19 de Abril de 2059
A porta de vidro deslizou com um sopro discreto, e Rade entrou. O cheiro de produto de limpeza ainda flutuava no ar — a zeladoria havia sido eficiente, apagando os vestígios de Eerie. A janela estava nova, as superfícies brilhavam. Nenhum fragmento, nenhuma mancha. Tudo em ordem, como se nada tivesse acontecido ali.
Reese estava sentado, de costas para o Rade, diante de um quadro branco que parecia mais um espelho da própria mente. As linhas de marcador formavam constelações de símbolos, equações, números, setas, breves frases que oscilavam entre a física e o misticismo. A caligrafia era precisa, mas não fria. Havia emoção contida até na forma das setas.
PeaX — escondida atrás do disfarce de Rade — observava em silêncio. Achava tudo aquilo bonito, quase sagrado. O jeito como ele segurava o marcador, o olhar absorto, a respiração que se tornava medida de pensamento. Havia algo de devocional em Reese quando escrevia; parecia conversar com as próprias teorias, ela esboçou um sorriso familiar ao estar do lado de quem agora sabia que desejava mais que como amigo. E, naquele dia, o fascínio dela tinha virado desejo.
Mas PeaX não podia deixar transparecer nada. Nem uma hesitação, nem um olhar mais longo do que o permitido. A distância entre eles era de dois metros e um segredo.
Trocaram apenas um aceno de cabeça quando ela chegou com Roxxy no dia anterior. Reese voltou ao quadro. O watchphone em seu pulso brilhou, projetando o holograma de Park Woo no ar. As vozes misturaram-se à luz fria do escritório — trechos dispersos, fragmentos científicos que escapavam pela transparência da porta. PeaX se afastou, ficando atrás do vidro, onde apenas o som filtrado da conversa chegava.
Palavras flutuaram como espectros: HCC… ponte holográfica… consciência… Nobel.
Quando o diálogo terminou, ela esperou alguns segundos. Depois respirou fundo e voltou.
— Parece difícil — disse, num tom calmo, que escondia o nervosismo ao tentar pela primeira vez puxar conversa. Ainda sem jeito, sem coragem, medo de ser descoberta.
Reese se virou. Um sorriso surpreso.
— Primeira vez que ouço sua voz em quase vinte e quatro horas… mas sim, é difícil.
— Deve estar cansado de gente sem formação como eu te perguntando o que tudo isso significa.
— Cansado? — ele ergueu o olhar. — Ao contrário. Eu gostaria que mais pessoas se perguntassem. Explicar me faz companhia.
Ela sorriu... Aquele jeito melancolicamente fofo e pessimista de falar... Ela temeu não mais ouvir.
— Talvez devesse virar professor em Oxvard. Ouvi dizer que estudou lá.
— Estudei. — Ele apoiou o marcador no queixo, pensativo. — É um sonho meu, dar aula. Mas, por enquanto, não posso. Não enquanto não enterrar Prometeu.
Ela inclinou a cabeça, intrigada.
— Prometeu?
— O titã que roubou o fogo dos deuses — respondeu, com uma serenidade antiga. — Deu a razão ao homem. Eu não quero que o homem perca a razão… apenas quero impedir que ele tente sentar-se no trono dos deuses.
— Você acredita neles? Nos deuses?
— Não. — Ele sorriu, quase melancólico. — Mas isso não impede o homem de querer subir aos céus; erguer o trono acima das estrelas; sentar-se no ponto mais elevado do monte santo.
— Isaías — murmurou PeaX.
— Sim. — Reese olhou para o quadro, sem vê-lo. — Gosto da poesia da Bíblia. Ela nos lembra a nossa posição humilde diante das grandes potestades do cosmos.
Foi então que PeaX sentiu a lágrima escorrer antes mesmo de perceber que chorava. Rápida, silenciosa.
— Está tudo bem? — perguntou ele. — Você está chorando.
— N-nada… — ela hesitou, buscando uma mentira que soasse humana. — Lembrei do meu pai. Ele era idealista. Citava a Bíblia.
— Falecido?
— Sim.
— Acha que seria possível trazê-lo de volta? — Indagou Peax tentando desconversar.
Reese virou-se devagar. O olhar era tão gentil que doía.
— Não. Longa história, mas não.
Ela respirou fundo.
— Você disse que queria explicar. Ensinar. Tente comigo.
Por um instante, ele a observou como quem tenta lembrar um rosto esquecido. O nó da gravata estava torto e a gravata lamentavelmente amarrotada, e ela ao perceber aproveitou a brecha.
— Me permite? — perguntou, apontando para o tecido desalinhado.
— Claro. Sou péssimo com essas coisas. — Reese respondeu.
— Os grandes gênios costumam tropeçar no simples. — A voz de PeaX escapou na forma pela voz rouca de Rade.
Reese riu, curioso com aquela frase.
— Onde você ouviu isso antes?
— Não lembro. Deve ter sido meu pai ou algum tutor da DSM... Não sei.
Ela arrumou a gravata com cuidado, evitando olhar demais para ele. O silêncio entre os dois era denso, quase elétrico.
— Então — disse ela, ainda próxima — me explique o que é o HCC.
Reese recostou-se, retomando o tom de professor cansado.
— Holographic Consciousness Chip. Um chip que cria uma ponte entre um corpo novo, feito de synthcells, e o conecta ao corpo antigo. O objetivo é transferir a consciência — pouco a pouco — de um para o outro.
Enquanto falava, voltou ao quadro e desenhou duas figuras, unidas por linhas onduladas.
— Durante dias, o HCC liga o cérebro novo em etapas e vai desligando o antigo. Entre eles, mantém uma ponte. Um canal por onde passam estímulos e memórias. Testes são feitos em paralelo: desligam a visão do corpo velho, ligam a do novo. Mostram uma bola diante do corpo novo, e o velho é quem diz “eu vi a bola”. É um truque de sincronização. Parece elegante. Em teoria resolve o problema da testeminha constante.
PeaX observava o traço, o ritmo das palavras.
— Em teoria?
— Sim — ele repetiu, sorrindo de leve. — Mas não resolve. O problema é simples e mortal: não há como provar que a consciência migrou. É uma teoria e uma prática não falseável, e se não é falseável não é ciência. É um golpe bem articulado.
— Gostaria de entender como o golpe funciona. — Falou PeaX genuinamente curiosa.
Quando o corpo velho é desligado, a testemunha constante desaparece. E o corpo novo, mesmo que acredite ser o antigo, pode ser apenas uma cópia perfeita — com a memória de uma travessia que nunca aconteceu.
Ela ficou em silêncio. Reese apagou parte do quadro com o dorso da mão.
— A única maneira de provar seria interromper o processo. — Sua voz baixou. — Ativar o corpo novo sem desligar o velho. Se ambos acordassem, e ambos tivessem as mesmas memórias da “migração”, ficaria claro: não houve travessia. Houve duplicação. O chip não transfere consciências; só copia padrões.
Ele escreveu: Memória não é identidade.
— Isso — concluiu — provaria que a consciência está ancorada ao tempo, ao espaço e ao corpo. Que não existe alma viajante. Só continuidade física.
PeaX sussurrou:
— E aí... Bingo! Você enterraria Prometeu.
Reese assentiu.
— Enterraria. Sem negar o fogo. Apenas devolvendo ao céu.
Ela quis sorrir, mas conteve.
— Obrigada, doutor Reese. Consegui entender… quase tudo.
— Quase é o começo de todo entendimento. — Ele olhou para ela, e por um segundo, o olhar pareceu reconhecer algo por trás daquela máscara de guarda-costas. — E quanto a você? Tem um jeito diferente...
— Diferente como? — PeaX se reposturou como Rade.
— Não fala como militar. — Falou Reese.
Ela desviou o olhar.
— Professores atraem perguntas demais. E sou mais de trabalho de infiltração... Se aparentar sempre ser uma militar, fica evidente que não sou quem digo ser.
— Faz sentido. - Reese sorriu.
Do corredor, a luz refletia os dois no vidro, como se houvesse mais de uma versão de cada um. Rade ajustou o sobretudo, formal outra vez.
— Se precisar, fico na porta. A janela nova não vai dar trabalho.
— Ótimo — respondeu ele, sem tirar os olhos dela. — E obrigado… pela gravata.
Ela assentiu, já de costas.

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