quinta-feira, 13 de novembro de 2025

[CONTO] Femininidades hiperativas


Shui Hao estava terminando de se arrumar para ir ao shopping, cabia a ela terminar de se arrumar, sair, fechar a porta. O relógio no criado-mudo marcava sete e quinze, e o sol filtrado pela neblina que entrava pelas frestas da persiana parecia zombar dela, com seu brilho de garota hiperativa muito necessitada de ritalina. Lá fora, Akira, Akame, Akali e Yumi esperavam pacientemente no corredor — a algazarra contida dos que sabiam respeitar o espaço alheio.

Ela respirou fundo. O uniforme de vinil roxo e amarelo da Teller Academy, que usara na noite anterior, estava pendurado na lavanderia, gotejando sobre o azulejo. Ainda exalava o cheiro agridoce de sangue, medo e suor.

"Não dá mais pra usar isso. Cheira à noite que eu quero esquecer."

Com delicadeza, Shui escolheu um short e uma camisa simples — nada demais, nada chamativo.

"Hoje, eu só quero ser invisível" — pensou.

Enquanto abotoava a camisa, a lembrança do que fizera na noite anterior retornou como uma onda fria: a conversa precipitada, o contato com o pai — ou com aquele que dizia ser o pai. Ela não sabia mais em que acreditar. A forma de escrever era familiar demais, quase paternal demais. E talvez fosse isso que doía: a ideia de que pudesse ser apenas um fantasma eletrônico, uma fraude.

Shui olhou para a janela. A névoa sobre Valex parecia densa, como um espelho sujo.

"Recomeçar", dissera Hanzo. "Você precisa recomeçar, Shui. Não é tão ruim assim". — Ela se lembrou.

E ela tentou. Chegara à casa de Akira com o coração nas mãos, rosto afundado em tristeza, confusão e vergonha, no colo da chefe de polícia. Ela chegou ali destruída, mas disposta a enterrar o passado. O passado, no entanto, não se deixa enterrar facilmente. Ele cava de volta, arranha, insiste, como se conduzido por cordas invisíveis. A memória do antigo e-mail corporativo da firma — aquele endereço impessoal e inofensivo — piscou na mente dela como um lampejo de tentação. Chegou como se trazido de fora a mão.

Foi tudo o que bastou, no entanto, Shui afastou a lembrança daquele erro. Shui pegou a bolsa.

Com lembranças de seu cavaleiro etílico de armadura brilhante, pensou: "Talvez eu compre uma blusa nova, talvez algo azul… será Hanzo gosta de azul?". E de repente um sorriso tímido e apaixonado tomou conta de seu rosto. Seu coração de aqueceu em ternura, com a memória dos braços dele a segurando naquela noite. Era paradoxal que a mesma noite que lhe trazia calafrios, era a que trazia borboletas no estômago... Ela nunca tinha se sentido tão protegida como naquele momento, após despertar. Era como dormir numa cama confortável numa noite de chuva.

Ela já se encaminhava à porta quando uma voz grave e inconfundível ecoou do corredor.

— Oka-sama... Bom vê-la.

O som congelou o ar.

Era ele.

Hanzo.

A respiração de Shui falhou. Por um instante, sentiu-se uma criança pegando algo que não devia, um bichinho com asma. Olhou para si num espelho decorativo na sala: a camisa larga, o short simples, o cabelo preso sem graça.

Não. Assim, não. Ele não pode me ver assim.

Hanzo era um homem de presença rara — alto, fortíssimo, belo, a postura firme de quem carrega o mundo sem reclamar. Mesmo depois da notícia terrível daquela manhã — o assassinato em Subferro, o assassino que se parecia demais com ele pra não ser, os nomes sussurrados —, ela não conseguia duvidar dele.

"Eles estão errados. Hanzo não seria capaz daquilo... Ou seria? Ele matou um de seus agressores... Se for — Shui conjecturou — Ele devia ter um motivo... Estava protegendo alguém... Certamente."

A ideia de que pudesse ser outra mulher acendeu ciúmes em seu coração. Como assim, ele protegeria outra que não ela?

Shui afastou aqueles devaneios de sua mente apressada. "Que ridículo... Ele não é nada meu. Nem nos beijamos ainda... Ele não olharia pra mim com pensamentos impuros... Ele é um cavalheiro..."

— Céus... Preciso de ritalina, ou um calmante... — Sussurrou pra si.

Ela ajeitou a pose, ensaiou um sorriso. "Ele é um cavalheiro... Por isso preciso incentivá-lo".

Com o coração em disparada, ela correu de volta ao quarto. O armário de Yumi estava semiaberto, exalando o perfume doce e contido da dona. Shui puxou um cabide, depois outro, depois outro — tecidos macios, cortes discretos.

Ela é tão pura, até nas roupas.

Não havia nada provocante, nada que dissesse “olhe para mim”. Mas Shui precisava — precisava — ser vista. Improvisou: subiu a saia até o diafragma, ajustou o cós com um broche, vestiu uma meia-calça retirada do cesto de roupas lavadas, não sabia de quem era... Talvez fosse de Akira. Cheirou.

Está limpa. Está boa o suficiente.

Enquanto se trocava, sua mente se encheu de imagens que não sabia controlar.

Ele vai me ver. Vai sorrir. Vai dizer que estou linda... Será?

As cenas brotavam como se alguém as projetasse dentro dela: o primeiro beijo, as risadas cúmplices, o toque das mãos sob a chuva.

Depois — filhos. Um menino e uma menina, com olhos puxados e cabelos de bronze.

A briga por qual escola escolher.

Ela, vestida de noiva.

Akira e Akali sorrindo, Yumi chorando discretamente. Naria de dama de honra.

Hanzo esperando por ela no altar.

Mas a fantasia se quebrou quando a imagem do pai surgiu — a mão dele oferecendo o braço, conduzindo-a até o noivo.

Papai…?

O coração apertou. As memórias voltaram em sequência violenta: o apartamento vazio, o eco metálico da secretária da embaixada, o telão exibindo um pai que não era mais o seu, os agressores, os gritos, o frio no chão.

Ela se apoiou na penteadeira.

As mãos tremiam.

O peito parecia pequeno demais para tanto ar.

— Calma, Shui. — sussurrou para o reflexo pálido no espelho. — Hanzo precisa do seu melhor sorriso... Ele não pode perceber que você está cheia de rachaduras...

O eco da própria voz soou oco, mas suficiente.

Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo, passou o batom com precisão cirúrgica e ergueu o queixo.

De repente, a menina vulnerável desapareceu, e em seu lugar surgiu uma mulher decidida — ou, pelo menos, alguém que sabia fingir ser uma.

Shui fez e pensou tudo isso em cerca de oito minutos. Abriu a porta e saiu.

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