quinta-feira, 23 de outubro de 2025

[CONTO] Matutações de Haya

(16 de abril de 2059 - 6 da manhã)

A luz dos neons filtrava-se pelas persianas do apartamento como se tivesse medo de entrar.

Do lado de fora, a chuva teimava em cair — grossa, persistente, lavando os arranha-céus encharcados de propaganda holográfica.

Haya estava sentado à mesa, o rosto meio apagado pela claridade fria do amanhecer digital.

Diante dele, um prato de cereais. Uma colher. E o som distante das gotas contra o vidro.

Reyna ainda dormia.

E o silêncio era tão absoluto que o barulho dos grãos se chocando dentro do prato parecia uma conversa.

Ele pegava cada um deles com precisão quase científica, mastigava devagar, como quem decifra um código.

Pensava — ou tentava pensar — no que Reese dissera antes.

Reese tinha razão num ponto.

Ele e Reyna não estavam lá porque eram livres.

Estavam lá, naquela sala, porque não eram.


Eram escravos.


A ideia ecoou dentro dele com o mesmo peso de um trovão abafado — uma forma sutil de resistência, talvez.


O NB2 fez ele piscar

Um aviso silencioso. Pensamentos não autorizados. Linhas mentais fora do protocolo.


Ele piscou, desviou o olhar, tentando dissipar as ideias antes que fossem apagadas à força.

Sabia o que aconteceria se insistisse.

Quando o NB2 ativava, era como perder uma palavra que estava prestes a ser dita — um pensamento na beira da língua, dissolvido em nada.


Respirou fundo.

Conseguiu enganar o sistema — ligeiramente — e conduziu a mente para outro caminho.


A reunião.

Lembrou-se dela com nitidez.


A luz opaca da sala, o som estático dos servidores girando, os olhos atentos de Netalie — a estranha webrunner de cabelos cacheados verdes e uma aranha tatuada no peito. Era uma punk. 17 anos no máximo.

Ela havia deixado o óculos V.A.R sobre o colo, ligado. Um descuido de adolescente.

Refletia um espectro de dados, códigos, arquivos desfilando no visor interno.


Haya, curioso, observou. Por isso ficou quieto na reunião.

Nos fragmentos de informação, reconheceu algo que o fez gelar.


A mulher — ou o homem — que entrara com Caio, a de cabelos rosa.

Não tinha certeza do gênero, mas sabia o que era.


Um Replórgue 3.0-I.

De infiltração.

Impossível distinguir de um humano. Assim como Reyna.


O estalo mental veio em seguida — como engrenagens que finalmente se encaixam depois de muito ranger.

Um clique-claque dentro da cabeça.


As peças formaram uma imagem clara, nítida.

Reese estava cometendo um erro.

Um erro tático fatal.


Togall, o swordholder, estava morto.

Ele era número 3 na linha sucessória. Foi eliminado. Eerie foi promovida.

PeaX — a número 2 da Fundação — fora mandada para Neo Eden, a quase doze mil quilômetros.

Fora do jogo. Cai a número 2.


Sobrava apenas o número 1.

Archibald Reese. Sozinho. A mulher que ele ama mais que tudo, a única pessoa que ao lado de Togall ele confiava, por amor, mandada pra longe.


Uma colherada mais.


"Sozinho... Ele e um traidor" sussurrou. Netalie era uma menina inocente, jogo grande demais pra ela.


Se ele caísse…


Não seria difícil.


A corporação ficaria vulnerável.

E o controle, inevitavelmente, cairia nas mãos dela.

Da Replórgue 3.0-I.


De repente, tudo fazia sentido.

O charme artificial de Lila, a secretária da General Security, sua docilidade estudada, a forma como se aproximava das reuniões certas.


Haya sentiu o estômago se contrair.

Era isso.


Lila era a distração perfeita. Todos odiariam ela, seu jeitinho desagradável. Ela estava no lugar ideal pra ser a suspeita ideal.


Uma infiltração perfeita.

Uma sucessão disfarçada de coincidência.


E quando Reese caísse, ela estaria lá — Eerie, humana o suficiente para ser herdeira, máquina o bastante para nunca hesitar.


Haya largou a colher.

O cereal amolecido girava no leite cinzento, como um pequeno redemoinho.

A cidade lá fora ainda dormia, encharcada de luz e ruído.


Ele precisava contar a Reyna

Antes que esquecesse.


Antes que o NB2 apagasse de novo a parte mais perigosa da sua própria mente. Eerie era a traidora, não Lila.

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