Shui Hao deixou os portões da Teller Academy com passos arrastados, seu uniforme de vinil roxo e amarelo, cores do curso de direito corporativo. Ela não conseguia se lembrar direito da última aula. Talvez fosse a longa viagem vinda de Kazuma até o Valex Park. Talvez fosse algo pior.
Quando percebeu, estava na cabeceira da Ponte Ahmed, com o Centro Financeiro ao longe, como torres cinzentas esfumaçadas na névoa. Por um momento ela se perguntou por que estava ali. Mas então recordou.
A maleta.
A entrega.
A voz do pai.
“Shui, querida…”, ela se lembrava com clareza cruel. “Sua estadia e bolsa em Valex, seu direito de estudar na prestigiosa Teller Academy, depende dessas maletas entregues. Com pontualidade.”
Ele chamava de orientação. Mas Shui sempre soube que era ordem.
A curiosidade sobre o conteúdo sempre queimara em sua mente, mas a regra era simples e irredutível:
“Não abra. O valor depende da integridade. Se aberta, perde tudo.”
Agora ela seguia desanimada entre Templeton Hill e Libertyhood. Um lugar vandalizado, esquecido, perigoso o suficiente para que até a chuva parecesse torpe. As poças refletiam o neon dos bares decadentes, e a névoa se confundia com a garoa fina daquele abril—o mais chuvoso desde 2049.
Ela encontrou o ponto exato: um bar de fachada azul-neon, como um fantasma de Hell’s Kitchen na velha Nova Iorque. As caixas d’água de madeira acima rangiam com o vento. O mundo inteiro cheirava a ferrugem e abandono.
O watchphone vibrou no pulso. Shui ativou o holograma, e um busto de luz granulada se ergueu sobre seu braço. O sorriso era inconfundível.
Seu pai.
— Chegou, querida?
— Sim, papai… O lugar é sombrio. Assustador. Eu tô com medo.
— Não fique. Eu prometo que não vou mandar você aí de novo. Essa é a última vez.
Shui franziu a testa.
— Papai… você me falou isso da última vez. Lembra?
O velho homem arrumou os óculos, desconfortável.
— Eu sei, querida. Mas… sem essa maleta, não consigo mandar o valor da mensalidade. Você sabe que sua bolsa não é…
— …integral. Eu sei — ela completou, sem paciência.
A voz dele afundou em culpa.
— Sinto muito, meu amor.
— Pelo menos o nome do receptor você tem? Como vou saber quem vai pegar?
— É um homem forte. Cabelos brancos.
Ela respirou fundo.
— Um replorgue?
— Não. Humano. Fica tranquila. Eu vou ficar na chamada com você o tempo todo.
Shui tentou sorrir. O medo diluiu um pouco.
— Obrigada, papai.
Mas não teve tempo para alívio. Um furgão velho — veículo de antes da Terceira Guerra — encostou na calçada. A porta correu e três homens desceram. O neon azul escorria sobre seus rostos como tinta elétrica.
— São eles, papai? — ela sussurrou.
O pai sorriu. Era um sorriso estranho. Apertado. Sem graça.
— Papai?
Ele nada disse.
Os homens atravessaram a rua.
— Papai?! Tá me ouvindo?
A voz dele voltou, mas algo estava errado.
— Sim, querida. Ouço.
Ela repetiu a pergunta. Dessa vez, ele simplesmente desligou.
Shui congelou.
O holograma sumiu.
O barulho da chuva ficou mais alto.
— Papai?! PAI! Não me deixa aqui sozinha!
Um dos homens encostou ao lado dela.
— Ora, ora… o que temos aqui? — murmurou, tocando a barriga dela com a ponta dos dedos.
Shui recuou de imediato, a voz trêmula:
— Não… por favor! Levem a maleta!
Ela estendeu a mão. O segundo homem pegou a maleta… mas o primeiro não tirou os olhos dela. Ele puxou a mão dela e viu o watchphone: - Um Nokilaser E5, é? Nem pra ter um watchphone que preste hein docinho!
O terceiro, com um pé-de-cabra na mão, abriu a maleta, vasculhou, apalpou o interior e assentiu:
— Tudo certo.
Largou o objeto no chão, aberta, vazia.
— Vamos. Pegamos o que queríamos.
— Pegamos nada — disse o primeiro, e puxou Shui pelo pescoço. — Temos essa gracinha.
Ele tentou beijá-la à força. No desespero, sem nem saber como, Shui deu uma cabeçada no segundo homem, que segurava seu watchphone. Sangue jorrou do nariz dele.
— ESSA VAGABUNDA! — ele urrou.
O primeiro recuou o rosto, rindo com raiva.
— A gatinha tem garras, é? Então vai aprender o que é agressão.
— Não! Por favor!
Ele socou o lado esquerdo do rosto dela. O impacto explodiu luz branca em seus olhos. Um corte abriu acima do supercílio e o sangue escorreu, transformando metade do mundo num filtro vermelho.
Foi o segundo que sacou a faca. Ele deslizou o aço pelo lado direito do rosto dela e abriu a pele como quem risca papel. Um corte menos feio do que o sangue que jorrava.
— Já chega — rosnou o do pé-de-cabra. — O combinado tá feito. Vamos.
— Calma, chefe. A gente ainda pode se divertir com a princesinha. Fazer um gangbang bem gostoso... Depois joga na Baía de Falkland. Ninguém acha.
Shui mal conseguia falar. Um soluço, um fio de voz:
— N-não… por favor…
— Cala a boca, lixo de Kazuma! — o segundo a puxou pelos cabelos e bateu a cabeça dela na parede.
Tudo apagou.
O mundo ficou escuro.
E foi então que outro som surgiu — passos. Pesados.
Um homem de porte largo e cabelos brancos caminhava em direção ao grupo. O do pé-de-cabra percebeu, empalideceu e correu para dentro do furgão. O motor rugiu. Ele arrancou, abandonando os outros dois para trás.
— FILHO DA PUTA! — gritou o primeiro.
— O plano vai miar! — o segundo largou Shui como um boneco, o corpo dela caindo numa poça gelada.
A água lambeu sua nuca.
O homem de cabelos brancos se aproximou

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