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quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] Lágrimas na era do branco

Setembro de 2034.

O cargueiro da RRM atravessou o mar escuro por dias.

O inverno nuclear tornava tudo igual.

Céu cinza.

Mar cinza.

Horizonte invisível.

O frio atravessava o metal do casco como se o navio fosse feito de papel.

Dentro de um contêiner esquecido no fundo do convés, Sylvia sangrava lentamente.

A cápsula de nanorrobôs havia fechado parte da ferida na costela, mas não o suficiente.

O ferimento inflamava.

A febre vinha e ia.

À noite, quando o convés ficava quase vazio, ela saía.

Movia-se silenciosamente entre contêineres.

E roubava.

Enlatados.

Barras energéticas.

Água.

Comida para ela.

Comida para Maya.

Voltava sempre antes que algum funcionário percebesse.

O vento gelado entrava pelas frestas do contêiner.

Maya dormia tremendo.

O cobertor era fino demais.

Quando o navio finalmente chegou ao destino, a menina estava pálida.

Hipotérmica.


O desembarque aconteceu à noite.

O porto era improvisado.

Guindastes abandonados.

Estruturas inacabadas.

As obras da corporação Petrikov estavam paradas havia meses.

O cargueiro atracou em silêncio.

Sylvia esperou.

Quando o convés esvaziou, abriu a porta do contêiner.

Pegou Maya nos braços.

E desceu pela rampa metálica.

Sem olhar para trás.


A paisagem parecia saída de um sonho estranho.

Colinas brancas de neve.

Ao longe, uma cidade erguia-se no meio da noite.

Torres negras fumegantes.

Fábricas gigantes.

Chaminés cuspindo fumaça.

Luzes de neon azuis e vermelhas piscavam entre os prédios.

Era Valex City.

O refúgio.

A última promessa de civilização.

Sylvia estava fraca.

Cada passo doía.

Mas precisava continuar.


O frio piorava.

A bateria do traje tático piscava em vermelho.

Energia crítica.

Quando acabasse, o traje deixaria de aquecer.

Viraria apenas uma carcaça pesada de metal.

Um peso morto.

Depois de horas caminhando na neve, o cinturão industrial da cidade começou a aparecer.

Tubulações enferrujadas cobertas de gelo.

Prédios industriais.

Poluição.

Luzes tremendo no nevoeiro.

Nos braços dela, Maya murmurou:

— Elena…

A voz era fraca.

— Tô com fome…

— E frio…

O coração de Sylvia se partiu.

Ela apertou a menina contra o peito.

— Eu sei, meu anjo.

Ela respirou com dificuldade.

— Já estamos chegando.

A visão começou a turvar.

Pontos negros dançavam no campo de visão.

Então ela ouviu.

Motores.

Snowmobiles.

Longe.

Ela forçou as pernas.

Mais alguns passos.

Mais alguns.

Finalmente chegaram ao perímetro urbano.

Trabalhadores caminhavam entre as fábricas da Sonysoft Industries.

Sylvia tentou falar.

Não conseguiu.

O mundo girou.

Ela caiu.


Maya rolou pela neve.

Sylvia ainda respirava.

Muito fraco.

Ela murmurou:

— Desculpa… Maya…

A voz falhou.

— Eu… falhei…


Maya rastejou pela neve.

— Elena…

A menina chorava.

— Não morre… por favor…

Sylvia mal conseguia manter os olhos abertos.

— Ah…

A voz dela tremia.

— Desculpa…

Ela estava pálida.

Sem forças.

O traje tático apagou.

A última luz azul morreu.

Agora era apenas uma carcaça de metal pesada.

Maya rastejou até ela.

Abraçou a clone.

Tirou o cabelo preto dos olhos dela.

— Elena, não…

A voz da menina quebrou.

— Eu preciso de você…

— Eu te amo… mamãe.

Sylvia piscou lentamente.

— Mamãe…?

Um sorriso fraco apareceu.

— Dessa vez… você não está sonhando…

Maya soluçava.

— Não…

— Elena…

As palavras eram interrompidas pelo choro.

Sylvia respirou uma última vez.

— Minha filha…

Ela sussurrou.

— Eu te amo.


Num último esforço, Sylvia ergueu a pistola Gauss.

Apontou para o céu.

Disparo.

O estampido metálico ecoou na noite congelada.

Mais dois tiros.

O som atravessou o vento.

Chamando atenção.

Então a arma caiu da mão dela.


Alguns trabalhadores correram até ali.

Um deles parou bruscamente ao ver a cena.

Uma mulher caída na neve.

Uma criança chorando sobre ela.

— Ó Deus!

Ele gritou.

— Marvin! Ajuda aqui!

Outro trabalhador chegou correndo.

— O que foi, Dan?

Mais pessoas se aproximaram.

Eles pegaram Maya.

A menina se debatia.

— Não!

— Não!

— Eu quero minha mamãe!

Mas Sylvia já não respirava.

O rosto dela estava tranquilo.

Um sorriso leve nos lábios.

Como se finalmente tivesse encontrado paz.

Dan olhou melhor para o rosto da mulher.

Cabelos pretos.

Olhos azuis.

Fechados.

— Uma clone…

Ele murmurou.

— Pobrezinha…

O som de snowmobiles cresceu no horizonte.

Luzes cortando a neve.

Dan olhou para trás.

Problema.

— Desculpa, moça…

Ele murmurou.

E saiu rapidamente.


Os snowmobiles chegaram segundos depois.

Dois homens desceram.

Keller.

E Gavin Nelson.

Eles caminharam lentamente até o corpo.

O vento movia a neve ao redor.

Maya ainda chorava nos braços de um trabalhador.

Nelson observou a cena. Incentivou-os a levar a criança dali.

"Não pode ser em vão" pensou Nelson.

O traje tático.

A pistola caída.

O sangue congelado.

Ele respirou fundo.

— Encontramos.

Keller assentiu.

— Sim.

Nelson puxou o comunicador.

— Vou avisar os homens da GeniCorp que a clone morreu.

Ele olhou para Maya.

— E que a criança está oficialmente em Valex City.

Pausa.

— Não há mais nada a ser feito.

Keller já acendia um cigarro.

O isqueiro tremeluziu no vento.

Ele tragou devagar.

— Bom trabalho, Nelson.

Nelson assentiu.

E caminhou para interceptar os outros snowmobiles que chegavam. Veículos com modelos Walker.

O trabalhador e Maya já não estavam mais ali. Estavam dentro da cidade de Valex, monólitos pretos com leds e neons no meio da brancura infindável. Maya agpra estava numa cozinha industrial, aquecida por chocolate quente e um aquecedor. Mas nada disso aquecia o coração despedaçado da menininha que perdeu duas mães em pouco tempo.


Keller ficou sozinho.

Ele se ajoelhou ao lado de Sylvia.

Passou a mão pelo rosto gelado dela.

A neve começava a cobrir o corpo.

Ele olhou para o sorriso leve nos lábios da clone.

E murmurou:

— Bom trabalho, garota…

O vento soprou mais forte.

A neve começou a cair novamente.

Keller deu mais uma tragada.

— Você venceu o sistema.

[CONTO] Metade de um pai

O vento do porto soprava forte quando Keller desceu pela rampa do cargueiro.

O metal rangia sob seus passos. A névoa cinzenta do inverno nuclear rastejava sobre a água negra, e o mar parecia tão morto quanto o continente.

Atrás dele, o cargueiro da RRM Logistics ainda estava sendo preparado para zarpar rumo à Ilha Refúgio de Valex City.

Keller caminhou alguns metros pelo cais.

Acendeu outro cigarro.

A busca ainda continuaria por horas.

Oficialmente.

Passos rápidos se aproximaram atrás dele.

Gavin Nelson.

O jovem investigador parecia inquieto.

Ele parou ao lado de Keller.

— Ela estava no cargueiro?

Keller soltou fumaça devagar.

— Sim.

Nelson esperou.

— E?

— Gravemente ferida.

Ele observou o horizonte cinzento.

— Não vai sobreviver.

Pausa.

— Mas a garota vai.

Nelson ficou olhando para a água por alguns segundos.

Pensativo.

— E agora?

Keller respondeu com calma cansada.

— Vamos esperar a GeniCorp ordenar que a gente siga o cargueiro.

Ele tragou novamente.

— Consigo segurar o processo por um dia.

— Mas amanhã estaremos em alto mar.

Ele olhou para o navio.

— Eles vão chegar em Valex antes da gente.

Nelson ficou quieto.

O vento balançava o sobretudo de Keller.

Depois de alguns segundos ele murmurou:

— Uma vez em Valex… não poderemos fazer mais nada.

Keller deu uma tragada longa.

— Assim espero.

Nelson virou a cabeça.

— Por quê?

Keller ficou em silêncio por alguns segundos.

O cigarro queimava lentamente entre seus dedos.

— Já falsifiquei relatórios.

Ele soltou a fumaça.

— Manipulei provas.

— Fiz várias coisas erradas pra foder gente simples e poupar corporações.

Ele deu um meio sorriso cansado.

— Estou cansado, Nelson.

Pausa.

— Muito cansado.

Nelson franziu o cenho.

— Dor na consciência?

— É isso?

Keller deu de ombros.

— Talvez.

Ele levou a mão ao peito.

Debaixo do sobretudo havia um colar.

Um pequeno pingente metálico.

Ele abriu.

Dentro havia uma foto antiga.

Uma mulher sorrindo.

Uma criança pequena.

Família.

— Eu queria ser como pai pra minha filha…

Ele respirou fundo.

— Metade do que a Susan foi de mãe pra ela.

Keller fechou o pingente devagar.

O vento frio soprou novamente.

— Aquela garotinha nunca vai ter sua família de volta.

Ele olhou para o cargueiro.

Agora quase pronto para partir.

— Mas aquela clone…

Pausa.

— Ela ama aquela garotinha.

Nelson pigarreou.

O silêncio ficou pesado entre os dois.

Ele assentiu devagar.

— Entendi.

Sem dizer mais nada, ele se afastou.

Keller ficou sozinho no cais.

O cargueiro soltou um longo som grave de buzina.

Preparando-se para deixar o porto.

Keller jogou o cigarro no chão.

Pisou nele.

E observou o navio desaparecer lentamente na névoa cinzenta do inverno nuclear.

[CONTO] O cargueiro

A manhã chegou sem sol.

Na verdade, nenhuma manhã tinha sol havia décadas.

O céu sobre o porto era uma massa pesada de nuvens negras, sempre iguais, sempre opressivas. A luz que chegava ao chão era fraca, difusa, cinzenta — como se o mundo inteiro estivesse preso em um eterno entardecer.

Era o inverno nuclear.

As cidades haviam morrido.

O que restava da civilização sobrevivia em colônias corporativas como Good Hope, cidadelas pobres cercadas por muros, scanners e contratos de dívida. Pequenas ilhas de sobrevivência controladas por megacorporações.

Era o mais próximo de civilização que ainda existia naquele continente devastado.


Um utilitário de investigação parou no porto.

Do banco do motorista desceu Keller.

Sobretudo gasto.

Chapéu inclinado contra o vento.

Um cigarro pendendo da boca.

Atrás dele veio Gavin Nelson, segurando um scanner portátil.

O cargueiro da RRM ainda estava ancorado, preparando-se para zarpar rumo à Ilha Refúgio de Valex City.

O convés parecia um campo de batalha.

Corpos espalhados.

Sangue escuro congelando sobre o metal.

Fragmentos de crânio.

Keller caminhou lentamente entre os cadáveres.

Os olhos cansados analisavam tudo.

Nada ali o surpreendia.

Apenas confirmava.

Nelson chamou do outro lado do convés.

— Keller… aqui!

Keller se aproximou devagar.

Ajeitou o chapéu.

Deu uma tragada no cigarro.

No chão estava o corpo de uma clone.

Armadura tática negra.

Capacete destruído.

Rosto exposto.

Nelson apontou.

— Encontrei a clone.

Keller observou.

Depois soltou a fumaça devagar.

— Alarme falso.

Nelson franziu o cenho.

— Como assim?

Keller apontou para a armadura.

— É uma Sylvia.

Pausa.

— Mas não é a 132.

Ele se abaixou e virou levemente o corpo.

O número estava gravado na placa lateral.

Sylvia-04-874.

Nelson soltou um sorriso triste.

Trágico.

Keller deu um tapinha no ombro dele.

— Tranquilo, rapaz.

— É assim mesmo.

Ele olhou ao redor.

— A gente sempre quer ver um caso resolvido.

Nelson deu um sorriso sem graça.

Mas Keller já não estava mais olhando para ele.

Estava olhando para o chão.


Havia marcas no metal.

Marcas de mãos.

Manchas de sangue arrastadas.

Como se alguém tivesse colocado a mão sobre um ferimento…

…e depois engatinhado.

Keller seguiu a trilha com os olhos.

Calculando.

Nelson encontrou algo no chão.

— Keller.

Ele ergueu uma pequena cápsula metálica.

— Cicatrizante de nanorrobôs.

Os dois se olharam.

A conclusão veio ao mesmo tempo.

— Ela sobreviveu — disse Nelson.

Keller assentiu.

— Gravemente ferida.

Nelson passou a mão pelo cabelo.

— Mas… onde elas podem estar?

Keller levantou os olhos.

O cargueiro ainda estava ali.

Tripulação correndo.

Preparativos de partida.

Ele tinha certeza.

Elas ainda estavam no navio.

Ele caminhou lentamente pelo convés.

Observando o padrão do sangue.

Calculando direções.

Distâncias.

Tempos.

Nelson observava.

Curioso.

Mas não sabia o que Keller estava pensando.

Keller parou.

Olhou para Nelson.

Depois para os policiais corporativos que acabavam de chegar.

Alguns soldados da GeniCorp também desembarcavam no porto.

Keller deu a ordem.

— Observem ao redor do navio.

Ele apontou para o cais.

— Ela deve estar em algum lugar do porto.

Depois olhou diretamente para Nelson.

— Você também.

— Acompanhe os homens.

— Eles precisam saber as orientações mais apropriadas.

Nelson ficou em silêncio por um segundo.

Ele conhecia Keller há tempo suficiente.

Sabia reconhecer quando ele queria silêncio.

Ou quando estava mentindo deliberadamente.

Nelson assentiu.

— Certo.

Ele reuniu os homens.

Policiais.

Soldados.

E desceu para o porto.

Logo o convés ficou vazio.


Keller caminhou calmamente entre os contêineres.

O cigarro ainda aceso.

O vento frio puxando a fumaça para o céu cinza.

Ele parou diante de um contêiner.

Respirou fundo.

E bateu.

Três batidas.

Gentis.

toc. toc. toc.

A porta demorou alguns segundos.

Depois se destrancou.

Dentro estava Sylvia.

Ferida.

Muito pálida.

Uma das mãos pressionando o curativo improvisado na costela.

Na outra, a pistola Gauss.

Apontada diretamente para Keller.

Atrás dela, Maya dormia enrolada num cobertor.

Keller continuou fumando.

Tranquilo.

Como se a arma fosse irrelevante.

Sylvia falou.

— Vai nos prender… porque bateu?

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.

Keller bateu levemente na ponta do cigarro.

A cinza caiu no chão.

Ele tragou novamente.

Depois respondeu.

— Você sabe que não faz parte do protocolo prender clones.

Sylvia não disse nada.

A arma continuava apontada.

Ela respirou fundo.

— Me mate…

A voz falhou.

— Mas deixe ela ir.

As lágrimas escorreram.

Keller tirou mais cinza do cigarro com o dedo.

Pensou por um segundo.

Depois disse calmamente:

— Eu não vi nada aqui hoje.

Sylvia piscou.

Confusa.

Keller deu meia-volta.

— Boa viagem.

Ele fechou a porta do contêiner.

E foi embora.


Sylvia continuou apontando a arma para a porta.

Sem entender.

Sem confiar.

O coração batendo rápido.

Maya começou a se mexer no cobertor.

Sinais de que estava acordando.

Sylvia abaixou a arma apenas o suficiente para pegar o cabelo da menina.

Tirou algumas mechas dos olhos dela.

— Está tudo bem, querida.

Ela parou.

Percebeu a palavra.

Querida.

Ela nunca imaginara usar aquilo.

Maya murmurou sonolenta.

— Tô sim… mamãe.

Sylvia sentiu algo quente dentro do peito.

Algo novo.

Algo que nunca havia sido programado.

E que, estranhamente…

era maravilhoso.

[CONTO] Hanna e o Delator

 A neve caía lenta sobre a colônia de repovoamento Good Hope.

Flocos escuros, misturados à fuligem da atmosfera envenenada, pousavam sobre telhados tortos, placas quebradas e ruas que já tinham visto dias melhores.

Good Hope era apenas mais um ponto de sobrevivência no mapa do que restara dos Estados Unidos.

Um lugar onde ninguém fazia muitas perguntas.

E ninguém queria saber muito sobre o passado de ninguém.


Sylvia entrou em um beco estreito.

Os LEDs azuis de sua armadura estavam apagados. A placa de identificação removida. A arma escondida sob o casaco pesado que pegara em uma casa abandonada.

Ainda assim, qualquer um que soubesse olhar perceberia.

Ela não andava como humana.

Andava como um predador treinado.

Nos braços dela, Maya tremia de frio.

A menina estava enrolada num cobertor velho que Sylvia havia encontrado no caminho.

— Está frio… — murmurou Maya.

Sylvia apertou a menina contra o peito.

— Eu sei.

No fim do beco havia uma porta metálica com uma lâmpada vermelha fraca.

Sylvia bateu duas vezes.

A porta abriu alguns centímetros.

Uma mulher de cabelos castanhos desgrenhados olhou para fora.

Olhos cansados.

Experientes.

Quando viu Sylvia, cruzou os braços.

— Me diz… qual a treta dessa vez, clone?

Era Hanna.

Uma antiga contata de Sylvia.

Uma garota de programa que morava nos subúrbios de Hittington, um bairro decadente dentro da decadência de Good Hope.

Sylvia não respondeu.

Apenas olhou para os lados.

Depois puxou Maya para frente.

Hanna franziu o cenho.

— Não entendi.

Ela inclinou a cabeça.

— Eu não conheço essa garota.

Sylvia falou baixo.

— Não é pra conhecer.

Pausa.

— Eu preciso tirar ela daqui.

Hanna piscou algumas vezes.

— Como assim tirar daqui?

Silêncio.

Ela estreitou os olhos.

— Você sequestrou uma criança?

Sylvia respondeu:

— Eu salvei uma criança.


Hanna observou Maya.

A menina segurava o cobertor com força.

Olhos vermelhos.

Rosto sujo de poeira e lágrimas secas.

— Qual o nome dela? — perguntou Hanna.

Sylvia congelou.

Algo travou dentro dela.

Percebeu naquele instante.

Carregava a menina havia três horas.

Tinham conversado apenas em respostas curtas.

Sim.

Não.

Frio.

Medo.

Ela não sabia o nome da criança.

Hanna percebeu imediatamente.

Suspirou.

— Ser clone é foda, né?

Ela apoiou o ombro na porta.

— Vocês não são treinadas pra sentir nada… e mesmo assim, olha você.

Sylvia abaixou a cabeça.

Foi então que a menina falou.

Baixo.

— Eu sou Maya.

Ela olhou para Sylvia.

— Você é Sylvia, não é?

Sylvia assentiu.

— Eu já vi várias de vocês onde meu papai trabalhava.

A menina fungou.

— Vocês são todas iguais.

Era verdade.

Todas baseadas no mesmo modelo genético.

Sylvia Hatchkoff.

Uma lenda do serviço secreto do mundo antes da guerra.

A melhor agente de campo que já existira.

Boa demais.

Boa o suficiente para que a GeniCorp decidisse cloná-la.

Porque jamais conseguiria alguém como ela novamente.

Sylvia respondeu automaticamente:

— Eu sou Sylvia-04-132.

Hanna fez uma careta.

— Isso lá é nome?

Ela deu de ombros.

— Pelo menos, se vai ser mãe da criança… arruma um nome pra si mesma.

Sylvia ficou em silêncio.

Nunca pensara nisso.

Nunca precisara.

Clones não tinham nomes.

Tinham números.


Foi Maya quem resolveu o problema.

A menina sorriu um pouco.

Talvez esquecendo por alguns segundos a cena terrível que presenciara.

— Elena.

Ela abraçou a perna da clone.

— Você tem cara de Elena.

Sylvia piscou.

— Elena?

— Era o nome da minha boneca favorita.

Algo estranho aconteceu dentro dela.

Um calor leve no peito.

Desconhecido.

Agradável.

Um sorriso mínimo apareceu no canto da boca.

Quase invisível.

Quase.

Hanna viu.

E disse:

— É…

Ela abriu a porta um pouco mais.

— Vocês vão ficar bem.


Hanna apontou para o final da rua.

— Tem um prédio ali.

Ela fez um gesto vago.

— Dá acesso a um porto da Adrenaline Corporation.

Sylvia prestou atenção imediatamente.

— Não é fácil chegar — continuou Hanna.

— Vão mandar gente atrás de você.

Ela cruzou os braços novamente.

— Mas se conseguir entrar… vai dar num bote.

— E o bote leva a um navio.

Ela fez uma pausa.

— Um cargueiro da RRM.

Hanna olhou diretamente para Sylvia.

— Indo para a Ilha Refúgio de Valex City.

O vento gelado passou pelo beco.

A neve acumulava nas calçadas.

O céu estava permanentemente escuro.

Afinal…

Era inverno nuclear.


Sylvia assentiu.

— Obrigada.

Mas então disse:

— Se eu te pagar… a Genicorp vai chegar até você.

Hanna deu de ombros.

— Não tem problema. Use seu recursos se já não bloquearam, para pegar o vigia pra deixar vocês entrarem. Como zarpa hoje, vão descobrir que vocês fugiram, mas não vão conseguir alcança-los.

Ela olhou para Maya.

— A humanidade não congelou completamente neste lugar.


Sylvia pegou a menina no colo.

As perninhas de Maya balançaram enquanto ela era levantada.

De repente a menina começou a chorar de novo.

Talvez lembrando dos pais.

Talvez lembrando da casa.

Talvez apenas porque finalmente estava segura o suficiente para chorar.

O coração de Hanna apertou.

E pela primeira vez na vida…

Sylvia sentiu algo parecido com tristeza.

Ela passou a mão no cabelo da menina.

Cabelos pretos.

Maria-chiquinhas.

— Está tudo bem.

A voz dela saiu baixa.

Quase humana.

— Nós vamos tirar você daqui.


Elas caminharam para longe pela neve.

Hanna ficou olhando por alguns segundos.

A silhueta da clone e da criança desapareceu na escuridão da rua.

Então Hanna voltou para dentro.

Mais um dia de trabalho.

A neve já não caía quando Sylvia alcançou o porto improvisado.

O cargueiro era um gigante enferrujado, com letras apagadas na lateral indicando a companhia RRM Logistics. O casco estava manchado de ferrugem e fuligem radioativa. Refletores fracos iluminavam o convés, criando ilhas de luz entre sombras profundas.

O vento vindo do mar cortava como lâmina.

Maya tremia nos braços dela.

Os dentes da menina batiam.

Sylvia subiu a rampa metálica.

No topo havia um homem encostado numa grade, fumando um cigarro barato. Uniforme gasto, jaqueta de segurança com o logotipo da RRM Logistics bordado torto.

Ele olhou Sylvia de cima a baixo.

Parou nos ombros largos.

No jeito de caminhar.

Depois no volume rígido escondido sob o casaco.

Traje tático.

Ele sorriu de canto.

— Frio da porra hoje.

Sylvia respondeu apenas:

— Sim.

O homem olhou para Maya.

— A menina vai congelar antes de chegar em Valex City.

Sylvia tirou um pequeno pacote de créditos da bolsa improvisada.

Entregou.

O segurança pesou o dinheiro na mão.

Baixo salário.

Acostumado a bicos.

Olhou para o redor.

Depois fez um gesto com a cabeça.

— Vem.


Eles caminharam entre pilhas de contêineres.

Metal rangendo.

Cabos batendo ao vento.

O segurança abriu um contêiner vazio.

— Fica aí.

Sylvia entrou.

Dentro havia duas pessoas.

Uma senhora idosa, cabelos brancos desgrenhados.

E um homem de meia-idade com olhar cansado.

Refugiados.

Tentando fugir do inferno radiativo da América.

O homem levantou a cabeça.

— Valex?

Sylvia respondeu:

— Sim.

Ele assentiu.

— Terra da promessa.

A senhora sorriu com ternura ao ver Maya.

— Venha aqui, querida.

Maya hesitou.

Depois se aproximou.

A velha envolveu a menina em um cobertor grosso.

— Você precisa dormir um pouco.

A menina assentiu.

Sylvia ficou encostada na parede.

Observando.

Sem participar.

O homem tentou puxar conversa.

— Quem é você?

— Sylvia.

— E a criança?

— Maya.

— Sua filha?

Sylvia hesitou.

— Não.

Silêncio.

Monossílabos.

A senhora começou a contar histórias para Maya.

Do mundo antes da guerra.

Parques.

Cidades vivas.

Céus azuis.

Maya ouvia em silêncio.

Os olhos pesados de sono.


Então Sylvia ouviu.

Passos.

Firmes.

Cadência de soldado.

Quatro… talvez cinco homens.

Lanternas.

Metal raspando.

Armas longas.

Sylvia ativou o modo auditivo militar.

As frequências se ampliaram.

Capacetes.

Armas 7,62.

Clones Walker.

Ela entendeu.

O segurança havia vendido a informação.

Sylvia puxou a pistola Gauss.

E a faca.

Maya e os refugiados olharam confusos.

Ela levou o indicador aos lábios.

Silêncio.

Depois forçou a porta do contêiner apenas o suficiente para espiar.

Lá estavam eles.

Soldados da GeniCorp.

Lanternas cortando a escuridão.

O segurança caminhava à frente.

— Foi por aqui.

Sylvia pegou um pente sobressalente da pistola.

Calculou distância.

Arremessou.

O metal caiu no convés.

CLANG.

Os soldados pararam.

— Movimento.

Um Walker empurrou o segurança.

— Vai ver.

Eles caminharam para a isca.

Funcionou.

Sylvia voltou ao contêiner.

— Saiam.

O homem piscou.

— O quê?

— Fomos delatados.

Mentira funcional.

Ela precisava de movimento.

Mais gente no convés.

Distração.

Sylvia colocou Maya nas costas.

A menina estava com frio.

E sono.

Eles saíram.

Espalharam-se.


Um Walker encontrou o pente.

— Ela esteve aqui.

Outro soldado seguiu.

De repente—

Tiros.

O homem e a senhora gritaram.

Os corpos caíram.

O rádio de um soldado chiou.

— Alarme falso.

Sylvia já corria.

Carregando Maya.

Ela entrou em outro contêiner.

Dentro havia caixas empilhadas.

Etiquetas indicavam carga:

Comunicadores cocleares militares.

Sylvia colocou Maya no chão.

— Espere aqui.

A menina soluçava.

Os tiros lembravam a morte dos pais.

Sylvia fechou a porta.


Ela saiu.

E emboscou o primeiro Walker.

A pistola magnética MaoTeng Gauss 5 mm vibrou em sua mão.

Sibilo metálico.

A bateria liberou energia.

Estampido seco.

Ar comprimido.

Efeito pistão.

O projétil atravessou o capacete.

A cabeça do Walker estourou.

Ele caiu morto.

Sylvia pegou o rifle dele.

7,62 mm.

Modelo sniper.

Ela caminhou silenciosamente.

Subiu em um contêiner.

Mirou.

Outro soldado.

Respiração controlada.

Disparo.

Tiro seco.

O projétil atravessou o crânio.

O corpo caiu.

Mas outro soldado viu o flash.

— Contato!

Sylvia murmurou:

— Merda.

Dentro do contêiner Maya chorava.

Os tiros lembravam os pais sendo executados.


O último soldado chegou rápido.

Não havia espaço para rifles.

As armas longas serviam apenas para aparar golpes.

Combate corpo a corpo.

A soldado investiu.

Movimentos idênticos.

Precisos.

Ela começou a render Sylvia.

Sylvia recuou até um contêiner.

A soldado ergueu a faca.

Sylvia puxou a tranca da porta.

CLANG.

A porta abriu violentamente.

Dezenas de caixas caíram sobre a soldado.

Sylvia avançou.

Cotoveladas.

Uma.

Duas.

Três.

O visor do capacete rachou.

Quebrou.

Revelando o rosto.

Sylvia congelou.

Era o rosto dela.

Idêntico.

O nome na armadura:

Sylvia-04-874.

A clone hesitou apenas um segundo.

Tempo suficiente.

A 874 puxou a faca.

Enfiou na costela de Sylvia.

Na emenda entre as placas do traje.

Dor lancinante.

Sylvia tentou reagir.

A clone torceu a faca.

Desarmou Sylvia com a outra mão.

Sylvia quase desmaiou.

O mundo ficou branco.

Ela puxou a Gauss.

Um movimento instintivo.

E disparou.

A cabeça da clone explodiu.

Sangue.

Fragmentos.

Silêncio.

Sylvia caiu de joelhos.

Respiração pesada.

A faca ainda na costela.


Ela se levantou com dificuldade.

Caminhou até o segurança.

Ele estava ajoelhado.

Tremendo.

— Não me mate por fav—

O tiro interrompeu a frase.

O sangue espalhou-se pelo chão do convés.

Sylvia encostou na parede.

Puxou a faca da costela.

O sangramento começou a correr.

Ela abriu um slot de emergência do traje.

Retirou uma cápsula.

Nanorrobôs cicatrizantes rápidos.

Injetou.

O sangramento diminuiu.

Mas não parou.

Ela sabia.

Daria para sobreviver até Valex City.

Alguns dias.

Talvez.

Mas precisaria de um médico de verdade.

Sylvia respirou fundo.

E caminhou de volta ao contêiner.

Onde Maya chorava.

Esperando.

[CONTO] Keller e Nelson

Agosto de 2034, 4 horas depois.

O utilitário parou rangendo sobre o asfalto rachado.

O motor desligou.

O silêncio das ruínas voltou a dominar o bairro morto de Atlanta.

Do veículo desceu um homem alto, de barba grisalha curta e sobretudo pesado. As botas bateram no chão molhado enquanto ele observava a casa destruída diante dele.

Não usava armadura corporativa.

Não precisava.

Era um investigador.

Chamava-se Keller.

Veio das colônias agrícolas do interior — lugares onde a terra ainda crescia sob domos de filtragem e onde os sobreviventes tentavam fingir que o mundo não havia acabado.

A GeniCorp o contratara para investigar um caso incômodo.

Um clone militar da linha Sylvia-04 havia desaparecido.

Isso por si só não era impossível.

Clones desertavam às vezes.

Mas Sylvia-04-132 havia sumido levando algo muito pior.

O segredo genético mais valioso da corporação.

Uma criança.

Keller permaneceu alguns segundos olhando para a casa antes de entrar.

O cheiro metálico da morte ainda estava no ar.

Velho.

Pesado.

Persistente.

Atrás dele entrou Gavin Nelson, jovem investigador recém-integrado à polícia corporativa.

Ainda tinha postura correta demais.

Olhar limpo demais.

Gavin ainda acreditava que o mundo funcionava.

Keller já tinha perdido essa ilusão havia décadas.


1

Dentro da casa, a cena era silenciosa.

Os corpos dos cientistas permaneciam onde haviam caído.

Execução limpa.

Rápida.

Keller ajoelhou-se ao lado de uma parede.

Passou os dedos pelas marcas profundas no reboco.

Sulcos largos.

Curvos.

Ele franziu o cenho.

— Hm.

Gavin se aproximou.

— O que foi?

Keller levantou a mão.

— Isso não foi feito por humanos.

Ele mediu o tamanho com dois dedos.

— Garras.

Grandes demais para qualquer animal comum.

Keller suspirou baixo.

— A Denliz Corporation.

Gavin engoliu seco.

Os brinquedos da Denliz eram lendas sombrias do mundo corporativo.

Armas biológicas.

Criaturas criadas em laboratório.

Predadores projetados para guerra urbana.

— Provavelmente trouxeram um deles — murmurou Keller.

Gavin olhou ao redor.

Subitamente o quarto parecia menor.


2

Eles começaram a vasculhar a casa.

Armários destruídos.

Terminais queimados.

Papéis espalhados.

Keller andava lentamente.

Mas dentro da cabeça dele a cena se montava.

Soldados corporativos entram.

Descobrem os corpos.

Depois algo mais chega.

Algo com garras.

Algo que não deveria existir.

Ele chegou ao quarto da criança.

Parou.

Ajoelhou-se.

Olhou debaixo da cama.

Havia algo ali.

Um pequeno bichinho de pelúcia.

Ele puxou o brinquedo.

O tecido estava úmido.

Keller passou o dedo no pano.

Não havia infiltração no teto.

Não havia água no chão.

Ele sabia exatamente o que era.

Lágrimas.

A criança estivera escondida ali.

Por um segundo algo apertou o peito dele.

Ele pensou na própria filha.

Desde que a esposa morrera, a menina era tudo que restava em sua vida.

Ele fechou o punho.

Atrás dele Gavin percebeu.

Deu um leve tapa no ombro do investigador.

— Está tudo bem?

Keller respondeu com a mesma frieza analítica de sempre:

— A criança estava aqui.

Ele apontou para o chão.

— A clone a encontrou.

Gavin franziu o cenho.

— E depois?

Keller levantou o olhar para a janela quebrada.

— Depois saiu com ela por ali.


3

Gavin se aproximou da janela.

Vidro quebrado em apenas um ponto.

Tranca arrebentada.

Ele analisou com cuidado.

— Um golpe só.

Passou a mão na madeira.

— Cotovelo ou punho.

Gavin assentiu.

— Profissional.

Keller respondeu:

— Profissional desesperado.

Gavin seguiu a trilha no chão.

Alguns objetos deslocados.

Entulho arrastado.

— Ela passou correndo por aqui.

Ele se virou para Keller.

— Investigador Keller… o senhor tinha razão.

Pausa.

— Fugiram por aqui.

Ele respirou fundo.

— O que fazemos agora?

Keller olhou para o chão.

Uma pequena mancha de sangue.

Nada espalhado.

Provavelmente um corte superficial.

Ele se agachou.

Tocou o sangue com dois dedos.

Ainda úmido.

Calculou rapidamente.

Depois se levantou.

— Ela fugiu há duas horas.

Gavin assentiu.

— Então ainda está perto.

Keller respondeu calmamente:

— Não deve estar longe.

Gavin ficou em silêncio.

Por alguns segundos.

Então percebeu.

Keller mentiu.

Ele virou lentamente.

— Por quê?

Keller ficou quieto.

Observando o horizonte destruído pelas janelas quebradas.

A cidade morta de Atlanta estendia-se até onde a névoa radioativa permitia ver.

Depois ele falou:

— Ela está mais longe do que isso.

Gavin franziu o cenho.

— Então por que diminuir o perímetro?

Keller respondeu:

— Porque assim ela tem mais chance de fugir.

4

Gavin ficou confuso.

— Por que ajudar um clone a fugir com uma criança?

Ele balançou a cabeça.

— Eles não são capazes de amar.

Keller virou o rosto.

Os olhos cansados encontraram os dele.

— Então por que ela está fugindo com a criança…

Ele apontou para a janela.

— …se não levou a menina para a corporação que ela serve?

Gavin não respondeu.

O silêncio tomou o quarto.

Alguns segundos depois Gavin tentou novamente.

— Mas ela vai morrer.

Keller permaneceu quieto.

— Clones Sylvia vivem dez anos no máximo.

Gavin respirou fundo.

— Ela deve ter… seis ou sete anos restantes.

Ele olhou para o chão.

— A criança… se ganhar uma nova mãe… vai perder outra pessoa.

Pausa.

— Vai sofrer de novo.

Keller observou o bichinho de pelúcia em suas mãos.

O pano ainda úmido.

Depois falou.

Calmo.

Simples.

— Então é melhor que ela viva.

Ele se ajoelhou novamente.

Colocou o brinquedo de volta debaixo da cama.

E completou:

— Os mortos já têm demais companhia.

Lá fora, o vento atravessava as ruas destruídas de Atlanta.

Muito longe dali,

uma clone que não deveria sentir nada corria pela escuridão.

Carregando uma criança.

E, pela primeira vez,

um futuro que ninguém havia programado.

[CONTO] Sylvia


Agosto de 2034, a chuva ácida caía fina sobre as ruínas de Atlanta, transformando concreto pulverizado em lama escura. Arranha-céus carbonizados erguiam-se como dentes quebrados contra um céu permanentemente cinza. Entre os escombros, veículos blindados avançavam devagar.

Pertenciam à GeniCorp, uma das chamadas ghost corporations — empresas que sobreviveram ao colapso do mundo antigo escondendo laboratórios, bancos de dados e exércitos privados em bunkers subterrâneos.

O ativo mais eficiente da corporação era a linha Sylvia-04.

Clones militares.

Projetados para obedecer.

Programados para viver pouco.

E morrer sem perguntar.


1

A unidade Sylvia-04-132 caminhava à frente do esquadrão.

A armadura tática preta refletia a chuva sob a luz azul de pequenos LEDs no peito e no capacete. O rifle pendia firme nas mãos, estabilizado por microservos internos.

Atrás dela vinham quatro clones Walker, soldados mais pesados, criados para combate direto.

Todos eram propriedade da GeniCorp.

Todos eram descartáveis.

No capacete de Sylvia, o rádio estalou.

— Objetivo confirmado. — disse a voz metálica do comando.
— Dois cientistas desertores. Dados tecnológicos roubados. Possível negociação com a Denliz Corporation. Recuperar ativos. Eliminar testemunhas.

Sylvia respondeu com uma única palavra:

— Recebido.

Os cientistas haviam fugido com a filha.

Segundo a inteligência da corporação, pretendiam entregar segredos genéticos à rival brasileira DenlizCorporation, uma das poucas potências industriais que sobreviveram fora dos Estados Unidos.

Traição corporativa.

Punição automática. 

2

A casa surgia no meio de um bairro devastado.

Um antigo subúrbio.

Telhado parcialmente queimado. Janelas quebradas. Porta aberta.

Sylvia levantou o punho.

Os Walkers pararam.

— Entrada tática. — disse ela.

A equipe invadiu.

Silêncio.

O cheiro de sangue era antigo.

Na sala, os dois cientistas estavam caídos.

Mortos.

Execução limpa.

Sem sinais de luta prolongada.

Um Walker examinou os corpos.

— Não fomos os primeiros.

Outro respondeu:

— Denliz Corporation.

Sylvia não comentou.

A Denliz era conhecida por interceptar operações corporativas como um predador invisível.

3

Enquanto os Walkers revistavam a casa, Sylvia conectou um cabo ao terminal destruído do laboratório improvisado.

Arquivos fragmentados.

Dados incompletos.

Ela analisou os fragmentos rapidamente.

Sequências genéticas.

Modelos de criptografia biológica.

Então entendeu.

Não havia disco.

Não havia servidor.

Os dados estavam codificados em DNA.

E o DNA pertencia à filha dos cientistas.

Um cofre vivo.

Sylvia fechou os arquivos.

Nesse instante—

um som.

Muito baixo.

Um soluço.

Vinha do quarto.

Ela avançou lentamente.

O rifle apontado.

Sob a cama.

Algo se movia.

Sylvia puxou o colchão com um movimento brusco.

Uma menina estava escondida ali.

Talvez nove anos.

Coberta de poeira.

Olhos enormes.

Sylvia possuía aestesia neural — uma modificação genética que removia a capacidade de perceber beleza ou feiura.

Ela não via inocência.

Não via fragilidade.

Via apenas:

alvo humano pequeno.

A menina olhou para o rifle.

A voz saiu trêmula.

— Por favor… não me mate.

Sylvia não respondeu.

O dedo repousava no gatilho.

A criança continuou:

— Ou… se for matar… não me faça sofrer muito.

Ela respirou fundo.

— Meu papai e minha mamãe já gritaram demais.

4

Algo falhou.

Não no rifle.

Não nos sensores.

Dentro dela.

Sylvia ativou o rádio.

— Sobrevivente detectado. Procedimento?

A resposta veio instantânea.

Fria.

— Extermínio.

A menina fechou os olhos.

Aproximou a testa do cano do rifle.

— Sem sofrimento… por favor.

Por algum motivo inexplicável, Sylvia hesitou. Seus olhos começaram a lacrimejar dentro do capacete.

Ela não entendia por quê.

Abaixou a arma.

Falou baixo:

— Fique escondida.

A menina abriu os olhos.

— Vou tentar dispersar o pessoal.

5

Sylvia entrou no banheiro.

Um espelho quebrado refletia seu rosto.

Lágrimas escorriam.

Ela tocou o visor do capacete.

Confusão.

Aestesia não incluía lágrimas.

No rádio, um Walker perguntou:

— Status?

Sylvia respondeu:

— Alarme falso. Era apenas um animal doméstico.

Silêncio.

— Confirmado? — disse outro Walker.

— Confirmado.

Ela voltou à sala principal.

— Os dados roubados estavam codificados no DNA da filha dos cientistas. — explicou. — Provavelmente a Denliz Corporation já recuperou o ativo.

Os Walkers trocaram olhares.

Missão encerrada.

— Retornando ao blindado. — disse um deles.

Então um perguntou:

— Você não vem?

Sylvia respondeu calmamente:

— Vou fazer uma última vistoria. Me aguardem no blindado.

Eles saíram.

A porta se fechou.

6

Sylvia voltou ao quarto.

A menina ainda estava sob a cama.

Os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Eles foram embora? — perguntou.

Sylvia assentiu.

Ajoelhou-se.

Estendeu os braços.

A menina hesitou um segundo.

Depois se lançou neles.

Sylvia a levantou.

E então algo estranho aconteceu.

A criança começou a chorar.

E Sylvia também.

Sem entender.

Sem qualquer algoritmo que explicasse aquilo.

As lágrimas escorriam pelo visor do capacete e pingavam sobre a armadura tática iluminada por LEDs azuis.

Ela caminhou até a janela dos fundos.

Abriu.

O vento frio da cidade morta entrou.

7

Ao longe, os Walkers já estavam junto ao blindado.

Tinham poucos minutos antes de perceber que algo estava errado.

Sylvia apertou a menina contra o peito.

— Segure firme.

— Para onde vamos? — perguntou a criança.

Sylvia respondeu a única coisa que sabia:

— Longe daqui.

Elas saltaram.

Desapareceram entre as sombras das ruínas de Atlanta.

Uma arma descartável da GeniCorp havia desertado.

Carregando o segredo mais valioso da corporação.

E uma criança que deveria ter executado.

sábado, 13 de dezembro de 2025

[CONTO] Turning Point

23 de Abril de 2059: 23:39


O vidro não se partiu de imediato.

Primeiro veio o som — um estalo grave, quase elegante — e só depois a explosão branca.

Dois mechas emergiram do céu como espectros mecânicos, soltando-se dos helicópteros em pleno ar. Caíram de joelhos contra as vidraças da VxS Tower, atravessando o prédio como lâminas de porcelana armada. O impacto esmagou câmeras, tripés, corpos. Repórteres e jornalistas desapareceram sob toneladas de liga branca antes mesmo de entenderem o que estava acontecendo. O noticiário virou ruído. O chão virou silêncio.

Gritos. Alarmes. Fumaça.

Os seguranças de Valex Junior reagiram por instinto — um enxame humano formando um casulo em torno dele. O puxaram pelos braços, empurrando-o para a saída principal, como se a pressa pudesse reescrever o protocolo.

Debaixo das cadeiras tombadas da sala de convenções, Motoya rastejava com dificuldade, o vestido rasgado, os olhos atentos demais para o caos. Ela se inclinou para Caio, a voz baixa, urgente:

— Eu baixei a planta do prédio… é um arquivo público, da Biblioteca Histórica de Valex City. Em caso de ataque, o protocolo manda sair por uma porta secreta atrás da cortina do palco.
(pausa, o som distante de tiros)
Tem algo errado, Caio. Muito errado.

Caio engoliu em seco.
Tudo dentro dele girava em torno de um único eixo: Susi.
Susi de volta.
Motoya viva, como uma irmã mais nova doce que ele nunca teve. A Bruna era maluca demais para preencher aquele vácuo do jovem Caio desesperado por alguém que pudesse proteger e mimar. Bruna nunca tinha precisado de proteção. Em geral, ele é que precisava proteger os outros da Bruna. 
A família que ele já havia construído dentro da própria cabeça não podia ruir ali.

Ele ergueu o olhar e então viu.

Rade Brunner. Ou melhor — PeaX.
Ela conduzia Archibald Reese pelo mesmo corredor por onde Valex Junior era evacuado. Caio assoviou — um som agudo, cortante, quase animal.

— TIRA A MOTOYA DAQUI! — gritou.

PeaX virou-se num reflexo. Estendeu a mão. Puxou Motoya para junto de si com força, tirando-a de debaixo de pilhas de cadeira enquanto os mecas avançavam esmagando jornalistas e socialaites.

— Tem uma saída de emergência atrás da cortina… — Motoya tentou explicar, ofegante.

— Não. — Reese cortou, seco. — Essas saída são mapeadas em arquivos que são públicos. A VxS Tower é patrimônio histórico. A Hard Light conhece essa saída e certamente montou uma interceptação. Provavelmente a equipe de segurança pessoal de Valex Junior sabe disso e tem um plano de contingência.
(apontando para baixo)
Vamos para a passarela do 40º andar. Ela liga a torre ao prédio da SonySoft. É a melhor chance dos civis escaparem.

Motoya, surpresa, quase sendo arrastada por PeaX, assentiu em silêncio.

— PeaX — disse Reese, mudando o tom — ajude a retirar os civis.

Ela hesitou.
Era o mesmo homem que tentara afastá-la para protegê-la.
Agora pedia que ficasse na zona de combate.

— Preciso acessar os servidores da VxS Tower — continuou ele. — Há drones de defesa embutidos nas paredes. Eles deveriam ter sido ativados. Se não foram, a segurança do prédio já foi comprometida, Adrian está dependente de seus seguranças pessoais, o que é desnecessário dizer, insuficiente. Eu preciso assumir o controle.

Motoya respirou fundo.

— Vai precisar de uma webrunner.

Reese fechou os olhos por um instante.

— Droga. Maldita hora em que aceitei a demissão da NETalie…

— Eu sou webrunner — disse Motoya. — Posso ajudar. E sei onde fica a sala, li os arquivos públicos.

— Ótimo. — Reese assentiu. — Vamos.

PeaX soltou a mão de Motoya. Ela correu à frente, guiando Reese pelos corredores laterais.

Atrás de uma pilastra estilhaçada, protegidos do fogo cruzado, Reese e PeaX ficaram por um segundo a mais — tempo suficiente para que o mundo se calasse entre eles.

— Ajude as pessoas — disse ele. — E me encontre na passarela.

— Por quê? — ela perguntou, a voz trêmula. — Por que agora?

— Porque eu aprendi com meu erro. — Reese sorriu, cansado. — Não vou ser paternalista de novo. E sem você… eu sou mais fraco.
(pausa)
Nada disso faz sentido se não for pra ajudar as pessoas.

— Archie… — PeaX começou.

— Eu te amo. — Ele se inclinou, rápido, urgente. — Tome cuidado.

O beijo foi breve, desesperado, real demais para aquele cenário de aço e fumaça.
Então Reese se afastou, correndo na direção de Motoya.

PeaX respirou fundo, virou-se para o caos —
e correu para salvar quem ainda podia ser salvo. Ela viu Reyna se posicionar na frente de Akira, nos olhos dela a disposição de proteger a chefe de polícia. Imediatamente percebeu uma replorgue bem vestida do lado do que parecia ser a irmã de Hanzo Hasashi, a replorgue esguia de cabelos longuíssimos, abrigava a menina com o próprio corpo, elas saiam do meio de uma chuva de balas das forças da VxS que chegaram pela porta de saída pra conter os invasores. 3 soldados da guarda de elite da VxS Tower e pelo menos 2 SpecOps da General Security. 

A replorgue topou de cara com 4 soldados da Hard Light, os invasores, e teria sido baleada e morta junta com a irmã de Hanzo, se não fosse Kicilov arrancando o coração de um deles com a mão, e arrancando a cabeça de outro com a outra. Imediatamente, os fuzis que apontavam para as duas fugitivas, se viraram para o líder dos ST4L1N, ele tomou três tiros, mas resisitiu como se não fosse nada. Pegou os dois atiradores restante e arremessou pela janela do 80º andar em chamas como se fossem crianças.

— Sigam, senhoritas! Protejam-se!  - Exclamou o replorgue comunista mostrando a saída.

Distante dali:

Roxxy dormia pesadamente quando sentiu o empuxo de uma mão puxá-la das profundezas do sono. Um som disforme, como se viesse de um encanamento emanava da HoloTV.

— Acorda, Roxxy! - Era a voz de Markus Kyle

— Caralho! Que porra é essa!? - Roxxy acordava grogue pelo tombo, pela bebedeira, pela noite caótica, seu corpo desvestido debaixo de um fino lençol ainda estava dolorido.

— A HoloTV! - A voz de Markus Kyle soava emergencial.

Roxxy se sentou na cama prendendo o lençol ao corpo com o antebraço que ainda tinha ralados cobertos por cascas de nanobots, que formavam o padrão geométrico de transistores. Ela estreitou os olhos e depois esfregou-os com os punhos.

— A VxS Tower está sob ataque. - Markus Kyle se vestia as pressas.

Roxxy então prestou atenção na notícia da VXC News.

"Estamos ao vivo sobrevoando o Centro Financeiro de Valex City, por ordem do conselho de acionistas da ValexSynthesis o espaço aéreo de Valex City foi fechado. Nós estamos aqui enquanto ninguém nos retira a força, o que é uma mera questão de tempo. Mas a Guerra Civil Corporativa atinge seu ápice com um ataque coordenado da Hard Light e da ex-ghostcorp BioSynthesis contra a VxS Tower, o símbolo do poder corporativo mundial. As informações relatam pelo menos 90 mortos até o momento."

Roxxy então, viu perplexa, a torre de leds coloridos, em chamas no terraço, os vidros do andar da sala de conferências em chamas, e pessoas se jogando desesperadas do último andar para escapar das chamas. Muitos funcionários menores, copeiros, garçons, zeladores, gente desimportante demais para que a GS desse atenção. Eles - é obvio - estavam protegendo as grandes fortunas da cidade. Roxxy estava vendo um golpe administrativo, muito possivelmente, uma tentativa desesperada de remover Adrian Valex e assassinar Kicilov e Archibald Reese. 

— Ô seu palerma, porque você tá botando a roupa? - Gritou Roxxy.

— Você não está em condições de dirigir depois do tombo que tomou. Já pedi meus assessores pra mandar um VTOL... E você provavelmente vai lá ajudar seus amigos, então... Deixe-me pelo menos dirigir.

Roxxy levantou-se, rapidamente, engatando-o pela gola da camisa amarrotada e dando uma rasteira nele, arremessou-o sobre a cama.

Kyle ficou surpreendido e em choque. Roxxy subiu sobre ele, deu-lhe um leve beijo e com olhar malicioso sorriu.

— Ás suas ordens, Roxxy — Finalmente Markus falou algo.

— Assim que eu gosto. — Roxxy respondeu. — Você é um amor, Kyle... Quando é um bom menino, obediente... — E deu um sorriso malicioso. — Deixa que eu me viro... Mas você ganhou pontos comigo depois de se preocupar com esses detalhes. Eu não preciso estar lá para acabar com isso ainda hoje. Vou ligar pra "mamis"... Ela vai saber o que fazer...

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...