Valex, 15 de outubro de 2059
A chuva caía sobre Valex como se o céu chorasse por aqueles que já não podiam. Do alto do edifício Pável, a sede da NeuralDesk, era possível ver o Edifício Howard, sede da Hard Light de frente, com seus letreiros verdes e piscantes. Ao lado um telão de led de propaganda da Radio 1st Station que bruxuleava em roxo. Ambos se erguiam como lâminas de vidro, atravessando o nevoeiro digital que cobria a cidade. O som das gotas sobre o metal lembrava um código se repetindo, sem fim, ecoando no coração da metrópole de 3 milhões de almas.
Nos corredores do 80º andar, Togall, um replorgue 2.1-M, caminhava com passos pesados, em marcha. Cada movimento era fluido, preciso. Seu corpo era biotecido, pulsante, sustentado por reações neuroquímicas complexas. De longe, poderia ser confundido com um humano. Apenas os olohos vermelho, o cabelo branco, e o leve albedo azulado de sua pele — visível sob certas luzes muito raras durante o dia — revelava o que realmente era: um replorgue.
Ele entrou esvoaçando seus cabelos brancos longos no escritório do proprietário da empresa. Archibald Reese. O ambiente estava mergulhado em uma penumbra fria. Do lado de fora, a cidade refletia-se nas janelas de vidro fumê por opção, a taxa de iluminação poderia ser regulada por controle remoto. Reese permanecia sentado, o olhar fixo em seu holopad, onde camadas de dados giravam lentamente. As notícias projetavam-se no ar — investigações, relatórios, acusações veladas. Tudo convergia para um mesmo ponto: a NeuralDesk.
Togall aproximou-se.
— Reese... o que devo fazer? A Hard Light já levantou uma lista de suspeitos, e a NeuralDesk figura entre as três primeiras.
O homem ergueu os olhos, cansados, fundos, marcados por noites em claro.
— Por hora, nada.
Sua voz soava distante, quase fria.
— A General Security Inc colocou aquela Reyna e um outro 2.1-M na investigação. Temo que a Eerie não tenha sido tão meticulosa assim.
— Ela foi... - Reese falou. — Reyna é que é acima da média. — Deixe os investigadores chegarem à verdade. A NeuralDesk não tem força para enfrentar a Valexsynthesis... nem a Hard Light. Quem dirá as duas juntas. Então, precisamos guiar os investigadores até a verdade. Sem que nosso nome apareça.
Togall manteve-se de pé, em silêncio, absorvendo a resposta. Então, falou:
— Jogo difícil... Margem estreita... Você não fez nada quando PeaX autorizou Eerie a matar Hooligan.
O tom era contido, mas havia um toque de acusação ali.
— E até onde consta... Hooligan era um homem bom.
Reese desviou o olhar. O som da chuva pareceu aumentar, batendo contra o vidro com insistência.
— PeaX não tem culpa. — respondeu, baixo. — Eu autorizei. Ela apenas cumpriu minhas ordens.
Por um instante, Togall hesitou. Suas sinapses químicas oscilaram, Togall não teve tempo de processar o que os humanos chamariam de decepção, seu NB2, num disparo único, reduziu a intensidade daquela sensação a um mero desconforto.
— Você e eu sabemos que isso não é verdade. - Togall falou em tom de voz travante.
Deu um passo à frente.
— Você e PeaX têm uma amizade linda, mas isso não legitima autorizar a morte de alguém inocente.
Reese ficou em silêncio. As mãos apoiadas sobre a mesa tremiam imperceptivelmente. Então, murmurou:
— Você tem razão. Sinal de que os treinamentos de empatia e superestimulação estão funcionando... Mas não havia escolhas.
Levantou-se devagar.
— Hooligan não concordava com o projeto MindShift. Nem com o Control 1.0.
Deu alguns passos até a janela, ajustou a luminosidade no controle, permitindo uma iluminação maior. Os letreiros holográficos pulsavam mesmo durante o dia. A cidade era sempre escura, mesmo em dias de sol. E era sobretudo escura naquele dia chuvoso e nevoento. De costas, Reese retomou o raciocínio enquanto Togall pegava, curioso, um globo de neve com uma folha de ácer sobre a mesa de Reese.
— Mesmo assim, ele não seria um obstáculo. PeaX o convidou para vir até aqui, sob fachada de proposta de trabalho. Queríamos que ele se unisse a nós. Ele hesitou. Desconversou. Depois convidei ele para um Open House da Fundação. Fiz a proposta pessoalmente. Mas ele não confiou.
O reflexo da cidade cobria o rosto de Reese como uma máscara.
— Ele ia entregar um upgrade importante no MindShift — a versão 5.0. Aquela que resolveria o problema da testemunha constante. O HCC. Eu... não podia permitir.
Togall nada disse. Apenas observou o homem diante da paisagem de Valex, as luzes se dissolvendo nas gotas que desciam pelo vidro.
Então, colocando o globo de neve sobre a mesa, deixou sua voz romper o silêncio, baixa, firme:
— Tudo isso... pra honrar Pàvel? Já o vingou...
Reese permaneceu imóvel. Seu silêncio era resposta. Um silêncio pesado, denso, saturado de lembranças.
— Até quando vai se sentir em dívida? — perguntou Togall.
Nenhuma resposta. Apenas o som da chuva.
Mas o rosto de Reese denunciava a dor: os olhos marejados, o maxilar tenso, a alma presa a uma culpa que nem o tempo podia dissolver. Togall aproximou-se da mesa. Sobre o holopad, as imagens pairavam no ar — registros de Haya e Reyna filmados por drone no laboratório ultrassecreto de Ostermann Heights.
Ele apontou para ambos.
— Vou eliminar as provas vivas. Se ficarem, eles vão chegar até você.
Sua voz era firme, convicta.
Reese girou-se bruscamente.
— Não. Precisamos deles. Além do mais...
Deu um passo à frente.
— Você não teria chances, Togall. Reyna, segundo nossa informante na GS Inc recebeu uma série de melhorias que estão acima das capacidades da própria NeuralDesk.
Sua expressão suavizou-se.
— E... não quero perder meu amigo.
O replorgue recuou um pouco, confuso. “Amigo.” A palavra ecoou em suas redes químicas como um pulso de calor. Não estava preparado para senti-la, e não teve tempo, suas pupilas piscaram freneticamente, enquanto uma sensação de anestesia mental pairava sobre sua mente, fazendo aquela sensação desaparecer, como se fosse uma lembrança que se perdia.
Reese aproximou-se e, num gesto inesperado, o abraçou.
Togall ficou imóvel. Seu corpo reagiu com lentidão, absorvendo o toque, o calor, a dor compartilhada. Dessa vez o NB2 não teve como obstaculizar. Ele sentiu o coração aquecer. "Ternura" pensou. "Isso é... Ser humano?"

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