O andar mais alto da NeuralDesk parecia suspenso acima do mundo — uma torre de vidro e névoa onde os trovões batiam como cânticos longínquos.
Eerie atravessou o corredor em silêncio. O som dos seus passos era absorvido pelo carpete escuro, e os painéis de vidro refletiam sua própria silhueta com um brilho metálico que a fazia parecer menos uma mulher e mais um espectro.
Havia algo de errado na estrutura da empresa, pensava. A Fundação dependia demais de Archibald Reese.
Na maioria das corporações, o presidente respondia ao conselho, e o CEO era um executor de diretrizes.
Mas ali, ambos os cargos pertenciam ao mesmo homem.
O cérebro e o coração pulsavam no mesmo corpo, e qualquer falha nesse corpo significava a morte de todo o organismo.
Era essa a verdade que Eerie temia admitir: a sobrevivência da NeuralDesk era a sobrevivência da humanidade.
E a cada dia, o homem que a comandava parecia menos disposto a continuar vivo.
A porta da sala presidencial abriu-se sem aviso.
O ambiente estava mergulhado em uma penumbra azulada. As persianas semiabaixadas deixavam entrar o reflexo distante dos néons de Valex City.
Reese estava sentado de lado numa poltrona, as pernas cruzadas, o cabelo despenteado, o rosto escondido entre sombras e fumaça.
Uma guitarra Telecaster repousava em seu colo.
Havia um copinho de uísque na mesa de vidro, e uma garrafa esvaziada em um terço ao lado.
No chão, folhas rabiscadas — palavras que oscilavam entre versos e delírios: fragmentos de luto travestidos de arte.
Um holopad projetava diante dele a presença translúcida de Mason Gloves, sua IA pessoal, que o acompanhava como um produtor fiel e paciente.
As luzes do dispositivo pulsavam em tempo com os acordes — uma linha sintética de bateria e sintetizador respondendo à improvisação de Reese.
Ele cantarolava algo. A guitarra gemia uma mistura de electro-rock e shoegaze.
A voz rouca, cansada, atravessava o ar como um pedido de socorro disfarçado de canção:
I didn’t know
Didn’t know it would sting
Didn’t know it would break every string
Shadows of us
If I could turn back the time
If I could invert the clock
You’d still be mine
B’cause, baby...
Together we rock.
Eerie parou, imóvel.
Reconheceu o tom melancólico, a voz trêmula — e soube.
Era sobre PeaX.
A ex-fixer ainda nem havia deixado Valex City, e ele já bebia para esquecer.
Não...
não para esquecer.
Mas para anestesiar a dor de lembrar.
Ela o observou por alguns segundos, como se examinasse uma peça defeituosa de engenharia que, por alguma ironia, ainda funcionava.
Reese parecia mais humano naquele caos do que jamais parecera em qualquer reunião de conselho.
Mais frágil, mais vivo — e, portanto, mais perigoso.
— Você não dorme mais, não é? — ela disse, quebrando o silêncio.
Ele não se virou.
— Dormir é superestimado — respondeu com um meio sorriso cansado. — E o Mason não gosta de silêncio. Diz que o silêncio o deixa desconfortável.
— O vazio é humano. Talvez ele só esteja te imitando.
— Ou refletindo — disse Reese, olhando o reflexo dela no vidro. — Todos aqui imitam algo que já morreu.
Eerie aproximou-se da mesa e girou o copo de uísque entre os dedos, sem beber.
— PeaX ainda não chegou a Neo-Eden.
— Eu sei. — Ele pousou a guitarra, com cuidado, como quem deposita uma lembrança num altar. — Mas ela vai chegar. Tem que chegar.
A voz dele soava entre a lucidez e o delírio.
Eerie percebeu que o homem diante dela já não era o fundador da NeuralDesk — era o último sobrevivente de uma fé extinta.
— Você criou uma estrutura que depende só de você — disse ela. — CEO e presidente na mesma cadeira. Isso não é comando. É suicídio corporativo.
Reese riu.
Um som breve, sem humor, sem alegria.
— E o que você sugere, Eerie? Que eu nomeie um sucessor? Que entregue a Fundação para outro messias de laboratório?
— Sugiro que sobreviva — ela respondeu. — Ou o que você está tentando salvar não vai sobreviver à sua culpa. E não será uma música de dor de cotovelo que fará você sobreviver.
— Ela me beijou, Eerie. Provavelmente a primeira e última vez que isso acontecerá. Essa música é simplesmente como ir do céu ao inferno.
Eerie olhou para o vidro, para as luzes de Valex City pulsando lá fora como veias expostas de uma criatura moribunda. Moribunda como Reese naquele momento. ELe estava se tornando um obstáculo a sobrevivência da Fundação.

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