sexta-feira, 14 de novembro de 2025

[CONTO] De que vale ao homem conquistar o mundo se perder a sua alma?

 19 de Abril de 2059 - 12:00

O TesyD Bloodshed cortava a névoa sobre o Rio Valex como uma navalha cromada. O VTOL — um modelo de luxo recém-lançado pela TesyD, com hélices estabilizadoras e propulsão a jato — carregava discretamente o logo da NeuralDesk, iluminado por LEDs azulados na fuselagem. Era rápido, elegante e incrivelmente silencioso, exceto pelo zumbido constante das turbinas ajustando altitude.

Reese observava a cidade abaixo pela parede de vidro do cockpit. As faixas de néon refletiam na água como circuitos líquidos. Ele se perguntava, pela décima vez naquela semana, por que a Hard Light ainda não havia simplesmente derrubado seu VTOL. Bastaria um único míssil guiado. Aquele era o trecho mais vulnerável do seu dia — o voo entre Templeton Hill e a Borda do Centro Financeiro, onde seu prédio e o da Hard Light se encaravam como dois obeliscos negros, revestidos de painéis reflexivos e quase sem janelas. Irônicos, sombrios e vizinhos.

Ao seu lado, Rade apreciava a vista. O rosto dela estava meio oculto pela luz azul que atravessava o cockpit, mas os olhos observavam silenciosamente tudo.

O watchphone de Reese vibrou.

ID: desconhecido.

Ele franziu o cenho.

— Doutor Reese? — a voz saiu instável, atravessada de ruído digital. O sotaque denunciava alguém que havia emigrado recentemente para Kazuma.

Reese reconheceu de imediato o contraste: o Inglês dele — canadense, suave — quase sempre destoava do sotaque valexiano típico com seus “ee’s” e “y’s” no final das palavras.

— Sim. Com quem falo?

O holograma piscou, deformado por interferência.

— Consegui seu ID graças ao banco de dados da inteligência da BS. Sou Chin. Huyang Chin.

— BS? BioSynthesis.

— Isso. Preciso de ajuda…

Reese ergueu uma sobrancelha.

— Tá? E que mal lhe pergunte…

Antes que completasse a frase, Rade tocou seu ombro e fez sinal para que ele se calasse.

Com movimentos rápidos, ela tirou um cabo USB do coldre lateral e conectou seu próprio watchphone ao dele. Em segundos, iniciou um rastreamento ativo e uma gravação criptografada. Os dedos dela trabalhavam com precisão militar.

Reese arregalou os olhos por um instante. Aquele tipo de atitude vinha mais de um agente de inteligência corporativa do que de um guarda-costas comum.

Rade continuou em silêncio, concentrada.

A voz de Chin voltou, ainda distorcida:

— Reese? O sinal desapareceu…

— Não! Estou aqui. — Ele ajeitou o dispositivo. — Que mal lhe pergunte, mas por que você — crítico ferrenho da Darwinorrobótica, que sempre dizia que autômatos biossintéticos eram pura programação — está me procurando?

O holograma estável por um momento.

— Foi graças a mim que a BS, ouvindo meus conselhos, recomendou à Hard Light deixar você quieto.

Uma pausa pesada.

— Deveria me ouvir.

Reese estreitou os olhos.

— Não foi isso que perguntei, embora a resposta seja interessante. Podemos falar mais tarde sobre os vínculos da BS com a Hard Light.

Chin respirou fundo, e o ruído do microfone ampliou seu nervosismo.

— Eu estava errado, dr. Reese. Pável, Ferguson, você… vocês estavam certos. E eu… eu fiz uma monstruosidade.

Outra pausa, mais curta.

— Preciso de abrigo. Preciso que alguém me escolte até um lugar específico… onde talvez eu não seja bem recebido.

Reese manteve o tom frio:

— E o que eu ganho com isso? Por que eu deveria confiar em você? Afinal, você está prestes a ganhar um Nobel por uma teoria baseada em algo que agora diz estar errado.

Huyang Chin soltou um riso amargo.

— O Nobel é um prêmio corporativo, dr. Reese. Ele não premia a melhor pesquisa científica — premia a que enriquece as corporações.

A voz dele falhou, mas não pela interferência.

— E não existe razão para confiar em mim. É pegar ou largar. Mas eu lhe asseguro… você não vai se arrepender. O que eu tenho em mãos…

O holograma se estabilizou por um segundo.

— …é o segredo dos neurobots.

Reese virou-se para Rade, perplexo.

Ela já havia concluído o rastreamento.

— Doutor Reese, localizamos. — sussurrou. — Altitude equivalente a Trinidad e Tobago. Movendo-se em direção a Valex a 900 km/h.

Reese voltou ao holograma.

— Por que você me daria sua maior pesquisa? Não faz sentido.

O VTOL começou a reduzir altitude, aproximando-se da plataforma de pouso da NeuralDesk. As hélices mudaram de ângulo, e a vibração da cabine aumentou.

A resposta veio com uma honestidade que Reese não esperava:

— Para salvar minha alma…

Uma pausa longa o suficiente para gelar o cockpit.

— …e minha filha.

Reese sentiu a verdade naquelas palavras. Não sabia o que aquilo significava, mas sabia reconhecer desespero — e sinceridade — quando ouvia.

O Bloodshed aproximou-se do heliporto, flutuando alguns metros acima antes do pouso suave.

— Me encontre na minha residência, em Templeton Hill. — disse Reese, firme. — Pedirei à minha guarda-costas para lhe passar instruções detalhadas.

— Não. — Falou Chin com sua voz obstruída por ruídos de distância — Xin Jin Yang Boulevard, Distrito de Kazuma.

— Por que lá? — Reese questionou. Rade insistiu em voz sussurrada que não era seguro.

— Preciso salvar a minha... filha... Ela está lá. — A voz era um desabafo.

— Tudo bem. Te encontro lá assim que entrar no espaço aéreo de Valex.

Do outro lado, Chin suspirou como alguém que voltava a respirar depois de horas submerso.

— Obrigado, dr. Reese.

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