08 de Abril de 2059.
O bar em Subferro não era refúgio, era prisão de ar
enferrujado. As paredes pareciam cenas de ruínas de guerra, tijolos a mostra e
perfurações de balas. Vez ou outra se via um encanamento metálico a mostra. As
lâmpadas de neon piscavam sem ritmo, como se também estivessem cansadas de
viver. Ali, a esperança vinha em dose barata, servida em copos rachados. Hélver, tinha 19 anos, era um jovem no começo da vida, mas se sentia um homem de meia-idade, sem ânimo, sem vida... Ele costumava ser um funcionário da MetroStation, depois da falência da empresa,
era um fazedor de bicos, tirava quando muito 1.100 dólares por mês, mal dava
para o aluguel e vivia sem o plano de saúde mais básico da P&K. Estava ele
lá, como se não estivesse, perfilado contra o nada, encostado no canto, olhava
o cenário com a calma de quem sabe que nada melhora. O único consolo era que,
naquele porão de cidade, as vozes lá fora não conseguiam alcançá-lo. Na porta,
um aviso de despejo ao pobre Moraes, dono daquela espelunca. Eles ás vezes se
perguntava... Se você não é dono do teto que abriga o seu negócio, você é
realmente dono do seu próprio negócio? Ele ria. Moraes se dizia “empreendedor”
e gostava de se comparara a “Adrian Valex Sênior”, o fundador da cidade. A
diferença era clara para todos, menos pra ele. O papel amarelado, colado com
fita suja, parecia rir dos que ainda acreditavam em estabilidade, e mais
especialmente, ria do Moraes.
No balcão, um loirinho magricela se agarrava à sua garrafa
de Patagoniana. Cabelo ensebado, diziam que era um agente da General Security
Inc. Ninguém sabia se era verdade, mas ao ter coragem de ir ali, devia ser
lorota. Patrulha em Subferro virava peneira, além do mais, ele era magricela
demais pra ser patrulha. Ele se parecia mais um programador de fundo de quintal
do que homem da lei. Uma garota bonita demais pra ele estava ao lado dele,
jovem, olhar duro, jeito de quem conhecia armas por dentro e por fora. Usava um
colant tático com uma borboleta de aço bordada. Devia ser mercenária ou membra
de uma milícia privada.
Hélver sorriu de canto. Aquele discurso ele já ouvira antes,
em reuniões clandestinas, em panfletos jogados na sarjeta. E até em notícias da
VXCNews... Mas ouvir num risca-faca, era diferente.
Mais perto, uma mulher bebia sozinha. Casaco vermelho,
cabelos encaracolados, corpo firme, olhar que não pedia licença. “Uma gostosa”,
pensou... O corpo semi-desnudo coberto em tatuagens era uma tentação a parte.
Mulher demais pra um pobre diabo como Hélver... Deu mais uma golada no mijo
beer que bebia, e naquele instante percebeu a garçonete que servia ao fundo.
Modelo 2.0-D. Nome? Nenhum. Apenas um número: “9004”. Movia-se com obediente,
silenciosa, humana o bastante para que todos fingissem esquecer que era
máquina. Era máquina? – Pensou.
A porta estourou.
Cinco homens invadiram, botas pesadas, cabeças raspadas,
camisas roxas coladas ao suor. Um deles ergueu um cartaz e pregou na parede com
tanta força que o prego ecoou como tiro. Outro abriu a boca:
— Vocês esquecem o básico. Humano tem alma. Replorgue é
ferro com pele. Vocês estão confundindo ferramentas com gente.
O bar silenciou. A tensão entrou pela garganta de Hélver
como fumaça. Ele sabia das discussões se replorgues era gente ou não. Havia
quem dizia que sim. Havia quem dissesse que não. O que ele sabia era que depois
que a ValexSynthesis abocanhou a Petrikov, sua função era executada por um replorgues
do tipo 2.1-D de “nome” 124343. Mas apesar de tudo, não guardava mágoas...
Hélver já estava tão arruinado, que na verdade, não sentia nada. Nem tinha
opinião sobre replorgues e humanos. Mergulhado em pensamentos ficou passivo. O
primeiro alvo foi a “9004”. Empurrada contra uma mesa, ela gemeu de dor, o
segundo golpe foi evitado, o corpo dela, impelido ou permitido pelo NB3, reagiu com precisão cirúrgica: agarrou
o agressor, imobilizou sem esforço. Mas os bloqueios internos impediram que
fosse além. Bastava um giro de punho para esmagar o braço dele, mas o NB1 não
deixou.
— Solta, máquina! — o careca cuspiu.
Moraes, o dono do bar, correu de trás do balcão. Homem
gordo, barba malfeita, conhecido por fazer negócios com os Serpentes do
Deserto. Tentou apartar.
— Aqui não, porra! Vai brigar lá fora!
A resposta foi um soco que o jogou contra as garrafas. O
vidro estourou como fogos baratos.
O bastão de hóquei veio em seguida. Acertou a lateral da
cabeça da replorgue com um estalo surdo. A pele se abriu. Sob o corte, uma
carne metálica levemente azulada e sangue escuro, arroxeado, escorreu. O
contraste era brutal, como ver um motor sangrar. Hélver já tinha visto cenas
assim no cleansing, mas era muito jovem... Devia ter 14 anos e estava com o
rabo cheio de droga como qualquer jovem de Subferro à época.
Ele engoliu seco. Aquele vermelho sujo mexia com ele.
Hélver sentiu o ar mudar. A briga era inevitável. A
paramilitar já se ajeitava no banco, o corpo pronto para saltar. O magrelo
olhava de canto, como se calculasse a melhor hora para sumir.
Hélver não esperou. Conhecia bem aquele tipo de cena. Sangue
ia correr, corpos iam cair, e ninguém sairia limpo.
Empurrou a cadeira para trás, devagar, sem chamar atenção.
Passou pela porta dos fundos como sombra. O grito da primeira pancada explodiu
atrás dele, seguido pelo som seco de vidro quebrando e o estalar de ossos.
Do lado de fora, só silêncio pesado do Subferro. Não havia
chuva. Não havia alívio. Apenas o eco distante da barbárie e a certeza de que
Valex City não parava de apodrecer.
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