Valex City, 20 de Abril de 2059 - 00:00
A casa em Templeton Hill estava silenciosa, iluminada apenas pela luz opaca que atravessava as cortinas translúcidas. Lá fora, a névoa se apoiava nos telhados como um animal adormecido, e o som do vento contra o vidro parecia mais um lamento distante.
Rade caminhava pela sala de estar com passos leves. Silenciosos demais para alguém da DSM. —mas exatamente como PeaX se movia. Ela conhecia cada textura daquela casa, cada tábua que fazia ruído, cada canto onde a luz falhava. E lá estava ele, sentado no sofá de couro preto, o corpo inclinado, um livro aberto entre as mãos.
Macbeth, de William Shakespeare.
A tragédia refletia nos olhos dele como se estivesse sendo projetada diretamente em sua alma.
— Archie… — ela engoliu o deslize — Digo, senhor Reese…
Reese ergueu os olhos devagar, sem marcar a página. Ele já tinha memorizado o trecho.
— Roxxy acabou de me informar que o Caio foi atacado e ferido pela BioSynthesis.
— O bunker dele foi destruído. Alguns dos soldados morreram.
A expressão de Reese contraiu levemente, como se tivesse recebido um golpe preciso.
— Como ele está?
— Sendo cuidado diretamente pela Roxxy na A-Verheyen. Ela cruzou as mãos atrás do corpo, postura militar impecável. — Ela conseguiu estabilizá-lo e implantou uma perna biônica.
Reese soltou um ar que parecia metade preocupação, metade alívio.
— Ótimo.
Fechou o livro com uma mão e encostou-o ao lado.
— Coloque todo o tratamento na conta da NeuralDesk. E informe a ele, através da Roxxy, que quaisquer danos materiais serão cobertos pelo orçamento da empresa.
Rade se aproximou mais um passo.
— O blindado ainda está operacional, mas severamente danificado.
— Contrate um mecânico.
Levantou-se, ajeitando o casaco.
— Já encomendei um segundo blindado. Deve estar para chegar.
Ela assentiu, mas não saiu. Ficou ali, observando-o com algo que não era profissional—um cuidado antigo, familiar, quase instintivo. Ela olhava-o como alguém que queria abraçá-lo.
Reese percebeu.
— O que foi, Rade?
Ela respirou fundo, prendeu o ar por um instante e o soltou devagar.
— Apenas me indagando porquê está lendo um clássico.
— Gosto dos clássicos... E além do mais, acabei de ser informado pela Akira Sato… que Shui Hao…
A voz falhou por um instante.
— Que ela está morta.
O silêncio que se seguiu parecia uma lápide caindo.
Rade parou no meio do movimento. Um músculo em seu maxilar tremeu.
— Meu Deus… — ele murmurou. — Mas o que aconteceu?
Reese manteve o olhar firme, Rade também, mesmo que por dentro PeaX estivesse despedaçando-se. Ela não conhecia Shui Hao, mas se compadeceu por ter vivido a mesma coisa que ela. Peax empatizou com a história de Shui contado por Huyang Chin mais cedo.
— Contaram a verdade pra ela. Ela conseguiu um tempo sozinha… e tirou a própria vida.
Ele baixou os olhos.
— Quando perceberam, já era tarde.
Reese fechou a mão em punho—forte.
Tão forte que os estalos ecoaram pela sala como pequenos tiros abafados.
Rade conteve o impulso de tocá-lo.
— O senhor a conhecia? — ela perguntou, com a voz cuidadosamente neutra.
— Não.
Ele caminhou até o bar da sala e serviu-se de um uísque âmbar.
— Mas eu imagino o que o Hanzo deve estar sentindo… e a Akira também.
Rade abaixou um pouco a cabeça.
— O Togall… não é? Você disfarça bem, mas quem o conhece ou presta muito atenção, dá pra ver que por dentro ainda está consumido pela raiva.
— Sim. Isso tem que acabar...
Ele tomou um gole lento, olhou pela janela, inspirou o cheiro do mundo lá fora como se fosse fumaça de um campo de batalha. A chuva voltava a cair...
— Amanhã é o velório dela...
Virou-se para Rade ao dizer.
— Decidiram enterrá-la, não cremá-la. Uma decisão bela. É uma forma de reconhecer a humanidade daquela pobre criança.
Ele pousou o copo, mas não soltou o livro. Passou os dedos pela capa.
— Rade... Espero que não tenha se chateado por eu ter ido até Kazuma contra suas recomendações.
Rade ergueu o olhar, mas PeaX piscou por trás dos olhos dela.
— Foi só preocupação, Archibald.
O nome escorregou antes que ela pudesse impedir.
— Mas acabou que você estava certo. Já sabe que, se a BioSynthesis descobrir que o Control 2.0 e os Neurobots estão sob sua posse, você vai virar alvo novamente, não sabe?
Reese sorriu, mas era um sorriso frio, calculado.
— Sim… mas eu tive uma bela ideia com a Reyna... E o Hanzo me deu uma boa ideia também... Os dois trabalham muito bem juntos sem nem perceberem...
Voltou a andar pela sala, como um general estudando o terreno.
— Vamos devolver tudo. Vou dizer bem claramente que não tenho interesse na tecnologia e devolver tudinho... Com um vírus.
Rade estreitou os olhos.
— Um vírus?
— Precisamos de uma webrunner ou hacker nível 5. Capaz de destruir os servidores da BioSynthesis.
Ele pegou o copo de volta, levantou-o levemente como quem faz um brinde à própria insanidade.
— Talvez eu consiga vencer a guerra sem disparar um único tiro.
— Acha mesmo que isso é possível?
Ele parou diante dela.
O ar entre os dois parecia eletrificado.
— Sim, Rade. Verão minha devolução como uma rendição, uma bandeira branca... Vão baixar a guarda...
Reese respirou fundo.
— Acabo de nomeá-la minha nova Fixer.
Ela piscou.
— Fixer… eu?
— Sim... Seu nome já está no site... Quero que procure Harley Crimson, fixer da ValexSynthesis.
A voz dele ficou mais baixa, mais decisiva.
— Quero propor um acordo ao Adrian Valex Junior.
Rayde deu um passo à frente, tentando esconder a perplexidade.
— Que tipo de acordo?
Reese ergueu o copo, como se estivesse fazendo um juramento silencioso ao destino.
— Quero que a ValexSynthesis e a BioSynthesis dividam o mesmo cavalo de troia.
Seu sorriso era sombrio.
— Quando ambas estiverem de joelhos… vou me reunir com Kicilov. E juntos, vamos derrubar a Hard Light. Um tiro... Três coelhos...
Rade sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Você planejou tudo isso?
Reese largou o copo.
O som seco ecoou pela sala.
— Não.
Virou-se com calma.
— Mas o cavalo passou selado… e eu não vou perdê-lo.
Ele apoiou uma mão no ombro dela.
— Akira Sato me ensinou isso. Ela só teve uma chance para resolver o Heist. E aproveitou.
Os olhos dele brilhavam com algo entre fúria e esperança.
— Eu não vou deixar a sorte me escapar. Amanhã mesmo, após o velório, irei com Roxxy até Ostermann Heights, quero colocá-la ajudando Park Woo no projeto HAET, ele é a segunda parte do meu plano... Depois de fazer um ataque poderoso contra todos os três, vou expor a farsa do HCC para o mundo todo.
— Archie... Vão matá-lo! — Rade se aproximou vermelha de preocupação.
— Estarei bem guardado.
— Por um gangster perneta e uma gangue de replorgues e motoqueiros comunistas pouco confiáveis?
— Sim... Serei o aríete deles. Depois de verem o meu trabalho, perceberão que precisam de mim.
— Archie, isso é megalomania... Não posso permitir você fazer isso.
Reese riu e citou um poema de Percy Shelley: “Meu nome é Ozzymandias, Rei dos Reis; Contemplai minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
— Isso é loucura! — Rade já estava a ponto de chorar.
— É o meu testamento para aquela que amo, Rade... Você me sugeriu isso.
— Ela não quer que faça isso... — A voz saiu mais de Peax que de Rade.
— Como você sabe? Nem a conheceu.
— A conheço desde que a libertou e retirou memórias traumáticas da cabeça dela.
Reese se afastou um pouco perplexo:
— Como sabe disso?
Peax develou-se diante dele, quando a máscara de Rade foi retirada. Os cabelos brancos venceram a holografia traseira da máscara, e os olhos vermelhos surgiram com o cair dos cabelos brancos.
— Porque a Peax nunca te abandonaria,...Porque eu te amo... E sei que você me ama... Não quero que morra...
Reese caiu sentado no sofá perplexo... De repente, tudo fazia sentido. Mas ele não se irritou de imediato, ele foi inebriado pelo beijo desesperado da replorgue, e por um cheiro quase metafísico que vinha de Peax.
08:00


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