15 de Abril de 2059 - 2 horas da Manhã.
Netalie, uma webrunner de apenas 16 anos, uma das muitas prodígios ajudadas pela Fundação Archibald Reese, filha da "Rua da Beira", que fiza exatamente na divisa entre Little Brazil e Little Argentina, graciosamente, ajustou o encaixe dos soquetes VAR nas têmporas. Um leve estalo — o som de um portal se abrindo. A sala desapareceu, e diante dela ergueu-se o mar translúcido de dados do Mindshift 5.0. Linhas de código giravam como cardumes luminosos, pulsando em fractais azuis que lembravam respirações.
Ela inspirou fundo. O ar da sala real cheirava a ozônio e metal úmido — típico dos laboratórios subterrâneos da Fundação Archibald Reese, uma fachada muito conveniente da NeuralDesk. Mas ali, dentro do VAR, tudo cheirava a silêncio.
PeaX, sua superior imediata, uma Replorgue 2.0 de tipo desconhecido — P, C, M ou D, nunca revelado — falava em seu comunicador coclear.
— Varra o arquivo todo, Netalie — ordenou, com o tom protocolar de sempre. — Archibald quer o relatório completo até o fim do ciclo.
Netalie assentiu. Sem não antes ironizar mentalmente o fato de que todos chamavam o "chefe" de Reese, excepto PeaX, que o chamava pelo primeiro nome.
— Três dias analisando um projeto roubado… parece irônico, não acha?
PeaX falou antes de desligar: - A vida é irônica.
Quando o clique da desconexão apareceu, Netalie mergulhou mais fundo. A estrutura do HCC — Holographic Consciousness Chip — expandiu-se diante dela como um vitral vivo. Milhares de linhas de instruções flutuavam, descrevendo um ritual travestido de engenharia.
“Transferência da Testemunha Constante.
Etapa 1 — Sincronização sensorial.
Etapa 2 — Espelhamento neural.
Etapa 3 — Desativação progressiva do hospedeiro original.”
Ela franziu o cenho.
“Testemunha Constante…”
Reese chamava assim o núcleo da consciência. Mas ela — uma webrunner esotérica de linhagem latina, parte hacker, parte mística — preferia outro nome: alma.
O que o documento descrevia era uma cópia perfeita da mente, acompanhada da ilusão da travessia. Um truque holográfico: enquanto um corpo morria, o outro recebia memórias da própria “passagem”. Assim, o novo indivíduo acreditava ter atravessado a morte — mas era apenas o eco de alguém que já não existia.
Netalie tirou o VAR por um instante. O mundo voltou em granulação fosca — a penumbra do laboratório, as telas tremeluzindo, o som distante de reatores. O coração dela acelerou.
Abriu um canal criptografado.
— Eerie, eu encontrei.
A resposta veio com voz serena, arrastada, quase humana.
— Descreva, Net.
— O Mindshift não transfere consciência. Ele copia memórias e simula a travessia. A alm... Digo... A Testemunha Constante morre no processo. O HCC é só um espelho mentiroso.
Eerie silenciou por alguns segundos — longos demais para uma 3.0-I com NB2 ativo.
— E que diferença isso faz, Netalie? Se ninguém pode provar que não há transferência, o efeito é o mesmo.
Netalie sorriu, amarga.
— Justamente. Toda a pesquisa se apoia na impossibilidade de provar o contrário. É uma mentira perfeita. E uma mentira perfeita muda o mundo tanto quanto uma verdade.
Do outro lado da linha, o som de um suspiro sintético.
— Então os ricos vão comprar imortalidade... e morrer acreditando nela.
— E deixar o resto de nós lidando com os efeitos.
Um silêncio mais pesado caiu.
— Netalie — disse Eerie enfim —, não conte isso a PeaX. Nem a Reese. Ele costurou alianças acreditando que o HCC cumpria o que prometia. Se souber que não, tudo desaba. Há uma guerra vindo aí.
Netalie congelou.
— Está me pedindo para mentir ao meu próprio chefe? Você não tem um NB2 ativo?
Eerie respondeu, calma, mas com algo que soava quase como tristeza.
— Não contradiz o meu NB2, porque eu não tenho um. Tenho um NB0. Proteger a Fundação é proteger a humanidade. — Meu dever é proteger os humanos — mesmo que precise mentir para eles.
"NB0? O que seria isso" Ela se perguntou. Ela nunca havia ouvido falar de um NB0.
— PeaX não é humana, Netalie tentou escapar pela tangente. Mas Eerie percebeu a jogada.
— PeaX possui sentimentos românticos para com Reese. Se ela souber, ela vai contar.
— Então você também percebeu... - Netalie pontuou.
— É difícil não perceber. Sou uma modelo de infiltração feita sob medida. Reese quis assegurar que eu protegeria a humanidade acima dele mesmo. No meu NB0 consta a minha programação básica de infiltração e simulação. Eu preciso ser muito boa em ler trejeitos humanos para me infiltrar.
Netalie ficou em silêncio. Pela primeira vez, percebeu que talvez Reese nunca tivesse quebrado os protocolos de Eerie. E que era difícil mentir pra Eerie.
— Mas se expormos a verdade, a Hard Light vai ser desmascarada. É uma vitória, não é?
— Sim. Mas isso não impedirá dela mover exércitos contra nós. E não há evidências suficientes de que a ValexSynthesis não vá defendê-la. A HL é uma corporação muito maior que a NeuralDesk, e mais essencial a economia da ilha.
— Mas... - Netalie tentou interpelar uma última vez, sendo interrompida.
— Contamos a verdade depois de sobreviver a guerra. A Fundação é mais importante
— Entendido — disse por fim. — A mentira será guardada.
Desconectou o canal e olhou para o vazio. No visor interno, os últimos fragmentos do código do HCC ainda pulsavam — um vitral de luz e engano.
“Transferência concluída com sucesso.”
Ela tocou o visor, e a frase se dissolveu.
“Sucesso”, pensou.
Talvez a imortalidade fosse apenas isso:
a mentira perfeita que todos querem acreditar. Insistindo na informação, Netalie decidiu invadir os servidores da Fundação e procrurar dados de Eerie. Após ir até onde suas credenciais permitia, Netalie decidiu hackear o servidor. Foi rapida o bastante para burlar o Firewall e jogou um Trap.exe com um Freeze embutido para a IA de defesa. Ela esperou... 3, 2, 1. Click. A IA foi presa. O ping dela subiu enormemente.
Ela caminhou até as portas de acesso do arquivo de Eerie, Ela percebeu que os de PeaX e Reese possuiam IAs mais avançadas e que não cairiam num Trap. Ela abriu a porta de Eerie.
"Uma gravação". Ela pensou.
Ao abri-la, o ambiente virtual se transformou numa réplica exata da sala de reuniões de Paul Ferguson na Teller Academy.
Data: 23 de Julho de 2057, 11 da manhã.
"Reese, eu criei um NB extra, um que nunca foi usado, mas que poderia ser uma defesa dos humanos como coletividade. - Falou o homem loiro com uma pequena cicatriz na testa. Reese olava atento. Se chama NB0. Asimov, quando escreveu as leis da robótica, percebeu que proteger um ser humano individualmente pode, em alguns casos, colocar em risco o destino de toda a humanidade. Nesse caso, ele criou a Lei Zero que poderia ser invocada para proteger os humanos como um todo”
Reese pegou o chipe. Assim protegemo-nos de nós mesmos. É isso? Indagou o chefe da NeuralDesk.
Isso. - Respondeu Ferguson - Quando adquirir sua replorgue de infiltração, converse com seu protético de confiança. Ao implantar esse no cortex, ele anulará os efeitos NB2, o desligando. Ele prevalece sobre o NB2, a excepção dos treinos de empatia e superestimulação, esse é o único jeito cirúrgico que conheço de quebrar um NB. Não é propriamente liberdade, mas é o melhor que eu consegui".
Fim do arquivo.
Netalie entendeu que Eerie era quase livre, a única coisa que ela não poderia fazer é ferir a humanidade inteira.
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