23 de Abril de 2059: 23:39
O vidro não se partiu de imediato.
Primeiro veio o som — um estalo grave, quase elegante — e só depois a explosão branca.
Dois mechas emergiram do céu como espectros mecânicos, soltando-se dos helicópteros em pleno ar. Caíram de joelhos contra as vidraças da VxS Tower, atravessando o prédio como lâminas de porcelana armada. O impacto esmagou câmeras, tripés, corpos. Repórteres e jornalistas desapareceram sob toneladas de liga branca antes mesmo de entenderem o que estava acontecendo. O noticiário virou ruído. O chão virou silêncio.
Gritos. Alarmes. Fumaça.
Os seguranças de Valex Junior reagiram por instinto — um enxame humano formando um casulo em torno dele. O puxaram pelos braços, empurrando-o para a saída principal, como se a pressa pudesse reescrever o protocolo.
Debaixo das cadeiras tombadas da sala de convenções, Motoya rastejava com dificuldade, o vestido rasgado, os olhos atentos demais para o caos. Ela se inclinou para Caio, a voz baixa, urgente:
— Eu baixei a planta do prédio… é um arquivo público, da Biblioteca Histórica de Valex City. Em caso de ataque, o protocolo manda sair por uma porta secreta atrás da cortina do palco.
(pausa, o som distante de tiros)
Tem algo errado, Caio. Muito errado.
Caio engoliu em seco.
Tudo dentro dele girava em torno de um único eixo: Susi.
Susi de volta.
Motoya viva, como uma irmã mais nova doce que ele nunca teve. A Bruna era maluca demais para preencher aquele vácuo do jovem Caio desesperado por alguém que pudesse proteger e mimar. Bruna nunca tinha precisado de proteção. Em geral, ele é que precisava proteger os outros da Bruna.
A família que ele já havia construído dentro da própria cabeça não podia ruir ali.
Ele ergueu o olhar e então viu.
Rade Brunner. Ou melhor — PeaX.
Ela conduzia Archibald Reese pelo mesmo corredor por onde Valex Junior era evacuado. Caio assoviou — um som agudo, cortante, quase animal.
— TIRA A MOTOYA DAQUI! — gritou.
PeaX virou-se num reflexo. Estendeu a mão. Puxou Motoya para junto de si com força, tirando-a de debaixo de pilhas de cadeira enquanto os mecas avançavam esmagando jornalistas e socialaites.
— Tem uma saída de emergência atrás da cortina… — Motoya tentou explicar, ofegante.
— Não. — Reese cortou, seco. — Essas saída são mapeadas em arquivos que são públicos. A VxS Tower é patrimônio histórico. A Hard Light conhece essa saída e certamente montou uma interceptação. Provavelmente a equipe de segurança pessoal de Valex Junior sabe disso e tem um plano de contingência.
(apontando para baixo)
Vamos para a passarela do 40º andar. Ela liga a torre ao prédio da SonySoft. É a melhor chance dos civis escaparem.
Motoya, surpresa, quase sendo arrastada por PeaX, assentiu em silêncio.
— PeaX — disse Reese, mudando o tom — ajude a retirar os civis.
Ela hesitou.
Era o mesmo homem que tentara afastá-la para protegê-la.
Agora pedia que ficasse na zona de combate.
— Preciso acessar os servidores da VxS Tower — continuou ele. — Há drones de defesa embutidos nas paredes. Eles deveriam ter sido ativados. Se não foram, a segurança do prédio já foi comprometida, Adrian está dependente de seus seguranças pessoais, o que é desnecessário dizer, insuficiente. Eu preciso assumir o controle.
Motoya respirou fundo.
— Vai precisar de uma webrunner.
Reese fechou os olhos por um instante.
— Droga. Maldita hora em que aceitei a demissão da NETalie…
— Eu sou webrunner — disse Motoya. — Posso ajudar. E sei onde fica a sala, li os arquivos públicos.
— Ótimo. — Reese assentiu. — Vamos.
PeaX soltou a mão de Motoya. Ela correu à frente, guiando Reese pelos corredores laterais.
Atrás de uma pilastra estilhaçada, protegidos do fogo cruzado, Reese e PeaX ficaram por um segundo a mais — tempo suficiente para que o mundo se calasse entre eles.
— Ajude as pessoas — disse ele. — E me encontre na passarela.
— Por quê? — ela perguntou, a voz trêmula. — Por que agora?
— Porque eu aprendi com meu erro. — Reese sorriu, cansado. — Não vou ser paternalista de novo. E sem você… eu sou mais fraco.
(pausa)
Nada disso faz sentido se não for pra ajudar as pessoas.
— Archie… — PeaX começou.
— Eu te amo. — Ele se inclinou, rápido, urgente. — Tome cuidado.
O beijo foi breve, desesperado, real demais para aquele cenário de aço e fumaça.
Então Reese se afastou, correndo na direção de Motoya.
PeaX respirou fundo, virou-se para o caos —
e correu para salvar quem ainda podia ser salvo. Ela viu Reyna se posicionar na frente de Akira, nos olhos dela a disposição de proteger a chefe de polícia. Imediatamente percebeu uma replorgue bem vestida do lado do que parecia ser a irmã de Hanzo Hasashi, a replorgue esguia de cabelos longuíssimos, abrigava a menina com o próprio corpo, elas saiam do meio de uma chuva de balas das forças da VxS que chegaram pela porta de saída pra conter os invasores. 3 soldados da guarda de elite da VxS Tower e pelo menos 2 SpecOps da General Security.
A replorgue topou de cara com 4 soldados da Hard Light, os invasores, e teria sido baleada e morta junta com a irmã de Hanzo, se não fosse Kicilov arrancando o coração de um deles com a mão, e arrancando a cabeça de outro com a outra. Imediatamente, os fuzis que apontavam para as duas fugitivas, se viraram para o líder dos ST4L1N, ele tomou três tiros, mas resisitiu como se não fosse nada. Pegou os dois atiradores restante e arremessou pela janela do 80º andar em chamas como se fossem crianças.
— Sigam, senhoritas! Protejam-se! - Exclamou o replorgue comunista mostrando a saída.
Distante dali:
Roxxy dormia pesadamente quando sentiu o empuxo de uma mão puxá-la das profundezas do sono. Um som disforme, como se viesse de um encanamento emanava da HoloTV.
— Acorda, Roxxy! - Era a voz de Markus Kyle
— Caralho! Que porra é essa!? - Roxxy acordava grogue pelo tombo, pela bebedeira, pela noite caótica, seu corpo desvestido debaixo de um fino lençol ainda estava dolorido.
— A HoloTV! - A voz de Markus Kyle soava emergencial.
Roxxy se sentou na cama prendendo o lençol ao corpo com o antebraço que ainda tinha ralados cobertos por cascas de nanobots, que formavam o padrão geométrico de transistores. Ela estreitou os olhos e depois esfregou-os com os punhos.
— A VxS Tower está sob ataque. - Markus Kyle se vestia as pressas.
Roxxy então prestou atenção na notícia da VXC News.
"Estamos ao vivo sobrevoando o Centro Financeiro de Valex City, por ordem do conselho de acionistas da ValexSynthesis o espaço aéreo de Valex City foi fechado. Nós estamos aqui enquanto ninguém nos retira a força, o que é uma mera questão de tempo. Mas a Guerra Civil Corporativa atinge seu ápice com um ataque coordenado da Hard Light e da ex-ghostcorp BioSynthesis contra a VxS Tower, o símbolo do poder corporativo mundial. As informações relatam pelo menos 90 mortos até o momento."
Roxxy então, viu perplexa, a torre de leds coloridos, em chamas no terraço, os vidros do andar da sala de conferências em chamas, e pessoas se jogando desesperadas do último andar para escapar das chamas. Muitos funcionários menores, copeiros, garçons, zeladores, gente desimportante demais para que a GS desse atenção. Eles - é obvio - estavam protegendo as grandes fortunas da cidade. Roxxy estava vendo um golpe administrativo, muito possivelmente, uma tentativa desesperada de remover Adrian Valex e assassinar Kicilov e Archibald Reese.
— Ô seu palerma, porque você tá botando a roupa? - Gritou Roxxy.
— Você não está em condições de dirigir depois do tombo que tomou. Já pedi meus assessores pra mandar um VTOL... E você provavelmente vai lá ajudar seus amigos, então... Deixe-me pelo menos dirigir.
Roxxy levantou-se, rapidamente, engatando-o pela gola da camisa amarrotada e dando uma rasteira nele, arremessou-o sobre a cama.
Kyle ficou surpreendido e em choque. Roxxy subiu sobre ele, deu-lhe um leve beijo e com olhar malicioso sorriu.
— Ás suas ordens, Roxxy — Finalmente Markus falou algo.
— Assim que eu gosto. — Roxxy respondeu. — Você é um amor, Kyle... Quando é um bom menino, obediente... — E deu um sorriso malicioso. — Deixa que eu me viro... Mas você ganhou pontos comigo depois de se preocupar com esses detalhes. Eu não preciso estar lá para acabar com isso ainda hoje. Vou ligar pra "mamis"... Ela vai saber o que fazer...





