terça-feira, 11 de novembro de 2025

[CONTO] Café e Adjetivos

Valex City, 19 de Abril de 2059.

Eram dez horas da manhã quando Archibald Reese deixou o escritório doméstico. O som do teclado RGB cessou, e a luz azulada do holopad foi substituída pela claridade fria que entrava pelas janelas de Templeton Hill. A névoa sobre o Rio Valex parecia mais espessa naquele dia, e as torres do centro financeiro se perdiam em seu preto e o azulado, como se a cidade respirasse devagar.

Rade o seguiu em silêncio pelo corredor. Seus passos eram leves demais para ecoar, quase um som aprendido de convivência. Ela parou a uma distância respeitosa quando Reese se apoiou na sacada e observou a cidade lá embaixo. As luzes incessantes da madrugada ainda pulsavam, refletindo nas poças que restavam da chuva.

Senhor Reese? — a voz dela ressoou, firme mas hesitante.

Ele virou-se apenas o suficiente para olhá-la.
Sim?

— Eu quero saber se estou incomodando. Se eu estiver, pode me falar. Deve ser estranho ter um guarda-costas te seguindo até dentro da própria casa.

Reese demorou a responder. Fitava a névoa, como se as palavras tivessem de atravessar aquele manto para ganharem sentido.
Não. Tá tudo bem.

Pausou.
— A Peax era assim também… ou quase. Ela tinha mais autonomia. Fazia as coisas dela, mas quando estávamos juntos, passávamos o dia nos mesmos cômodos — na empresa, aqui… sempre falando sobre qualquer coisa.

Rade manteve o olhar firme, embora algo dentro dela começasse a estremecer.
Não quero substituí-la.

Nem pode. Nunca poderá. — Ele bebeu um gole de café, como se fosse ofendido pela mera sugestão. — Mas vocês têm algo em comum. Passam pelos cômodos ajeitando o que eu deixo fora do lugar. Nunca quis um modelo D porque a Peax tinha TOC com arrumação. A casa estava sempre impecável. Você parece ter o mesmo impulso.

Rade — ou melhor, Peax — sentiu o sangue subir-lhe ao rosto sob a máscara. Percebeu que estava deixando escapar demais, na sua cabeça, quando imaginou o plano de estar ao lado de reese, ela imaginou aquilo sendo muito mais fácil. A voz falhou por um instante.
Se quiser, eu paro.

Não. Continue. — Reese virou-se um pouco, apoiando o cotovelo no corrimão. — Isso me faz sentir à vontade, familiar, como se nada tivesse mudado. A essa hora, a Peax já deve estar chegando a Cascadia Town. Saber que ela está em segurança me dá paz para pensar.

As palavras cortaram fundo.
Peax sentiu algo entre culpa e perda.

Então ela era um fardo pra você? — perguntou, quase num sussurro.

Reese a olhou, como se a pergunta tivesse vindo de longe.
Não. De maneira nenhuma. — A voz dele ficou mais baixa, mas carregada de ternura. — Ela era brilhante. Eloquente, inventiva, sagaz, perspicaz, doce, dedicada, gentil, espirituosa… Amável, às vezes desafiadora, sempre criativa, acolhedora, cativante, comunicativa, era também leal, inspiradora, confiável, serena nas horas certas, determinada quando se precisava... Os olhos dela sorriam antes dos lábios — e isso fazia o meu dia melhor. Eu poderia passar o dia descrevendo as qualidades dela e ainda assim faltariam palavras. Talvez eu tivesse de inventar novas só pra chegar perto.

Peax desviou o olhar. O coração, esse velho traidor, reagiu antes da lógica: acelerou. Aquelas palavras eram de um homem apaixonado, e aquela reação era de uma mulher apaixonada. Como esconder?

E ainda assim, com tudo isso… você a mandou embora? - Peax/Rade tentou tirar o foco para a imagem idealizada que Reese tinha dela.

Reese levou a xícara aos lábios e respondeu sem pressa:
Sei que está me julgando... E também sei que sou mais fraco sem ela. — Respirou fundo. — Mas prefiro morrer a deixá-la morrer. Se tudo der errado, quero que ela saiba que fiz o que fiz por amor. Não sei se fiz certo ou errado. Talvez tenha errado, mas eu gostaria que ela soubesse que eu coloco a vida dela acima da minha.
Fez uma pausa.
Já sentiu isso por alguém, Rade?

Ela não respondeu de imediato.
Sete anos ao lado dele e nunca o ouvira falar assim.
Lembrou-se de Sasha, do frio do cano da arma contra a pele, e do olhar de Reese — desesperado, humano, real — quando trocaria tudo, até a própria vida, só para salvá-la.

Peax piscou, e uma lágrima quase se formou, oculta pelo disfarce.
Você ficou triste, Rade. — Ele a observava com doçura. — Acho que isso responde à minha pergunta.

Ela tentou sorrir, fracamente.
É… acho que sim.

Quer falar sobre isso? — perguntou Reese, voltando a tomar o café.

Ainda não estou pronta. — respondeu. — Mas… talvez devesse dizer isso à Peax. Nem que fosse num testamento, caso as coisas desandem.

Reese arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Fazer de uma hipotética morte minha um gesto de amor? Talvez a maior declaração que o mundo já viu... Boa ideia. Daquelas que a própria Peax teria.

O sorriso dele quebrou o ar frio da sacada.
Sorria, Rade. Estou te comparando com alguém incrível. A Roxxy sabe o que faz. Escolheu bem quem me acompanha.

Peax conteve a emoção.
A Roxxy é boa. Melhor que a Jenny… Só mas não diga a ela que eu falei isso. Já esteve perto dela nos surtos de arrogância dela? É...

— Insuportável. Eu sei. - Reese riu. É… sei bem como ela é. Quer um café?

Peax assentiu, pegou um copo na cozinha e se serviu.
Voltaram juntos à sacada. O vento carregava o cheiro metálico da chuva, e as luzes de Valex City tremulavam sobre o rio como um coração pulsando sob vidro e vapor.

Os dois ficaram lado a lado, encostados no parapeito.
Nenhum deles disse mais nada.

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