Valex City, 18 de abril de 2059 - 11:20
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| Reese e Park woo |
Ostermann Heights estava silencioso demais para uma manhã de quinta-feira.
O Centro Julya Karpova de Pesquisas — um complexo subterrâneo reforçado por concreto leve, fibra de titânio e painéis anti-vibração — sempre tivera o costume de cantar um coro metálico de robôs cirúrgicos, drones de laboratório e servidores respirando como baleias de aço. Mas naquela tarde, o silêncio parecia um aviso. Um intervalo tenso entre dois trovões.
Archibald Reese passou seu crachá biométrico, sentiu o zumbido da trava magnética e empurrou a porta.
Lá dentro, encontrou Park Woo inclinada sobre um microscópio com as luvas ainda sujas de grafeno.
Ela levantou a cabeça, e o rosto exausto floresceu num sorriso caloroso.
— Reese… — disse ela, num suspiro de alívio.
Ele não esperou formalidade: aproximou-se, segurou os ombros dela e a puxou para um abraço firme. Um abraço de gente que sobrevive junto.
— Eu precisava ver você — disse ele, a voz rouca, o cheiro de álcool ainda escapando de sua respiração.
Woo retribuiu o abraço, batendo de leve nas costas dele, como quem tenta conferir se todas as peças continuam no lugar.
— Estão dizendo que a guerra civil corporativa é real. — Ela o soltou e cruzou os braços. — É verdade, Reese?
Reese respirou fundo. Não havia mais espaço para ilusões.
— É real. E está perto demais.
Woo assentiu, com aquele olhar de quem já esperava a resposta — mas torcia secretamente para estar errada.
— Você está bem depois do ataque ao Centro Cívico? — perguntou. — O noticiário fala em corpos… e drones não identificados…
— Felizmente — Reese respondeu — Mas sim, teve morte. Teve sangue. E… o Togall... Se foi.
Ele hesitou, olhando para baixo, como se a culpa tivesse peso físico.
— Peax…?
Woo inclinou o corpo para frente, tensa.
— Não vejo Peax há dois dias — disse ele, por fim. — Pequenos ferimentos. Nada grave. Mas desapareceu depois, deve estar em algum hotel, estou dando tempo a ela. Sei que Roxxy sabe onde ela está, mas não perguntei.
— Roxxy? Aquela Roxxy do heist?
— Ela mesma. Chefe de segurança. — Respondeu ele.
— E você? — ela o examinou com olhos clínicos. — Parece acabado.
— Ressaca. Longa demais. Eu… Me afundei em bebida com amigos... Peax, sabe?
Ele passou a mão pelo rosto; o arranho da barba mal-feita raspou nos dedos.
— Mas temo que ela não queira mais me ver — completou.
Woo se encostou na mesa de análise, levantou uma sobrancelha com curiosidade e um toque de provocação amistosa.
— E por quê? — perguntou.
Reese fechou os olhos um instante.
— Por causa do ataque que matou Togall… e quase matou ela. — Sua voz quebrou na segunda frase. — Eu tô mandando Peax pra Neo-Eden. Para ficar segura.
O silêncio que se seguiu foi profundo, cheio de significados que nenhum dado, nenhum chip, nenhum algoritmo saberia traduzir.
Então Woo sorriu de canto.
— Eu sabia que vocês dois iriam acabar se apaixonando.
Reese abriu os olhos, surpreso.
— O quê?
— Você esqueceu da festa do Martinuccio? — disse Woo, rindo. — Tinha uma stripper do TaoKao Pub que estava vestida de coelhinha quase sentadano seu colo, lembra? A pior fantasia da história da genética aplicada à humilhação feminina. E você só conseguia olhar para a PlorgTech 2.0 das tatuagens de rosas e arabescos.
Reese deixou escapar um quase-sorriso.
— Naquela época… eu não pensava romanticamente sobre ela.
Eu só via a brutalidade com que o Martinuccio a tratava. A postura… a linguagem corporal depravada… as ordens. Como se ela fosse... menos que humana.
Woo revirou os olhos com desprezo.
— Martinuccio sempre foi um verme. Filhote de Little Argentina, simpático ao Alfajor, e já me chamou de “comedora de cachorro” quando eu recusei um convite nojento. Se dependesse dele, mulheres e Replorgs estariam no mesmo catálogo de brinquedos.
Reese ficou sério outra vez.
— Talvez eu esteja sendo autoritário. Talvez… esteja tirando a liberdade dela.
— Reese — Woo aproximou-se, segurou o braço dele. — Você está certo em mandá-la pra um lugar seguro. Cargo se reconstrói. Carreira se reconstrói. Vida não.
Ele engoliu seco.
— A vida não é lógica.
Woo concordou.
— Ninguém gosta de admitir isso. Nós prezamos a liberdade. Pregamos a autonomia. Juramos que nunca abriremos mão de nossa liberdade, mas damos poder e legitimamos governantes.
No fim… sempre alienamos parte da liberdade em troca de segurança. Thomas Hobbes, lembra?
Reese riu sem humor.
— Homo homini lupus.
— Exato — disse ela. — Às vezes, para proteger alguém, você precisa fazer o que ela mesma não faria. Isso não te torna carrasco. Te torna humano. Hoje você tem poder, e tem uma autoridade. Tem a responsabilidade de tomar decisões difíceis.
Reese respirou fundo. No laboratório silencioso, os painéis de dados pulsavam em azul fraco — como o bater distante de um coração sintético.
— Ainda assim me sinto mal.
— É porque a decisão é difícil. — Woo apertou de leve o braço dele. — Não existe escolha que não custe alguma coisa.
Se ela fica, corre risco de morrer.
Se ela vai, corre risco de te odiar.
As duas opções têm vantagens e desvantagens. Não é falta de lógica. É só o mundo sendo cruel.
Reese encostou na bancada e olhou para as cápsulas frias do laboratório Karpova.
— Eu queria ter a certeza de que estou salvando ela… e não me salvando de perdê-la.
Woo sorriu com tristeza.
— Reese… nenhum de nós tem essa certeza. Nem os que amam, nem os que mandam. Mas sei de uma coisa: se Peax está viva, a chance de vocês se reencontrarem continua existindo. Se ela morre aqui… acaba tudo.
O silêncio voltou, espesso como fumaça.
E, pela primeira vez em dias, Reese respirou fundo sem tremor.
— Obrigado, Woo.
Ela puxou o jaleco, sorriu, e respondeu:
— Estamos em Ostermann Heights, Archibald. Debaixo da cidade que nunca dorme. Cercados por corporações que acham que podem brincar de Deus.
Se não nos ajudarmos… quem vai?
O silêncio entre Reese e Woo já tinha se tornado confortável quando ele resolveu quebrá-lo:
— Woo… como está a análise do MindShift 5.0?
Ela retirou as mãos da bancada, o sorriso murchando como uma lâmpada perdendo energia.
— Estava bem — respondeu. — Até anteontem.
Reese franziu o cenho, a tensão voltando como uma lâmina antiga.
— O que aconteceu?
Woo respirou fundo. Era o tipo de assunto que deixava cientistas com gastrite instantânea.
— A Eerie Klaus, a nova fixer de inteligência, ela monocraticamente impôs restrições ao acesso aos testes novos. Travou parte dos blocos experimentais da pesquisa.
Reese se endireitou.
— Restrições? Quais?
Woo olhou para a tela de holograma — como se a resposta estivesse ali, escondida.
— A webrunner NETalie fez a simulação final e conseguiu decompactar os arquivos do MindShift, mas… — Woo ergueu o olhar. — Parte da análise dela foi colocada sob o firewall corporativo avançado. Trancada atrás da IA de defesa mais pesada da NeuralDesk.
Reese piscou, incrédulo.
— Trancaram o trabalho dela?
— Sem aviso. Sem justificativa. E sem chave de acesso para a equipe.
Reese levantou os braços, indignado:
— Mas por quê?
Woo deu de ombros, irritada e frustrada em igual medida.
— Não sei. Ninguém aqui sabe. A única instrução oficial foi: “trabalhem com o que têm. E não peçam mais.”
Reese virou o rosto, como se o ar de Ostermann Heights tivesse ficado pesado demais para respirar.
— Isso não faz sentido — murmurou. — Os resultados da decompactação eram essenciais para sabermos se a transferência da Testemunha Constante é teoricamente viável ou apenas um sonho bonito.
E se não for viável… então eu estou iludindo aliados. Estou prometendo o impossível. E isso, Woo, isso não é justo.
Woo inclinou-se, tocando o braço dele outra vez — não como cientista, mas como amiga.
— Reese... Quem está no controle da sua corporação?
Reese ficou em silêncio. Woo arfou e falou:
— Mas ainda assim… gostei de trabalhar nessa hipótese.
A Hipótese de Ancoragem Espaço-Temporal mudou o modo como vejo o cérebro. Mudou como vejo o mundo.
Reese bufou, mas um brilho orgulhoso passou nos olhos cansados.
— Foi magnífico, não foi? — disse ele, quase com um riso triste. — Um exercício intelectual incrível. Propor que a Testemunha não está presa ao corpo, mas ao próprio espaço-tempo…
Se comprovada, Woo… isso valeria um Nobel.
E acabaria com essa ideia infantil de que podemos transportar almas como arquivos ZIP.
Woo sorriu com olhos cheios de faísca científica.
— Derrubaria o Prometeu Moderno. Todos os CEOs brincando de deuses ficariam nus. Sem desculpas. Sem simulacros vendendo imortalidade de mentira.
Reese passou a mão nos cabelos negros, exausto.
— Mas sem os resultados da NETalie… estamos cegos.
Não podemos testar.
Não podemos comparar fluxos de instâncias.
Não podemos ver se duas consciências em corpos diferentes compartilham continuidade fenomenológica.
Woo assentiu, mordendo o lábio — cientista frustrada é um animal ferido.
— Sem a análise da NETalie… — disse ela, empurrando alguns hologramas de lado — é impossível fazer experimentos.
— Isso não vai ficar assim, hoje Peax embarca para Neo-Eden, vou me despedir dela, mesmo que ela não queira me ver... E ordenarei a Eerie destrancar a pesquisa. - Falou Reese.
Woo ficou com olhos brilhantes de alegria.
— Maravilhoso, Reese... Maravilhoso.

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