quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] First Hours - Parte 2

 04:41 — 34ª Delegacia de Polícia, Zona Leste de São Paulo

O silêncio na sala tinha acabado.

Agora havia barulho de cadeiras arrastando, gavetas abrindo e policiais falando ao mesmo tempo.

— Meu celular também recebeu isso — disse um investigador no fundo da sala.

— O meu também.

— O meu veio como alerta presidencial.

Gouveia olhou em volta.

Quase todos estavam olhando para os próprios celulares.

A mesma mensagem.

ALERTA NACIONAL

Ligue a televisão às 06:00

Comunicado emergencial do Governo Federal

Farias coçou a barba.

— Cara… isso não é exercício.

Um policial mais velho levantou-se da cadeira.

— Exercício não envolve IA confirmando matrícula.

Outro policial, ainda meio sonolento, perguntou:

— O que ela falou exatamente?

Gouveia respondeu:

— Disse que tem conflito nuclear no hemisfério norte.

A sala ficou quieta.

— Nuclear? — alguém repetiu.

— Foi a palavra que ela usou.

O delegado plantonista apareceu na porta da sala, vestindo o paletó às pressas.

— Todo mundo armado e nas viaturas.

Os policiais olharam para ele.

— Instrução federal — continuou. — Vamos fazer ronda no bairro inteiro.

— Ronda pra quê?

— Pra acordar a população.

Alguns riram.

Achando que era piada.

O delegado não riu.

— Porta em porta.

Agora ninguém riu.

— Avisem que às seis da manhã vai ter pronunciamento obrigatório.

Farias pegou as chaves da viatura.

— Parece filme ruim.

Gouveia respondeu:

— Filme ruim não liga pra delegacia com IA do governo.

04:55 — Ruas da Zona Leste

As primeiras viaturas começaram a circular.

Luzes azuis piscando.

Sem sirene.

A cidade ainda estava mergulhada na madrugada.

Padarias começando a abrir.

Alguns ônibus noturnos passando.

Mas a maioria das casas ainda estava completamente escura.

Os policiais começaram a bater nas portas.

TOC TOC TOC

— Polícia!

Dentro de uma casa, uma voz irritada respondeu.

— Que foi?!

— Polícia civil! Precisamos que o senhor ligue sua televisão às seis da manhã!

Silêncio.

Depois:

— Vocês estão me acordando pra isso?!

O homem abriu a porta só o suficiente para olhar.

— Alguma coisa aconteceu?

O policial respondeu:

— Possível conflito internacional.

— Que conflito?

O policial hesitou.

— Guerra.

— Guerra onde?

— Mundial.

O homem ficou olhando para ele.

Depois riu.

— Ah, vai dormir, meu amigo.

E fechou a porta.

Em outra rua, a reação foi pior.

Uma senhora abriu a janela do segundo andar.

— Vocês estão malucos?!

— Senhora, por favor, ligue a televisão às seis.

— Eu tenho que acordar às cinco pra trabalhar!

— É importante.

— Importante como?

O policial respirou fundo.

— Há possibilidade de guerra nuclear.

A mulher ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Isso é alguma pegadinha?

A janela fechou.

05:07 — Limite de jurisdição

O investigador Matos estava em uma das viaturas mais afastadas da delegacia.

As ruas estavam cada vez mais vazias.

O bairro já quase acabava.

Quando ele viu luzes azuis piscando do outro lado da avenida.

Outra viatura.

De outra delegacia.

As duas pararam quase ao mesmo tempo.

Matos saiu do carro.

O outro policial também.

— Que DP vocês são? — perguntou Matos.

— 41ª.

— Ah.

Eles ficaram se olhando por um segundo.

O outro policial perguntou:

— Vocês também receberam a ligação?

Matos assentiu.

— IA do governo?

— Confirmando matrícula e tudo.

— Mesma coisa.

O vento frio da madrugada passou pela rua vazia.

Um dos policiais da outra viatura disse:

— Cara… o que tá acontecendo?

Matos deu de ombros.

— A ligação falou de conflito nuclear.

Os outros policiais ficaram imóveis.

— Nuclear?

— Foi a palavra.

Um deles passou a mão no rosto.

— Então é verdade…

— O quê?

— A gente estava ouvindo rumores.

— Que rumores?

O policial respondeu baixo:

— Que o mundo estava prestes a explodir.

Matos olhou para a rua silenciosa.

A cidade ainda dormia.

Carros estacionados.

Luzes apagadas.

Pessoas completamente alheias.

— Parece que já explodiu — disse ele.

05:18 — Mais uma rua

Outra casa.

Outro morador acordado à força.

Um homem abriu a porta furioso.

— Vocês não têm o que fazer?!

— Senhor, precisamos que ligue a televisão às seis da manhã.

— Pra quê?

— Pronunciamento do governo.

— Do governo de quem?

O policial respondeu automaticamente.

— Do governo federal.

O homem bufou.

— Ah, claro.

Ele cruzou os braços.

— Mais um discurso do Von Humrberg?

Ninguém respondeu.

O homem continuou.

— Vocês sabem que metade do que aparece na TV é filtrado, né?

Silêncio.

O policial respondeu:

— Mesmo assim o senhor precisa assistir.

— Por quê?

O policial hesitou.

Então disse:

— Porque parece que começou uma guerra mundial.

O homem olhou para ele.

Sem expressão.

Depois deu uma risada curta.

— Guerra mundial?

Ele apontou para a rua silenciosa.

— Aqui?

— Não.

— Então boa noite.

E fechou a porta.

05:26 — Dentro da viatura

Matos dirigia lentamente.

O parceiro olhava o celular.

— Nada na internet.

— Bloqueio?

— Provavelmente.

Isso já tinha acontecido antes.

Desde que o general Von Humberg assumira o poder quatro anos antes, o controle de informação era brutal.

Sites caíam.

Redes sociais desapareciam.

Notícias internacionais chegavam filtradas.

A maioria da população só sabia o que o governo decidia mostrar.

O parceiro de Matos falou:

— Se isso for verdade…

— O quê?

— Guerra nuclear.

Ele olhou pela janela.

As ruas ainda pareciam normais.

Padarias abrindo.

Algumas pessoas caminhando.

Um ônibus passando.

— A gente devia estar vendo alguma coisa diferente, né?

Matos respondeu:

— Talvez o resto do mundo esteja vendo.

05:41

As viaturas continuavam circulando.

Bairro após bairro.

Rua após rua.

Porta após porta.

Acordando pessoas.

Irritando moradores.

Confundindo todo mundo.

E enquanto São Paulo lentamente começava a despertar…

Ninguém ali ainda entendia.

Que as primeiras bombas nucleares já tinham caído horas antes.

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