(16 de abril de 2059 - 6 da manhã)
A luz dos neons filtrava-se pelas persianas do apartamento como se tivesse medo de entrar.
Do lado de fora, a chuva teimava em cair — grossa, persistente, lavando os arranha-céus encharcados de propaganda holográfica.
Haya estava sentado à mesa, o rosto meio apagado pela claridade fria do amanhecer digital.
Diante dele, um prato de cereais. Uma colher. E o som distante das gotas contra o vidro.
Reyna ainda dormia.
E o silêncio era tão absoluto que o barulho dos grãos se chocando dentro do prato parecia uma conversa.
Ele pegava cada um deles com precisão quase científica, mastigava devagar, como quem decifra um código.
Pensava — ou tentava pensar — no que Reese dissera antes.
Reese tinha razão num ponto.
Ele e Reyna não estavam lá porque eram livres.
Estavam lá, naquela sala, porque não eram.
Eram escravos.
A ideia ecoou dentro dele com o mesmo peso de um trovão abafado — uma forma sutil de resistência, talvez.
O NB2 fez ele piscar
Um aviso silencioso. Pensamentos não autorizados. Linhas mentais fora do protocolo.
Ele piscou, desviou o olhar, tentando dissipar as ideias antes que fossem apagadas à força.
Sabia o que aconteceria se insistisse.
Quando o NB2 ativava, era como perder uma palavra que estava prestes a ser dita — um pensamento na beira da língua, dissolvido em nada.
Respirou fundo.
Conseguiu enganar o sistema — ligeiramente — e conduziu a mente para outro caminho.
A reunião.
Lembrou-se dela com nitidez.
A luz opaca da sala, o som estático dos servidores girando, os olhos atentos de Netalie — a estranha webrunner de cabelos cacheados verdes e uma aranha tatuada no peito. Era uma punk. 17 anos no máximo.
Ela havia deixado o óculos V.A.R sobre o colo, ligado. Um descuido de adolescente.
Refletia um espectro de dados, códigos, arquivos desfilando no visor interno.
Haya, curioso, observou. Por isso ficou quieto na reunião.
Nos fragmentos de informação, reconheceu algo que o fez gelar.
A mulher — ou o homem — que entrara com Caio, a de cabelos rosa.
Não tinha certeza do gênero, mas sabia o que era.
Um Replórgue 3.0-I.
De infiltração.
Impossível distinguir de um humano. Assim como Reyna.
O estalo mental veio em seguida — como engrenagens que finalmente se encaixam depois de muito ranger.
Um clique-claque dentro da cabeça.
As peças formaram uma imagem clara, nítida.
Reese estava cometendo um erro.
Um erro tático fatal.
Togall, o swordholder, estava morto.
Ele era número 3 na linha sucessória. Foi eliminado. Eerie foi promovida.
PeaX — a número 2 da Fundação — fora mandada para Neo Eden, a quase doze mil quilômetros.
Fora do jogo. Cai a número 2.
Sobrava apenas o número 1.
Archibald Reese. Sozinho. A mulher que ele ama mais que tudo, a única pessoa que ao lado de Togall ele confiava, por amor, mandada pra longe.
Uma colherada mais.
"Sozinho... Ele e um traidor" sussurrou. Netalie era uma menina inocente, jogo grande demais pra ela.
Se ele caísse…
Não seria difícil.
A corporação ficaria vulnerável.
E o controle, inevitavelmente, cairia nas mãos dela.
Da Replórgue 3.0-I.
De repente, tudo fazia sentido.
O charme artificial de Lila, a secretária da General Security, sua docilidade estudada, a forma como se aproximava das reuniões certas.
Haya sentiu o estômago se contrair.
Era isso.
Lila era a distração perfeita. Todos odiariam ela, seu jeitinho desagradável. Ela estava no lugar ideal pra ser a suspeita ideal.
Uma infiltração perfeita.
Uma sucessão disfarçada de coincidência.
E quando Reese caísse, ela estaria lá — Eerie, humana o suficiente para ser herdeira, máquina o bastante para nunca hesitar.
Haya largou a colher.
O cereal amolecido girava no leite cinzento, como um pequeno redemoinho.
A cidade lá fora ainda dormia, encharcada de luz e ruído.
Ele precisava contar a Reyna
Antes que esquecesse.
Antes que o NB2 apagasse de novo a parte mais perigosa da sua própria mente. Eerie era a traidora, não Lila.
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