Drasa arrumava as malas como quem tenta organizar o caos por dentro. Cada dobra era uma tentativa de alinhar o que se quebrara — não o tecido, mas o sentido. A luz fria do dormitório realçava a mistura estranha de rigidez e vulnerabilidade que ela carregava no olhar. O som do zíper cortava o ar, metódico, quase ritualístico. Sua pele de synthcells era indistinguível da humana, produto que o caos das Guerras de 30 e 38 aperfeiçoaram. Hanzo dissera que já falara com a Roxxy, representante da DSM. A transferência estava pronta. Ela seria vendida — e, enfim, livre do peso de sentir. Livre da confusão que os sentimentos estavam provocando em seus NBs.
Dissera isso com a calma calculada de quem se resigna. Drasa sabia que aquilo estava machucando Hanzo por dentro, mas parecia ser o certo. Ela estava ferindo seu proprietário e a quem devia guardar por instabilidades de processamento. As portas se abriram com um ruído suave. Xin entrou. Parou ali por um instante, observando a amiga — a irmã de alma — dobrar uma camisa pela terceira vez.
— Então é verdade — disse, sem rodeios. — Vai mesmo?
Drasa não respondeu. Continuou arrumando a mala, obstinada.
— Hanzo já resolveu tudo. Amanhã cedo irei.
Xin deu um passo à frente.
— E você quer isso?
Drasa hesitou.
— Quero o que é certo.
— Cuidado — respondeu Xin, calma. — “Certo” nem sempre é o mesmo que “se salvar”.
Drasa apertou a camisa nas mãos, os nós dos dedos brancos.
— Eu não sei mais o que é meu, Xin. Não sei se o que sinto é real ou se são os NBs distorcendo os sinais.
— E o que você acha?
— Acho que ele tem razão — disse, num sopro. — Eu… eu sinto medo. Medo de fazer algo que o machuque. Medo de perder o controle. Medo de… querer ficar. — Seus olhos piscaram e sua voz titubeou na hora de dizer. Xin percebeu.
Então, se aproximou mais.
— Olha, quando eu não gosto de algo, tendo a ser muito rigorosa, e tive uma conversa com ele que sinceramente... eu acho que passei do ponto.
Drasa olhou curiosa.
— Acho que vivi em meio ao caos e a desordem tanto tempo, vendo gângsteres de vida caótica me explorando, que acabei vendo um pouco deles no Hanzo.
— Trauma?
— Não quero falar sobre isso. O que importa e o que eu quero dizer é que vou tentar quebrar esse padrão, começando por você. e depois pedirei desculpas pra ele.
— E o que isso tem a ver comigo?
— O que eu quero dizer é que você não está com defeito, Drasa. Está sentindo. Isso é o que sempre tentaram arrancar dos replorgues. Nós humanos valorizamos a liberdade de forma hipócrita, e criamos replorgues porque não sabemos lidar com a liberdade de outros humanos. A liberdade de fazer o que quiser, por ser universal, implica na liberdade de não se ser amado. Não se pode obrigar os outros a te amar. A liberdade de não se ser servido. A não ser que pague alguém por isso, ninguém obrigado a te servir. A liberdade de não se ser cultuado. A não ser que você seja realmente especial, ninguém te admirará. Eu aprendi isso vivendo anos sob as mais variadas tiranias, e quando você é uma mola pressionada sempre, é praticamente impossível não passar da conta quando você se sente livre. Hanzo escolheu beber, eu escolhi... Soltar os cachorros.
Drasa balançou a cabeça.
— Eu fui feita pra lutar, Xin. Não pra me perder num beijo. E não preciso ser pagar por isso.
— Quem decidiu isso? Você? - pontuou Xin. — Ou o que colocaram na sua cabeça?
Drasa sentiu sua cabeça latejar.
— Eu sou um objeto. Não posso ser amada.
— Ele já te tratou como coisa alguma vez?
A dor aumentou.
— N-não... Mas eu não mereço ser amada.
— Quando se é cativa de outros, saber reconhecer pequenos trejeitos, saber diferenciar raiva verdadeira de ameaça simples é essencial para sobreviver. È a diferença entre uma surra ou um pouco de respiro... Eu aprendi a ler minúcias facilmente. E eu sei ver amor. Mesmo que nunca tenha amado ninguém.
Xin respirou fundo e falou:
— Drasa, não há ninguém. Nenhum ser humano na face da Terra que mereça ser amado. O amor é dado. Sem porquês. Sem motivos aparentes. Beleza, dinheiro, carisma, são coisas que atraem alguém pra tentar algo, mas só a vontade de duas pessoas de darem-se uma a outra as mantém juntas. Você quer?
Drasa pensou, seus NBs novamente dispararam, ela sentiu dor e vertigem. Xin a apoiou.
A lembrança veio como uma lâmina: o toque rápido, o gosto suave, o olhar inocente e surpreso de Hanzo antes de ela se afastar. E o vazio depois.
— Ele não me pediu pra ir — continuou Drasa. — Fui eu quem disse que devia. Que era o melhor. E ele não me impediu.
Xin respirou fundo.
— Então espera. Espera pelo menos uns dias. Você não pode decidir nada agora, não com tudo isso latejando. Dá tempo pros NBs serem contornados… e pra você escutar o que sobra quando o eles se calam.
Drasa olhou para a mala fechada. Por um instante, parecia enorme. Pesada demais para uma decisão tão leve quanto “ir”.
— Cinco dias — murmurou.
Xin assentiu.
— Cinco dias. Se ainda quiser ir, eu mesma acompanho. Mas se ficar… a gente descobre juntas o que fazer com esse coração novo.
Drasa ergueu o olhar, uma centelha tímida de alívio no meio do medo.
— Não conta pra ele. Ele acha que eu não sinto medo.
Xin sorriu, melancólica.
— Eu duvido que ele pense isso... Mas não contarei. Você deve contar.
A porta se fechou atrás dela.
Drasa ficou sozinha, o som do zíper ecoando outra vez.
Mas, dessa vez, ela não fechava a mala.
Ela apenas a abria — como quem admite que ainda não está pronta para partir.

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