quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] First Hours - Parte 1

 04:07 — 34ª Delegacia de Polícia, Zona Leste de São Paulo

O barulho do ventilador antigo girando no teto era constante, quase hipnótico.

A madrugada em São Paulo tinha aquele silêncio estranho que só existia entre quatro e cinco da manhã. A cidade ainda não tinha acordado, mas também não estava completamente adormecida.

O agente Gouveia digitava lentamente.

O relatório aberto no computador já estava quase terminado. Era sobre um sequestro que havia terminado bem — algo raro o suficiente para deixar qualquer policial satisfeito.

O sequestrador tinha sido preso na tarde anterior em Guarulhos. A vítima, um comerciante, já estava em casa com a família. Restava apenas a burocracia.

Gouveia esfregou os olhos e continuou digitando.

“Indivíduo detido às 15h42… arma apreendida… vítima localizada sem ferimentos…”

Do outro lado da mesa, o investigador Farias estava inclinado para trás na cadeira, navegando em alguma página esportiva no computador.

— Você viu a tabela do Brasileirão? — disse ele.

Gouveia não tirou os olhos da tela.

— Nem começou ainda direito.

— São Paulo e Inter semana que vem.

Isso fez Gouveia parar por um segundo.

— Clássico dos anos 2000…

Farias riu.

— Bons tempos.

Ele girou a cadeira.

— 2005, 2006, 2008… São Paulo dominando. Inter também forte. Libertadores boa de assistir.

— Hoje em dia — disse Gouveia — é só Flamengo e Palmeiras.

— Ninguém aguenta mais.

— Concordo.

O ventilador continuava girando.

Um policial dormia numa cadeira no fundo da sala, boné sobre o rosto.

Outro mexia no celular.

Era uma madrugada comum.

Até o telefone tocar.

O toque estridente ecoou pela delegacia quase vazia.

Gouveia franziu a testa.

— Quem liga pra delegacia às quatro da manhã…

Ele atendeu.

— Trigésima quarta DP, agente Gouveia.

Por um segundo houve silêncio.

Então uma voz respondeu.

Mas não era humana.

Era perfeitamente articulada, neutra, sem emoção.

Uma voz de inteligência artificial.

— Confirmação de identidade requerida.

Gouveia piscou.

— Como?

— Agente policial civil: Gouveia. Matrícula final 4921. Confirma?

Ele ficou imóvel.

— ...Confirmo.

Farias levantou a cabeça.

— Que foi?

A voz continuou.

— Esta comunicação é emitida em nome do Governo Federal da República Federativa do Brasil.

Gouveia colocou a mão no telefone, sinalizando silêncio.

— Unidade receptora confirmada: 34ª Delegacia de Polícia Civil do Estado de São Paulo.

A voz começou a listar dados.

— Endereço institucional… bairro… registro estadual… CNPJ… jurisdição territorial…

Farias agora estava em pé.

Algo estava errado.

Muito errado.

— Agente Gouveia, o senhor está autorizado a receber instruções emergenciais nível federal.

O policial sentiu um frio subir pela espinha.

— Pode falar.

A resposta veio imediatamente.

— Às 06:00 horas da manhã será transmitido um comunicado emergencial obrigatório em todos os canais de televisão e rádio do território nacional.

Gouveia franziu a testa.

— O que aconteceu?

A IA ignorou a pergunta.

— Todas as unidades policiais devem iniciar rondas imediatas em suas áreas de cobertura.

— Rondas…?

— Objetivo: acordar a população civil.

Farias aproximou-se devagar.

— Bater de porta em porta se necessário.

Agora o silêncio na delegacia era total.

— Instrução a ser transmitida à população:

A voz pausou por meio segundo.

— “Liguem a televisão às seis da manhã. Em qualquer canal.”

Gouveia sentiu o coração acelerar.

— Isso é algum exercício?

A resposta veio sem emoção.

— O Governo Federal declarou estado de guerra em todo o território nacional.

O ventilador continuava girando.

Mas ninguém respirava.

— Guerra…? — murmurou Farias.

A IA concluiu:

— O estado de guerra foi ativado para assegurar ampliação imediata dos poderes federais em cenário de conflito global em andamento.

Gouveia apertou o telefone.

— Que conflito?

A resposta veio clara.

Fria.

— Conflito nuclear confirmado no hemisfério norte.

A linha ficou muda.

E a chamada encerrou.

04:19 — Apartamento na Zona Sul

Camila acordou primeiro.

O celular vibrando na mesa de cabeceira fazia um barulho irritante contra a madeira.

Ela abriu os olhos devagar.

— Henrique… seu celular…

Henrique estava completamente apagado.

Ela pegou o aparelho.

A tela mostrava algo estranho.

Não era WhatsApp.

Não era SMS.

Era um alerta do governo.

A mensagem tinha apenas uma frase:

ALERTA NACIONAL

Ligue sua televisão às 06:00.

Camila piscou.

— Que porra é essa…

Henrique abriu um olho.

— Que horas são?

— Quatro e vinte.

Ele fechou o olho de novo.

— Então ignora.

Mas o celular vibrou novamente.

Agora o telefone dele também.

E depois o tablet na sala.

Henrique sentou na cama.

— Tá…

Ele pegou o celular.

A mesma mensagem.

Idêntica.

Sem explicação.

Sem link.

Sem nada.

Camila olhou para ele.

— Isso é golpe?

Henrique coçou a cabeça.

— Não faço ideia.

O silêncio voltou ao quarto.

Lá fora, São Paulo ainda estava dormindo.

04:32 — Apartamento pequeno, Vila Mariana

Lucas não conseguia dormir.

De novo.

A insônia tinha virado rotina.

Ele estava no sofá, com uma coberta nas pernas, assistindo um filme antigo no streaming.

Um thriller policial dos anos 90.

A luz azul da televisão iluminava a sala escura.

A cidade lá fora estava silenciosa.

De repente:

VIBRAÇÃO

O celular na mesa de centro acendeu.

Lucas pegou o aparelho.

A mensagem apareceu na tela.

ALERTA DO GOVERNO FEDERAL

Ele franziu a testa.

Leu.

Uma vez.

Depois outra.

“Ligue sua televisão às 06:00.

Comunicado emergencial nacional.”

Lucas deu uma risada curta.

— Que estranho.

Ele desbloqueou o celular.

Foi procurar notícias.

Nada.

Twitter.

Nada.

Sites de jornal.

Nada.

O filme continuava rodando na TV.

Um personagem gritava em uma perseguição de carro.

Lucas olhou pela janela.

A cidade parecia normal.

Mas algo dentro dele dizia que alguma coisa tinha mudado.

Algo grande.

Algo que ainda ninguém estava vendo.

Ele pegou o controle remoto.

E aumentou o volume da televisão.

Como se isso fosse, de alguma forma, ajudar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...