quinta-feira, 30 de outubro de 2025

[CONTO] Shui Hao


Shui Hao deixou os portões da Teller Academy com passos arrastados, seu uniforme de vinil roxo e amarelo, cores do curso de direito corporativo. Ela não conseguia se lembrar direito da última aula. Talvez fosse a longa viagem vinda de Kazuma até o Valex Park. Talvez fosse algo pior.

Quando percebeu, estava na cabeceira da Ponte Ahmed, com o Centro Financeiro ao longe, como torres cinzentas esfumaçadas na névoa. Por um momento ela se perguntou por que estava ali. Mas então recordou.

A maleta.
A entrega.
A voz do pai.

“Shui, querida…”, ela se lembrava com clareza cruel. “Sua estadia e bolsa em Valex, seu direito de estudar na prestigiosa Teller Academy, depende dessas maletas entregues. Com pontualidade.”

Ele chamava de orientação. Mas Shui sempre soube que era ordem.

A curiosidade sobre o conteúdo sempre queimara em sua mente, mas a regra era simples e irredutível:

“Não abra. O valor depende da integridade. Se aberta, perde tudo.”

Agora ela seguia desanimada entre Templeton Hill e Libertyhood. Um lugar vandalizado, esquecido, perigoso o suficiente para que até a chuva parecesse torpe. As poças refletiam o neon dos bares decadentes, e a névoa se confundia com a garoa fina daquele abril—o mais chuvoso desde 2049.

Ela encontrou o ponto exato: um bar de fachada azul-neon, como um fantasma de Hell’s Kitchen na velha Nova Iorque. As caixas d’água de madeira acima rangiam com o vento. O mundo inteiro cheirava a ferrugem e abandono.

O watchphone vibrou no pulso. Shui ativou o holograma, e um busto de luz granulada se ergueu sobre seu braço. O sorriso era inconfundível.

Seu pai.

— Chegou, querida?

— Sim, papai… O lugar é sombrio. Assustador. Eu tô com medo.

— Não fique. Eu prometo que não vou mandar você aí de novo. Essa é a última vez.

Shui franziu a testa.

— Papai… você me falou isso da última vez. Lembra?

O velho homem arrumou os óculos, desconfortável.

— Eu sei, querida. Mas… sem essa maleta, não consigo mandar o valor da mensalidade. Você sabe que sua bolsa não é…

— …integral. Eu sei — ela completou, sem paciência.

A voz dele afundou em culpa.

— Sinto muito, meu amor.

— Pelo menos o nome do receptor você tem? Como vou saber quem vai pegar?

— É um homem forte. Cabelos brancos.

Ela respirou fundo.

— Um replorgue?

— Não. Humano. Fica tranquila. Eu vou ficar na chamada com você o tempo todo.

Shui tentou sorrir. O medo diluiu um pouco.

— Obrigada, papai.

Mas não teve tempo para alívio. Um furgão velho — veículo de antes da Terceira Guerra — encostou na calçada. A porta correu e três homens desceram. O neon azul escorria sobre seus rostos como tinta elétrica.

— São eles, papai? — ela sussurrou.

O pai sorriu. Era um sorriso estranho. Apertado. Sem graça.

— Papai?

Ele nada disse.

Os homens atravessaram a rua.

— Papai?! Tá me ouvindo?

A voz dele voltou, mas algo estava errado.

— Sim, querida. Ouço.

Ela repetiu a pergunta. Dessa vez, ele simplesmente desligou.

Shui congelou.
O holograma sumiu.
O barulho da chuva ficou mais alto.

— Papai?! PAI! Não me deixa aqui sozinha!

Um dos homens encostou ao lado dela.

— Ora, ora… o que temos aqui? — murmurou, tocando a barriga dela com a ponta dos dedos.

Shui recuou de imediato, a voz trêmula:

— Não… por favor! Levem a maleta!

Ela estendeu a mão. O segundo homem pegou a maleta… mas o primeiro não tirou os olhos dela. Ele puxou a mão dela e viu o watchphone: - Um Nokilaser E5, é? Nem pra ter um watchphone que preste hein docinho!  

O terceiro, com um pé-de-cabra na mão, abriu a maleta, vasculhou, apalpou o interior e assentiu:

— Tudo certo.

Largou o objeto no chão, aberta, vazia.

— Vamos. Pegamos o que queríamos.

— Pegamos nada — disse o primeiro, e puxou Shui pelo pescoço. — Temos essa gracinha.

Ele tentou beijá-la à força. No desespero, sem nem saber como, Shui deu uma cabeçada no segundo homem, que segurava seu watchphone. Sangue jorrou do nariz dele.

— ESSA VAGABUNDA! — ele urrou.

O primeiro recuou o rosto, rindo com raiva.

— A gatinha tem garras, é? Então vai aprender o que é agressão.

— Não! Por favor!

Ele socou o lado esquerdo do rosto dela. O impacto explodiu luz branca em seus olhos. Um corte abriu acima do supercílio e o sangue escorreu, transformando metade do mundo num filtro vermelho.

Foi o segundo que sacou a faca. Ele deslizou o aço pelo lado direito do rosto dela e abriu a pele como quem risca papel. Um corte menos feio do que o sangue que jorrava.

— Já chega — rosnou o do pé-de-cabra. — O combinado tá feito. Vamos.

— Calma, chefe. A gente ainda pode se divertir com a princesinha. Fazer um gangbang bem gostoso... Depois joga na Baía de Falkland. Ninguém acha.

Shui mal conseguia falar. Um soluço, um fio de voz:

— N-não… por favor…

— Cala a boca, lixo de Kazuma! — o segundo a puxou pelos cabelos e bateu a cabeça dela na parede.

Tudo apagou.

O mundo ficou escuro.

E foi então que outro som surgiu — passos. Pesados.

Um homem de porte largo e cabelos brancos caminhava em direção ao grupo. O do pé-de-cabra percebeu, empalideceu e correu para dentro do furgão. O motor rugiu. Ele arrancou, abandonando os outros dois para trás.

— FILHO DA PUTA! — gritou o primeiro.

— O plano vai miar! — o segundo largou Shui como um boneco, o corpo dela caindo numa poça gelada.

A água lambeu sua nuca.

O homem de cabelos brancos se aproximou

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