesmo vítimas da fome e do caos social. Muitos corpos foram doados, mas uma parte considerável foi adquirida sem consentimento, destacando as práticas questionáveis das corporações envolvidas.

Esses corpos humanos eram transformados em ciborgues, equipados com:

  • Cérebros positrônicos: Substituíam os cerebros biológicos para evitar inconsistências cognitivas.
  • Partes biônicas: Membros e órgãos artificiais que aumentavam a durabilidade e funcionalidade.

Esses ciborgues eram vendidos como robôs avançados, usados principalmente para trabalhos pesados e perigosos. Embora mantivessem traços humanos, eram tratados como máquinas, sem direitos ou dignidade. O sucesso inicial dos PlorgTechs 1.0 criou a base para o desenvolvimento de uma nova geração de ciborgues.


Os PlorgTechs 2.0: Replorgues – Ciborgues Inatos

O verdadeiro avanço veio com o desenvolvimento do carbonato de zerônio, um material biometálico maleável, hipercondutor e incrivelmente resistente. Este composto revolucionário possibilitou a criação dos PlorgTechs 2.0, conhecidos como Replorgues, a evolução definitiva dos ciborgues.

Os PlorgTechs 2.0 não eram mais "reaproveitados" de corpos humanos. Eles eram gestados desde o início como híbridos biometálicos em úteros artificiais. O processo, cruelmente apelidado de "fermentação", produzia seres completamente formados em apenas dois meses. Esses replorgues já nasciam adultos, com força, resistência e capacidades superiores às dos humanos:

  • Características físicas:

    • Músculos, ossos e tendões biometálicos feitos de carbonato de zerônio.
    • Olhos vermelhos e cabelos brancos, características marcantes que os diferenciavam imediatamente dos humanos.
    • Imunidade à maioria das doenças humanas.
  • Capacidades:

    • Força e resistência ampliadas, capazes de suportar trabalhos pesados e ambientes extremos.
    • Cérebro biológico semelhante ao humano, mas controlado por neurobloqueadores (NBs).
    • Crescimento e envelhecimento: Estrutura biometálica é capaz de simular maturação e envelhecimento, inclusive com cicatrização autônoma.
    • Produção hormonal: Similar à humana, possibilitando respostas emocionais e fisiológicas.
    • Sistema reprodutor: Estruturas presentes, porém não viáveis biologicamente — função apenas recreativa ou sexual, além dos órgãos excretores funcionais.
    • Origem: Produzidos em tanques de gestação artificiais por processo de fermentação acelerada, ajustando idade física conforme pedido do cliente.
    • Memórias implantadas: É opcional e exclusivo para modelos P. Os modelos M, D e C saem de fábrica cientes de que são replorgues.

Neurobloqueadores e a Condição dos Replorgues

Os neurobloqueadores (NBs) foram projetados para limitar a autonomia dos PlorgTechs 2.0, garantindo sua obediência e previsibilidade. Esses dispositivos, implantados diretamente no cérebro durante a gestação, restringem emoções, criatividade e até o tempo de vida dos replorgues.

  • Expectativa de vida:
    Sem os NBs, um replorgue poderia viver cerca de 300 anos, mas sua expectativa de vida foi reduzida para 50 anos devido aos bloqueios metabólicos impostos.

  • Controle emocional:
    Os NBs inibem impulsos criativos e emocionais mais intensos, tornando os replorgues mais eficientes, mas emocionalmente pouco responsivos.

  • Assegurar as Leis da Robótica: Em geral, a exceção dos modelos militares, os replorgues vem ao mundo com 3 NBs no córtex, um para cada lei da robótica. Nos modelos P e C, para uso adulto, a função de inibição emocional vem desativada e os NBs possuem mecanismos de coerção mais intenso para evitar a "quebra" do NB.

Primeira Lei de Asimov — não ferir humanos ou permitir que sofram dano por omissão.

Segunda Lei de Asimov — obedecer ordens humanas, exceto se contradizerem a Primeira Lei.

Terceira Lei de Asimov — proteger a própria existência, exceto se isso violar as Leis anteriores.

Funções de memória e comportamento básico pré-programadas.

Embora os replorgues sejam biologicamente capazes de reprodução, isso foi proibido por lei em Valex City, sob a justificativa de evitar "confusão de espécies". Projetar replorgues férteis é considerado crime de alta gravidade.


Replorgues na Sociedade de Valex City

Os PlorgTechs 2.0 são tratados como mercadorias e são um componente essencial da economia de Valex City, servindo em diversas funções:

  1. Trabalho pesado:
    Replorgues dominam as indústrias, atuando em fábricas, construções e mineração, realizando tarefas que seriam impossíveis ou perigosas para humanos.

  2. Serviço às elites:
    As classes altas utilizam replorgues como empregados domésticos, motoristas e até guarda-costas. Eles são programados para atender a todas as necessidades de seus proprietários.

  3. Exploração sexual:
    A prostituição em Valex City tornou-se dominada por replorgues, especialmente aqueles modificados para o mercado de luxo. Eles são projetados para atender a desejos específicos das elites, mas vivem sem qualquer proteção legal.

Os replorgues não têm direitos legais em Valex City. Eles são propriedades de seus donos, com pouco ou nenhum reconhecimento como seres vivos. Essa condição é amplamente aceita pela sociedade, que os enxerga mais como ferramentas do que como indivíduos. Alguns ricaços conseguem emancipar seus replorgues, mas o custo é tão elevado quanto ter um replorgue. Só uma fina classe média e os ricos possuem replorgues, e só os ricos conseguem emancipá-los desde que seja mantido em segredo.

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...