sábado, 13 de dezembro de 2025

[CONTO] Turning Point

23 de Abril de 2059: 23:39


O vidro não se partiu de imediato.

Primeiro veio o som — um estalo grave, quase elegante — e só depois a explosão branca.

Dois mechas emergiram do céu como espectros mecânicos, soltando-se dos helicópteros em pleno ar. Caíram de joelhos contra as vidraças da VxS Tower, atravessando o prédio como lâminas de porcelana armada. O impacto esmagou câmeras, tripés, corpos. Repórteres e jornalistas desapareceram sob toneladas de liga branca antes mesmo de entenderem o que estava acontecendo. O noticiário virou ruído. O chão virou silêncio.

Gritos. Alarmes. Fumaça.

Os seguranças de Valex Junior reagiram por instinto — um enxame humano formando um casulo em torno dele. O puxaram pelos braços, empurrando-o para a saída principal, como se a pressa pudesse reescrever o protocolo.

Debaixo das cadeiras tombadas da sala de convenções, Motoya rastejava com dificuldade, o vestido rasgado, os olhos atentos demais para o caos. Ela se inclinou para Caio, a voz baixa, urgente:

— Eu baixei a planta do prédio… é um arquivo público, da Biblioteca Histórica de Valex City. Em caso de ataque, o protocolo manda sair por uma porta secreta atrás da cortina do palco.
(pausa, o som distante de tiros)
Tem algo errado, Caio. Muito errado.

Caio engoliu em seco.
Tudo dentro dele girava em torno de um único eixo: Susi.
Susi de volta.
Motoya viva, como uma irmã mais nova doce que ele nunca teve. A Bruna era maluca demais para preencher aquele vácuo do jovem Caio desesperado por alguém que pudesse proteger e mimar. Bruna nunca tinha precisado de proteção. Em geral, ele é que precisava proteger os outros da Bruna. 
A família que ele já havia construído dentro da própria cabeça não podia ruir ali.

Ele ergueu o olhar e então viu.

Rade Brunner. Ou melhor — PeaX.
Ela conduzia Archibald Reese pelo mesmo corredor por onde Valex Junior era evacuado. Caio assoviou — um som agudo, cortante, quase animal.

TIRA A MOTOYA DAQUI! — gritou.

PeaX virou-se num reflexo. Estendeu a mão. Puxou Motoya para junto de si com força, tirando-a de debaixo de pilhas de cadeira enquanto os mecas avançavam esmagando jornalistas e socialaites.

— Tem uma saída de emergência atrás da cortina… — Motoya tentou explicar, ofegante.

Não. — Reese cortou, seco. — Essas saída são mapeadas em arquivos que são públicos. A VxS Tower é patrimônio histórico. A Hard Light conhece essa saída e certamente montou uma interceptação. Provavelmente a equipe de segurança pessoal de Valex Junior sabe disso e tem um plano de contingência.
(apontando para baixo)
Vamos para a passarela do 40º andar. Ela liga a torre ao prédio da SonySoft. É a melhor chance dos civis escaparem.

Motoya, surpresa, quase sendo arrastada por PeaX, assentiu em silêncio.

— PeaX — disse Reese, mudando o tom — ajude a retirar os civis.

Ela hesitou.
Era o mesmo homem que tentara afastá-la para protegê-la.
Agora pedia que ficasse na zona de combate.

— Preciso acessar os servidores da VxS Tower — continuou ele. — Há drones de defesa embutidos nas paredes. Eles deveriam ter sido ativados. Se não foram, a segurança do prédio já foi comprometida, Adrian está dependente de seus seguranças pessoais, o que é desnecessário dizer, insuficiente. Eu preciso assumir o controle.

Motoya respirou fundo.

— Vai precisar de uma webrunner.

Reese fechou os olhos por um instante.

— Droga. Maldita hora em que aceitei a demissão da NETalie

— Eu sou webrunner — disse Motoya. — Posso ajudar. E sei onde fica a sala, li os arquivos públicos.

— Ótimo. — Reese assentiu. — Vamos.

PeaX soltou a mão de Motoya. Ela correu à frente, guiando Reese pelos corredores laterais.

Atrás de uma pilastra estilhaçada, protegidos do fogo cruzado, Reese e PeaX ficaram por um segundo a mais — tempo suficiente para que o mundo se calasse entre eles.

— Ajude as pessoas — disse ele. — E me encontre na passarela.

— Por quê? — ela perguntou, a voz trêmula. — Por que agora?

— Porque eu aprendi com meu erro. — Reese sorriu, cansado. — Não vou ser paternalista de novo. E sem você… eu sou mais fraco.
(pausa)
Nada disso faz sentido se não for pra ajudar as pessoas.

— Archie… — PeaX começou.

— Eu te amo. — Ele se inclinou, rápido, urgente. — Tome cuidado.

O beijo foi breve, desesperado, real demais para aquele cenário de aço e fumaça.
Então Reese se afastou, correndo na direção de Motoya.

PeaX respirou fundo, virou-se para o caos —
e correu para salvar quem ainda podia ser salvo. Ela viu Reyna se posicionar na frente de Akira, nos olhos dela a disposição de proteger a chefe de polícia. Imediatamente percebeu uma replorgue bem vestida do lado do que parecia ser a irmã de Hanzo Hasashi, a replorgue esguia de cabelos longuíssimos, abrigava a menina com o próprio corpo, elas saiam do meio de uma chuva de balas das forças da VxS que chegaram pela porta de saída pra conter os invasores. 3 soldados da guarda de elite da VxS Tower e pelo menos 2 SpecOps da General Security. 

A replorgue topou de cara com 4 soldados da Hard Light, os invasores, e teria sido baleada e morta junta com a irmã de Hanzo, se não fosse Kicilov arrancando o coração de um deles com a mão, e arrancando a cabeça de outro com a outra. Imediatamente, os fuzis que apontavam para as duas fugitivas, se viraram para o líder dos ST4L1N, ele tomou três tiros, mas resisitiu como se não fosse nada. Pegou os dois atiradores restante e arremessou pela janela do 80º andar em chamas como se fossem crianças.

— Sigam, senhoritas! Protejam-se!  - Exclamou o replorgue comunista mostrando a saída.

Distante dali:

Roxxy dormia pesadamente quando sentiu o empuxo de uma mão puxá-la das profundezas do sono. Um som disforme, como se viesse de um encanamento emanava da HoloTV.

— Acorda, Roxxy! - Era a voz de Markus Kyle

— Caralho! Que porra é essa!? - Roxxy acordava grogue pelo tombo, pela bebedeira, pela noite caótica, seu corpo desvestido debaixo de um fino lençol ainda estava dolorido.

— A HoloTV! - A voz de Markus Kyle soava emergencial.

Roxxy se sentou na cama prendendo o lençol ao corpo com o antebraço que ainda tinha ralados cobertos por cascas de nanobots, que formavam o padrão geométrico de transistores. Ela estreitou os olhos e depois esfregou-os com os punhos.

— A VxS Tower está sob ataque. - Markus Kyle se vestia as pressas.

Roxxy então prestou atenção na notícia da VXC News.

"Estamos ao vivo sobrevoando o Centro Financeiro de Valex City, por ordem do conselho de acionistas da ValexSynthesis o espaço aéreo de Valex City foi fechado. Nós estamos aqui enquanto ninguém nos retira a força, o que é uma mera questão de tempo. Mas a Guerra Civil Corporativa atinge seu ápice com um ataque coordenado da Hard Light e da ex-ghostcorp BioSynthesis contra a VxS Tower, o símbolo do poder corporativo mundial. As informações relatam pelo menos 90 mortos até o momento."

Roxxy então, viu perplexa, a torre de leds coloridos, em chamas no terraço, os vidros do andar da sala de conferências em chamas, e pessoas se jogando desesperadas do último andar para escapar das chamas. Muitos funcionários menores, copeiros, garçons, zeladores, gente desimportante demais para que a GS desse atenção. Eles - é obvio - estavam protegendo as grandes fortunas da cidade. Roxxy estava vendo um golpe administrativo, muito possivelmente, uma tentativa desesperada de remover Adrian Valex e assassinar Kicilov e Archibald Reese. 

— Ô seu palerma, porque você tá botando a roupa? - Gritou Roxxy.

— Você não está em condições de dirigir depois do tombo que tomou. Já pedi meus assessores pra mandar um VTOL... E você provavelmente vai lá ajudar seus amigos, então... Deixe-me pelo menos dirigir.

Roxxy levantou-se, rapidamente, engatando-o pela gola da camisa amarrotada e dando uma rasteira nele, arremessou-o sobre a cama.

Kyle ficou surpreendido e em choque. Roxxy subiu sobre ele, deu-lhe um leve beijo e com olhar malicioso sorriu.

— Ás suas ordens, Roxxy — Finalmente Markus falou algo.

— Assim que eu gosto. — Roxxy respondeu. — Você é um amor, Kyle... Quando é um bom menino, obediente... — E deu um sorriso malicioso. — Deixa que eu me viro... Mas você ganhou pontos comigo depois de se preocupar com esses detalhes. Eu não preciso estar lá para acabar com isso ainda hoje. Vou ligar pra "mamis"... Ela vai saber o que fazer...

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

[CONTO] True Talk, Trash Talk

22 de Abril de 2059 às 00h

A chuva batia lentamente contra os vidros fumê da casa em Templeton Hill, escorrendo em linhas tortas que refletiam o brilho distante do centro financeiro do outro lado do rio Valex. A ponte Ahmed cintilava sob o mau tempo, como se cada luz tentasse respirar no meio da neblina.

Archibald Reese estava sentado na velha cadeira de couro negro, o corpo ligeiramente curvado para frente, os dedos entrelaçados, o rosto cansado. O livro aberto sobre a mesa estava virado de cabeça para baixo — ele não lia havia horas. Só observava a chuva. Só tentava, no silêncio, fazer as pazes consigo mesmo.

Foi quando sentiu o toque leve dos passos dela.

Peax apareceu na porta da sala como um vulto terno, misto de sombra e luz. Seu cabelo branco brilhava sob o reflexo das lâmpadas quentes. Ela o analisou por um instante — aquele homem enorme, carregando dentro do peito algo muito mais pesado que o seu porte físico sugeria.

Sem dizer nada, caminhou até ele, subiu devagar sobre o colo dele e se ajeitou como se aquele lugar sempre tivesse sido seu. Reese quase prendeu a respiração.

— Você voltou… — ele murmurou, a voz mais baixa que o som da chuva.

— Voltei — sussurrou Peax, inclinando-se para beijar seus lábios.

O beijo foi leve, contido, como se ela precisasse provar que ele ainda era real. As mãos de Reese subiram pelas costas dela, puxando-a com cuidado, com medo de quebrá-la, com medo de quebrar o momento.

— Eu não sabia onde estava com a cabeça quando deixei você ir, Peax — disse ele, enfim.

Ela encostou a testa na dele.

— Eu te perdoo. Todos têm medo.

— Você teve medo de que eu ficasse sozinho — respondeu Reese.

— Tive — admitiu ela. — E você? Teve medo de quê?

— Dos meus próprios devaneios.

Peax ergueu o rosto devagar, como se buscasse algo nas pupilas dele.

— Você acha que eu não enfrentaria uma bala por você? — ela provocou.

Reese sorriu de lado, triste.

— Você enfrentaria. É isso que me assusta.

— E você? — a voz dela ficou baixa, um fio de seda. — Faria o mesmo por mim?

Ele inspirou.

— Sim. Sem hesitar.

Peax acomodou a cabeça no ombro dele.

— Então não se subestime — murmurou. — Somos iguais.

Eles se beijaram novamente, dessa vez mais devagar, como se estivessem aprendendo o tempo um do outro. O mundo lá fora ficou suspenso entre trovões e silêncios.

Depois de alguns minutos, Peax virou o rosto para a janela.

— Hum… falando em julgar pessoas — ela começou, com a voz distraída — eu gosto da Roxxy. Ela é incrível. Genial. E eu acho que você fez certo em dar espaço para ela na NeuralDesk.

Reese soltou um suspiro profundo.

— Roxxy e eu pensamos diferente — disse ele.

— Diferente como? Ética? Ciência?

— Não — ele sorriu com um cansaço antigo. — Diferente sobre sociedade. Sobre o que o mundo nos força a ser.

Peax ficou pensativa, inclinando a cabeça.

— Mas… você acha mesmo que vocês são parecidos?

— Essencialmente, sim.

— Por quê?

Reese fechou os olhos por um instante, procurando as palavras certas.

— Porque tanto eu quanto ela acreditamos que a ciência é um dom, Peax. Uma virtude humana. A mais frágil, a mais infantil, a mais preciosa. É o que nos separa da barbárie. É o que faz uma mãe poder segurar o filho que deveria ter morrido. É o que nos permite olhar as estrelas sem medo. É o que faz alguém tentar curar o Alzheimer mesmo sabendo que talvez não haja cura.

Peax sorriu de leve, emocionada.

— Ok… eu vejo isso nela. Mas você sabe. Ela ainda tem aquela visão mecanicista dos replorgues…

— Ela é jovem — disse Reese. — Tem muito tempo para se frustrar e aprender... E o problema nunca foi a ciência. O problema é o mundo à volta dela.

Ele respirou fundo. Um silêncio pesado caiu entre os dois — o tipo de silêncio que precede verdades dolorosas.

— Peax… quando um cientista se forma nas grandes universidades de Valex City, ele sonha alto. Quer curar o câncer. Criar vida. Resolver a morte. E as corporações…

— Capturam tudo, né? — completou ela.

— Tudo — confirmou Reese. — Elas olham para nossos sonhos e dizem “Nós financiamos. Nós acreditamos em você”. Então, quando a pesquisa começa a avançar… alguém do topo aparece dizendo que é preciso mudar a direção. Que os acionistas querem resultados rápidos. Que o neurobot para Alzheimer agora precisa virar um instrumento de controle. E se você não aceita…

— Você perde tudo — murmurou Peax.

— Sim. E aí você cede. Só por um pouco. Só até garantir a segurança dos seus filhos. Só até pagar as dívidas estudantis. Só até não perder tudo o que construiu.

— E esse “só até”… nunca acaba — concluiu ela.

Archibald assentiu, sombrio.

— E de repente o aparelho que você criou para curar o cérebro de uma criança… termina na cabeça de uma garota de cabelos roxos… que corta os pulsos em uma banheira. Foi assim que o sistema sempre operou.

Peax fechou os olhos por um momento, sentindo o peso da confissão.

— E Roxxy? — perguntou. — O que você quer com ela?

— Quero que ela me ajude a provar a Lei de Woo-Reese... E... Acho que também quero dar a ela a chance que eu não tive — respondeu Reese. — Aqui na NeuralDesk, Peax, nossa margem de lucro é pequena. Poderia ser cem vezes maior se fabricássemos armas ou ferramentas de controle. Mas eu preferia falir tentando fazer o certo… do que morrer sabendo que traí tudo em que acredito.

Peax então o encarou com uma suavidade rara, quase triste.

— Então… você não está salvando só a ciência.

— Não.

— Você está salvando ela.

Reese baixou o olhar.

— Estou tentando dar a ela o futuro que roubaram de mim. Que roubaram do Pável.

Peax sorriu, acariciando o rosto dele.

— Archie… você é tão triste que chega a ser brilhante.

— E você é a única pessoa que ainda vê luz em mim.

— Alguém precisa ver — ela disse. — Afinal… se a vida é breve, como você mesmo disse, tudo o que podemos fazer… é tentar ser melhores uns com os outros.

Reese puxou-a para mais perto.

Peax repousou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater como um motor cansado que ainda teima em funcionar.

A chuva continuava do lado de fora.

E, pela primeira vez em meses, Archibald Reese não sentiu medo do futuro — apenas a melancolia doce de quem sabe que ainda é capaz de amar… e de tentar salvar alguém do mesmo abismo que quase o consumiu.

sábado, 22 de novembro de 2025

[CONTO] O Solilóquio de Reese

Sabe… às vezes eu penso que nós passamos a vida inteira

tentando enganar a única coisa que nunca nos abandona:

nós mesmos.

Eu vi homens tentando domar a morte como quem tenta fechar a mão sobre o vento…

Vi corpos duplicados como arquivos, cérebros copiados como versões de software, pessoas acreditando que poderiam escapar da verdade mais antiga do universo.

Mas… não importa quantas memórias você transfira, não importa quantas máquinas você construa… a experiência — esse olhar silencioso que testemunha o mundo de um único ponto no tempo — isso você não copia. Isso não viaja. Isso não renasce no corpo de outro.

Eu vi consciências artificiais sentindo dor real.

Vi autômatos tremendo diante da escuridão como qualquer criança humana.

Vi faíscas do nascimento de uma alma… onde diziam que só havia progrmação.

E vi homens poderosos…

rezando para um espelho digital acreditando que poderiam enganar a morte

enquanto já estavam mortos por dentro. Sabe o que aprendi, depois de tudo isso?

A morte não é o inimigo.

O inimigo é a mentira que nos faz esquecer

que cada instante é único —

porque é vivido por alguém que nunca existiu antes

e nunca existirá de novo.

Só se vive uma vez, então, por que gastar seus dias e seus momentos odiando pessoas que você nem conhece? Se a vida é um breve testemunhar do que há entre infinitudes de nada antes e depois de nós, por que gastar esse breve momento deixando-se afetar pelo ódio? Aproveite a vida, memento mori,

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

[CONTO] Ozzymandias

Valex City, 20 de Abril de 2059 - 00:00

A casa em Templeton Hill estava silenciosa, iluminada apenas pela luz opaca que atravessava as cortinas translúcidas. Lá fora, a névoa se apoiava nos telhados como um animal adormecido, e o som do vento contra o vidro parecia mais um lamento distante.

Rade caminhava pela sala de estar com passos leves. Silenciosos demais para alguém da DSM. —mas exatamente como PeaX se movia. Ela conhecia cada textura daquela casa, cada tábua que fazia ruído, cada canto onde a luz falhava. E lá estava ele, sentado no sofá de couro preto, o corpo inclinado, um livro aberto entre as mãos.

Macbeth, de William Shakespeare.

A tragédia refletia nos olhos dele como se estivesse sendo projetada diretamente em sua alma.

Archie… — ela engoliu o deslize — Digo, senhor Reese…

Reese ergueu os olhos devagar, sem marcar a página. Ele já tinha memorizado o trecho.

Roxxy acabou de me informar que o Caio foi atacado e ferido pela BioSynthesis.
O bunker dele foi destruído. Alguns dos soldados morreram.

A expressão de Reese contraiu levemente, como se tivesse recebido um golpe preciso.

Como ele está?

Sendo cuidado diretamente pela Roxxy na A-Verheyen. Ela cruzou as mãos atrás do corpo, postura militar impecável. — Ela conseguiu estabilizá-lo e implantou uma perna biônica.

Reese soltou um ar que parecia metade preocupação, metade alívio.

Ótimo.
Fechou o livro com uma mão e encostou-o ao lado.
Coloque todo o tratamento na conta da NeuralDesk. E informe a ele, através da Roxxy, que quaisquer danos materiais serão cobertos pelo orçamento da empresa.

Rade se aproximou mais um passo.

O blindado ainda está operacional, mas severamente danificado.

Contrate um mecânico.
Levantou-se, ajeitando o casaco.
Já encomendei um segundo blindado. Deve estar para chegar.

Ela assentiu, mas não saiu. Ficou ali, observando-o com algo que não era profissional—um cuidado antigo, familiar, quase instintivo. Ela olhava-o como alguém que queria abraçá-lo.

Reese percebeu.

O que foi, Rade?

Ela respirou fundo, prendeu o ar por um instante e o soltou devagar.

— Apenas me indagando porquê está lendo um clássico.

— Gosto dos clássicos... E além do mais, acabei de ser informado pela Akira Sato… que Shui Hao…
A voz falhou por um instante.
Que ela está morta.

O silêncio que se seguiu parecia uma lápide caindo.

Rade parou no meio do movimento. Um músculo em seu maxilar tremeu.

Meu Deus… — ele murmurou. — Mas o que aconteceu?

Reese manteve o olhar firme, Rade também, mesmo que por dentro PeaX estivesse despedaçando-se. Ela não conhecia Shui Hao, mas se compadeceu por ter vivido a mesma coisa que ela. Peax empatizou com a história de Shui contado por Huyang Chin mais cedo.

Contaram a verdade pra ela. Ela conseguiu um tempo sozinha… e tirou a própria vida.
Ele baixou os olhos.
Quando perceberam, já era tarde.

Reese fechou a mão em punho—forte.
Tão forte que os estalos ecoaram pela sala como pequenos tiros abafados.

Rade conteve o impulso de tocá-lo.

O senhor a conhecia? — ela perguntou, com a voz cuidadosamente neutra.

Não.
Ele caminhou até o bar da sala e serviu-se de um uísque âmbar.
Mas eu imagino o que o Hanzo deve estar sentindo… e a Akira também.

Rade abaixou um pouco a cabeça.

O Togall… não é? Você disfarça bem, mas quem o conhece ou presta muito atenção, dá pra ver que por dentro ainda está consumido pela raiva.

Sim. Isso tem que acabar... 

Ele tomou um gole lento, olhou pela janela, inspirou o cheiro do mundo lá fora como se fosse fumaça de um campo de batalha. A chuva voltava a cair...

Amanhã é o velório dela...
Virou-se para Rade ao dizer.
Decidiram enterrá-la, não cremá-la. Uma decisão bela. É uma forma de reconhecer a humanidade daquela pobre criança.

Ele pousou o copo, mas não soltou o livro. Passou os dedos pela capa.

— Rade... Espero que não tenha se chateado por eu ter ido até Kazuma contra suas recomendações.

Rade ergueu o olhar, mas PeaX piscou por trás dos olhos dela.

Foi só preocupação, Archibald.
O nome escorregou antes que ela pudesse impedir.
Mas acabou que você estava certo. Já sabe que, se a BioSynthesis descobrir que o Control 2.0 e os Neurobots estão sob sua posse, você vai virar alvo novamente, não sabe?

Reese sorriu, mas era um sorriso frio, calculado.

Sim… mas eu tive uma bela ideia com a Reyna... E o Hanzo me deu uma boa ideia também... Os dois trabalham muito bem juntos sem nem perceberem...
Voltou a andar pela sala, como um general estudando o terreno.
Vamos devolver tudo. Vou dizer bem claramente que não tenho interesse na tecnologia e devolver tudinho... Com um vírus. 

Rade estreitou os olhos.

Um vírus?

Precisamos de uma webrunner ou hacker nível 5. Capaz de destruir os servidores da BioSynthesis.
Ele pegou o copo de volta, levantou-o levemente como quem faz um brinde à própria insanidade.
Talvez eu consiga vencer a guerra sem disparar um único tiro.

Acha mesmo que isso é possível?

Ele parou diante dela.
O ar entre os dois parecia eletrificado.

Sim, Rade. Verão minha devolução como uma rendição, uma bandeira branca... Vão baixar a guarda...
Reese respirou fundo.
Acabo de nomeá-la minha nova Fixer.

Ela piscou.

Fixer… eu?

— Sim... Seu nome já está no site... Quero que procure Harley Crimson, fixer da ValexSynthesis.
A voz dele ficou mais baixa, mais decisiva.
Quero propor um acordo ao Adrian Valex Junior.

Rayde deu um passo à frente, tentando esconder a perplexidade.

Que tipo de acordo?

Reese ergueu o copo, como se estivesse fazendo um juramento silencioso ao destino.

Quero que a ValexSynthesis e a BioSynthesis dividam o mesmo cavalo de troia.
Seu sorriso era sombrio.
Quando ambas estiverem de joelhos… vou me reunir com Kicilov. E juntos, vamos derrubar a Hard Light. Um tiro... Três coelhos... 

Rade sentiu um arrepio subir pela espinha.

Você planejou tudo isso?

Reese largou o copo.
O som seco ecoou pela sala.

Não.
Virou-se com calma.
Mas o cavalo passou selado… e eu não vou perdê-lo.

Ele apoiou uma mão no ombro dela.

Akira Sato me ensinou isso. Ela só teve uma chance para resolver o Heist. E aproveitou.

Os olhos dele brilhavam com algo entre fúria e esperança.

Eu não vou deixar a sorte me escapar. Amanhã mesmo, após o velório, irei com Roxxy até Ostermann Heights, quero colocá-la ajudando Park Woo no projeto HAET, ele é a segunda parte do meu plano... Depois de fazer um ataque poderoso contra todos os três, vou expor a farsa do HCC para o mundo todo.

— Archie... Vão matá-lo! 
— Rade se aproximou vermelha de preocupação.

— Estarei bem guardado.

— Por um gangster perneta e uma gangue de replorgues e motoqueiros comunistas pouco confiáveis?

— Sim... Serei o aríete deles. Depois de verem o meu trabalho, perceberão que precisam de mim.

— Archie, isso é megalomania... Não posso permitir você fazer isso.

Reese riu e citou um poema de Percy Shelley: “Meu nome é Ozzymandias, Rei dos Reis; Contemplai minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”

— Isso é loucura! — Rade já estava a ponto de chorar.

— É o meu testamento para aquela que amo, Rade... Você me sugeriu isso.
— Ela não quer que faça isso... — A voz saiu mais de Peax que de Rade.

— Como você sabe? Nem a conheceu.
— A conheço desde que a libertou e retirou memórias traumáticas da cabeça dela.

Reese se afastou um pouco perplexo:

— Como sabe disso?

Peax develou-se diante dele, quando a máscara de Rade foi retirada. Os cabelos brancos venceram a holografia traseira da máscara, e os olhos vermelhos surgiram com o cair dos cabelos brancos.

— Porque a Peax nunca te abandonaria,...Porque eu te amo... E sei que você me ama... Não quero que morra...

Reese caiu sentado no sofá perplexo... De repente, tudo fazia sentido. Mas ele não se irritou de imediato, ele foi inebriado pelo beijo desesperado da replorgue, e por um cheiro quase metafísico que vinha de Peax. 

08:00



A manhã chegou silenciosa, Reese despertou confuso... Ao seu lado estava PeaX, nua, cabelos brancos repousados sobre seu peito, cabeça sobre seu braço esquerdo levemente dormente. Ela dormia tranquilamente, ele tentava processar tudo. Lembrava-se muito pouco do que ocorrera desde a conversa, mas seu coração pela primeira vez não tinha raiva nem megalomania... Ele deveria se irritar por tudo, mas de alguma forma, estava feliz.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

[CONTO] De que vale ao homem conquistar o mundo se perder a sua alma?

 19 de Abril de 2059 - 12:00

O TesyD Bloodshed cortava a névoa sobre o Rio Valex como uma navalha cromada. O VTOL — um modelo de luxo recém-lançado pela TesyD, com hélices estabilizadoras e propulsão a jato — carregava discretamente o logo da NeuralDesk, iluminado por LEDs azulados na fuselagem. Era rápido, elegante e incrivelmente silencioso, exceto pelo zumbido constante das turbinas ajustando altitude.

Reese observava a cidade abaixo pela parede de vidro do cockpit. As faixas de néon refletiam na água como circuitos líquidos. Ele se perguntava, pela décima vez naquela semana, por que a Hard Light ainda não havia simplesmente derrubado seu VTOL. Bastaria um único míssil guiado. Aquele era o trecho mais vulnerável do seu dia — o voo entre Templeton Hill e a Borda do Centro Financeiro, onde seu prédio e o da Hard Light se encaravam como dois obeliscos negros, revestidos de painéis reflexivos e quase sem janelas. Irônicos, sombrios e vizinhos.

Ao seu lado, Rade apreciava a vista. O rosto dela estava meio oculto pela luz azul que atravessava o cockpit, mas os olhos observavam silenciosamente tudo.

O watchphone de Reese vibrou.

ID: desconhecido.

Ele franziu o cenho.

— Doutor Reese? — a voz saiu instável, atravessada de ruído digital. O sotaque denunciava alguém que havia emigrado recentemente para Kazuma.

Reese reconheceu de imediato o contraste: o Inglês dele — canadense, suave — quase sempre destoava do sotaque valexiano típico com seus “ee’s” e “y’s” no final das palavras.

— Sim. Com quem falo?

O holograma piscou, deformado por interferência.

— Consegui seu ID graças ao banco de dados da inteligência da BS. Sou Chin. Huyang Chin.

— BS? BioSynthesis.

— Isso. Preciso de ajuda…

Reese ergueu uma sobrancelha.

— Tá? E que mal lhe pergunte…

Antes que completasse a frase, Rade tocou seu ombro e fez sinal para que ele se calasse.

Com movimentos rápidos, ela tirou um cabo USB do coldre lateral e conectou seu próprio watchphone ao dele. Em segundos, iniciou um rastreamento ativo e uma gravação criptografada. Os dedos dela trabalhavam com precisão militar.

Reese arregalou os olhos por um instante. Aquele tipo de atitude vinha mais de um agente de inteligência corporativa do que de um guarda-costas comum.

Rade continuou em silêncio, concentrada.

A voz de Chin voltou, ainda distorcida:

— Reese? O sinal desapareceu…

— Não! Estou aqui. — Ele ajeitou o dispositivo. — Que mal lhe pergunte, mas por que você — crítico ferrenho da Darwinorrobótica, que sempre dizia que autômatos biossintéticos eram pura programação — está me procurando?

O holograma estável por um momento.

— Foi graças a mim que a BS, ouvindo meus conselhos, recomendou à Hard Light deixar você quieto.

Uma pausa pesada.

— Deveria me ouvir.

Reese estreitou os olhos.

— Não foi isso que perguntei, embora a resposta seja interessante. Podemos falar mais tarde sobre os vínculos da BS com a Hard Light.

Chin respirou fundo, e o ruído do microfone ampliou seu nervosismo.

— Eu estava errado, dr. Reese. Pável, Ferguson, você… vocês estavam certos. E eu… eu fiz uma monstruosidade.

Outra pausa, mais curta.

— Preciso de abrigo. Preciso que alguém me escolte até um lugar específico… onde talvez eu não seja bem recebido.

Reese manteve o tom frio:

— E o que eu ganho com isso? Por que eu deveria confiar em você? Afinal, você está prestes a ganhar um Nobel por uma teoria baseada em algo que agora diz estar errado.

Huyang Chin soltou um riso amargo.

— O Nobel é um prêmio corporativo, dr. Reese. Ele não premia a melhor pesquisa científica — premia a que enriquece as corporações.

A voz dele falhou, mas não pela interferência.

— E não existe razão para confiar em mim. É pegar ou largar. Mas eu lhe asseguro… você não vai se arrepender. O que eu tenho em mãos…

O holograma se estabilizou por um segundo.

— …é o segredo dos neurobots.

Reese virou-se para Rade, perplexo.

Ela já havia concluído o rastreamento.

— Doutor Reese, localizamos. — sussurrou. — Altitude equivalente a Trinidad e Tobago. Movendo-se em direção a Valex a 900 km/h.

Reese voltou ao holograma.

— Por que você me daria sua maior pesquisa? Não faz sentido.

O VTOL começou a reduzir altitude, aproximando-se da plataforma de pouso da NeuralDesk. As hélices mudaram de ângulo, e a vibração da cabine aumentou.

A resposta veio com uma honestidade que Reese não esperava:

— Para salvar minha alma…

Uma pausa longa o suficiente para gelar o cockpit.

— …e minha filha.

Reese sentiu a verdade naquelas palavras. Não sabia o que aquilo significava, mas sabia reconhecer desespero — e sinceridade — quando ouvia.

O Bloodshed aproximou-se do heliporto, flutuando alguns metros acima antes do pouso suave.

— Me encontre na minha residência, em Templeton Hill. — disse Reese, firme. — Pedirei à minha guarda-costas para lhe passar instruções detalhadas.

— Não. — Falou Chin com sua voz obstruída por ruídos de distância — Xin Jin Yang Boulevard, Distrito de Kazuma.

— Por que lá? — Reese questionou. Rade insistiu em voz sussurrada que não era seguro.

— Preciso salvar a minha... filha... Ela está lá. — A voz era um desabafo.

— Tudo bem. Te encontro lá assim que entrar no espaço aéreo de Valex.

Do outro lado, Chin suspirou como alguém que voltava a respirar depois de horas submerso.

— Obrigado, dr. Reese.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

[CONTO] Femininidades hiperativas


Shui Hao estava terminando de se arrumar para ir ao shopping, cabia a ela terminar de se arrumar, sair, fechar a porta. O relógio no criado-mudo marcava sete e quinze, e o sol filtrado pela neblina que entrava pelas frestas da persiana parecia zombar dela, com seu brilho de garota hiperativa muito necessitada de ritalina. Lá fora, Akira, Akame, Akali e Yumi esperavam pacientemente no corredor — a algazarra contida dos que sabiam respeitar o espaço alheio.

Ela respirou fundo. O uniforme de vinil roxo e amarelo da Teller Academy, que usara na noite anterior, estava pendurado na lavanderia, gotejando sobre o azulejo. Ainda exalava o cheiro agridoce de sangue, medo e suor.

"Não dá mais pra usar isso. Cheira à noite que eu quero esquecer."

Com delicadeza, Shui escolheu um short e uma camisa simples — nada demais, nada chamativo.

"Hoje, eu só quero ser invisível" — pensou.

Enquanto abotoava a camisa, a lembrança do que fizera na noite anterior retornou como uma onda fria: a conversa precipitada, o contato com o pai — ou com aquele que dizia ser o pai. Ela não sabia mais em que acreditar. A forma de escrever era familiar demais, quase paternal demais. E talvez fosse isso que doía: a ideia de que pudesse ser apenas um fantasma eletrônico, uma fraude.

Shui olhou para a janela. A névoa sobre Valex parecia densa, como um espelho sujo.

"Recomeçar", dissera Hanzo. "Você precisa recomeçar, Shui. Não é tão ruim assim". — Ela se lembrou.

E ela tentou. Chegara à casa de Akira com o coração nas mãos, rosto afundado em tristeza, confusão e vergonha, no colo da chefe de polícia. Ela chegou ali destruída, mas disposta a enterrar o passado. O passado, no entanto, não se deixa enterrar facilmente. Ele cava de volta, arranha, insiste, como se conduzido por cordas invisíveis. A memória do antigo e-mail corporativo da firma — aquele endereço impessoal e inofensivo — piscou na mente dela como um lampejo de tentação. Chegou como se trazido de fora a mão.

Foi tudo o que bastou, no entanto, Shui afastou a lembrança daquele erro. Shui pegou a bolsa.

Com lembranças de seu cavaleiro etílico de armadura brilhante, pensou: "Talvez eu compre uma blusa nova, talvez algo azul… será Hanzo gosta de azul?". E de repente um sorriso tímido e apaixonado tomou conta de seu rosto. Seu coração de aqueceu em ternura, com a memória dos braços dele a segurando naquela noite. Era paradoxal que a mesma noite que lhe trazia calafrios, era a que trazia borboletas no estômago... Ela nunca tinha se sentido tão protegida como naquele momento, após despertar. Era como dormir numa cama confortável numa noite de chuva.

Ela já se encaminhava à porta quando uma voz grave e inconfundível ecoou do corredor.

— Oka-sama... Bom vê-la.

O som congelou o ar.

Era ele.

Hanzo.

A respiração de Shui falhou. Por um instante, sentiu-se uma criança pegando algo que não devia, um bichinho com asma. Olhou para si num espelho decorativo na sala: a camisa larga, o short simples, o cabelo preso sem graça.

Não. Assim, não. Ele não pode me ver assim.

Hanzo era um homem de presença rara — alto, fortíssimo, belo, a postura firme de quem carrega o mundo sem reclamar. Mesmo depois da notícia terrível daquela manhã — o assassinato em Subferro, o assassino que se parecia demais com ele pra não ser, os nomes sussurrados —, ela não conseguia duvidar dele.

"Eles estão errados. Hanzo não seria capaz daquilo... Ou seria? Ele matou um de seus agressores... Se for — Shui conjecturou — Ele devia ter um motivo... Estava protegendo alguém... Certamente."

A ideia de que pudesse ser outra mulher acendeu ciúmes em seu coração. Como assim, ele protegeria outra que não ela?

Shui afastou aqueles devaneios de sua mente apressada. "Que ridículo... Ele não é nada meu. Nem nos beijamos ainda... Ele não olharia pra mim com pensamentos impuros... Ele é um cavalheiro..."

— Céus... Preciso de ritalina, ou um calmante... — Sussurrou pra si.

Ela ajeitou a pose, ensaiou um sorriso. "Ele é um cavalheiro... Por isso preciso incentivá-lo".

Com o coração em disparada, ela correu de volta ao quarto. O armário de Yumi estava semiaberto, exalando o perfume doce e contido da dona. Shui puxou um cabide, depois outro, depois outro — tecidos macios, cortes discretos.

Ela é tão pura, até nas roupas.

Não havia nada provocante, nada que dissesse “olhe para mim”. Mas Shui precisava — precisava — ser vista. Improvisou: subiu a saia até o diafragma, ajustou o cós com um broche, vestiu uma meia-calça retirada do cesto de roupas lavadas, não sabia de quem era... Talvez fosse de Akira. Cheirou.

Está limpa. Está boa o suficiente.

Enquanto se trocava, sua mente se encheu de imagens que não sabia controlar.

Ele vai me ver. Vai sorrir. Vai dizer que estou linda... Será?

As cenas brotavam como se alguém as projetasse dentro dela: o primeiro beijo, as risadas cúmplices, o toque das mãos sob a chuva.

Depois — filhos. Um menino e uma menina, com olhos puxados e cabelos de bronze.

A briga por qual escola escolher.

Ela, vestida de noiva.

Akira e Akali sorrindo, Yumi chorando discretamente. Naria de dama de honra.

Hanzo esperando por ela no altar.

Mas a fantasia se quebrou quando a imagem do pai surgiu — a mão dele oferecendo o braço, conduzindo-a até o noivo.

Papai…?

O coração apertou. As memórias voltaram em sequência violenta: o apartamento vazio, o eco metálico da secretária da embaixada, o telão exibindo um pai que não era mais o seu, os agressores, os gritos, o frio no chão.

Ela se apoiou na penteadeira.

As mãos tremiam.

O peito parecia pequeno demais para tanto ar.

— Calma, Shui. — sussurrou para o reflexo pálido no espelho. — Hanzo precisa do seu melhor sorriso... Ele não pode perceber que você está cheia de rachaduras...

O eco da própria voz soou oco, mas suficiente.

Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo, passou o batom com precisão cirúrgica e ergueu o queixo.

De repente, a menina vulnerável desapareceu, e em seu lugar surgiu uma mulher decidida — ou, pelo menos, alguém que sabia fingir ser uma.

Shui fez e pensou tudo isso em cerca de oito minutos. Abriu a porta e saiu.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

[CONTO] Café e Adjetivos

Valex City, 19 de Abril de 2059.

Eram dez horas da manhã quando Archibald Reese deixou o escritório doméstico. O som do teclado RGB cessou, e a luz azulada do holopad foi substituída pela claridade fria que entrava pelas janelas de Templeton Hill. A névoa sobre o Rio Valex parecia mais espessa naquele dia, e as torres do centro financeiro se perdiam em seu preto e o azulado, como se a cidade respirasse devagar.

Rade o seguiu em silêncio pelo corredor. Seus passos eram leves demais para ecoar, quase um som aprendido de convivência. Ela parou a uma distância respeitosa quando Reese se apoiou na sacada e observou a cidade lá embaixo. As luzes incessantes da madrugada ainda pulsavam, refletindo nas poças que restavam da chuva.

Senhor Reese? — a voz dela ressoou, firme mas hesitante.

Ele virou-se apenas o suficiente para olhá-la.
Sim?

— Eu quero saber se estou incomodando. Se eu estiver, pode me falar. Deve ser estranho ter um guarda-costas te seguindo até dentro da própria casa.

Reese demorou a responder. Fitava a névoa, como se as palavras tivessem de atravessar aquele manto para ganharem sentido.
Não. Tá tudo bem.

Pausou.
— A Peax era assim também… ou quase. Ela tinha mais autonomia. Fazia as coisas dela, mas quando estávamos juntos, passávamos o dia nos mesmos cômodos — na empresa, aqui… sempre falando sobre qualquer coisa.

Rade manteve o olhar firme, embora algo dentro dela começasse a estremecer.
Não quero substituí-la.

Nem pode. Nunca poderá. — Ele bebeu um gole de café, como se fosse ofendido pela mera sugestão. — Mas vocês têm algo em comum. Passam pelos cômodos ajeitando o que eu deixo fora do lugar. Nunca quis um modelo D porque a Peax tinha TOC com arrumação. A casa estava sempre impecável. Você parece ter o mesmo impulso.

Rade — ou melhor, Peax — sentiu o sangue subir-lhe ao rosto sob a máscara. Percebeu que estava deixando escapar demais, na sua cabeça, quando imaginou o plano de estar ao lado de reese, ela imaginou aquilo sendo muito mais fácil. A voz falhou por um instante.
Se quiser, eu paro.

Não. Continue. — Reese virou-se um pouco, apoiando o cotovelo no corrimão. — Isso me faz sentir à vontade, familiar, como se nada tivesse mudado. A essa hora, a Peax já deve estar chegando a Cascadia Town. Saber que ela está em segurança me dá paz para pensar.

As palavras cortaram fundo.
Peax sentiu algo entre culpa e perda.

Então ela era um fardo pra você? — perguntou, quase num sussurro.

Reese a olhou, como se a pergunta tivesse vindo de longe.
Não. De maneira nenhuma. — A voz dele ficou mais baixa, mas carregada de ternura. — Ela era brilhante. Eloquente, inventiva, sagaz, perspicaz, doce, dedicada, gentil, espirituosa… Amável, às vezes desafiadora, sempre criativa, acolhedora, cativante, comunicativa, era também leal, inspiradora, confiável, serena nas horas certas, determinada quando se precisava... Os olhos dela sorriam antes dos lábios — e isso fazia o meu dia melhor. Eu poderia passar o dia descrevendo as qualidades dela e ainda assim faltariam palavras. Talvez eu tivesse de inventar novas só pra chegar perto.

Peax desviou o olhar. O coração, esse velho traidor, reagiu antes da lógica: acelerou. Aquelas palavras eram de um homem apaixonado, e aquela reação era de uma mulher apaixonada. Como esconder?

E ainda assim, com tudo isso… você a mandou embora? - Peax/Rade tentou tirar o foco para a imagem idealizada que Reese tinha dela.

Reese levou a xícara aos lábios e respondeu sem pressa:
Sei que está me julgando... E também sei que sou mais fraco sem ela. — Respirou fundo. — Mas prefiro morrer a deixá-la morrer. Se tudo der errado, quero que ela saiba que fiz o que fiz por amor. Não sei se fiz certo ou errado. Talvez tenha errado, mas eu gostaria que ela soubesse que eu coloco a vida dela acima da minha.
Fez uma pausa.
Já sentiu isso por alguém, Rade?

Ela não respondeu de imediato.
Sete anos ao lado dele e nunca o ouvira falar assim.
Lembrou-se de Sasha, do frio do cano da arma contra a pele, e do olhar de Reese — desesperado, humano, real — quando trocaria tudo, até a própria vida, só para salvá-la.

Peax piscou, e uma lágrima quase se formou, oculta pelo disfarce.
Você ficou triste, Rade. — Ele a observava com doçura. — Acho que isso responde à minha pergunta.

Ela tentou sorrir, fracamente.
É… acho que sim.

Quer falar sobre isso? — perguntou Reese, voltando a tomar o café.

Ainda não estou pronta. — respondeu. — Mas… talvez devesse dizer isso à Peax. Nem que fosse num testamento, caso as coisas desandem.

Reese arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Fazer de uma hipotética morte minha um gesto de amor? Talvez a maior declaração que o mundo já viu... Boa ideia. Daquelas que a própria Peax teria.

O sorriso dele quebrou o ar frio da sacada.
Sorria, Rade. Estou te comparando com alguém incrível. A Roxxy sabe o que faz. Escolheu bem quem me acompanha.

Peax conteve a emoção.
A Roxxy é boa. Melhor que a Jenny… Só mas não diga a ela que eu falei isso. Já esteve perto dela nos surtos de arrogância dela? É...

— Insuportável. Eu sei. - Reese riu. É… sei bem como ela é. Quer um café?

Peax assentiu, pegou um copo na cozinha e se serviu.
Voltaram juntos à sacada. O vento carregava o cheiro metálico da chuva, e as luzes de Valex City tremulavam sobre o rio como um coração pulsando sob vidro e vapor.

Os dois ficaram lado a lado, encostados no parapeito.
Nenhum deles disse mais nada.

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...