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terça-feira, 11 de novembro de 2025

[CONTO] Café e Adjetivos

Valex City, 19 de Abril de 2059.

Eram dez horas da manhã quando Archibald Reese deixou o escritório doméstico. O som do teclado RGB cessou, e a luz azulada do holopad foi substituída pela claridade fria que entrava pelas janelas de Templeton Hill. A névoa sobre o Rio Valex parecia mais espessa naquele dia, e as torres do centro financeiro se perdiam em seu preto e o azulado, como se a cidade respirasse devagar.

Rade o seguiu em silêncio pelo corredor. Seus passos eram leves demais para ecoar, quase um som aprendido de convivência. Ela parou a uma distância respeitosa quando Reese se apoiou na sacada e observou a cidade lá embaixo. As luzes incessantes da madrugada ainda pulsavam, refletindo nas poças que restavam da chuva.

— Senhor Reese? — a voz dela ressoou, firme mas hesitante.

Ele virou-se apenas o suficiente para olhá-la.
— Sim?

— Eu quero saber se estou incomodando. Se eu estiver, pode me falar. Deve ser estranho ter um guarda-costas te seguindo até dentro da própria casa.

Reese demorou a responder. Fitava a névoa, como se as palavras tivessem de atravessar aquele manto para ganharem sentido.
— Não. Tá tudo bem.

Pausou.
— A Peax era assim também… ou quase. Ela tinha mais autonomia. Fazia as coisas dela, mas quando estávamos juntos, passávamos o dia nos mesmos cômodos — na empresa, aqui… sempre falando sobre qualquer coisa.

Rade manteve o olhar firme, embora algo dentro dela começasse a estremecer.
— Não quero substituí-la.

— Nem pode. Nunca poderá. — Ele bebeu um gole de café, como se fosse ofendido pela mera sugestão. — Mas vocês têm algo em comum. Passam pelos cômodos ajeitando o que eu deixo fora do lugar. Nunca quis um modelo D porque a Peax tinha TOC com arrumação. A casa estava sempre impecável. Você parece ter o mesmo impulso.

Rade — ou melhor, Peax — sentiu o sangue subir-lhe ao rosto sob a máscara. Percebeu que estava deixando escapar demais, na sua cabeça, quando imaginou o plano de estar ao lado de reese, ela imaginou aquilo sendo muito mais fácil. A voz falhou por um instante.
— Se quiser, eu paro.

— Não. Continue. — Reese virou-se um pouco, apoiando o cotovelo no corrimão. — Isso me faz sentir à vontade, familiar, como se nada tivesse mudado. A essa hora, a Peax já deve estar chegando a Cascadia Town. Saber que ela está em segurança me dá paz para pensar.

As palavras cortaram fundo.
Peax sentiu algo entre culpa e perda.

— Então ela era um fardo pra você? — perguntou, quase num sussurro.

Reese a olhou, como se a pergunta tivesse vindo de longe.
— Não. De maneira nenhuma. — A voz dele ficou mais baixa, mas carregada de ternura. — Ela era brilhante. Eloquente, inventiva, sagaz, perspicaz, doce, dedicada, gentil, espirituosa… Amável, às vezes desafiadora, sempre criativa, acolhedora, cativante, comunicativa, era também leal, inspiradora, confiável, serena nas horas certas, determinada quando se precisava... Os olhos dela sorriam antes dos lábios — e isso fazia o meu dia melhor. Eu poderia passar o dia descrevendo as qualidades dela e ainda assim faltariam palavras. Talvez eu tivesse de inventar novas só pra chegar perto.

Peax desviou o olhar. O coração, esse velho traidor, reagiu antes da lógica: acelerou. Aquelas palavras eram de um homem apaixonado, e aquela reação era de uma mulher apaixonada. Como esconder?

— E ainda assim, com tudo isso… você a mandou embora? - Peax/Rade tentou tirar o foco para a imagem idealizada que Reese tinha dela.

Reese levou a xícara aos lábios e respondeu sem pressa:
— Sei que está me julgando... E também sei que sou mais fraco sem ela. — Respirou fundo. — Mas prefiro morrer a deixá-la morrer. Se tudo der errado, quero que ela saiba que fiz o que fiz por amor. Não sei se fiz certo ou errado. Talvez tenha errado, mas eu gostaria que ela soubesse que eu coloco a vida dela acima da minha.
Fez uma pausa.
— Já sentiu isso por alguém, Rade?

Ela não respondeu de imediato.
Sete anos ao lado dele e nunca o ouvira falar assim.
Lembrou-se de Sasha, do frio do cano da arma contra a pele, e do olhar de Reese — desesperado, humano, real — quando trocaria tudo, até a própria vida, só para salvá-la.

Peax piscou, e uma lágrima quase se formou, oculta pelo disfarce.
— Você ficou triste, Rade. — Ele a observava com doçura. — Acho que isso responde à minha pergunta.

Ela tentou sorrir, fracamente.
— É… acho que sim.

— Quer falar sobre isso? — perguntou Reese, voltando a tomar o café.

— Ainda não estou pronta. — respondeu. — Mas… talvez devesse dizer isso à Peax. Nem que fosse num testamento, caso as coisas desandem.

Reese arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Fazer de uma hipotética morte minha um gesto de amor? Talvez a maior declaração que o mundo já viu... Boa ideia. Daquelas que a própria Peax teria.

O sorriso dele quebrou o ar frio da sacada.
— Sorria, Rade. Estou te comparando com alguém incrível. A Roxxy sabe o que faz. Escolheu bem quem me acompanha.

Peax conteve a emoção.
— A Roxxy é boa. Melhor que a Jenny… Só mas não diga a ela que eu falei isso. Já esteve perto dela nos surtos de arrogância dela? É...

— Insuportável. Eu sei. - Reese riu. — É… sei bem como ela é. Quer um café?

Peax assentiu, pegou um copo na cozinha e se serviu.
Voltaram juntos à sacada. O vento carregava o cheiro metálico da chuva, e as luzes de Valex City tremulavam sobre o rio como um coração pulsando sob vidro e vapor.

Os dois ficaram lado a lado, encostados no parapeito.
Nenhum deles disse mais nada.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O Sistema sempre vence



A máxima "o sistema sempre vence" é uma conclusão extremamente apropriada para o cenário de The Replorg. A narrativa demonstra repetidamente que, independentemente das ações, motivações ou vitórias pessoais dos personagens, a estrutura de poder subjacente—a corporocracia—não apenas sobrevive, mas se adapta, se fortalece e coopta as próprias forças que tentam desafiá-la.
O "sistema" aqui não é uma única entidade, mas sim o ecossistema de hipercorporações (como a ValexSynthesis), suas subsidiárias de segurança (General Security Inc.) e a lógica de mercado que governa a vida em Valex City e além. A vitória do sistema não significa que os protagonistas sempre perdem; significa que suas vitórias, no final, servem aos interesses do próprio sistema.
Podemos ver essa máxima se manifestar de várias maneiras nos eventos descritos:
1. A Rebelião é o Motor da Evolução do Sistema
O exemplo mais claro disso é Archibald Reese. Sua motivação era nobre: vingar seu mentor, Neill Pável, e destruir a tecnologia da NetLife para honrar seus ideais e dar um golpe profundo no sistema corporativo. Ele consegue exatamente o que queria: a pesquisa é destruída para sempre, e a NetLife vai à falência.
No entanto, o resultado final de sua "vitória" é a consolidação do sistema de uma nova forma:
• Crise e Reestruturação: A queda da NetLife provoca o "DarkWed Crash", uma crise financeira que causa 15.000 mortes e 40.000 feridos entre a população civil. O sistema sobrevive ao caos, enquanto a população paga o preço.
• De Rebelde a CEO: No meio da crise que ele mesmo criou, Reese compra todo o espólio da falida NetLife por 1 Dólar Austro-Zelandês (AZ$).
• Nasce uma Nova Corporação: Ele funda a NeuralDesk Corporation, tornando-se ele mesmo um poderoso ator corporativo. Ele não destruiu o sistema; ele eliminou um concorrente e tomou seu lugar, rebatizando-o com uma fachada idealista, mas operando dentro da mesma lógica de mercado. A vitória de Reese foi a vitória do sistema, que se reconfigurou de forma mais eficiente em torno dele.
2. O Sistema Coopta e Mercantiliza o Idealismo
Personagens que agem por idealismo ou conseguem escapar veem suas lutas transformadas em produtos ou narrativas que o próprio sistema absorve e vende.
• Neill Pável: O cientista idealista que se sacrifica para impedir que sua tecnologia seja usada para o mal. Seu plano, continuado por Reese, resulta na criação de uma nova corporação, a NeuralDesk, que opera sob seu nome e de seu amor, Julya Karpova, mas ainda é uma entidade com fins lucrativos. Seu sacrifício foi transformado em branding.
• A.J. Brooks e Carol Brooks: Eles são um dos poucos casos de sucesso em escapar do controle corporativo direto, fugindo para o Uruguai. No entanto, sua história de amor e fuga se torna um fenômeno cultural. A Valex Editorial publica biografias não autorizadas, e a Netprime planeja uma série ficcional sobre eles. Sua rebelião pessoal foi comoditizada, transformada em entretenimento e lucro para o sistema midiático de Valex.
3. As Vitórias Pessoais Não Alteram a Estrutura
Muitos personagens alcançam seus objetivos pessoais, mas essas vitórias são irrelevantes para a estrutura de poder.
• Jenny Leatherjacket: Seu principal objetivo era vingar sua família, ganhar dinheiro suficiente para sobreviver e viver em paz. Ela consegue tudo isso: recebe AZ$ 2.000.000 e foge com sucesso. No entanto, suas ações foram o catalisador para o "DarkWed Crash" e a ascensão de Reese. Ela ganhou seu dinheiro, mas o sistema apenas trocou de peças, mantendo-se intacto.
• Akira Sato: Ela usa sua posição na General Security para orquestrar o resultado do NetLife Heist, se vingar de Riley Grey e consolidar seu poder. Ela não luta contra o sistema; pelo contrário, ela é a personificação de como o sistema recompensa seus agentes mais eficazes. Sua ascensão, com rumores de que se tornará a próxima Chefe de Polícia, apenas fortalece o braço repressivo do sistema.
4. O Sistema se Autocorrige e Purga Suas Falhas
O sistema também "vence" ao eliminar elementos que se tornam instáveis ou uma ameaça à sua imagem.
• Riley Grey (Sophia Potter): Uma agente de inteligência da ValexCorp que usou o aparato da empresa para vingança pessoal. Quando suas ações expuseram a corporação, o sistema a descartou. Ela foi forçada a fugir e, no final, foi presa nas Ilhas Falkland.
• BioMechaCorp: Após o Incidente Brooks e as Guerras de Kazuma, a reputação e as finanças da corporação foram abaladas. O sistema não permitiu um vácuo de poder: a BioMechaCorp foi rapidamente adquirida pela concorrente BioSynthesis, que então se fundiu com a ValexCorp para criar a hipercorporação ValexSynthesis, um monopólio ainda mais poderoso. A falha de uma parte levou a uma consolidação ainda maior do poder sistêmico.
Em resumo, o cenário de The Replorg ilustra que qualquer tentativa de ataque frontal, subversão idealista ou busca por ganho pessoal acaba, invariavelmente, por ser absorvida, reconfigurada ou esmagada pela estrutura corporativa dominante. Os heróis podem ganhar suas batalhas, mas o sistema sempre vence a guerra, adaptando-se para se tornar mais resiliente e perpetuando seu controle.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Capítulo 0.1 - Cânon de Longo Prazo

 LINHA DO TEMPO

Período Histórico (1985–2023) - Brasil

  • 1985: Fim do regime militar no Brasil; posse de José Sarney.
  • 1988: Promulgação da Constituição Federal, restaurando plenos direitos democráticos.
  • 1990–2002: Alternância de governos democráticos (Collor, Itamar, FHC), abertura econômica e estabilização com o Plano Real (1994).
  • 2003–2016: Período de crescimento econômico inicial e políticas sociais (governos Lula e Dilma), seguido por crise política e econômica.
  • 2016: Impeachment de Dilma Rousseff; Michel Temer assume.
  • 2018: Eleição de Jair Bolsonaro; polarização política acentuada.
  • 2020–2022: Pandemia de COVID-19; tensões políticas internas e crise econômica.
  • 2022: Eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um terceiro mandato.

Ponto de Divergência (20XX – Lore The Replorg)

  • 20XX (Data Incerta): Caso Mateus B. Andrade. O compositor brasileiro Mateus B. Andrade começa a criar músicas introspectivas que coincidentemente se manifestam em eventos reais. A ABIN investiga e descobre a existência do Multiverso, que pode ser influenciado pela criação humana. Isso desencadeia a "Corrida Multiversal", uma nova Guerra Fria focada no domínio multiversal, com a criação de tecnologias como os Neuroespelhos. Mateus B. Andrade desaparece durante os primeiros anos da Guerra Fria Multiversal, talvez capturado e usado em experimentos. Seus arquivos do Projeto Finkelstein são vendidos para a NetLife.

Escalada Global e Fundação de Valex City

  • 2023–2026: Brasil mantém instabilidade política e econômica, mas tenta neutralidade diante da escalada internacional da Guerra Multiversal. Migração crescente de russos e ucranianos devido à deterioração política do hemisfério norte.
  • 2024: Adrian Valex, um bilionário com viés sobrevivencialista, começa a planejar Valex City, uma ilha artificial para refúgio da civilização em caso de catástrofes globais.
  • 2025: Início da construção de Valex City por uma junta de bilionários liderados por Adrian Valex, através do aterramento de águas internacionais a 800 km da costa do Uruguai. Crises geopolíticas com países da América do Sul pela ilha artificial.
  • 2026: Primeiras ondas massivas de eslavos chegam ao Brasil. Pressão geopolítica cresce com início de guerras convencionais e por procuração. Fábio Andrade (PT) é eleito para suceder Lula. GeneralSecurity Inc. é estabelecida para proteger Valex City.
  • 2027: Golpe militar liderado por General Carlos Moraes von Humberg derruba o presidente Andrade, instaurando a Ditadura Burgueso-Militar no Brasil. O regime declara neutralidade, mas é marcado por corrupção e ineficiência. Pogos HealthServices é fundada em Valex City.
  • 2028: George Harrinton (R-TX) eleito presidente dos Estados Unidos. BioMechaCorp Scientific é fundada como subsidiária de biotecnologia da ValexCorp. Kaulo Prothetics é estabelecida como subsidiária da ValexCorp, focada em próteses e implantes. Nascimento de Abigail Rosenborg (Dra. Bee). Adrian Valex e Desmond Finkelstein desenvolvem o Projeto Finkelstein, uma tentativa de usar WorldBuilders para criar utopias em realidades alternativas.
  • 2029: Toda a infraestrutura essencial de Valex City está concluída.

Terceira Guerra Mundial e Inverno Nuclear

  • 2030: Escalada da Guerra Multiversal para a Terceira Guerra Mundial, com uso maciço de armas nucleares após ataques cibernéticos atribuídos a hackers chineses contra experimentos russos. Início do Inverno Nuclear que durará duas décadas. Brasil sofre colapso energético e agrícola; morte de milhões por fome e frio. Temperatura média global cai para 4°C.
  • 2031: Primeiras grandes ondas migratórias chinesas chegam ao Brasil.
  • 2033: NetLife é fundada por Lucas Vyne, aproveitando a descoberta do Multiverso para criar o programa "Viva no Seu Mundo".
  • 2034–2037: Regime von Humberg intensifica controle econômico, provocando hiperinflação e agravando a fome no Brasil.
  • 2038: Invasão conjunta Brasil–Argentina contra Valex City. Defesa da cidade pela GeneralSecurity Inc. resulta em derrota catastrófica para os invasores.
  • 2039: Autogolpe depõe von Humberg; General-Almirante João Pedro Schimidt-Kapersky assume o poder no Brasil.
  • 2045: Avanço das armas convencionais a ponto de uma granada de fragmentação derrubar um prédio de oito andares. Desenvolvimento dos Implantes e Próteses Cibernéticas como resposta à letalidade do armamento moderno. Fim do Inverno Nuclear.

Pós-Guerra e Consolidação Corporativa em Valex City

  • 2050: Temperatura média global estabiliza-se em 11°C.
  • 2052: Soberania corporativa de Valex City consolidada após décadas de isolamento defensivo. Governo brasileiro começa negociações com corporações para venda de cidades falidas. Assassinato de Magnus Andersen (irmão de Jenny Leatherjacket). Adrian Valex é assassinado em uma conspiração orquestrada por acionistas da ValexCorp e agentes estrangeiros (chineses).
  • Dezembro de 2053: Incidente Brooks. Professor A.J. Brooks adquire a Replorg 2.0-P Carol da BioMechaCorp. Carol demonstra livre-arbítrio ao defendê-lo. O incidente atrai a atenção da BioMechaCorp, que tenta eliminar Brooks e Carol para evitar escândalo. Com a ajuda de agentes simpatizantes da General Security (incluindo Akira Sato), Brooks e Carol fogem para o Uruguai. Abigail Rosenborg (Dra. Bee) é demitida da BioMechaCorp por suspeita de sabotagem de NBs.
  • Janeiro a Julho de 2054: Street Cleansing (Varredura). BioMechaCorp lança campanha de devolução de Replorgs 2.0. ValexCorp emite ordem executiva para devolução obrigatória dos modelos D e P. Caça implacável a Replorgs "defeituosos" pela General Security e BioMechaCorpers. Muitos Replorgs são eliminados (cerca de 15% dos 1.5 milhão), outros buscam refúgio com gangues ou se escondem.
  • Meados de 2054: Guerras de Kazuma. Evento que leva à formação do "Grupo dos Três" (união das gangues Beetches, Katana Krew e Sete de Setembro), que destrói a gangue Wakizashi. Akira Sato investiga e enfraquece o chefe de polícia Rafiq al-Osmund. Sophia Potter (Riley Grey), fixer da ValexCorp, planta falsas acusações contra Akira Sato na mídia, causando sua desmoralização.
  • Abril de 2054: ValexCorp vende a BioMechaCorp para a BioSynthesis (que a adquiriu com ações em baixa após o Incidente Brooks e as Guerras de Kazuma). Juntas, ValexCorp e BioSynthesis formam a ValexSynthesis, a primeira hipercorporação do mundo, assumindo as funções da antiga ValexCorp e monopolizando a produção de Replorgs.
  • 2055 (Status Quo Pós-Cleansing): General Security e ValexSynthesis investigam a sabotagem dos neurobloqueadores. Demissões em massa na BioMechaCorp dificultam a localização de suspeitos. O número de filiados a gangues cresce devido ao desemprego e insegurança.
  • Janeiro de 2055: Assalto à Brazil Robotics (BH) pela facção "A Sombra", liderada por Groucho Marques. Pryvtanne Silva, Bruna Castro e Orpheus e Valentina Viper (mortos) conseguem roubar dados do supercomputador da Brazil Robotics.
  • 2055: Rebelião de Neill Pável na NetLife. Neill Pável, cientista da NetLife, descobre a corrupção da corporação e tenta destruir o projeto "Viva no Seu Mundo" e apagar seus registros, enquanto cria um mundo fictício para proteger Julya e Yekaterina. Ele é traído por Martinuccio e assassinado pela NetLife ao ser forçado a entrar em seu mundo fictício sem retorno. Julya e Yekaterina recebem dinheiro e fogem de Valex City em um VTOL, aterrissando acidentalmente nas Ilhas Falkland. Jenny Leatherjacket retorna a Valex sob o nome de Jennifer Andersen. Fundação dos Serpentes do Deserto e da Diarquia em Valex City.
  • 2056: Crise econômica no Brasil impulsiona a venda de Guaçuí (ES) à Brazil Robotics. Anúncio da construção de Laguna-Nova, cidade privada e sede futura da corporação. Início das obras de Laguna-Nova. Queda da Alfajor nas Guerras de Little Argentina, gangue neonazista é derrotada pelo Grupo dos Três. Assalto à NetLife por um grupo de coalizão liderado por Jenny Leatherjacket.
  • 2064: Brazil Robotics transfere oficialmente sua sede para Laguna-Nova. Entrada de outras megacorps, como Hard Light Corporation.
  • 2068: Laguna-Nova consolidada com 1 milhão de habitantes, dividida em distritos (Centro-Velho, Distrito Neon, Distrito Cassino, Horto Holográfico, Zonas Industriais e Conurbano). Disputa violenta de gangues (A Sombra e Kaleidoscópio) no Conurbano e Zonas Industriais.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

[PERSONAGENS] Archibald Reese


Archibald Reese (Vancouver, 04 de Abril de 2023) é Programador de Roteiro da NetLife, é um dos principais cientistas do programa "Viva no seu mundo" da corporação em que trabalha. Ele é o personagem-avatar do autor. Ele aparece no conto "Amor e Ficção" e na versão HQ "Um mundo melhor para nós". Entre seus amigos estavam o falecido dr. Neill Pável, a PlorgTech 2.0-P PeaX e seu guarda-costas Togall, um PlorgTech 2.1-M.
PeaX


Togall

 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

[PERSONAGENS] Rinnosuke Ackerman

Rinnosuke Ackerman é um jovem imigrante filho de um casal que sobreviveu às piores intempéries e adversidades do Inverno nuclear no Japão. Apesar disso, mesmo após a pior consequência da terceira guerra mundial, ele optou por imigrar das ruínas frias e radioativas da península japonesa para Valex City, onde acabou acolhido por Ishizaki, um mediador da Wakizashi. Ele chegou bem durante a crise das Guerra de Kazuma, trazendo consigo a sua irmãzinha Yumi Ackerman. No entanto, acabou sendo em Libertyhood, na padaria de Samuel Johnson, um homem negro descendente de afro-americanos, que ele conseguiu seu primeiro amigo verdadeiro. Após a queda da Wakizashi e a formação do Grupo dos Três, procurou abrigo nas ruas junto a Caio Castro. Personagem de Edigar.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

[PERSONAGENS] Valentina Viper

 


Valentina Viper foi uma gângster que trabalhou para a Sombra na operação BH2055, morreu em missão ao se sacrificar pelos amigos. Personagem interpretada por Jesus Carlos.

[PERSONAGEM] Orpheus

Orpheus (nome desconhecido) foi um hacker de nível básico freelancer de Belo Horizonte. Pouco se sabe sobre ele e suas motivações, exceto que tomou parte no assalto ao prédio da Brazil Robotics em BH 2055. Morreu com um tiro na cabeça. Foi personagemd e Edigar para a one-shot BH2055.

[ONE-SHOT] BH 2055

 Belo Horizonte, 31 de Janeiro de 2055.

Capa da aventura

Em 2055, Belo Horizonte é uma cidade extremamente caótica, chuvosa e em média dois graus mais fria do que hoje, dominada por corporações, em especial a Andropov Imobiliária, a Ferreira Aerotaxis, a ValexSynthesis, a ASR Foods e a Brazil Robotics. Nas ruas, porém, as coisas são mais complexas, duas facções criminosas disputam as ruas. "A Sombra", liderada por Groucho Marques e a Gorny Medzvedi (Горны мядзведзь), também chamada de "Urso da montanha", liderada por Piotr Yushenko. Em Janeiro de 2055, a Brazil Robotics, empresa nacional fabricante de andróides, fez a importação de um supercomputador que regeria seus sistemas financeiros. 

Savassi

A facção "A Sombra" encomendou à webrunner e fixer Pryvtanne Silva, formar uma equipe de freelancers para a missão de tomar de assalto a sede de BH da Brazil Robotics, aceder o contêiner no telhado, e roubar informações do supercomputador. Groucho queria uma equipe de iniciantes, porque se desse certo ele pagaria pouco e ganharia muito. Se desse errado, eles eram um bando de zés-ninguém sem ficha criminal ou algo que os colocasse nos dados da polícia, e portanto ninguém seria capaz de estabelecer um vínculo entre "A Sombra" e o crime em questão.
Praça Sete

Pryvtanne montou uma equipe composta por Orpheus, um hacker que usava um holopad básico, Valentina Viper, uma gângster batedora de carteiras e Bruna Costa, uma gângster que apesar de irmã de Caio Castro, uma das lendas de Valex City, em BH, ela era apenas uma quebradora de fechaduras. A missão, apesar do caos, foi bem sucedida, ainda que Valentina e Orpheus tenham morrido. No fim, Pryvtanne e Bruna conseguiram roubar os dados do supercomputador da Brazil Robotics.

Bairro Quebra d'água



Para acompanhar a aventura, basta clicar aqui:



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

[PERSONAGENS] Bruna Castro

Bruna Castro

Bruna Castro (Belo Horizonte, 31 de Janeiro de 2035) é a irmã de Caio Castro, Bruna representava os interesses da 07 de Setembro no Brasil, em especial na gangue A Sombra, de Belo Horizonte, liderada por Groucho Marques. Com a ajuda da webrunner Pryvtanne Silva, Bruna conseguiu ao lado de seus falecidos colegas Orpheus (hacker) e Valentina Viper (gangster) fazerem o maior roubod e informações que as ruas de Belo Horizonte já viram. Em 2055, Pryvtanne e Bruna foram as únicas sobreviventes do assalto a Brazil Robotics. Após roubar a senha de uma mega-operação financeira no blockchain de um computador num contêiner no 67º andar do edifício H, sede da Brazil Robotics, Bruna fugiu para Valex City, onde se reunirá com seu irmão e pai, para dar continuidade a construção da agora gigantesa coalizão de gangues conhecida como "Grupo dos Três". Ela foi apresentada na SideJob BH2055.


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

[PERSONAGENS] Neill Pável


Neill Pável é um dos protagonistas do conto "Amor e Ficção", sendo ele um cientista brilhante de 45 anos, conhecido por seu trabalho inovador na NetLife, uma das corporações mais poderosas de Valex City. Viúvo há 17 anos, ele vive isolado emocionalmente, carregando a dor da perda de sua esposa, Clara, que foi o grande amor de sua vida. Apesar de cercado por luxo e tecnologia de ponta, Pável sente um vazio profundo, que tenta preencher dedicando-se a projetos visionários, como o controverso "Viva no Seu Mundo". Seu intelecto afiado contrasta com sua fragilidade emocional, resultado de anos de solidão e dependência de medicamentos. Ele vê o mundo através de uma lente crítica, dividido entre o fascínio pela ciência e o desgosto pelas corporações que a controlam. Quando conhece Julya Karpova e sua filha Yekaterina, Pável redescobre através do amor, a humanidade que acreditava ter perdido, e essa conexão o leva a questionar as bases de sua vida e seu trabalho. Seu maior conflito é equilibrar sua lealdade à ciência com a necessidade de lutar contra as injustiças do sistema que ajudou a construir. Sentimentos estes que o levam a um plano ousado para sabotar a NetLife.

[PERSONAGENS] Julya Karpova


Julya Karpova é uma das protagonistas do conto "Amor e Ficção", ela é uma jovem de 19 anos de ascendência russa que cresceu na parte mais precária de O'Higgins, em Valex City, sob a constante opressão de sistemas corporativos e das gangues. Mãe solteira de Yekaterina, uma menina surda de quatro anos, Julya trabalha em dois empregos para sustentar a filha: de dia em uma lanchonete e à noite no TaoKao Pub, como dançarina de pole e GP, em um bar que também funciona como prostíbulo. Apesar das adversidades, ela luta com determinação para oferecer um futuro melhor à filha, encarando a exaustão física e emocional como parte de sua rotina. Seu visual marcante, com cabelos pretos e uma franja branca, piercings e roupas brilhantes, reflete sua rebeldia e a tentativa de manter sua identidade em um mundo que insiste em apagá-la. Julya é pragmática, mas guarda uma centelha de esperança e sensibilidade que poucas pessoas conseguem enxergar. E quem enxergou isso foi Neill Pável, um cisntista por quem ela se apaixonou e que mudou a sua vida. Seu maior desejo é escapar da realidade sufocante e garantir a Yekaterina oportunidades que ela nunca teve.

[CONTO] The Replorg: Amor e Ficção

Valex City, 2055.

Valex City, 3 milhões de habitantes, mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes, Gini de 0.72, IDH 0,770. Seria considerado um fracasso social em qualquer sentido antes da Terceira Guerra Mundial. Hoje é o lugar mais cobiçado e onde tudo acontece no mundo. Dizem que na Antiguidade fora a Guanghzou, na China, depois na Idade Média era Roma. Durante a aurora da modernidade fora Paris, e até a Segunda Guerra Mundial, Londres. Depois da Segunda Guerra Mundial, Nova Iorque. Aparentemente é preciso grandes guerras e crises para que um país ou cidade se torne o centro do mundo. Foi preciso chover balísticos intercontinentais no hemisfério norte pra que Valex se tornasse o farol da civilização... E que bela merda de farol. Era isso que o Doutor Neill Pável pensava sentado em sua sala de vidro no quadragésimo terceiro andar do edifício central da NetLife, prédio glamuroso em preto e dourado que ficava no limite entre o Centro e O’Higgins. A paisagem de Valex City se estendia diante dele, um mar de luzes neon vermelhas, azuis e douradas, além de hologramas da SonySoft e da Patagoniana em prédios monolíticos pretos e quase sem janelas na escuridão nevoenta da cidade, que mascaravam a realidade sufocante abaixo. Dali ele conseguia ver a construção bem no meio do centro financeiro, a construção do futuro prédio da nova aberração corporativa do mundo, a ValexSynthesis. Um prédio cilíndrico, monolítico, preto, de 400 andares, projetado para ter um quilômetro de altura e ser o maior prédio de Valex City.

O cientista de 45 anos destoava do caricato sujeito de jaleco branco e óculos. Aliás, na NetLife, nenhum cientista se vestia assim, pareciam juntos, na verdade, uma conferência de advogados com ternos feito de um polímero termo-isolante que parecia tecido comum, como linho ou seda. Pável  havia passado os últimos meses trancado em sua pesquisa, dedicando-se integralmente a ela. Não que ele tivesse coisa muito melhor pra fazer. O projeto "Viva no Seu Mundo" era a menina dos olhos da corporação, mas para Pável, representava algo mais: a fronteira final da conquista da humanidade, a construção de mundos ideais. Ele tinha tudo em termos materiais, sua pesquisa era bem financiada, sua equipe muito capacitada, o Nobel era questão de tempo, todos diziam. Mas o vazio que o acompanhava desde a morte de sua esposa 17 anos antes, o tornava insensível ao luxo que o cercava. Vivia a base de ansiolíticos, antidepressivos ou simplesmente bebida nos dias em que nada dava jeito. Sua única expectativa é que, chegado no fim de sua vida, poderia requerer a NetLife que o colocasse num desses universos fictícios construídos pela tecnologia do worldbuilding, a mesma que quase arruinou o mundo em 2030, e que as corporações faziam de tudo para ocultar do conhecimento das massas, mas voltando ao ponto, ele esperava que o permitissem viver num mundo feliz com sua esposa, ou pelo menos uma versão dela conforme ele se lembrava.


Do outro lado da cidade, no Distrito Luminar, Julya Karpova terminava mais um turno exaustivo no bar noturno em que trabalhava, o TaoKao Pub. Era um  prostíbulo, na verdade. Embora Julya sempre tentasse evitar os programas, ela às vezes, por pressão do cafetão das Beetches que atuava ali, Chal Hopman, acabava tendo que atender sexualmente alguns clientes. Nesses dias, ela se sentia horrível. Hopman era um homem horrível, mas ainda era menos ruim que Kenneth, um cafetão reprogramador de replorgues que acabou assassinado por soldados BioMechaCorpers ainda no início do Street Cleansing, entre fevereiro e março do ano anterior, e de quem ela já havia apanhado um bocado. Depois viria o triste capítulo conhecido como “Guerras de Kazuma”, onde a Wakizashi foi posta pra correr e virtualmente exterminada de Valex City, mas ao custo de muitas de suas colegas orientais acabarem sendo vitimadas nos conflitos de gangue. Duas delas estavam  no metrô de Kazuma quando durante a investida final do recém-formado Grupo dos Três, incendiaram o metrô. Uma leão de chácara do TaoKao Pub que era membro das Beetches acabou assassinada pelos ninjas da Wakizashi. Ela caminhava passando por uma loja de elite perto do Valex Mall, e viu nos TVPads anunciados pela vitrina, mais uma saraivada de nomes no noticiário, enquanto caminhava para a estação de metrô. Era uma profusão de propagandas de produtos ou de notícias sobre acontecimentos importantes na VXC News.

"Mike Herrera lança seu novo single: Stars fading! Agora, vamos aos anúncios! Problemas de ereção? Compre a Rule Condom, camisinha com estimulante nervoso que vai deixar seu poste eriçado!" 

Na concorrência, a VCN, a coisa não era muito diferente: 

"Na zona industrial duas pessoas foram assassinadas, provavelmente um esquema de gangues envolvendo a DogFart... Agora, vamos a uma notícia do agrado do público feminino! A biografia não autorizada de A.J. Brooks e sua esposa, a replorgue Carol Brooks bate recordes de venda, e a Valex Editorial já encomendou uma série ficcional ao canal de streaming Netprime! para contar a fuga insana dos dois para o Uruguai"

Mais lixo... Julya não via mais graça em nada. Não acreditava em contos de fadas. 

"Um professor da Teller Academy e uma replorgue de tipo P? Ha! Belo caô." - Ela pensava. Não que ela fosse negacionista do que ocorreu no Incidente Brooks, é que no fundo, ela não acreditava nos homens mais. Ela os conhecia muito bem para saber que de uma garota como ela, eles só queriam uma coisa, e era "disgusting". Naquele dia em específico suas mãos doíam, e suas coxas tinham hematomas do atrito constante com o poste do pole dance. E o cansaço pesava em seus ombros. Com apenas 19 anos, ela já era mãe de Yekaterina, uma garotinha surda de quatro anos, cuja existência era sua única motivação. Apesar de trabalhar em dois empregos e ganhar acima da média, o aluguel, os custos com alimentação e o tratamento da filha tornavam impossível uma vida confortável. Sua franja branca destacava-se entre os cabelos pretos, uma marca, ao lado dos piercings, de sua rebeldia em um mundo que insistia em esmagá-la. Julya suspirou, ajeitando sua blusa azul combinando com sua calça skinny glossy rosa, que além de delinear suas curvas, refletia a luz das árvores holográficas azuis do centro e o letreiro da TesyD.

A noite caiu sobre Valex City, tingindo o céu de tons negros. Pável, cansado após um dia de reuniões com executivos da NetLife, desceu até o estacionamento. Seu veículo voador, um VTOL Puma-X modelo Clouds, deveria estar pronto para levá-lo para casa, mas um problema nos propulsores o impediu de decolar. Irritado, ele entrou em contato com a seguradora e foi aconselhado a pegar o metrô, do centro, até o Distrito Luminar. Era algo que ele não fazia há anos, mas não havia escolha. No metrô quase vazio, Pável chamou atenção. O terno impecável e a maleta cara faziam dele um alvo fácil. Ele mal percebeu o jovem que o observava com olhos predatórios. Antes que pudesse reagir, o homem avançou, empunhando uma faca rudimentar. "Passa tudo, agora!", gritou o assaltante. Pável congelou, incapaz de pensar.

Julya, sentada no outro canto do metrô esperava o trem, eles pegariam  trens diferentes, ela da estação central até O’Higgins. Ele, provavelmente do centro até algum prédio luxuoso na região do Valex Park de frente pro distrito luminar. Ela observou a cena. Diferente de Pável, criado com trejeitos classudos da pequena burguesia, Julya nasceu na região mais precária de O’Higgins, debaixo do jugo da DogFart. Ela não tinha e nem nunca teve modos, era do tipo “barraqueira”, e se a vida a havia ensinado algo, era que ela não gostava de injustiça, mesmo que fosse contra um burguezinho.  Para ela, não havia tempo para hesitação. O instinto falou mais alto. Levantando-se, ela correu na direção do assaltante, usando as habilidades atléticas adquiridas no clube para desarmá-lo com um movimento ágil. Porém, o homem reagiu, desferindo um golpe que a derrubou no chão, tirando um sangramento notável de seus lábios. Pável, tomado por uma coragem inesperada, avançou e acertou o assaltante com sua maleta. Juntos, os dois colocaram o bandido para correr. Por um segundo ele se sentiu como A.J. Brooks defendendo sua replorgue, um conto de fadas moderno que marcou toda a confusão do Cleansing iniciado um ano antes. Pável não tinha ideia, mas essa não seria a última vez que a mera ideia de A.J. Brooks cruzaria seu caminho.

— Você está bem? - perguntou Pável, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.

Julya assentiu, levando as mãos aos lábios, e retirando-as sujas de sangue. Pável deu-a um lenço que estava em seu bolso, e ela passou a viagem com dor e sustentando o lenço na boca, mesmo depois do sangramento cessar. Apesar disso, ela engoliu o choque e a expressão de dor. - Estou bem. E você?. - Ela tentou transbordar naturalidade, como quem fazia aquilo sempre. Embora por dentro ela estivesse pensando em quão insana tinha sido por tomar partido numa briga de um completo desconhecido, sendo uma mulher, e aparentemente, defendendo um corporativo. Pável agradeceu, ainda ofegante, e insistiu em acompanhá-la até em casa. Durante o trajeto, ele falou uma ou duas coisas, a maior parte do tempo segui-se um monólogo, um desabafo de uma jovem cansada da vida, de ter dois empregos, um dos quais ela mesma julgava degradante. E descobriu partes da vida de Julya que o deixaram desconcertado. A pequena Yekaterina, o trabalho exaustivo, a perda do namorado Hal Perkins, um jovem gângster que era pai de sua filha, morto em circunstâncias violentas após se envolver com a DogFart... A realidade dela contrastava brutalmente com o conforto vazio de sua existência.

Ao chegar ao prédio decadente onde Julya morava, um cortiço com no máximo 4 andares, mas repleto de pequenas quitienetes, com paredes tão finas que se podia ouvir até o respirar dos vizinho, Pável sentiu uma pontada de culpa. Ele sabia que, em outras circunstâncias, jamais teria notado alguém como ela. Sua riqueza e status sempre o protegeram da crueza do mundo. E por ter ficado grato, mas sobretudo por tê-la achado bonita, decidiu acompanhá-la. Ele estava cansado da solidão que acompanhava a viuvez. Mas, agora, ele não conseguia ignorar. A pequena Yekaterina o recebeu com um sorriso tímido, seus olhos brilhando de curiosidade. Naquele momento, algo dentro de Pável mudou. Julya apresentou a filha de quem falou com um misto de cansaço e amor durante toda a viagem. A pequena era parecida com a mãe, tinha lábios mais finos. “Uma herança genética do pai, talvez”, pensou Pável. Ela não falava, uma consequência justamente de não ouvir. Julya porém falava a LLS, a língua local de sinais, coma  filha, a mesma era ensinada nas aulas da ABC Solutions, embora fossem caras, e com o modesto salário de Julya, Pável entendia o sofrimento e o cansaço, era quase um milagre sobrar algo, se é que sobrava.

Nos dias seguintes ao encontro, Neill Pável não conseguiu tirar Julya Karpova de sua mente. A simplicidade e a força dela, tão diferentes de tudo o que ele conhecia, despertaram algo profundo. Ele começou a aparecer no fim do expediente na lanchonete em O'Higgins, aguardando-a em seu restaurado Puma-X, ele a dava uma carona até o distrito luminar. E após o fim do expediente no TaoKao Pub, ele a levava de volta. Por vezes, poderia sair mais cedo, mas fazia hora extra apenas pensando em poder ver de novo os olhos verdes e o sorriso perfurado por uma argola nos lábios, de Julya Karpova. Pável estava se apaixonando, algo que não acreditava que fosse mais possível. Ele estava ciente disso. No entanto, ele negava para si mesmo. “É só uma garota gentil... Sem muitos modos... mas gentil e que precisa de ajuda”... Ás vezes justificava-se dizendo a si mesmo: “Sou um homem na meia idade viúvo e sem nada de interessante para fazer a noite... Por que não?”.

Inicialmente, Julya hesitou. Por que um homem tão bem-sucedido e distante de sua realidade estava tão interessado nela? Mas, pouco a pouco, a gentileza de Pável, sua educação, cavalheirismo e bons modos, algo tão diferente do que estava acostumada com os “moleques” de O’Higgins, começou a quebrar suas barreiras. Ele nunca exigia nada em troca, apenas a companhia dela. Ele a ouvia falar de seu cansaço, de suas lutas por horas, e parecia ao deixá-la na Dime Street de O’Higgins depois da meia-noite, tão ou  mais revigorado do que no momento em que ela entrava no VTOL. Quase como se o simples som de sua voz fosse um remédio poderoso contra o cansaço. Pável também se aproximou de Yekaterina, encantado pela energia e curiosidade da criança, mesmo sem poder ouvir o mundo ao seu redor. Ele comprou pequenos dispositivos de tradução visual para ajudar Julya a se comunicar melhor com a filha, além de brinquedos educativos. Julya, dividida entre a desconfiança e a gratidão, começou a permitir que Pável entrasse em suas vidas. E paulatinamente começou a ver no homem de cabelos grisalhos, mas com pele ainda bastante jovial, quase como se aparentasse não mais que trinta (maravilhas da medicina restaurativa da década de 50 daquele século), algo de mais cálido, talvez mais que um amigo, talvez... Só talvez, ela estivesse gostando dele.

— Neill, você sempre foi tão gentil comigo e com Yekaterina. Por que faz isso? — perguntou Julya em uma noite em que estavam no carro, estacionados em frente à casa dela, um edifício de quatro andares e comprido na horizontal repleto de caixas de ar condicionado a mostra.

— Talvez porque você me lembre o que é ser humano. Ou talvez... talvez porque eu gosto de você. — Ele desviou o olhar para o skyline da cidade ao fundom onde prédios enormes exibiam nas arestas leds que oscilavam do azul para o vermelho quebrando a escuridão da noite num chiaroscuro, ele deu uma olhadela rápida para ela, parecendo envergonhado.

“Que ridículo”, ele pensou, “45 anos e me comporto como um adolescente de 17”.

Julya sorriu, um sorriso pequeno e meigo. — Você é diferente dos outros. Eu não sei o que dizer... mas obrigada.

Outro diálogo marcante aconteceu em uma visita ao Valex Park, num dos raros dias de sol, onde Pável insistiu em levar Julya e Yekaterina para um dia de folga.

— Faz tanto tempo que não respiro ar fresco assim — disse Julya, enquanto Yekaterina corria pelo gramado atrás de dronebees polinizadoras da Oxvard University .

— E faz tanto tempo que não me sinto tão vivo. Vocês trouxeram algo que eu pensava ter perdido para sempre. — Pável olhou para ela com uma intensidade que fez Julya corar.

— Talvez você esteja exagerando. — Ela tentou minimizar, mas não conseguiu conter um leve sorriso.

— Não, Julya. Por muito tempo, meu mundo foi cinza. E vocês... vocês trouxeram cor para ele. — Ele tocou de leve a mão dela, um gesto que dizia mais do que palavras poderiam.

No entanto, a vida de Neill Pável seguia dividida entre os dias estressantes, ainda que fascinantes de trabalho científico, de um lado. E os momentos tranquilizadores e agradáveis com Julya e Yekaterina. Neill se ressentia do fato de não ter podido ter filhos. Sua esposa morrera antes mesmo de conseguir engravidar. Eles queriam postergar a gravidez, pensavam em trabalhar, formar patrimônio e então, quando chegassem aos 30, talvez terem o primeiro bebê. Quisera o destino que sua querida Clara morresse com 28 anos. Agora sentia-se quase como que realizando o seu sonho de ter uma família. Enquanto isso, no outro lado da sua vida, a de cientista a serviço da NetLife, o progresso do projeto "Viva no Seu Mundo" atingia um marco crucial. Pável e sua equipe, finalmente desenvolveu o módulo que tornava o cérebro físico dispensável. A aparelhagem em vigor exigia a separação do corpo e do cérebro, o primeiro era descartado por ser inútil e o segundo era imerso numa solução neuroconservante, enquanto fios e microprocessadores eram conectados a ele. Tudo o que a pessoa vivia no mundo fictício, geralmente cujas bases eram desenhadas e escritas anteriormente por algum escritor famoso, pago a peso de ouro, era transcrito pelas máquinas e pelos poderosos HoloPads, na forma de e-books. Com isso, os clientes mais ricos poderiam viver eternamente em mundos fictícios pairando em uma n-dimensão de espaço e tempo separada daquele mundo de caos, sem qualquer ligação com a realidade. Contudo, a convivência com Julya e Yekaterina transformou sua perspectiva. Ele começou a enxergar o programa não como uma conquista científica, mas como uma abominação. E o simples fato de uma mulher doce como Julya e sua adorável filha viverem um inferno cotidiano e bilionários não aceitarem a morte e terem vidas paradisíacas na terra e a depois dela, não parecia certo.

Pável queria entender como. Por que. Ele então se entregou à leitura de textos sobre desigualdade social e capitalismo tardio, algo que evitara por toda a vida, não por medo, mas por nunca ter tido curiosidade ou ver importância. Ele se debruçou sobre a "História Social do Mundo (2020-2050)" de A. J. Brooks, o agora lendário professor que salvou uma replorgue pela qual se apaixonou e que se tornou um modelo para a BioSynthesis. Os trabalhos mais recente de Brooks, no Uruguai, sobre o que ele chamou de “Darwinorrobótica” estavam sendo publicados por editoras subsidiárias da ValexSynthesis. Uma forma curiosa de fomentar o abolicionismo biorrobótico enquanto usava o lucro dos livros para financiar a BioSynthesis, subsidiária da ValexSynthesis. Ele leu ainda outros materiais da Teller Academy sobre humanidades. Pela primeira vez, ele entendeu as raízes do sofrimento que Julya enfrentava diariamente. O sistema corporativo ao qual ele dedicara sua vida era o mesmo que esmagava bilhões para sustentar o luxo de poucos.

As reuniões com os acionistas da NetLife começaram a se tornar insuportáveis. A indiferença deles às implicações éticas do projeto o enojava. Eles discutiam o lançamento como se fosse apenas mais um produto no mercado, ignorando completamente a miséria que perpetuavam. Pável sabia que precisava agir, mas como?

Em uma noite particularmente difícil, ele finalmente desabafou com Julya. Contou sobre o projeto, sobre o poder que tinha em suas mãos e como isso poderia beneficiar os ricos enquanto condenava o resto da humanidade. Para sua surpresa, Julya o ouviu com paciência. — Parece-me horrível. - Ela falou. — No entanto, não sei o que eu deveria te aconselhar. Eu mal consigo cuidar da minha filha.

— Não gostaria de viver num mundo perfeito como esses ricaços? - Ele perguntou enquanto guiava o VTOL debaixo de luzes vermelhas, azuis e douradas refletindo no vidro do Clouds repleto de gotículas de orvalho.

— Só se você estiver nele. - Julya riu revelando uma argola sobre os dentes, um piercing que Pável achava charmoso. - Ela falou como brincadeira. Mas para Pável aquilo era muito sério. Ele se imaginou vivendo numa versão alegre e colorida de Valex, onde eles brincavam num jardim com grama de verdade onde árvores reais e holográficas se revezavam. Julya, ele e a pequena Yekaterina. Ele não deixou transparecer, mas aquilo o mudou. Naquela noite, ele pernoitou na casa de Julya, pela primeira vez tiveram sua intimidades, a pequena Yekaterina dormia tranquila num quartinho ao lado. Na manhã seguinte, Pável entregou a KriptoKey de seu apartamento de frente para o Valex Park para Julya. Ele queria que ela passasse a morar com ele. Ela, obviamente aceitou.

Os meses se passaram, a etapa de testes da nova tecnologia havia começado, várias cobaias estavam sendo testadas, e o programa estava perto de dar seu grande salto para a NetLife. Mas aquilo trazia cada vez mais descontentamento para Pável. Ele amava a ciência, e havia feito algo incrível com sua equipe: Michael Howard, Jehu Park-Woo, Archibald Reese e Estebán Martinuccio. Ele não se ressentia da ciência, da tecnologia, algo que ele seguia vendo como o futuro da humanidade. Ele se ressentia de que aquilo estivesse nas mãos de poucos. Que fosse usado para lucro e talvez para facilitar a dominação corporativa da ValexSynthesis e da própria NetLife.  Pável começou a importunar colegas com suas indagações, a expor suas ideias e insatisfações sobre isso, a recrutar aliados dentro da NetLife. Ele abordou colegas cientistas que compartilhavam suas dúvidas sobre o projeto e, gradualmente, formou um pequeno grupo de resistência. Inicialmente a NetLife não se importou. Ela estava muito confiante de seu domínio, e pouco importava as opiniões individuais dos cientistas, contanto que eles seguissem trabalhando e construindo seus produtos e serviços. Eles, porém, os cinco colegas de Pável, traçaram um plano para destruir a máquina e apagar todos os registros da pesquisa. Porém, Pável tinha um objetivo adicional: ele queria criar um mundo fictício onde pudesse proteger Julya e Yekaterina. Seria sua última criação, um refúgio longe da corrupção e crueldade do mundo real. Ele sabia que se se refugiassem num mundo ficcional que ele criava aos poucos nos últimos meses, com base no seu devaneio lúcido dentro do VTOL, eles estariam para sempre longe das garras da NetLife e de toda a escória do mundo corporativo. Bastava esconder bem o segredo nesse mundo ficcional. Ele começava a desenhar assim, mentalmente, um plano.

Os dias que antecederam a apresentação oficial da nova tecnologia ao conselho de acionistas foram tensos. Pável sabia que estava arriscando tudo, mas não podia mais ignorar sua consciência. Ele se dedicou a construir o mundo fictício perfeito para Julya e Yekaterina, programando cada detalhe com cuidado obsessivo. Era um lugar de paz, uma versão tão cheia de luzes de Valex quanto a atual, mas sem corporações, sem violência urbana, um lugar alegre onde o mundo deu certo, onde nada poderia machucar a pequena família que ele tanto desejava proteger. Sem avisar Julya e Yekaterina, que agora viviam vendo o sol nascer por sobre o iluminado e colorido Valex Park, vendo o mar ao longe, na cobertura do edifício Sentrion, ele colocou o apartamento a venda num sistema Blockchain do KriptBank, a venda seria feita por uma IA fortíssima do banco, e automaticamente o NFT de propriedade seria passado para o novo comprador. A diferença, é que o valor ao invés de cair na conta dele, cairia na conta virtual de Yekaterina, conta que só Julya poderia movimentar. Isso era uma garantia, caso tudo desse errado. Assim, elas poderiam sair de Valex City para qualquer lugar, e poderiam recomeçar a vida com o espólio da venda da cobertura no valor de 450.000 AZ$.

No dia da apresentação, tudo parecia seguir como planejado. Pável e seus aliados se prepararam para destruir o equipamento logo após o conselho dar sua aprovação. No entanto, um dos cientistas, o argentino Martinuccio, temendo perder o emprego, traiu o grupo. Ele delatou o plano aos executivos da NetLife, que rapidamente mobilizaram uma força de segurança para conter a rebelião.

Os laboratórios se tornaram um campo de batalha. Os cientistas leais a Pável conseguiram bloquear temporariamente as entradas dos laboratórios com protocolos de hacking provisórios, gerados de última hora nos holopads, devia ser o suficiente para conseguir algum tempo, isolando os laboratórios das tropas NetLifers, compostos por replorgues PlorgTech 2.0-M. Se eles entrassem, eles não teriam a menor chance, seriam rasgados como papel ou perfurados como queijo suiço. Enquanto isso, Pável ativava o equipamento obsoleto para transferir os dados da pesquisa para o mundo fictício. Ele sabia que teria pouco tempo antes que fosse interrompido, mas estava determinado a concluir sua missão. Ele temia a traição, por isso ele fez questão de destruir o novo protótipo pessoalmente, e de apagar com uma IA poderosa todos os registros do projeto, exceto aquele que levaria consigo em sua mente. No texto escrito por ele, ele entraria na GoodValex portando um totem, uma caixa de madeira que representaria toda a pesquisa, e com base no que ele sabia, automaticamente os Neuroespelhos e os Estimuladores quânticos trabalhariam junto com a IA para garantir que isso seria materializado no mundo fictício.

A estratégia era simples. No equipamento obsoleto, havia uma latência de 15 minutos entre o que acontecia no mundo fictício e o que ocorria no mundo real. Se os equipamentos fossem desligados ou o cliente sofresse morte cerebral, sua mente ainda existiria durante 15 minutos lá dentro, antes de desaparecer também. A nova tecnologia era imune a isso. Não havia latência e a mente era totalmente separada do cérebro. Mas com ela destruída, o plano B de Pável era simples. Ele entrava em GoodValex, os colegas desligariam as máquinas por 12 minutos. Nesse meio tempo, ele esconderia a caixa contendo toda a pesquisa em  algum lugar do mundo fictício. Durante esses 12 minutos, a IA não transcreveria nada do que ele fez para o e-book, assim, impedindo que a NetLife tivesse acesso a localização dos dados da pesquisa, faltando 1 minuto para morrer, eles religariam a máquina, e ele voltaria. 3 minutos era pouco tempo para fugir, mas ele ainda teria uma chance de se safar por uma saída de emergência.

Antes de deitar na máquina, Pável entregou um NanoSD dentro de uma caixinha similar a de um anel, a Archibald Reese, sua assistente mais confiável e pediu que ela entregasse pessoalmente a Julya em sua casa. Ele permitiu que ela fugisse enquanto as primeiras camadas de defesa por hacking caiam perante as tropas NetLifers. Eles avançavam uma porta de segurança travada por vez. Havia 5 separando eles dos soldados, e 3 já haviam caído. Archie se despediu de Pável com um abraço, e ele saiu pela saída de emergência. Pável passeava inicialmente impressionado com o que havia criado. Ele olhava para os prédios enormes de GoodValex, brancos ao invés de pretos, os coqueiros reais na orla, o clima tropical e cálido, havia letreiros rosa e verde flutuando, mas não propagandas das infernais corps, e sim trechos de poemas e livros. Camões, Cervantes, Shakespeare, entre tantos outros. Ele gostaria de ter criado algo mais original, mas não tinha tempo, precisava recorrer a algo que conhecia bem.

Pável perdeu quase um minuto de seu curto tempo sentindo-se um demiurgo enquanto via as pessoas transitarem ali. Ele sabia que elas eram tão fictícias quanto o lugar, mas dado que o lugar fora criado em alguma n-dimensão de espaço e tempo alhures, seriam elas reais? Ou apenas NPCs, que era a terminologia usada no laboratório. Ele não tinha tempo para conhecê-las. Ainda maravilhado com quão real aquilo tudo soava e era percebido, ele enviou o sinal para os amigos de que era para desligar a máquina. A latência fez com que a mensagem chegasse no limiar do tolerável, e os cientistas desligaram o aparelho. Imediatamente o HoloPad parou de transcrever as ações de Pável no e-book. Nos próximos 12 minutos, ele estava por si só. Os NetLifers quebraram a última barreira de proteção ainda perto da conclusão do tempo. Os cientistas foram rendidos e Park-Woo, o operador não teve tempo de religar a máquina. Pável seguiu aguardando o momento em que seria retirado de lá após esconder a caixa no lugar mais importante para ele. Ele demorou um pouco a perceber que o que ele temia havia acontecido, mas já era tarde demais, sua percepção do mundo se borrou, e como alguém que caía num sono profundo, incapaz de lutar contra ele, sua mente se desfez.

Julya recebeu a encomenda inesperada ainda naquela tarde. Era Archibald Reese. Ele entregou o NanoSD contendo um vídeo gravado por Pável, explicando tudo: o projeto, a corrupção da NetLife e seu plano para proteger a pesquisa em um mundo fictício. Junto com o vídeo, havia 50.000 AZ$, dinheiro suficiente para Julya alugar uma casa confortável, ela deveria pegar o VTOL e seguir com destino ao Rio de Janeiro, no Brasil. "Use isso para cuidar de Yekaterina e de você mesma", dizia Pável na mensagem. "Eu queria poder fazer mais. Em breve a cobertura será vendida num leilão via blockchain e 450.000 AZ$ serão depositados na sua conta, você poderá recomeçar com esse dinheiro".

Julya assistiu ao vídeo com lágrimas nos olhos, compreendendo o sacrifício que Pável estava fazendo. Ela sabia que ele a amava e que estava disposto a arriscar tudo por ela e sua filha. Na NetLife, uma porta seprava os Netlifers de Pável. A equipe encheu o caminho de obstáculos. Uma conexão com o corpo vivo era mais trabalhosa, mas Pável já havia entrado em GoodValex, seu mundo fictício ideal para sua família dos sonhos. O que Julya não sabia era que nunca mais veria Pável. Assim, ela fez o combinado. Ainda no fim daquele dia ela já havia abandonado a cobertura, tomou o VTOL de Pável, ela mal sabia conduzir um carro comum, um VTOL parecia coisa de outro mundo, mas com algum sacrifício conseguiu decolar, demorou alguns segundos até ativar o reator ARC do carro, onde através de fissão nuclear controlada, os propulsores eram ativados, e após levantar vô de forma instável, conseguiu sair em linha reta e cruzar o oceano com destino ao que ela acreditava ser a direção da América do Sul abandonando a Ilha de Valex. Ela, Yekaterina e as memórias de Pável, era tudo o que sobrara. Sua filha ainda sem entender olhava maravilhada a luz do sol refletir a na superfície da água, enquanto voavam a 400 km/h a mais de um quilômetro de altura. Aos poucos sob o olhar carinhoso e melancólico de Julya, a pequena yekaterina pegou no sono.

Um bipe soou no watchphone da ex-dançarina, um valor de 450.000 AZ$ havia sido depositado pelo ID ZRT148787GG332587 na conta de sua filha no KriptBank. Era a cobertura leiloada. Ela tinha tudo para recomeçar, menos o homem que amava. Enquanto pensava nessas coisas, Julya, que não sabia dizer com certeza se estava indo para o lugar certo, seguia a marcação de terra mais próxima que a sofisticada aparelhagem do holo-GPS indicava e que ela não sabia manusear, ao ver uma porção de terra insular, supondo ser seu ponto de chegada, baixou vôo e aterrisou do modo mais atrapalhado possível. Ela perdeu o ponto de aterrisagem no holoponto, desceu com velocidade e energia cinética demais. O vundo do VTOL chocou-se contra o chão com força, despertando Yekaterina de seu sono tranquilo. O carro voador deslizou até sair do holoponto e cair no quintal de uma casa vitoriana com grande quintal, onde a Union Jack tremulava.

Ao sair do carro, viu um homem magrelo, mãos disformes assustado. Ele as olhava com olhos arregalados.

— Socorro! Minha filha é surda! Estamos presas! A porta emperrou! - Gritou Julya.

O rapaz largou o holopad, ainda assustado com o barulho, e correu até a porta, ele fez uma força grande demais para o biotipo dele, a ponto de ficar tonto. Então uma mulher linda, cabelos pintados em mechas azuis e ruivas chegou, vestindo uma blusa glossy nas cores da Union Jack.

— Senhorita Grey! - Gritou o rapaz — Ajuda aqui.

Com uma classe e destreza dignas de uma modelo de passarela ela se deslocou até o local, analisou o VTOL, modelo Clouds da Puma-X, e percebeu que o sistema eletrônico que governava a trava de segurança da porta havia quebrado com  o impacto. A mulher perguntou se elas tinham algum implante.

Julya percebeu o sotaque familiar. A mulher era de Valex, o sotaque muito característico da ilha, com a presença de “ee’s” inexistentes em palavras terminadas em consoantes e a substituição do “r” pelo “h” em palavras começadas em r era muito comum.   Julya assentiu que tinha um NanoSD com toda sua documentação. James olhou preocupado para Grey.

— Consegue passar pela greta pequena que se formou no trincado do vidro? - Perguntou o rapaz.

Meio receosa, Julya entregou. O rapaz se afastou, pegando seu holopad e entrando na casa. A mulher de cabelos coloridos, a tal Grey, então pareceu se concentrar em algo e um zumbido se ouviu. A porta imediatamente se destrancou.

— O que vocês fez? - Perguntou Julya aliviada. - É magia?

— Não. Pulso eletromagnético. Quando vim para cá, o mesmo aconteceu comigo na aterrissagem. Os modelos Clouds tem sistemas de travamento de porta bastante frágeis, no impacto os processadores param de funcionar, então você tem que usar um PEM neles, só assim eles se soltam. É como usar um desfibrilador num coração falhando.

— Obrigada! - Falou Julya, abraçando a filha, e recebendo de volta das mãos do rapaz o NanoSD.

— Não há de que! - Grey falou com um sorriso que não chegava aos olhos, com certa malícia até, Julya diria. - Venha! James, leve-a até a cozinha, sirva um chá às nossas hóspedes.

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...