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terça-feira, 11 de novembro de 2025

[CONTO] Improvisação e genialidade

19 de Abril de 2059 - 9:00 


Archibald Reese observava os diagramas flutuantes no ar com o cenho franzido.

As linhas de código e as estruturas esquemáticas da Forja Neurotermal se moviam lentamente diante de seus olhos, como se o próprio projeto respirasse, tentando se justificar. Roxana Verheyen deixava rastros de personalidade até mesmo em sua engenharia — fios nervosos traçados com a mesma insolência com que falava. Reese respirou fundo, apoiando as mãos sobre seu holopad pessoal na sua casa em Templeton Hill. Rade estava no canto escuro da sala observando-o em silêncio. Ele achava curioso a forma como ela a seguia, mas de alguma forma aquilo não o incomodava, era até reconfortante, quase familiar. havia algo no jeito em que ela o olhava, em que cuidava da casa quando ele não estava vendo (ou achava que não estava) que era quase dócil, se não dócil mesmo. Dócil demais para um militar. Um militar acordava rigidamente no mesmo horário, dobrava cobertores e lençóis quase mecanicamente como quem dobra uma bandeira. Rade não, ela esticava lençóis e os alisava como um carinho. E depois o seguia, o observando de longe, em silêncio. Seu escritório em sua casa, estava silencioso, mesmo com a presença dela, exceto pelo zumbido tênue dos servidores e o estalo ocasional do sistema de refrigeração.

Lá fora, a chuva fazia o ar vibrar com eletricidade. Ele voltou aos seus pensamentos.

Ele ampliou a estrutura do Chip Neurotermal, o que seria evidentemente o produto final da forja.
Era brilhante, sem dúvida. Engenhoso. O tipo de invenção que só poderia nascer da mistura entre genialidade, improviso e imprudência.
Mas quanto mais ele analisava, mais via a assinatura de Roxy — e os seus vícios.

Ela tratava o cérebro como um engenheiro trataria uma máquina. Para ela, o córtex era uma placa-mãe. Os axônios, circuitos.
O lobo frontal, um processador esperando ser alimentado com um código limpo, elegante, simétrico. E o chipe se encaixaria no córtex pré-frontal como um chipe se encaixa num soquete soldado de forma improvisada. Reese percebeu que Roxxy, diferente dele que recebeu desde jovem a melhor educação formal, era uma scrapper - pessoas que fazem suas rebimbocas tecnológicas catando lixo e montando do jeito que dá.

Reese sorriu, cansado.
— Genial… Mas ignora o básico... — murmurou.

O cérebro não era uma placa de silício.
Não era um produto racional do desenho de um projetista.
Era o resultado caótico de bilhões de anos de evolução, uma colagem orgânica de soluções temporárias que nunca foram substituídas porque, por acaso, funcionavam bem o suficiente.

“Instabilidade funcional baseada em improvisação, tentativa e erro”, dizia seu antigo mentor, Dr. Pável, em suas aulas. O cérebro, pensava Reese, era um amontoado de remendos — um programa sem backup, cheio de redundâncias, registros inúteis, e atalhos tortos que a natureza esqueceu de deletar. Uma colcha de retalhos que poderia ser usado para estudar cada etapa da evolução humana assim como diferentes níveis de solo poderiam entregar períodos geológicos diferentes da vida da Terra.

E ali estava Roxxy, tentando inserir um chip limpo, matematicamente perfeito, no meio dessa bagunça de sinapses imperfeitas. Um sistema que só compreendia o caos e a adaptação.

Reese murmurou em voz alta: - Isso explica porque você acha que replorgues são droids muito evoluídos... 

Reese abriu a subcamada térmica do projeto do chipe e viu o problema real:
Os neutralizadores eram engenhosos, mas ignoravam a arquitetura e a linguagem de programação dos neurobloqueadores. O NB0 controlava os outros NBs porque tinham a mesma estrutura e linguagem de programação. Mas o chipe dela era diferente.

Aqueles pequenos reguladores de temperatura neural eram eficientes, mas ingênuos. O primeiro erro, a linguagem de programação era TK12 e usavam arquitetura SSC, produto típico da Takahashi Inc; como se fosse um game designer usando a Unreal Engine. Os professores Gómez e Ferguson precisaram criar sua própria arquitetura e linguagem de programação para tornar os neurobloqueadores funcionais. O que Roxxy pretendia com seu chipe seria como tentar colocar um cartucho de Nintendo num moderno Playbox ou ainda, esperar que o Luminum OSII lêsse um programa do velho Windows 12. 

Mas dava para ver que ela tinha pelo menos pensado certo ali... Ao modular o fluxo sanguíneo para desativar por aquecimento os NBs, eles criavam microzonas de estagnação — pequenas bolhas de morte celular. Trombos. Mini-AVCs. Uma forma engenhosa de causar pequenos danos calculados mas isolando os NBs do restante do cérebro. Se tivesse a programação e a arquitetura certas poderia funcionar, mas sem isso, geraria uma resposta autoimune agressiva que mataria o replorgue. O chip, ao tentar isolar e sobreaquecer os NBs, acabaria matando o hospedeiro.

Ele se recostou na cadeira, encarando a projeção azulada do holopad.

Ele sabia porém que ela estava no caminho certo, com a orientação de Park Woo e a supervisão dele o projeto era realmente promissor. Mais uma vez ele entendeu seu mentor, cuja foto com ele ainda estava num prota-retratos na mesa. Se Roxxy tivesse tido uma educação formal brilhante como a que ele teve, ela certamente ganharia um Nobel.

Quantos milhões de talentos como Roxxy aquela cidade desperdiçava ao não ofertar condições mínimas de educação e desenvolvimento? Roxxy deu sorte de encontrar alguém que a ajudasse, mas e os outros que não davam essa sorte ou terminavam vitimados pela violência urbana? Quantos Einsteins talvez não morreram nos becos escuros de Valex? 

Reese tinha a chance de corrigir esse erro da sociedade com Roxxy. Se Jenny a tinha salvado da pobreza e dado a ela educação formal tardia mas de qualidade, Reese poderia ser o mentor do futuro da ciência, como Pávell foi para ele. E ele o faria, sem pedir nada em troca a não ser os royalties pelo uso das instalações do Centro de Pesquisas Julya Karpova.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

[CONTO] Espere


Drasa arrumava as malas como quem tenta organizar o caos por dentro. Cada dobra era uma tentativa de alinhar o que se quebrara — não o tecido, mas o sentido. A luz fria do dormitório realçava a mistura estranha de rigidez e vulnerabilidade que ela carregava no olhar. O som do zíper cortava o ar, metódico, quase ritualístico. Sua pele de synthcells era indistinguível da humana, produto que o caos das Guerras de 30 e 38 aperfeiçoaram. Hanzo dissera que já falara com a Roxxy, representante da DSM. A transferência estava pronta. Ela seria vendida — e, enfim, livre do peso de sentir. Livre da confusão que os sentimentos estavam provocando em seus NBs.

Dissera isso com a calma calculada de quem se resigna. Drasa sabia que aquilo estava machucando Hanzo por dentro, mas parecia ser o certo. Ela estava ferindo seu proprietário e a quem devia guardar por instabilidades de processamento. As portas se abriram com um ruído suave. Xin entrou. Parou ali por um instante, observando a amiga — a irmã de alma — dobrar uma camisa pela terceira vez.

— Então é verdade — disse, sem rodeios. — Vai mesmo?

Drasa não respondeu. Continuou arrumando a mala, obstinada.

— Hanzo já resolveu tudo. Amanhã cedo irei.

Xin deu um passo à frente.

— E você quer isso?

Drasa hesitou.

— Quero o que é certo.

— Cuidado — respondeu Xin, calma. — “Certo” nem sempre é o mesmo que “se salvar”.

Drasa apertou a camisa nas mãos, os nós dos dedos brancos.

— Eu não sei mais o que é meu, Xin. Não sei se o que sinto é real ou se são os NBs distorcendo os sinais.

— E o que você acha?

— Acho que ele tem razão — disse, num sopro. — Eu… eu sinto medo. Medo de fazer algo que o machuque. Medo de perder o controle. Medo de… querer ficar. — Seus olhos piscaram e sua voz titubeou na hora de dizer. Xin percebeu.

Então, se aproximou mais.

— Olha, quando eu não gosto de algo, tendo a ser muito rigorosa, e tive uma conversa com ele que sinceramente... eu acho que passei do ponto.

Drasa olhou curiosa.

— Acho que vivi em meio ao caos e a desordem tanto tempo, vendo gângsteres de vida caótica me explorando, que acabei vendo um pouco deles no Hanzo.

— Trauma?

— Não quero falar sobre isso. O que importa e o que eu quero dizer é que vou tentar quebrar esse padrão, começando por você. e depois pedirei desculpas pra ele.

— E o que isso tem a ver comigo?

— O que eu quero dizer é que você não está com defeito, Drasa. Está sentindo. Isso é o que sempre tentaram arrancar dos replorgues. Nós humanos valorizamos a liberdade de forma hipócrita, e criamos replorgues porque não sabemos lidar com a liberdade de outros humanos. A liberdade de fazer o que quiser, por ser universal, implica na liberdade de não se ser amado. Não se pode obrigar os outros a te amar. A liberdade de não se ser servido. A não ser que pague alguém por isso, ninguém obrigado a te servir. A liberdade de não se ser cultuado. A não ser que você seja realmente especial, ninguém te admirará. Eu aprendi isso vivendo anos sob as mais variadas tiranias, e quando você é uma mola pressionada sempre, é praticamente impossível não passar da conta quando você se sente livre. Hanzo escolheu beber, eu escolhi... Soltar os cachorros.

Drasa balançou a cabeça.

— Eu fui feita pra lutar, Xin. Não pra me perder num beijo. E não preciso ser pagar por isso.

— Quem decidiu isso? Você? - pontuou Xin. — Ou o que colocaram na sua cabeça?

Drasa sentiu sua cabeça latejar.

— Eu sou um objeto. Não posso ser amada.

— Ele já te tratou como coisa alguma vez?

A dor aumentou.

— N-não... Mas eu não mereço ser amada.

— Quando se é cativa de outros, saber reconhecer pequenos trejeitos, saber diferenciar raiva verdadeira de ameaça simples é essencial para sobreviver. È a diferença entre uma surra ou um pouco de respiro... Eu aprendi a ler minúcias facilmente. E eu sei ver amor. Mesmo que nunca tenha amado ninguém.

Xin respirou fundo e falou:

— Drasa, não há ninguém. Nenhum ser humano na face da Terra que mereça ser amado. O amor é dado. Sem porquês. Sem motivos aparentes. Beleza, dinheiro, carisma, são coisas que atraem alguém pra tentar algo, mas só a vontade de duas pessoas de darem-se uma a outra as mantém juntas. Você quer?

Drasa pensou, seus NBs novamente dispararam, ela sentiu dor e vertigem. Xin a apoiou.

A lembrança veio como uma lâmina: o toque rápido, o gosto suave, o olhar inocente e surpreso de Hanzo antes de ela se afastar. E o vazio depois.

— Ele não me pediu pra ir — continuou Drasa. — Fui eu quem disse que devia. Que era o melhor. E ele não me impediu.

Xin respirou fundo.

— Então espera. Espera pelo menos uns dias. Você não pode decidir nada agora, não com tudo isso latejando. Dá tempo pros NBs serem contornados… e pra você escutar o que sobra quando o eles se calam.

Drasa olhou para a mala fechada. Por um instante, parecia enorme. Pesada demais para uma decisão tão leve quanto “ir”.

— Cinco dias — murmurou.

Xin assentiu.

— Cinco dias. Se ainda quiser ir, eu mesma acompanho. Mas se ficar… a gente descobre juntas o que fazer com esse coração novo.

Drasa ergueu o olhar, uma centelha tímida de alívio no meio do medo.

— Não conta pra ele. Ele acha que eu não sinto medo.

Xin sorriu, melancólica.

— Eu duvido que ele pense isso... Mas não contarei. Você deve contar.

A porta se fechou atrás dela.

Drasa ficou sozinha, o som do zíper ecoando outra vez.

Mas, dessa vez, ela não fechava a mala.

Ela apenas a abria — como quem admite que ainda não está pronta para partir.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

[CONTO] Antes da Chuva Parar

Valex City, 15 de Abril de 2059: 17:00 - 11ºC - Chuva intensa.

A tempestade rugia sobre Valex City, e as janelas amplas da casa em Templeton Hill tremiam como se pudessem sentir o peso das nuvens. O reflexo dos prédios negros do Centro Financeiro se misturava aos relâmpagos, e dentro, o calor amarelado das luzes deixava o ambiente quase sereno — quase.

PeaX apareceu à porta da sala, os olhos vermelhos cintilando num brilho discreto, como duas brasas sob véu. O cabelo bob branco caía em ondas suaves, contrastando com o vestido grafite que ela mesma escolhera para a ocasião. Reese, ajeitando as abotoaduras, ergueu o olhar — e sorriu.

— Você está linda, PeaX.

Ela piscou, sentindo o rosto corar de leve, um traço quase imperceptível de calor que lhe subiu à pele.

— Obrigada, Reese. — A voz dela saiu mais baixa do que o habitual, quase humana, quase tímida.

Reese ajeitou o colarinho, desviando o olhar da forma elegante como ela se movia pelo cômodo. PeaX aproximou-se da aparelhagem de som, passou o dedo sobre o painel de vidro e, com um toque, preencheu o silêncio com acordes de um synthwave clássico do pré-guerra, Neon Lights de TimeCop1983 e Josh Dally. A chuva continuava lá fora, feroz, como um pano de fundo de ruído branco.

— Eu sou neurocientista, físico, autor de livros, dono de uma corporação… — Reese resmungou, encarando o espelho. — E ainda assim, não consigo dar um nó decente na maldita gravata.

PeaX riu, um riso leve, cristalino — um som sincero, que preencheu o ambiente.

— Abaixe um pouco, por favor. — Disse ela, aproximando-se. Ele obedeceu, e seus dedos se moveram com graça sobre o tecido azul-marinho. — Pronto.

Ela ajeitou o nó, deu um pequeno passo atrás e o olhou por inteiro.

— Está lindo. Sabe, Einstein não sabia combinar meias. E nunca soube pentear o cabelo. Gênios se embananam nas coisas simples enquanto olham para as fronteiras do universo.

Reese deixou escapar um sorriso breve. Por um instante, olhou para ela como quem olha algo que não deveria desejar — e mesmo assim, deseja.

— Não sei o que faria sem você, PeaX.

Ela o fitou. Os olhos vermelhos brilharam mais forte, e por um momento, a respiração pareceu suspender-se entre eles.

— Eu também não sei o que faria sem você, doutor. — Ela hesitou. — Mas estou preocupada.

Ele franziu o cenho.

— O plano de jogar migalhas de pão para os investigadores… não funcionou. A Hard Light já notou a NeuralDesk. Eles sabem, Reese. O jogo está perigoso demais.

Reese ficou em silêncio. Só a chuva e o murmúrio melancólico da música preenchia o espaço entre os dois. Então, ele disse:

— Se tudo der errado, pegue a maleta no meu closet. Há dinheiro em espécie lá. Vá para Cascádia. É uma colônia da VESYI, na América do Norte. Um dos raros lugares a terem taxa de radiação zero ou próxima de zero. Quero que esteja segura, acima de tudo. Leve Togall.

PeaX se afastou um passo, indignada.

— Por que se sacrificar por isso, Reese? Não é sua missão redimir o mundo. Se os homens querem viver para sempre, deixe-os. Viva a sua vida. Seja feliz.

Reese desviou o olhar para a janela. Os trovões recortavam a cidade, e o reflexo dele e dela se confundia no vidro.

— E o Senhor Deus disse: “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente.” — Ele fez uma pausa. — Gênesis 3:22.

— A Bíblia? — perguntou PeaX, surpresa.

— Não sou religioso. Mas há sabedoria nos antigos, PeaX. A morte é trágica, mas é bela. É a única coisa que iguala o jogo entre os ricos e os pobres. Quando ela chega, não importa se você é o rei, a rainha ou um simples peão. No xadrez da existência, perante a morte, todos vamos para a mesma caixinha quando o jogo acaba.

A voz dele baixou, rouca, carregada de algo mais do que cansaço.

— Só há uma solução para esse mundo: destruir a Síndrome de Prometeu Moderno. O desejo humano de ser como Deus.

PeaX olhou-o longamente, como quem tenta compreender o peso do que ouve.

— Talvez não haja como redimir o mundo.

— Talvez. — Ele concordou. — Mas se você pode evitar um mal… e não evita… e pessoas se machucam… a culpa é sua.

O silêncio voltou. A música seguia, distante, como se viesse de outro tempo.

PeaX se aproximou sem dizer nada. Sentiu algo — um pressentimento, uma vertigem súbita de perda. Então, o abraçou.

Por um instante, ele correspondeu, o queixo repousando sobre o topo da cabeça branca dela.

E lá fora, enquanto a chuva caía com raiva sobre Valex City, o relógio marcava as últimas horas antes da Festa Beneficente — e talvez, sem que nenhum dos dois soubesse, as últimas horas de paz que teriam.

domingo, 12 de outubro de 2025

[CONTO] Uma cidade maldita

 15 de Abril de 2059, 19:30h.



A chuva caía torrencialmente na noite de Valex City: um halo de neons pulsa contra o brutalismo preto do cinturão industrial se formava nas pesadas gotas de água que ajudavam um bombeiro e um droid a apagar um incêndio. O lixão de Groove Street ainda fumaçava num serviço que foi ajudado pela natureza decadente mas ainda funcional. Cinza quente, cheiro de plástico queimado, ratos queimados sendo devorados por ratos vivos.

Anderson Telles, máscara no pescoço, apaga o último foco com a mangueira do caminhão velho da VxS Firefighters. A pintura desbotada ainda deixa ver, por baixo, o nome antigo: Petrikov Firefighters — uma cicatriz do crash da quarta-feira negra de 2056. Ele fecha a válvula e dá dois toques na carcaça metálica.

- BR33! Hora de abafar aquele setor! – Ele aponta para um monte de lixo ainda rubro em brasas. O droid vai.

Vindo das paragens de Little Brazil, do setor Alpha, no meio das ruínas do que um dia fora o setor de casas de design levemente colonial, um TesyD Bedshaped encosta, quadrado e mal-humorado, como se fosse um Crown Victoria com ângulos demais. O símbolo da General Security Inc num decalque no vidro traseiro, a escria Police em dourado na lateral. Dele saem Kel Herrera, um policial de Little Argentina com hálito de destilaria doméstica, e Hayley Quinn, menina loira de Templeton Hill, terno feminino skinny, com mais jeito de escritório que de patrulha, olhar afiado, bottom da General Security Inc. A ralé da GS a chama de “a nova Sato”. Se sobreviver.

— Isso aqui foi o quê? — Kel acende, trêmulo, um cigarro.

— Resposta — Telles fala sem olhar. — Alguém bateu nas Beetches; o lixão pegou fogo em troca. Pelo menos foi o que uma velhinha que mora no 23 ali atrás contou.

— “Beetches”? — Quinn anota. – Groove Street não tem gangue. – Ela pontuou suspeitosa.

— Meninas da prostituição de O’Higgins provavelmente. Testemunhas viram um capataz mandar duas delas jogarem molotov — Telles aponta um arco queimado, garrafas rachadas na lama. — Vidro com pano. Improviso de fábrica.

 Quinn franze a testa.

— Forçar trabalhadoras do sexo a tacar fogo num lixão? Não fecha com padrão de retaliação. Vou levar isso pra chefe de Polícia.

Kel dá um passo à frente, desinteressado de padrões:

— Fecha a noite... Teles. – Ele fala o nome do bombeiro depois de olhar pra o ceachá sujo de cinzas - Aqui é zona sem santo. Vai pra casa. Você deve ter família.

“Família”... Essa palavra. Telles engole seco. Groove Street vibra no osso — lembrança de tiros, sirenes, o asfalto onde a esposa caiu dois anos antes, saindo do turno na fábrica de baterias nióbio-sódio pra VTOL, uma subsidiária falida ligada a MVIDEO. Ele respira o ar sujo. Pensa em Nária, oito anos, ursinho gasto, cabelo preso em marias chiquinhas com presilha de plástico. Sua pequena alegria na vida. Sua filha.

— Bot33 — chama – Guardar mangueira! O andróide da Brazil Robotics desperta, pintura apagada, passos de máquina cansada suja de óleo. Guarda a mangueira com gestos quadrados e sobe pro estribo.

Telles olha pro droid. O ranço volta.

Por que a Valexsynthesis não bota replorgues nas equipes? Replicantes ciborguizados de nascença, empáticos, capazes de ler nuances. Não confundem ironia com ordem. Os droids ainda travam com semântica. Em incêndio, semântica mata.

Ele se vê de novo recebendo a notícia da morte da sua amiga que olhava sua filha nos dias de folga dela, ela estava em Kazuma: Augustine Chaves gritando “reabastecer!”. O droid dela entende “reabastecer o caminhão”, não o tanque de água. Sai em disparada pra um posto diesel, arrebenta a mangueira, deixa Augustine sozinha no quarto andar. Ela detona uma C4, derruba a caixa-d’água pra conter o fogo, e morre sufocada em gás carbônico. O filho, Diego, dez anos, recebeu o quê? Nada. A VxSCM, o tribunal interno da Valexsynthesis, “encontrou” um aviso prévio datado do dia anterior. Caso encerrado.

— Telles? — Quinn chama, quebrando a espira de lembrançasl.

— Já tô indo.

Ele sobe no caminhão. O TesyD recua, luzes azul-branco riscando o lixo. Kel, já com outro trago aceso, murmura:

— Some daqui.

Telles engata. Groove Street corre pelas laterais como um filme ruim, ele estava no pior lugar do cinturão industrial, que já era um lugar ruim. Ali o lugar era tão ruim que o cheiro de lixo era intenso, o chorume escorria pelas ruas e havia lixo por todos os lados. Então, perdido em pensamentos, surgem motos e um jipe baixo, faróis estourando a noite.

Tiros de aviso.

A diarquia.

— Merda — ele diz, voz baixa.

Os primeiros tiros para valer atravessam a chapa como papel. O para-brisa estrelado vira teia. Bot33 recebe vários impactos diretos; braço destruído, fluido vazando do peito, por fim, a cabeça explode e ricocheteia no painel, tela apaga, braços moles. Telles abaixa, pisa fundo. O caminhão urra metálico. Ele sente o tremor ao atropelar dois — um corpo some sob a roda traseira, o outro voa contra um pilar de concreto, um borrão lilás de neon na jaqueta.

Mais tiros. Um calor agudo na costela, outro no abdômen. O volante escorrega na mão — sangue. Ele fecha a curva seguinte por instinto, o motor tossindo. Atrás, as motos desistem; o jipe quebra eixo no trilho de manutenção. O rádio chiando: palavras cortadas, códigos. Provavelmente outro incêndio... Algo sobre OStermann Heights ou algo assim.

Telles respira em cacos. O hospital da P&K Prosthetics and Health Services ficava a 20 km. Com trânsito uma hora, com sorte, coisa raríssima, dez minutos. Sem sorte, nunca. E o plano básico? Ele sabia de cor: ferimento letal por arma de fogo não cobria. Hospital: 90.000 na tela da conta. Dívida que passaria pra Nária, já que ele não sobreviveria.

Ele tomou, então, a decisão que cabia. Não a mais heroica. A mais humana. O medo de deixar sua filha sozinha naquele mundo-cão era o que invadia sua cabeça... Mas ao mesmo tempo deixar sua filha endividada tão jovem, a empurraria para a prostituição, ser agredida por cafetões, para pagar por uma dívida hospitalar que até ela completar 18 anos, já passaria de um milhão. Não sua pequena Nária. Não a menina no ursinho e das marias chiquinhas...

Valex City abre espaço diante do caminhão moribundo: torres pretas, passarelas de vidro, um holograma de uma igreja vendendo um lote no paraíso. Ele corta por Little Argentina, escapa de uma blitz, atravessa um corredor de prédios onde a chuva cai em peso. Vira na rua de casa, já está em Little Brazil.

Freia.

A porta se abre como se estivesse a espera, e Nária corre. O ursinho desbotado balança na mão pequena. A HoloTV dentro late notícias e concursos de slogan.

— Papai!

Ele desce do banco com esforço, acena de leve, como quem volta do mercado. O sangue colando o macacão, a luz de azul de um anúncio de CyberShen fazendo a poça brilhar como petróleo.

Ela o envolve com braços de passarinho que mal completam sua cintura.

— Papai, você tá… molhado. Vamos entrar!

Ele sente o cheiro do shampoo barato e do talco. A casa conhece a respiração dele. O corredor, os azulejos, a cama por arrumar. Ele tenta responder. Solta metade de um “claro”. O resto vira ar. “Valeu a pena”... Ele pensa. Ouviu a voz de seu anjinho uma última vez. Ainda que não a tenha visto. Sua vista estava escura. Ele sabia, sua pressão arterial estava caindo. Depressa.

Silêncio. A HoloTV faz a vez de narradora do mundo:

“…Hard Light Corp apresenta proposta para trabalhadores que recusarem o novo programa HCC: realocação subsidiada para colônia na antiga Europa…”

A voz segue explicando benefícios, métricas de produtividade, vales-luz. Nária, sem entender, procura o rosto do pai.

— Papai?

O sorriso de Telles é pequeno e verdadeiro, mesmo de joelho em frente a filha, o que ele conseguia oferecer. O corpo cede no abraço. A noite segura os sons, como se a cidade inteira tivesse prendido o fôlego.

“Em parceria com a ValexSynthesis, o programa Control 2.0 vai providenciar a cada trabalhador e cidadão de Valex, uma vida sem reclamações de trabalho, Vocês nunca mais precisarão fazer piquetes, motins, nunca mais terão a sensação de salários insuficientes. Basta instalar o novo HCC no córtex pré-frontal. A P&K fará o procedimento gratuitamente por conta de seu empregador! Fale com seu patrão, e nunca mais terá de se preocupar com sofrimento no trabalho!” – Seguia a propaganda na HoloTV, enqunto uma criança, com o ursinho, não entendia o porquê o pai “dormia sorrindo” de joelhos no portão de casa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

[CONTO] Decisões questionáveis

 Valex, 15 de outubro de 2059

A chuva caía sobre Valex como se o céu chorasse por aqueles que já não podiam. Do alto do edifício Pável, a sede da NeuralDesk, era possível ver o Edifício Howard, sede da Hard Light de frente, com seus letreiros verdes e piscantes. Ao lado um telão de led de propaganda da Radio 1st Station que bruxuleava em roxo. Ambos se erguiam como lâminas de vidro, atravessando o nevoeiro digital que cobria a cidade. O som das gotas sobre o metal lembrava um código se repetindo, sem fim, ecoando no coração da metrópole de 3 milhões de almas.

Nos corredores do 80º andar, Togall, um replorgue 2.1-M, caminhava com passos pesados, em marcha. Cada movimento era fluido, preciso. Seu corpo era biotecido, pulsante, sustentado por reações neuroquímicas complexas. De longe, poderia ser confundido com um humano. Apenas os olohos vermelho, o cabelo branco, e o leve albedo azulado de sua pele — visível sob certas luzes muito raras durante o dia — revelava o que realmente era: um replorgue.

Ele entrou esvoaçando seus cabelos brancos longos no escritório do proprietário da empresa. Archibald Reese. O ambiente estava mergulhado em uma penumbra fria. Do lado de fora, a cidade refletia-se nas janelas de vidro fumê por opção, a taxa de iluminação poderia ser regulada por controle remoto. Reese permanecia sentado, o olhar fixo em seu holopad, onde camadas de dados giravam lentamente. As notícias projetavam-se no ar — investigações, relatórios, acusações veladas. Tudo convergia para um mesmo ponto: a NeuralDesk.

Togall aproximou-se.

— Reese... o que devo fazer? A Hard Light já levantou uma lista de suspeitos, e a NeuralDesk figura entre as três primeiras.

O homem ergueu os olhos, cansados, fundos, marcados por noites em claro.

— Por hora, nada.

Sua voz soava distante, quase fria.

— A General Security Inc colocou aquela Reyna e um outro 2.1-M na investigação. Temo que a Eerie não tenha sido tão meticulosa assim.

— Ela foi... - Reese falou. — Reyna é que é acima da média. — Deixe os investigadores chegarem à verdade. A NeuralDesk não tem força para enfrentar a Valexsynthesis... nem a Hard Light. Quem dirá as duas juntas. Então, precisamos guiar os investigadores até a verdade. Sem que nosso nome apareça.

Togall manteve-se de pé, em silêncio, absorvendo a resposta. Então, falou:

— Jogo difícil... Margem estreita... Você não fez nada quando PeaX autorizou Eerie a matar Hooligan.

O tom era contido, mas havia um toque de acusação ali.

— E até onde consta... Hooligan era um homem bom.

Reese desviou o olhar. O som da chuva pareceu aumentar, batendo contra o vidro com insistência.

— PeaX não tem culpa. — respondeu, baixo. — Eu autorizei. Ela apenas cumpriu minhas ordens.

Por um instante, Togall hesitou. Suas sinapses químicas oscilaram, Togall não teve tempo de processar o que os humanos chamariam de decepção, seu NB2, num disparo único, reduziu a intensidade daquela sensação a um mero desconforto.

— Você e eu sabemos que isso não é verdade. - Togall falou em tom de voz travante.

Deu um passo à frente.

— Você e PeaX têm uma amizade linda, mas isso não legitima autorizar a morte de alguém inocente.

Reese ficou em silêncio. As mãos apoiadas sobre a mesa tremiam imperceptivelmente. Então, murmurou:

— Você tem razão. Sinal de que os treinamentos de empatia e superestimulação estão funcionando... Mas não havia escolhas.

Levantou-se devagar.

— Hooligan não concordava com o projeto MindShift. Nem com o Control 1.0.

Deu alguns passos até a janela, ajustou a luminosidade no controle, permitindo uma iluminação maior. Os letreiros holográficos pulsavam mesmo durante o dia. A cidade era sempre escura, mesmo em dias de sol. E era sobretudo escura naquele dia chuvoso e nevoento. De costas, Reese retomou o raciocínio enquanto Togall pegava, curioso, um globo de neve com uma folha de ácer sobre a mesa de Reese.

— Mesmo assim, ele não seria um obstáculo. PeaX o convidou para vir até aqui, sob fachada de proposta de trabalho. Queríamos que ele se unisse a nós. Ele hesitou. Desconversou. Depois convidei ele para um Open House da Fundação. Fiz a proposta pessoalmente. Mas ele não confiou.

O reflexo da cidade cobria o rosto de Reese como uma máscara.

— Ele ia entregar um upgrade importante no MindShift — a versão 5.0. Aquela que resolveria o problema da testemunha constante. O HCC. Eu... não podia permitir.

Togall nada disse. Apenas observou o homem diante da paisagem de Valex, as luzes se dissolvendo nas gotas que desciam pelo vidro.

Então, colocando o globo de neve sobre a mesa, deixou sua voz romper o silêncio, baixa, firme:

— Tudo isso... pra honrar Pàvel? Já o vingou...

Reese permaneceu imóvel. Seu silêncio era resposta. Um silêncio pesado, denso, saturado de lembranças.

— Até quando vai se sentir em dívida? — perguntou Togall.

Nenhuma resposta. Apenas o som da chuva.

Mas o rosto de Reese denunciava a dor: os olhos marejados, o maxilar tenso, a alma presa a uma culpa que nem o tempo podia dissolver. Togall aproximou-se da mesa. Sobre o holopad, as imagens pairavam no ar — registros de Haya e Reyna filmados por drone no laboratório ultrassecreto de Ostermann Heights.

Ele apontou para ambos.

— Vou eliminar as provas vivas. Se ficarem, eles vão chegar até você.

Sua voz era firme, convicta.

Reese girou-se bruscamente.

— Não. Precisamos deles. Além do mais...

Deu um passo à frente.

— Você não teria chances, Togall. Reyna, segundo nossa informante na GS Inc recebeu uma série de melhorias que estão acima das capacidades da própria NeuralDesk.

Sua expressão suavizou-se.

— E... não quero perder meu amigo.

O replorgue recuou um pouco, confuso. “Amigo.” A palavra ecoou em suas redes químicas como um pulso de calor. Não estava preparado para senti-la, e não teve tempo, suas pupilas piscaram freneticamente, enquanto uma sensação de anestesia mental pairava sobre sua mente, fazendo aquela sensação desaparecer, como se fosse uma lembrança que se perdia.

Reese aproximou-se e, num gesto inesperado, o abraçou.

Togall ficou imóvel. Seu corpo reagiu com lentidão, absorvendo o toque, o calor, a dor compartilhada. Dessa vez o NB2 não teve como obstaculizar. Ele sentiu o coração aquecer. "Ternura" pensou. "Isso é... Ser humano?"

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

[CONTO] O futuro

 Valex City, 14 de Abril de 2059


O vento sussurrava contra os vidros reforçados da mansão em Templeton Hill, trazendo consigo o brilho enevoado da cidade que se estendia como um mar de néon vermelho e azul no horizonte. Dentro do escritório de Archibald Reese, o espaço parecia mais um templo da razão do que uma sala de estar: paredes forradas de painéis pretos, prateleiras repletas de monografias raras em suportes holográficos, e no centro, dominando tudo, um holopad.

O aparelho projetava colunas de dados translúcidos no ar, cascatas de informação que subiam e desciam em ritmo vertiginoso, como se respirassem. Gráficos pulsavam em linhas verdes e azuis, mapas genômicos e circuitos positrônicos se sobrepunham a relatórios estratégicos. Reese observava-os com olhos fixos, quase estáticos, as pupilas refletindo linhas de código.

Atrás dele, o som sutil de passos: metálicos, mas leves, precisos, quase humanos demais para serem apenas programados.

PeaX entrou no cômodo. Seu cabelo prateado caía sobre a testa numa franja rebelde, e a jaqueta preta colava-se ao corpo com naturalidade. Os olhos, de um tom vermelho-brunido, carregavam uma vivacidade incomum entre os de sua espécie.

— Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você, Reese? — disse ela, com a voz suave, quase num tom íntimo.

Reese não desviou o olhar dos dados. Seu dedo deslizava pelo ar, rearranjando gráficos e relatórios.

— Hoje não, PeaX. — respondeu mecanicamente, como se fosse apenas parte do ruído das máquinas.

Ela ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça.

— Então… estou dispensada? — perguntou, com uma respiração leve, quase cansada.

Reese girou lentamente a cadeira. O estofado de couro rangeu suavemente. Seus olhos pousaram nela, firmes, e uma linha de exaustão atravessava seu rosto. Ele estendeu a mão.

PeaX sorriu com doçura, caminhou até ele e segurou a mão dele com um gesto contido, mas carregado de proximidade.

— Você merece descansar. — disse Reese, com um calor raro na voz. — Obrigado pela amizade, pela fidelidade… pela competência. Tenho orgulho de você. Foi a primeira fixer replorgue da história de qualquer corporação. E saber que foi a NeuralDesk quem ousou dar esse passo… isso é uma grande alegria para mim.

PeaX corou — algo improvável, mas real. Sua pele assumiu um rubor quase humano. Sorriu tímida, mas nada respondeu de imediato.

— Ao fim da missão divide et impera, prometo… Você terá seis meses de férias totalmente merecidas. — completou Reese.

Os olhos dela se arregalaram, surpreendidos.

— Seis meses? Isso é muito mais do que qualquer funcionário. A maioria recebe quinze dias, no máximo um mês. O Togall mesmo teve dois meses e já achou um luxo.

— Você merece. — respondeu Reese, firme. — Só lamento não poder desfrutar disso com você. Assim como não pude participar das atividades lúdicas do Togall durante o recesso dele.

O silêncio ficou por alguns instantes. Ela desviou os olhos para a grande janela panorâmica atrás dele. A vista a partir de Templeton Hill era magnífica: o centro financeiro de Valex City, para além do Rio Valex, brilhava em infinitos pontos de luz, torres monolíticas com bordas marcadas por linhas de néon vermelho cortando a névoa.

PeaX virou-se novamente para Reese, depois olhou para o holopad ainda ativo.

— E então? — perguntou, a voz mais baixa. — Achou algo importante além de tecnicidades sobre os modelos 1.5 e 2.0 da BioMechaCorp? São dados bem antigos que a 0045 obteve dos servidores da Hard Light.

— Não chame-a assim... Ela escolheu o nome, Eeire, não foi?

— Foi. - Ela respondeu resignada, até com algum incômodo.

— Ao longo da minha vida aprendi a não confiar nas pessoas... E encontrei confiança justamente nos replorgues... Vocês são uma versão superior de nós mesmos... O Mindshift é uma distorção disso, mas se assenta numa premissa verdadeira. Vocês são o futuro. Podem ser um espelho melhor de nós mesmos. Por isso eu respeito a Eerie e todos os replorgues.

Reese respirou fundo. Seu rosto endureceu. Os dedos pararam sobre o teclado.

— Quanto ao que achei... — disse, em tom grave. — Descobri o Projeto Control 1.0.

O sorriso nos lábios de PeaX desapareceu. Ela ficou séria, quase sombria.

— Então… é grave.

Reese assentiu lentamente, os olhos carregados de indignação.

— Mais do que grave. — murmurou. — É a maior ameaça à humanidade já concebida. Uma afronta. Uma abominação. Nojento. Tirânico.

O holopad projetava, agora, imagens fragmentadas do esquema conceitual dos neurobloqueadores desenhados por Ferguson e Gómez.

PeaX se aproximou dele, a expressão carregada de pesar e tensão.

— Reese… o que eles estão tentando controlar?

Reese fechou os olhos por um instante, como se a resposta lhe pesasse mais que qualquer dado técnico.

— Tudo. — disse, num fio de voz. 


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

O Sistema sempre vence



A máxima "o sistema sempre vence" é uma conclusão extremamente apropriada para o cenário de The Replorg. A narrativa demonstra repetidamente que, independentemente das ações, motivações ou vitórias pessoais dos personagens, a estrutura de poder subjacente—a corporocracia—não apenas sobrevive, mas se adapta, se fortalece e coopta as próprias forças que tentam desafiá-la.
O "sistema" aqui não é uma única entidade, mas sim o ecossistema de hipercorporações (como a ValexSynthesis), suas subsidiárias de segurança (General Security Inc.) e a lógica de mercado que governa a vida em Valex City e além. A vitória do sistema não significa que os protagonistas sempre perdem; significa que suas vitórias, no final, servem aos interesses do próprio sistema.
Podemos ver essa máxima se manifestar de várias maneiras nos eventos descritos:
1. A Rebelião é o Motor da Evolução do Sistema
O exemplo mais claro disso é Archibald Reese. Sua motivação era nobre: vingar seu mentor, Neill Pável, e destruir a tecnologia da NetLife para honrar seus ideais e dar um golpe profundo no sistema corporativo. Ele consegue exatamente o que queria: a pesquisa é destruída para sempre, e a NetLife vai à falência.
No entanto, o resultado final de sua "vitória" é a consolidação do sistema de uma nova forma:
• Crise e Reestruturação: A queda da NetLife provoca o "DarkWed Crash", uma crise financeira que causa 15.000 mortes e 40.000 feridos entre a população civil. O sistema sobrevive ao caos, enquanto a população paga o preço.
• De Rebelde a CEO: No meio da crise que ele mesmo criou, Reese compra todo o espólio da falida NetLife por 1 Dólar Austro-Zelandês (AZ$).
• Nasce uma Nova Corporação: Ele funda a NeuralDesk Corporation, tornando-se ele mesmo um poderoso ator corporativo. Ele não destruiu o sistema; ele eliminou um concorrente e tomou seu lugar, rebatizando-o com uma fachada idealista, mas operando dentro da mesma lógica de mercado. A vitória de Reese foi a vitória do sistema, que se reconfigurou de forma mais eficiente em torno dele.
2. O Sistema Coopta e Mercantiliza o Idealismo
Personagens que agem por idealismo ou conseguem escapar veem suas lutas transformadas em produtos ou narrativas que o próprio sistema absorve e vende.
• Neill Pável: O cientista idealista que se sacrifica para impedir que sua tecnologia seja usada para o mal. Seu plano, continuado por Reese, resulta na criação de uma nova corporação, a NeuralDesk, que opera sob seu nome e de seu amor, Julya Karpova, mas ainda é uma entidade com fins lucrativos. Seu sacrifício foi transformado em branding.
• A.J. Brooks e Carol Brooks: Eles são um dos poucos casos de sucesso em escapar do controle corporativo direto, fugindo para o Uruguai. No entanto, sua história de amor e fuga se torna um fenômeno cultural. A Valex Editorial publica biografias não autorizadas, e a Netprime planeja uma série ficcional sobre eles. Sua rebelião pessoal foi comoditizada, transformada em entretenimento e lucro para o sistema midiático de Valex.
3. As Vitórias Pessoais Não Alteram a Estrutura
Muitos personagens alcançam seus objetivos pessoais, mas essas vitórias são irrelevantes para a estrutura de poder.
• Jenny Leatherjacket: Seu principal objetivo era vingar sua família, ganhar dinheiro suficiente para sobreviver e viver em paz. Ela consegue tudo isso: recebe AZ$ 2.000.000 e foge com sucesso. No entanto, suas ações foram o catalisador para o "DarkWed Crash" e a ascensão de Reese. Ela ganhou seu dinheiro, mas o sistema apenas trocou de peças, mantendo-se intacto.
• Akira Sato: Ela usa sua posição na General Security para orquestrar o resultado do NetLife Heist, se vingar de Riley Grey e consolidar seu poder. Ela não luta contra o sistema; pelo contrário, ela é a personificação de como o sistema recompensa seus agentes mais eficazes. Sua ascensão, com rumores de que se tornará a próxima Chefe de Polícia, apenas fortalece o braço repressivo do sistema.
4. O Sistema se Autocorrige e Purga Suas Falhas
O sistema também "vence" ao eliminar elementos que se tornam instáveis ou uma ameaça à sua imagem.
• Riley Grey (Sophia Potter): Uma agente de inteligência da ValexCorp que usou o aparato da empresa para vingança pessoal. Quando suas ações expuseram a corporação, o sistema a descartou. Ela foi forçada a fugir e, no final, foi presa nas Ilhas Falkland.
• BioMechaCorp: Após o Incidente Brooks e as Guerras de Kazuma, a reputação e as finanças da corporação foram abaladas. O sistema não permitiu um vácuo de poder: a BioMechaCorp foi rapidamente adquirida pela concorrente BioSynthesis, que então se fundiu com a ValexCorp para criar a hipercorporação ValexSynthesis, um monopólio ainda mais poderoso. A falha de uma parte levou a uma consolidação ainda maior do poder sistêmico.
Em resumo, o cenário de The Replorg ilustra que qualquer tentativa de ataque frontal, subversão idealista ou busca por ganho pessoal acaba, invariavelmente, por ser absorvida, reconfigurada ou esmagada pela estrutura corporativa dominante. Os heróis podem ganhar suas batalhas, mas o sistema sempre vence a guerra, adaptando-se para se tornar mais resiliente e perpetuando seu controle.

terça-feira, 22 de julho de 2025

[PERSONAGENS] Dra. Bee


Dra. Bee é o alterego de Abigail Rosenborg (Berlim, 04 de Maio de 2028). Ela é uma ex-funcionária da BioMechaCorp demitida por fazer parte da equipe suspeita de sabotagem na altura do Incidente Brooks. Viveu foragida um bom tempo, atualmente é restauradora de chips e nanoprocessadores independente prestando serviços tanto pra diarquia quanto para os Worldbuilders em Templeton Hill. Abigail cresceu num lar estruturado e com ótimas condições de vida sendo filha de Alders Rosenborg, um dos cientistas do corpo técnico contratado por Adrian Valex para construir a ilha e a cidade. Seguiu carreira científica como o pai, que faleceu num assalto a mão armada em 2049.

Abigail caiu em desgraça por fazer parte de uma conspiração para libertar os replorgues sabotando os NBs dos modelos 2.0.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

[PERSONAGENS] Archibald Reese


Archibald Reese (Vancouver, 04 de Abril de 2023) é Programador de Roteiro da NetLife, é um dos principais cientistas do programa "Viva no seu mundo" da corporação em que trabalha. Ele é o personagem-avatar do autor. Ele aparece no conto "Amor e Ficção" e na versão HQ "Um mundo melhor para nós". Entre seus amigos estavam o falecido dr. Neill Pável, a PlorgTech 2.0-P PeaX e seu guarda-costas Togall, um PlorgTech 2.1-M.
PeaX


Togall

 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

[PERSONAGENS] Aysha Halford

Aysha Halford (Valex City, 04 de Julho de 2038) é uma cantora de retrowave e vem sendo considerada por muito a princesa do retrowave e uma das vozes mais promissoras da atual geração. Eclipse Glitch, seu primeiro single, já é o número 7 da Billboard-VC e da rádio 1st Station. Ela tem uma música nova engatilhada: Piranha. Muito se tem especulado sobre a música, mas ela será lançada no fim de 2056.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

[PERSONAGENS] Neill Pável


Neill Pável é um dos protagonistas do conto "Amor e Ficção", sendo ele um cientista brilhante de 45 anos, conhecido por seu trabalho inovador na NetLife, uma das corporações mais poderosas de Valex City. Viúvo há 17 anos, ele vive isolado emocionalmente, carregando a dor da perda de sua esposa, Clara, que foi o grande amor de sua vida. Apesar de cercado por luxo e tecnologia de ponta, Pável sente um vazio profundo, que tenta preencher dedicando-se a projetos visionários, como o controverso "Viva no Seu Mundo". Seu intelecto afiado contrasta com sua fragilidade emocional, resultado de anos de solidão e dependência de medicamentos. Ele vê o mundo através de uma lente crítica, dividido entre o fascínio pela ciência e o desgosto pelas corporações que a controlam. Quando conhece Julya Karpova e sua filha Yekaterina, Pável redescobre através do amor, a humanidade que acreditava ter perdido, e essa conexão o leva a questionar as bases de sua vida e seu trabalho. Seu maior conflito é equilibrar sua lealdade à ciência com a necessidade de lutar contra as injustiças do sistema que ajudou a construir. Sentimentos estes que o levam a um plano ousado para sabotar a NetLife.

[PERSONAGENS] Julya Karpova


Julya Karpova é uma das protagonistas do conto "Amor e Ficção", ela é uma jovem de 19 anos de ascendência russa que cresceu na parte mais precária de O'Higgins, em Valex City, sob a constante opressão de sistemas corporativos e das gangues. Mãe solteira de Yekaterina, uma menina surda de quatro anos, Julya trabalha em dois empregos para sustentar a filha: de dia em uma lanchonete e à noite no TaoKao Pub, como dançarina de pole e GP, em um bar que também funciona como prostíbulo. Apesar das adversidades, ela luta com determinação para oferecer um futuro melhor à filha, encarando a exaustão física e emocional como parte de sua rotina. Seu visual marcante, com cabelos pretos e uma franja branca, piercings e roupas brilhantes, reflete sua rebeldia e a tentativa de manter sua identidade em um mundo que insiste em apagá-la. Julya é pragmática, mas guarda uma centelha de esperança e sensibilidade que poucas pessoas conseguem enxergar. E quem enxergou isso foi Neill Pável, um cisntista por quem ela se apaixonou e que mudou a sua vida. Seu maior desejo é escapar da realidade sufocante e garantir a Yekaterina oportunidades que ela nunca teve.

[CONTO] The Replorg: Amor e Ficção

Valex City, 2055.

Valex City, 3 milhões de habitantes, mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes, Gini de 0.72, IDH 0,770. Seria considerado um fracasso social em qualquer sentido antes da Terceira Guerra Mundial. Hoje é o lugar mais cobiçado e onde tudo acontece no mundo. Dizem que na Antiguidade fora a Guanghzou, na China, depois na Idade Média era Roma. Durante a aurora da modernidade fora Paris, e até a Segunda Guerra Mundial, Londres. Depois da Segunda Guerra Mundial, Nova Iorque. Aparentemente é preciso grandes guerras e crises para que um país ou cidade se torne o centro do mundo. Foi preciso chover balísticos intercontinentais no hemisfério norte pra que Valex se tornasse o farol da civilização... E que bela merda de farol. Era isso que o Doutor Neill Pável pensava sentado em sua sala de vidro no quadragésimo terceiro andar do edifício central da NetLife, prédio glamuroso em preto e dourado que ficava no limite entre o Centro e O’Higgins. A paisagem de Valex City se estendia diante dele, um mar de luzes neon vermelhas, azuis e douradas, além de hologramas da SonySoft e da Patagoniana em prédios monolíticos pretos e quase sem janelas na escuridão nevoenta da cidade, que mascaravam a realidade sufocante abaixo. Dali ele conseguia ver a construção bem no meio do centro financeiro, a construção do futuro prédio da nova aberração corporativa do mundo, a ValexSynthesis. Um prédio cilíndrico, monolítico, preto, de 400 andares, projetado para ter um quilômetro de altura e ser o maior prédio de Valex City.

O cientista de 45 anos destoava do caricato sujeito de jaleco branco e óculos. Aliás, na NetLife, nenhum cientista se vestia assim, pareciam juntos, na verdade, uma conferência de advogados com ternos feito de um polímero termo-isolante que parecia tecido comum, como linho ou seda. Pável  havia passado os últimos meses trancado em sua pesquisa, dedicando-se integralmente a ela. Não que ele tivesse coisa muito melhor pra fazer. O projeto "Viva no Seu Mundo" era a menina dos olhos da corporação, mas para Pável, representava algo mais: a fronteira final da conquista da humanidade, a construção de mundos ideais. Ele tinha tudo em termos materiais, sua pesquisa era bem financiada, sua equipe muito capacitada, o Nobel era questão de tempo, todos diziam. Mas o vazio que o acompanhava desde a morte de sua esposa 17 anos antes, o tornava insensível ao luxo que o cercava. Vivia a base de ansiolíticos, antidepressivos ou simplesmente bebida nos dias em que nada dava jeito. Sua única expectativa é que, chegado no fim de sua vida, poderia requerer a NetLife que o colocasse num desses universos fictícios construídos pela tecnologia do worldbuilding, a mesma que quase arruinou o mundo em 2030, e que as corporações faziam de tudo para ocultar do conhecimento das massas, mas voltando ao ponto, ele esperava que o permitissem viver num mundo feliz com sua esposa, ou pelo menos uma versão dela conforme ele se lembrava.


Do outro lado da cidade, no Distrito Luminar, Julya Karpova terminava mais um turno exaustivo no bar noturno em que trabalhava, o TaoKao Pub. Era um  prostíbulo, na verdade. Embora Julya sempre tentasse evitar os programas, ela às vezes, por pressão do cafetão das Beetches que atuava ali, Chal Hopman, acabava tendo que atender sexualmente alguns clientes. Nesses dias, ela se sentia horrível. Hopman era um homem horrível, mas ainda era menos ruim que Kenneth, um cafetão reprogramador de replorgues que acabou assassinado por soldados BioMechaCorpers ainda no início do Street Cleansing, entre fevereiro e março do ano anterior, e de quem ela já havia apanhado um bocado. Depois viria o triste capítulo conhecido como “Guerras de Kazuma”, onde a Wakizashi foi posta pra correr e virtualmente exterminada de Valex City, mas ao custo de muitas de suas colegas orientais acabarem sendo vitimadas nos conflitos de gangue. Duas delas estavam  no metrô de Kazuma quando durante a investida final do recém-formado Grupo dos Três, incendiaram o metrô. Uma leão de chácara do TaoKao Pub que era membro das Beetches acabou assassinada pelos ninjas da Wakizashi. Ela caminhava passando por uma loja de elite perto do Valex Mall, e viu nos TVPads anunciados pela vitrina, mais uma saraivada de nomes no noticiário, enquanto caminhava para a estação de metrô. Era uma profusão de propagandas de produtos ou de notícias sobre acontecimentos importantes na VXC News.

"Mike Herrera lança seu novo single: Stars fading! Agora, vamos aos anúncios! Problemas de ereção? Compre a Rule Condom, camisinha com estimulante nervoso que vai deixar seu poste eriçado!" 

Na concorrência, a VCN, a coisa não era muito diferente: 

"Na zona industrial duas pessoas foram assassinadas, provavelmente um esquema de gangues envolvendo a DogFart... Agora, vamos a uma notícia do agrado do público feminino! A biografia não autorizada de A.J. Brooks e sua esposa, a replorgue Carol Brooks bate recordes de venda, e a Valex Editorial já encomendou uma série ficcional ao canal de streaming Netprime! para contar a fuga insana dos dois para o Uruguai"

Mais lixo... Julya não via mais graça em nada. Não acreditava em contos de fadas. 

"Um professor da Teller Academy e uma replorgue de tipo P? Ha! Belo caô." - Ela pensava. Não que ela fosse negacionista do que ocorreu no Incidente Brooks, é que no fundo, ela não acreditava nos homens mais. Ela os conhecia muito bem para saber que de uma garota como ela, eles só queriam uma coisa, e era "disgusting". Naquele dia em específico suas mãos doíam, e suas coxas tinham hematomas do atrito constante com o poste do pole dance. E o cansaço pesava em seus ombros. Com apenas 19 anos, ela já era mãe de Yekaterina, uma garotinha surda de quatro anos, cuja existência era sua única motivação. Apesar de trabalhar em dois empregos e ganhar acima da média, o aluguel, os custos com alimentação e o tratamento da filha tornavam impossível uma vida confortável. Sua franja branca destacava-se entre os cabelos pretos, uma marca, ao lado dos piercings, de sua rebeldia em um mundo que insistia em esmagá-la. Julya suspirou, ajeitando sua blusa azul combinando com sua calça skinny glossy rosa, que além de delinear suas curvas, refletia a luz das árvores holográficas azuis do centro e o letreiro da TesyD.

A noite caiu sobre Valex City, tingindo o céu de tons negros. Pável, cansado após um dia de reuniões com executivos da NetLife, desceu até o estacionamento. Seu veículo voador, um VTOL Puma-X modelo Clouds, deveria estar pronto para levá-lo para casa, mas um problema nos propulsores o impediu de decolar. Irritado, ele entrou em contato com a seguradora e foi aconselhado a pegar o metrô, do centro, até o Distrito Luminar. Era algo que ele não fazia há anos, mas não havia escolha. No metrô quase vazio, Pável chamou atenção. O terno impecável e a maleta cara faziam dele um alvo fácil. Ele mal percebeu o jovem que o observava com olhos predatórios. Antes que pudesse reagir, o homem avançou, empunhando uma faca rudimentar. "Passa tudo, agora!", gritou o assaltante. Pável congelou, incapaz de pensar.

Julya, sentada no outro canto do metrô esperava o trem, eles pegariam  trens diferentes, ela da estação central até O’Higgins. Ele, provavelmente do centro até algum prédio luxuoso na região do Valex Park de frente pro distrito luminar. Ela observou a cena. Diferente de Pável, criado com trejeitos classudos da pequena burguesia, Julya nasceu na região mais precária de O’Higgins, debaixo do jugo da DogFart. Ela não tinha e nem nunca teve modos, era do tipo “barraqueira”, e se a vida a havia ensinado algo, era que ela não gostava de injustiça, mesmo que fosse contra um burguezinho.  Para ela, não havia tempo para hesitação. O instinto falou mais alto. Levantando-se, ela correu na direção do assaltante, usando as habilidades atléticas adquiridas no clube para desarmá-lo com um movimento ágil. Porém, o homem reagiu, desferindo um golpe que a derrubou no chão, tirando um sangramento notável de seus lábios. Pável, tomado por uma coragem inesperada, avançou e acertou o assaltante com sua maleta. Juntos, os dois colocaram o bandido para correr. Por um segundo ele se sentiu como A.J. Brooks defendendo sua replorgue, um conto de fadas moderno que marcou toda a confusão do Cleansing iniciado um ano antes. Pável não tinha ideia, mas essa não seria a última vez que a mera ideia de A.J. Brooks cruzaria seu caminho.

— Você está bem? - perguntou Pável, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.

Julya assentiu, levando as mãos aos lábios, e retirando-as sujas de sangue. Pável deu-a um lenço que estava em seu bolso, e ela passou a viagem com dor e sustentando o lenço na boca, mesmo depois do sangramento cessar. Apesar disso, ela engoliu o choque e a expressão de dor. - Estou bem. E você?. - Ela tentou transbordar naturalidade, como quem fazia aquilo sempre. Embora por dentro ela estivesse pensando em quão insana tinha sido por tomar partido numa briga de um completo desconhecido, sendo uma mulher, e aparentemente, defendendo um corporativo. Pável agradeceu, ainda ofegante, e insistiu em acompanhá-la até em casa. Durante o trajeto, ele falou uma ou duas coisas, a maior parte do tempo segui-se um monólogo, um desabafo de uma jovem cansada da vida, de ter dois empregos, um dos quais ela mesma julgava degradante. E descobriu partes da vida de Julya que o deixaram desconcertado. A pequena Yekaterina, o trabalho exaustivo, a perda do namorado Hal Perkins, um jovem gângster que era pai de sua filha, morto em circunstâncias violentas após se envolver com a DogFart... A realidade dela contrastava brutalmente com o conforto vazio de sua existência.

Ao chegar ao prédio decadente onde Julya morava, um cortiço com no máximo 4 andares, mas repleto de pequenas quitienetes, com paredes tão finas que se podia ouvir até o respirar dos vizinho, Pável sentiu uma pontada de culpa. Ele sabia que, em outras circunstâncias, jamais teria notado alguém como ela. Sua riqueza e status sempre o protegeram da crueza do mundo. E por ter ficado grato, mas sobretudo por tê-la achado bonita, decidiu acompanhá-la. Ele estava cansado da solidão que acompanhava a viuvez. Mas, agora, ele não conseguia ignorar. A pequena Yekaterina o recebeu com um sorriso tímido, seus olhos brilhando de curiosidade. Naquele momento, algo dentro de Pável mudou. Julya apresentou a filha de quem falou com um misto de cansaço e amor durante toda a viagem. A pequena era parecida com a mãe, tinha lábios mais finos. “Uma herança genética do pai, talvez”, pensou Pável. Ela não falava, uma consequência justamente de não ouvir. Julya porém falava a LLS, a língua local de sinais, coma  filha, a mesma era ensinada nas aulas da ABC Solutions, embora fossem caras, e com o modesto salário de Julya, Pável entendia o sofrimento e o cansaço, era quase um milagre sobrar algo, se é que sobrava.

Nos dias seguintes ao encontro, Neill Pável não conseguiu tirar Julya Karpova de sua mente. A simplicidade e a força dela, tão diferentes de tudo o que ele conhecia, despertaram algo profundo. Ele começou a aparecer no fim do expediente na lanchonete em O'Higgins, aguardando-a em seu restaurado Puma-X, ele a dava uma carona até o distrito luminar. E após o fim do expediente no TaoKao Pub, ele a levava de volta. Por vezes, poderia sair mais cedo, mas fazia hora extra apenas pensando em poder ver de novo os olhos verdes e o sorriso perfurado por uma argola nos lábios, de Julya Karpova. Pável estava se apaixonando, algo que não acreditava que fosse mais possível. Ele estava ciente disso. No entanto, ele negava para si mesmo. “É só uma garota gentil... Sem muitos modos... mas gentil e que precisa de ajuda”... Ás vezes justificava-se dizendo a si mesmo: “Sou um homem na meia idade viúvo e sem nada de interessante para fazer a noite... Por que não?”.

Inicialmente, Julya hesitou. Por que um homem tão bem-sucedido e distante de sua realidade estava tão interessado nela? Mas, pouco a pouco, a gentileza de Pável, sua educação, cavalheirismo e bons modos, algo tão diferente do que estava acostumada com os “moleques” de O’Higgins, começou a quebrar suas barreiras. Ele nunca exigia nada em troca, apenas a companhia dela. Ele a ouvia falar de seu cansaço, de suas lutas por horas, e parecia ao deixá-la na Dime Street de O’Higgins depois da meia-noite, tão ou  mais revigorado do que no momento em que ela entrava no VTOL. Quase como se o simples som de sua voz fosse um remédio poderoso contra o cansaço. Pável também se aproximou de Yekaterina, encantado pela energia e curiosidade da criança, mesmo sem poder ouvir o mundo ao seu redor. Ele comprou pequenos dispositivos de tradução visual para ajudar Julya a se comunicar melhor com a filha, além de brinquedos educativos. Julya, dividida entre a desconfiança e a gratidão, começou a permitir que Pável entrasse em suas vidas. E paulatinamente começou a ver no homem de cabelos grisalhos, mas com pele ainda bastante jovial, quase como se aparentasse não mais que trinta (maravilhas da medicina restaurativa da década de 50 daquele século), algo de mais cálido, talvez mais que um amigo, talvez... Só talvez, ela estivesse gostando dele.

— Neill, você sempre foi tão gentil comigo e com Yekaterina. Por que faz isso? — perguntou Julya em uma noite em que estavam no carro, estacionados em frente à casa dela, um edifício de quatro andares e comprido na horizontal repleto de caixas de ar condicionado a mostra.

— Talvez porque você me lembre o que é ser humano. Ou talvez... talvez porque eu gosto de você. — Ele desviou o olhar para o skyline da cidade ao fundom onde prédios enormes exibiam nas arestas leds que oscilavam do azul para o vermelho quebrando a escuridão da noite num chiaroscuro, ele deu uma olhadela rápida para ela, parecendo envergonhado.

“Que ridículo”, ele pensou, “45 anos e me comporto como um adolescente de 17”.

Julya sorriu, um sorriso pequeno e meigo. — Você é diferente dos outros. Eu não sei o que dizer... mas obrigada.

Outro diálogo marcante aconteceu em uma visita ao Valex Park, num dos raros dias de sol, onde Pável insistiu em levar Julya e Yekaterina para um dia de folga.

— Faz tanto tempo que não respiro ar fresco assim — disse Julya, enquanto Yekaterina corria pelo gramado atrás de dronebees polinizadoras da Oxvard University .

— E faz tanto tempo que não me sinto tão vivo. Vocês trouxeram algo que eu pensava ter perdido para sempre. — Pável olhou para ela com uma intensidade que fez Julya corar.

— Talvez você esteja exagerando. — Ela tentou minimizar, mas não conseguiu conter um leve sorriso.

— Não, Julya. Por muito tempo, meu mundo foi cinza. E vocês... vocês trouxeram cor para ele. — Ele tocou de leve a mão dela, um gesto que dizia mais do que palavras poderiam.

No entanto, a vida de Neill Pável seguia dividida entre os dias estressantes, ainda que fascinantes de trabalho científico, de um lado. E os momentos tranquilizadores e agradáveis com Julya e Yekaterina. Neill se ressentia do fato de não ter podido ter filhos. Sua esposa morrera antes mesmo de conseguir engravidar. Eles queriam postergar a gravidez, pensavam em trabalhar, formar patrimônio e então, quando chegassem aos 30, talvez terem o primeiro bebê. Quisera o destino que sua querida Clara morresse com 28 anos. Agora sentia-se quase como que realizando o seu sonho de ter uma família. Enquanto isso, no outro lado da sua vida, a de cientista a serviço da NetLife, o progresso do projeto "Viva no Seu Mundo" atingia um marco crucial. Pável e sua equipe, finalmente desenvolveu o módulo que tornava o cérebro físico dispensável. A aparelhagem em vigor exigia a separação do corpo e do cérebro, o primeiro era descartado por ser inútil e o segundo era imerso numa solução neuroconservante, enquanto fios e microprocessadores eram conectados a ele. Tudo o que a pessoa vivia no mundo fictício, geralmente cujas bases eram desenhadas e escritas anteriormente por algum escritor famoso, pago a peso de ouro, era transcrito pelas máquinas e pelos poderosos HoloPads, na forma de e-books. Com isso, os clientes mais ricos poderiam viver eternamente em mundos fictícios pairando em uma n-dimensão de espaço e tempo separada daquele mundo de caos, sem qualquer ligação com a realidade. Contudo, a convivência com Julya e Yekaterina transformou sua perspectiva. Ele começou a enxergar o programa não como uma conquista científica, mas como uma abominação. E o simples fato de uma mulher doce como Julya e sua adorável filha viverem um inferno cotidiano e bilionários não aceitarem a morte e terem vidas paradisíacas na terra e a depois dela, não parecia certo.

Pável queria entender como. Por que. Ele então se entregou à leitura de textos sobre desigualdade social e capitalismo tardio, algo que evitara por toda a vida, não por medo, mas por nunca ter tido curiosidade ou ver importância. Ele se debruçou sobre a "História Social do Mundo (2020-2050)" de A. J. Brooks, o agora lendário professor que salvou uma replorgue pela qual se apaixonou e que se tornou um modelo para a BioSynthesis. Os trabalhos mais recente de Brooks, no Uruguai, sobre o que ele chamou de “Darwinorrobótica” estavam sendo publicados por editoras subsidiárias da ValexSynthesis. Uma forma curiosa de fomentar o abolicionismo biorrobótico enquanto usava o lucro dos livros para financiar a BioSynthesis, subsidiária da ValexSynthesis. Ele leu ainda outros materiais da Teller Academy sobre humanidades. Pela primeira vez, ele entendeu as raízes do sofrimento que Julya enfrentava diariamente. O sistema corporativo ao qual ele dedicara sua vida era o mesmo que esmagava bilhões para sustentar o luxo de poucos.

As reuniões com os acionistas da NetLife começaram a se tornar insuportáveis. A indiferença deles às implicações éticas do projeto o enojava. Eles discutiam o lançamento como se fosse apenas mais um produto no mercado, ignorando completamente a miséria que perpetuavam. Pável sabia que precisava agir, mas como?

Em uma noite particularmente difícil, ele finalmente desabafou com Julya. Contou sobre o projeto, sobre o poder que tinha em suas mãos e como isso poderia beneficiar os ricos enquanto condenava o resto da humanidade. Para sua surpresa, Julya o ouviu com paciência. — Parece-me horrível. - Ela falou. — No entanto, não sei o que eu deveria te aconselhar. Eu mal consigo cuidar da minha filha.

— Não gostaria de viver num mundo perfeito como esses ricaços? - Ele perguntou enquanto guiava o VTOL debaixo de luzes vermelhas, azuis e douradas refletindo no vidro do Clouds repleto de gotículas de orvalho.

— Só se você estiver nele. - Julya riu revelando uma argola sobre os dentes, um piercing que Pável achava charmoso. - Ela falou como brincadeira. Mas para Pável aquilo era muito sério. Ele se imaginou vivendo numa versão alegre e colorida de Valex, onde eles brincavam num jardim com grama de verdade onde árvores reais e holográficas se revezavam. Julya, ele e a pequena Yekaterina. Ele não deixou transparecer, mas aquilo o mudou. Naquela noite, ele pernoitou na casa de Julya, pela primeira vez tiveram sua intimidades, a pequena Yekaterina dormia tranquila num quartinho ao lado. Na manhã seguinte, Pável entregou a KriptoKey de seu apartamento de frente para o Valex Park para Julya. Ele queria que ela passasse a morar com ele. Ela, obviamente aceitou.

Os meses se passaram, a etapa de testes da nova tecnologia havia começado, várias cobaias estavam sendo testadas, e o programa estava perto de dar seu grande salto para a NetLife. Mas aquilo trazia cada vez mais descontentamento para Pável. Ele amava a ciência, e havia feito algo incrível com sua equipe: Michael Howard, Jehu Park-Woo, Archibald Reese e Estebán Martinuccio. Ele não se ressentia da ciência, da tecnologia, algo que ele seguia vendo como o futuro da humanidade. Ele se ressentia de que aquilo estivesse nas mãos de poucos. Que fosse usado para lucro e talvez para facilitar a dominação corporativa da ValexSynthesis e da própria NetLife.  Pável começou a importunar colegas com suas indagações, a expor suas ideias e insatisfações sobre isso, a recrutar aliados dentro da NetLife. Ele abordou colegas cientistas que compartilhavam suas dúvidas sobre o projeto e, gradualmente, formou um pequeno grupo de resistência. Inicialmente a NetLife não se importou. Ela estava muito confiante de seu domínio, e pouco importava as opiniões individuais dos cientistas, contanto que eles seguissem trabalhando e construindo seus produtos e serviços. Eles, porém, os cinco colegas de Pável, traçaram um plano para destruir a máquina e apagar todos os registros da pesquisa. Porém, Pável tinha um objetivo adicional: ele queria criar um mundo fictício onde pudesse proteger Julya e Yekaterina. Seria sua última criação, um refúgio longe da corrupção e crueldade do mundo real. Ele sabia que se se refugiassem num mundo ficcional que ele criava aos poucos nos últimos meses, com base no seu devaneio lúcido dentro do VTOL, eles estariam para sempre longe das garras da NetLife e de toda a escória do mundo corporativo. Bastava esconder bem o segredo nesse mundo ficcional. Ele começava a desenhar assim, mentalmente, um plano.

Os dias que antecederam a apresentação oficial da nova tecnologia ao conselho de acionistas foram tensos. Pável sabia que estava arriscando tudo, mas não podia mais ignorar sua consciência. Ele se dedicou a construir o mundo fictício perfeito para Julya e Yekaterina, programando cada detalhe com cuidado obsessivo. Era um lugar de paz, uma versão tão cheia de luzes de Valex quanto a atual, mas sem corporações, sem violência urbana, um lugar alegre onde o mundo deu certo, onde nada poderia machucar a pequena família que ele tanto desejava proteger. Sem avisar Julya e Yekaterina, que agora viviam vendo o sol nascer por sobre o iluminado e colorido Valex Park, vendo o mar ao longe, na cobertura do edifício Sentrion, ele colocou o apartamento a venda num sistema Blockchain do KriptBank, a venda seria feita por uma IA fortíssima do banco, e automaticamente o NFT de propriedade seria passado para o novo comprador. A diferença, é que o valor ao invés de cair na conta dele, cairia na conta virtual de Yekaterina, conta que só Julya poderia movimentar. Isso era uma garantia, caso tudo desse errado. Assim, elas poderiam sair de Valex City para qualquer lugar, e poderiam recomeçar a vida com o espólio da venda da cobertura no valor de 450.000 AZ$.

No dia da apresentação, tudo parecia seguir como planejado. Pável e seus aliados se prepararam para destruir o equipamento logo após o conselho dar sua aprovação. No entanto, um dos cientistas, o argentino Martinuccio, temendo perder o emprego, traiu o grupo. Ele delatou o plano aos executivos da NetLife, que rapidamente mobilizaram uma força de segurança para conter a rebelião.

Os laboratórios se tornaram um campo de batalha. Os cientistas leais a Pável conseguiram bloquear temporariamente as entradas dos laboratórios com protocolos de hacking provisórios, gerados de última hora nos holopads, devia ser o suficiente para conseguir algum tempo, isolando os laboratórios das tropas NetLifers, compostos por replorgues PlorgTech 2.0-M. Se eles entrassem, eles não teriam a menor chance, seriam rasgados como papel ou perfurados como queijo suiço. Enquanto isso, Pável ativava o equipamento obsoleto para transferir os dados da pesquisa para o mundo fictício. Ele sabia que teria pouco tempo antes que fosse interrompido, mas estava determinado a concluir sua missão. Ele temia a traição, por isso ele fez questão de destruir o novo protótipo pessoalmente, e de apagar com uma IA poderosa todos os registros do projeto, exceto aquele que levaria consigo em sua mente. No texto escrito por ele, ele entraria na GoodValex portando um totem, uma caixa de madeira que representaria toda a pesquisa, e com base no que ele sabia, automaticamente os Neuroespelhos e os Estimuladores quânticos trabalhariam junto com a IA para garantir que isso seria materializado no mundo fictício.

A estratégia era simples. No equipamento obsoleto, havia uma latência de 15 minutos entre o que acontecia no mundo fictício e o que ocorria no mundo real. Se os equipamentos fossem desligados ou o cliente sofresse morte cerebral, sua mente ainda existiria durante 15 minutos lá dentro, antes de desaparecer também. A nova tecnologia era imune a isso. Não havia latência e a mente era totalmente separada do cérebro. Mas com ela destruída, o plano B de Pável era simples. Ele entrava em GoodValex, os colegas desligariam as máquinas por 12 minutos. Nesse meio tempo, ele esconderia a caixa contendo toda a pesquisa em  algum lugar do mundo fictício. Durante esses 12 minutos, a IA não transcreveria nada do que ele fez para o e-book, assim, impedindo que a NetLife tivesse acesso a localização dos dados da pesquisa, faltando 1 minuto para morrer, eles religariam a máquina, e ele voltaria. 3 minutos era pouco tempo para fugir, mas ele ainda teria uma chance de se safar por uma saída de emergência.

Antes de deitar na máquina, Pável entregou um NanoSD dentro de uma caixinha similar a de um anel, a Archibald Reese, sua assistente mais confiável e pediu que ela entregasse pessoalmente a Julya em sua casa. Ele permitiu que ela fugisse enquanto as primeiras camadas de defesa por hacking caiam perante as tropas NetLifers. Eles avançavam uma porta de segurança travada por vez. Havia 5 separando eles dos soldados, e 3 já haviam caído. Archie se despediu de Pável com um abraço, e ele saiu pela saída de emergência. Pável passeava inicialmente impressionado com o que havia criado. Ele olhava para os prédios enormes de GoodValex, brancos ao invés de pretos, os coqueiros reais na orla, o clima tropical e cálido, havia letreiros rosa e verde flutuando, mas não propagandas das infernais corps, e sim trechos de poemas e livros. Camões, Cervantes, Shakespeare, entre tantos outros. Ele gostaria de ter criado algo mais original, mas não tinha tempo, precisava recorrer a algo que conhecia bem.

Pável perdeu quase um minuto de seu curto tempo sentindo-se um demiurgo enquanto via as pessoas transitarem ali. Ele sabia que elas eram tão fictícias quanto o lugar, mas dado que o lugar fora criado em alguma n-dimensão de espaço e tempo alhures, seriam elas reais? Ou apenas NPCs, que era a terminologia usada no laboratório. Ele não tinha tempo para conhecê-las. Ainda maravilhado com quão real aquilo tudo soava e era percebido, ele enviou o sinal para os amigos de que era para desligar a máquina. A latência fez com que a mensagem chegasse no limiar do tolerável, e os cientistas desligaram o aparelho. Imediatamente o HoloPad parou de transcrever as ações de Pável no e-book. Nos próximos 12 minutos, ele estava por si só. Os NetLifers quebraram a última barreira de proteção ainda perto da conclusão do tempo. Os cientistas foram rendidos e Park-Woo, o operador não teve tempo de religar a máquina. Pável seguiu aguardando o momento em que seria retirado de lá após esconder a caixa no lugar mais importante para ele. Ele demorou um pouco a perceber que o que ele temia havia acontecido, mas já era tarde demais, sua percepção do mundo se borrou, e como alguém que caía num sono profundo, incapaz de lutar contra ele, sua mente se desfez.

Julya recebeu a encomenda inesperada ainda naquela tarde. Era Archibald Reese. Ele entregou o NanoSD contendo um vídeo gravado por Pável, explicando tudo: o projeto, a corrupção da NetLife e seu plano para proteger a pesquisa em um mundo fictício. Junto com o vídeo, havia 50.000 AZ$, dinheiro suficiente para Julya alugar uma casa confortável, ela deveria pegar o VTOL e seguir com destino ao Rio de Janeiro, no Brasil. "Use isso para cuidar de Yekaterina e de você mesma", dizia Pável na mensagem. "Eu queria poder fazer mais. Em breve a cobertura será vendida num leilão via blockchain e 450.000 AZ$ serão depositados na sua conta, você poderá recomeçar com esse dinheiro".

Julya assistiu ao vídeo com lágrimas nos olhos, compreendendo o sacrifício que Pável estava fazendo. Ela sabia que ele a amava e que estava disposto a arriscar tudo por ela e sua filha. Na NetLife, uma porta seprava os Netlifers de Pável. A equipe encheu o caminho de obstáculos. Uma conexão com o corpo vivo era mais trabalhosa, mas Pável já havia entrado em GoodValex, seu mundo fictício ideal para sua família dos sonhos. O que Julya não sabia era que nunca mais veria Pável. Assim, ela fez o combinado. Ainda no fim daquele dia ela já havia abandonado a cobertura, tomou o VTOL de Pável, ela mal sabia conduzir um carro comum, um VTOL parecia coisa de outro mundo, mas com algum sacrifício conseguiu decolar, demorou alguns segundos até ativar o reator ARC do carro, onde através de fissão nuclear controlada, os propulsores eram ativados, e após levantar vô de forma instável, conseguiu sair em linha reta e cruzar o oceano com destino ao que ela acreditava ser a direção da América do Sul abandonando a Ilha de Valex. Ela, Yekaterina e as memórias de Pável, era tudo o que sobrara. Sua filha ainda sem entender olhava maravilhada a luz do sol refletir a na superfície da água, enquanto voavam a 400 km/h a mais de um quilômetro de altura. Aos poucos sob o olhar carinhoso e melancólico de Julya, a pequena yekaterina pegou no sono.

Um bipe soou no watchphone da ex-dançarina, um valor de 450.000 AZ$ havia sido depositado pelo ID ZRT148787GG332587 na conta de sua filha no KriptBank. Era a cobertura leiloada. Ela tinha tudo para recomeçar, menos o homem que amava. Enquanto pensava nessas coisas, Julya, que não sabia dizer com certeza se estava indo para o lugar certo, seguia a marcação de terra mais próxima que a sofisticada aparelhagem do holo-GPS indicava e que ela não sabia manusear, ao ver uma porção de terra insular, supondo ser seu ponto de chegada, baixou vôo e aterrisou do modo mais atrapalhado possível. Ela perdeu o ponto de aterrisagem no holoponto, desceu com velocidade e energia cinética demais. O vundo do VTOL chocou-se contra o chão com força, despertando Yekaterina de seu sono tranquilo. O carro voador deslizou até sair do holoponto e cair no quintal de uma casa vitoriana com grande quintal, onde a Union Jack tremulava.

Ao sair do carro, viu um homem magrelo, mãos disformes assustado. Ele as olhava com olhos arregalados.

— Socorro! Minha filha é surda! Estamos presas! A porta emperrou! - Gritou Julya.

O rapaz largou o holopad, ainda assustado com o barulho, e correu até a porta, ele fez uma força grande demais para o biotipo dele, a ponto de ficar tonto. Então uma mulher linda, cabelos pintados em mechas azuis e ruivas chegou, vestindo uma blusa glossy nas cores da Union Jack.

— Senhorita Grey! - Gritou o rapaz — Ajuda aqui.

Com uma classe e destreza dignas de uma modelo de passarela ela se deslocou até o local, analisou o VTOL, modelo Clouds da Puma-X, e percebeu que o sistema eletrônico que governava a trava de segurança da porta havia quebrado com  o impacto. A mulher perguntou se elas tinham algum implante.

Julya percebeu o sotaque familiar. A mulher era de Valex, o sotaque muito característico da ilha, com a presença de “ee’s” inexistentes em palavras terminadas em consoantes e a substituição do “r” pelo “h” em palavras começadas em r era muito comum.   Julya assentiu que tinha um NanoSD com toda sua documentação. James olhou preocupado para Grey.

— Consegue passar pela greta pequena que se formou no trincado do vidro? - Perguntou o rapaz.

Meio receosa, Julya entregou. O rapaz se afastou, pegando seu holopad e entrando na casa. A mulher de cabelos coloridos, a tal Grey, então pareceu se concentrar em algo e um zumbido se ouviu. A porta imediatamente se destrancou.

— O que vocês fez? - Perguntou Julya aliviada. - É magia?

— Não. Pulso eletromagnético. Quando vim para cá, o mesmo aconteceu comigo na aterrissagem. Os modelos Clouds tem sistemas de travamento de porta bastante frágeis, no impacto os processadores param de funcionar, então você tem que usar um PEM neles, só assim eles se soltam. É como usar um desfibrilador num coração falhando.

— Obrigada! - Falou Julya, abraçando a filha, e recebendo de volta das mãos do rapaz o NanoSD.

— Não há de que! - Grey falou com um sorriso que não chegava aos olhos, com certa malícia até, Julya diria. - Venha! James, leve-a até a cozinha, sirva um chá às nossas hóspedes.

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...