terça-feira, 11 de novembro de 2025

[CONTO] Improvisação e genialidade

19 de Abril de 2059 - 9:00 


Archibald Reese observava os diagramas flutuantes no ar com o cenho franzido.

As linhas de código e as estruturas esquemáticas da Forja Neurotermal se moviam lentamente diante de seus olhos, como se o próprio projeto respirasse, tentando se justificar. Roxana Verheyen deixava rastros de personalidade até mesmo em sua engenharia — fios nervosos traçados com a mesma insolência com que falava. Reese respirou fundo, apoiando as mãos sobre seu holopad pessoal na sua casa em Templeton Hill. Rade estava no canto escuro da sala observando-o em silêncio. Ele achava curioso a forma como ela a seguia, mas de alguma forma aquilo não o incomodava, era até reconfortante, quase familiar. havia algo no jeito em que ela o olhava, em que cuidava da casa quando ele não estava vendo (ou achava que não estava) que era quase dócil, se não dócil mesmo. Dócil demais para um militar. Um militar acordava rigidamente no mesmo horário, dobrava cobertores e lençóis quase mecanicamente como quem dobra uma bandeira. Rade não, ela esticava lençóis e os alisava como um carinho. E depois o seguia, o observando de longe, em silêncio. Seu escritório em sua casa, estava silencioso, mesmo com a presença dela, exceto pelo zumbido tênue dos servidores e o estalo ocasional do sistema de refrigeração.

Lá fora, a chuva fazia o ar vibrar com eletricidade. Ele voltou aos seus pensamentos.

Ele ampliou a estrutura do Chip Neurotermal, o que seria evidentemente o produto final da forja.
Era brilhante, sem dúvida. Engenhoso. O tipo de invenção que só poderia nascer da mistura entre genialidade, improviso e imprudência.
Mas quanto mais ele analisava, mais via a assinatura de Roxy — e os seus vícios.

Ela tratava o cérebro como um engenheiro trataria uma máquina. Para ela, o córtex era uma placa-mãe. Os axônios, circuitos.
O lobo frontal, um processador esperando ser alimentado com um código limpo, elegante, simétrico. E o chipe se encaixaria no córtex pré-frontal como um chipe se encaixa num soquete soldado de forma improvisada. Reese percebeu que Roxxy, diferente dele que recebeu desde jovem a melhor educação formal, era uma scrapper - pessoas que fazem suas rebimbocas tecnológicas catando lixo e montando do jeito que dá.

Reese sorriu, cansado.
— Genial… Mas ignora o básico... — murmurou.

O cérebro não era uma placa de silício.
Não era um produto racional do desenho de um projetista.
Era o resultado caótico de bilhões de anos de evolução, uma colagem orgânica de soluções temporárias que nunca foram substituídas porque, por acaso, funcionavam bem o suficiente.

Instabilidade funcional baseada em improvisação, tentativa e erro”, dizia seu antigo mentor, Dr. Pável, em suas aulas. O cérebro, pensava Reese, era um amontoado de remendos — um programa sem backup, cheio de redundâncias, registros inúteis, e atalhos tortos que a natureza esqueceu de deletar. Uma colcha de retalhos que poderia ser usado para estudar cada etapa da evolução humana assim como diferentes níveis de solo poderiam entregar períodos geológicos diferentes da vida da Terra.

E ali estava Roxxy, tentando inserir um chip limpo, matematicamente perfeito, no meio dessa bagunça de sinapses imperfeitas. Um sistema que só compreendia o caos e a adaptação.

Reese murmurou em voz alta: - Isso explica porque você acha que replorgues são droids muito evoluídos... 

Reese abriu a subcamada térmica do projeto do chipe e viu o problema real:
Os neutralizadores eram engenhosos, mas ignoravam a arquitetura e a linguagem de programação dos neurobloqueadores. O NB0 controlava os outros NBs porque tinham a mesma estrutura e linguagem de programação. Mas o chipe dela era diferente.

Aqueles pequenos reguladores de temperatura neural eram eficientes, mas ingênuos. O primeiro erro, a linguagem de programação era TK12 e usavam arquitetura SSC, produto típico da Takahashi Inc; como se fosse um game designer usando a Unreal Engine. Os professores Gómez e Ferguson precisaram criar sua própria arquitetura e linguagem de programação para tornar os neurobloqueadores funcionais. O que Roxxy pretendia com seu chipe seria como tentar colocar um cartucho de Nintendo num moderno Playbox ou ainda, esperar que o Luminum OSII lêsse um programa do velho Windows 12. 

Mas dava para ver que ela tinha pelo menos pensado certo ali... Ao modular o fluxo sanguíneo para desativar por aquecimento os NBs, eles criavam microzonas de estagnação — pequenas bolhas de morte celular. Trombos. Mini-AVCs. Uma forma engenhosa de causar pequenos danos calculados mas isolando os NBs do restante do cérebro. Se tivesse a programação e a arquitetura certas poderia funcionar, mas sem isso, geraria uma resposta autoimune agressiva que mataria o replorgue. O chip, ao tentar isolar e sobreaquecer os NBs, acabaria matando o hospedeiro.

Ele se recostou na cadeira, encarando a projeção azulada do holopad.

Ele sabia porém que ela estava no caminho certo, com a orientação de Park Woo e a supervisão dele o projeto era realmente promissor. Mais uma vez ele entendeu seu mentor, cuja foto com ele ainda estava num prota-retratos na mesa. Se Roxxy tivesse tido uma educação formal brilhante como a que ele teve, ela certamente ganharia um Nobel.

Quantos milhões de talentos como Roxxy aquela cidade desperdiçava ao não ofertar condições mínimas de educação e desenvolvimento? Roxxy deu sorte de encontrar alguém que a ajudasse, mas e os outros que não davam essa sorte ou terminavam vitimados pela violência urbana? Quantos Einsteins talvez não morreram nos becos escuros de Valex? 

Reese tinha a chance de corrigir esse erro da sociedade com Roxxy. Se Jenny a tinha salvado da pobreza e dado a ela educação formal tardia mas de qualidade, Reese poderia ser o mentor do futuro da ciência, como Pávell foi para ele. E ele o faria, sem pedir nada em troca a não ser os royalties pelo uso das instalações do Centro de Pesquisas Julya Karpova.

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