04:07 — 34ª Delegacia de Polícia, Zona Leste de São Paulo
O barulho do ventilador antigo girando no teto era constante, quase hipnótico.
A madrugada em São Paulo tinha aquele silêncio estranho que só existia entre quatro e cinco da manhã. A cidade ainda não tinha acordado, mas também não estava completamente adormecida.
O agente Gouveia digitava lentamente.
O relatório aberto no computador já estava quase terminado. Era sobre um sequestro que havia terminado bem — algo raro o suficiente para deixar qualquer policial satisfeito.
O sequestrador tinha sido preso na tarde anterior em Guarulhos. A vítima, um comerciante, já estava em casa com a família. Restava apenas a burocracia.
Gouveia esfregou os olhos e continuou digitando.
“Indivíduo detido às 15h42… arma apreendida… vítima localizada sem ferimentos…”
Do outro lado da mesa, o investigador Farias estava inclinado para trás na cadeira, navegando em alguma página esportiva no computador.
— Você viu a tabela do Brasileirão? — disse ele.
Gouveia não tirou os olhos da tela.
— Nem começou ainda direito.
— São Paulo e Inter semana que vem.
Isso fez Gouveia parar por um segundo.
— Clássico dos anos 2000…
Farias riu.
— Bons tempos.
Ele girou a cadeira.
— 2005, 2006, 2008… São Paulo dominando. Inter também forte. Libertadores boa de assistir.
— Hoje em dia — disse Gouveia — é só Flamengo e Palmeiras.
— Ninguém aguenta mais.
— Concordo.
O ventilador continuava girando.
Um policial dormia numa cadeira no fundo da sala, boné sobre o rosto.
Outro mexia no celular.
Era uma madrugada comum.
Até o telefone tocar.
O toque estridente ecoou pela delegacia quase vazia.
Gouveia franziu a testa.
— Quem liga pra delegacia às quatro da manhã…
Ele atendeu.
— Trigésima quarta DP, agente Gouveia.
Por um segundo houve silêncio.
Então uma voz respondeu.
Mas não era humana.
Era perfeitamente articulada, neutra, sem emoção.
Uma voz de inteligência artificial.
— Confirmação de identidade requerida.
Gouveia piscou.
— Como?
— Agente policial civil: Gouveia. Matrícula final 4921. Confirma?
Ele ficou imóvel.
— ...Confirmo.
Farias levantou a cabeça.
— Que foi?
A voz continuou.
— Esta comunicação é emitida em nome do Governo Federal da República Federativa do Brasil.
Gouveia colocou a mão no telefone, sinalizando silêncio.
— Unidade receptora confirmada: 34ª Delegacia de Polícia Civil do Estado de São Paulo.
A voz começou a listar dados.
— Endereço institucional… bairro… registro estadual… CNPJ… jurisdição territorial…
Farias agora estava em pé.
Algo estava errado.
Muito errado.
— Agente Gouveia, o senhor está autorizado a receber instruções emergenciais nível federal.
O policial sentiu um frio subir pela espinha.
— Pode falar.
A resposta veio imediatamente.
— Às 06:00 horas da manhã será transmitido um comunicado emergencial obrigatório em todos os canais de televisão e rádio do território nacional.
Gouveia franziu a testa.
— O que aconteceu?
A IA ignorou a pergunta.
— Todas as unidades policiais devem iniciar rondas imediatas em suas áreas de cobertura.
— Rondas…?
— Objetivo: acordar a população civil.
Farias aproximou-se devagar.
— Bater de porta em porta se necessário.
Agora o silêncio na delegacia era total.
— Instrução a ser transmitida à população:
A voz pausou por meio segundo.
— “Liguem a televisão às seis da manhã. Em qualquer canal.”
Gouveia sentiu o coração acelerar.
— Isso é algum exercício?
A resposta veio sem emoção.
— O Governo Federal declarou estado de guerra em todo o território nacional.
O ventilador continuava girando.
Mas ninguém respirava.
— Guerra…? — murmurou Farias.
A IA concluiu:
— O estado de guerra foi ativado para assegurar ampliação imediata dos poderes federais em cenário de conflito global em andamento.
Gouveia apertou o telefone.
— Que conflito?
A resposta veio clara.
Fria.
— Conflito nuclear confirmado no hemisfério norte.
A linha ficou muda.
E a chamada encerrou.
04:19 — Apartamento na Zona Sul
Camila acordou primeiro.
O celular vibrando na mesa de cabeceira fazia um barulho irritante contra a madeira.
Ela abriu os olhos devagar.
— Henrique… seu celular…
Henrique estava completamente apagado.
Ela pegou o aparelho.
A tela mostrava algo estranho.
Não era WhatsApp.
Não era SMS.
Era um alerta do governo.
A mensagem tinha apenas uma frase:
ALERTA NACIONAL
Ligue sua televisão às 06:00.
Camila piscou.
— Que porra é essa…
Henrique abriu um olho.
— Que horas são?
— Quatro e vinte.
Ele fechou o olho de novo.
— Então ignora.
Mas o celular vibrou novamente.
Agora o telefone dele também.
E depois o tablet na sala.
Henrique sentou na cama.
— Tá…
Ele pegou o celular.
A mesma mensagem.
Idêntica.
Sem explicação.
Sem link.
Sem nada.
Camila olhou para ele.
— Isso é golpe?
Henrique coçou a cabeça.
— Não faço ideia.
O silêncio voltou ao quarto.
Lá fora, São Paulo ainda estava dormindo.
04:32 — Apartamento pequeno, Vila Mariana
Lucas não conseguia dormir.
De novo.
A insônia tinha virado rotina.
Ele estava no sofá, com uma coberta nas pernas, assistindo um filme antigo no streaming.
Um thriller policial dos anos 90.
A luz azul da televisão iluminava a sala escura.
A cidade lá fora estava silenciosa.
De repente:
VIBRAÇÃO
O celular na mesa de centro acendeu.
Lucas pegou o aparelho.
A mensagem apareceu na tela.
ALERTA DO GOVERNO FEDERAL
Ele franziu a testa.
Leu.
Uma vez.
Depois outra.
“Ligue sua televisão às 06:00.
Comunicado emergencial nacional.”
Lucas deu uma risada curta.
— Que estranho.
Ele desbloqueou o celular.
Foi procurar notícias.
Nada.
Twitter.
Nada.
Sites de jornal.
Nada.
O filme continuava rodando na TV.
Um personagem gritava em uma perseguição de carro.
Lucas olhou pela janela.
A cidade parecia normal.
Mas algo dentro dele dizia que alguma coisa tinha mudado.
Algo grande.
Algo que ainda ninguém estava vendo.
Ele pegou o controle remoto.
E aumentou o volume da televisão.
Como se isso fosse, de alguma forma, ajudar.
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