quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] First Hours - Parte 3

 06:00 — Dentro da viatura, Zona Leste de São Paulo

A rua ainda estava meio vazia.

O céu começava a clarear com aquele tom azul acinzentado típico das madrugadas paulistanas.

Matos olhou o relógio do painel.

06:00.

— Já começou — disse ele.

Frias, no banco do passageiro, pegou o celular.

Sem sinal de dados.

Sem notícias.

Sem transmissões.

— Nada… — murmurou.

— Internet?

— Travada.

Matos assentiu.

Era previsível.

Quando o governo bloqueava alguma coisa, bloqueava tudo.

— A gente está longe da DP demais pra voltar a tempo.

Frias suspirou.

— E eu queria ver essa transmissão.

Matos pensou por um segundo.

Então apontou para o painel.

— Liga o rádio.

Frias franziu a testa.

— Rádio?

— Sempre retransmitem coisa do governo.

Era verdade.

Desde antes da ditadura.

Quando havia pronunciamentos oficiais importantes, todas as estações eram obrigadas a retransmitir.

Como na antiga Hora do Brasil.

Frias pegou o seletor da central da viatura.

Desligou a frequência policial.

Girou o botão.

Estática.

Outra frequência.

Estática.

Mais um giro.

De repente, uma vinheta cortou o chiado.

“Rede Nacional de Radiodifusão — transmissão obrigatória do Governo Federal.”

Os dois ficaram imóveis.

Então veio uma voz.

Calma.

Grave.

Extremamente controlada.

— Bom dia, cidadãos brasileiros.

06:00 — Apartamento na Zona Sul

Henrique e Camila estavam sentados no sofá.

A televisão ligada.

Todos os canais estavam transmitindo exatamente a mesma imagem.

Um estúdio simples.

Uma estante cheia de livros.

Uma bandeira do Brasil à direita.

O brasão da República à esquerda.

No centro, sentado atrás de uma mesa escura:

General Von Humberg.

Uniforme impecável.

Olhos cansados.

Ele começou a falar.

— Bom dia, cidadãos brasileiros.

Camila apertou o controle remoto.

— É ele…

Henrique não respondeu.

06:00 — Apartamento da Vila Mariana

Lucas desligou o filme no streaming.

Agora a televisão transmitia apenas o pronunciamento.

Ele aumentou o volume.

O general continuou.

— É com enorme pesar que trago uma notícia nada auspiciosa…

Ele pausou.

Como se estivesse escolhendo as palavras.

— …e que revelará um destino desconcertante e muito sofrido para todos nós nos próximos anos.

Lucas se inclinou para frente no sofá.

06:01 — Rádio da viatura

A voz do general saía levemente comprimida pelo áudio da rádio.

Mas perfeitamente audível.

— Durante a madrugada de hoje ocorreu um evento que já entra para a história humana como o início e fim da Terceira Guerra Mundial.

Frias olhou para Matos.

Nenhum dos dois falou.

— Uma troca massiva de armas nucleares ocorreu entre grandes potências do hemisfério norte.

A rua parecia normal.

Mas dentro da viatura o ar parecia mais pesado.

— As informações ainda são escassas.

A voz continuou.

— No entanto, os dados iniciais indicam que os Estados Unidos, a Federação Russa e grande parte da Europa Ocidental foram atingidos por múltiplos ataques balísticos intercontinentais.

Frias sussurrou:

— Meu Deus…

06:02 — Televisão

O general mantinha a postura rígida.

— A troca de ogivas nucleares parece ter durado aproximadamente quinze minutos.

Henrique falou baixinho:

— Quinze minutos…

— Algumas ogivas de menor impacto também atingiram regiões do norte da China.

Camila cobriu a boca.

— Ainda não sabemos quantos milhões — ou dezenas de milhões — de pessoas morreram nas primeiros minutos do conflito.

06:03 — Viatura

O rádio chiou brevemente.

Mas a voz continuou firme.

— As consequências imediatas, contudo, vão muito além das explosões.

Matos apertou o volante.

— A quantidade de poeira, fuligem e aerossóis lançados na atmosfera provavelmente cobrirá o sol em grande parte do planeta.

Frias murmurou:

— Vai esfriar…

— As projeções iniciais indicam que essa nuvem atmosférica poderá persistir por dez… ou até quinze anos.

06:04 — Apartamento da Vila Mariana

Lucas estava completamente imóvel.

O general prosseguiu.

— O hemisfério norte será o mais afetado.

— Mas o hemisfério sul também sofrerá quedas significativas de temperatura.

Imagens começaram a aparecer discretamente no canto da tela.

Mapas climáticos.

Modelos atmosféricos.

— Falhas massivas de colheitas são esperadas em escala global.

— A logística internacional entrará em colapso nas próximas semanas.

06:05 — Rádio da viatura

— O Brasil, neste momento, declara oficialmente estado de guerra.

Frias soltou o ar devagar.

— Mesmo sem entrar na guerra…

Matos respondeu:

— Isso dá poder total pro governo.

Como se o general estivesse ouvindo.

— Mesmo que o Brasil não tenha sido diretamente atacado, a situação global exige mobilização nacional absoluta.

06:06 — Televisão

O general juntou as mãos.

— O governo federal está, neste momento, assumindo controle estratégico de recursos essenciais para a sobrevivência da nação.

A tela mostrou documentos sendo assinados.

— Serão decretados atos institucionais emergenciais.

A lista apareceu.

AI-1: suspensão temporária de eleições.

AI-2: controle federal sobre produção agrícola.

AI-3: mobilização obrigatória de trabalhadores estratégicos.

AI-4: censura informacional total em tempo de guerra.

AI-5: suspensão de direitos de propriedade de grandes latifúndios para controle alimentar nacional.

AI-6: controle estatal sobre distribuição de combustível.

Henrique ficou pálido.

— Eles estão estatizando tudo…

Camila respondeu:

— Eles estão tentando evitar fome.

06:07 — Pronunciamento

O general continuou.

— Antecipando o risco de uma guerra global, o governo brasileiro acumulou nos últimos anos reservas estratégicas de sementes adaptadas a climas temperados e continentais.

Mapas agrícolas apareceram.

— Essas sementes permitirão a adaptação da agricultura nacional a cenários de queda brusca de temperatura.

Lucas murmurou:

— Desgraçados... Eles sabiam!

06:08

O general parecia mais cansado agora.

— Cidadãos brasileiros…

Ele respirou fundo.

— Os próximos anos serão difíceis.

— Muito difíceis.

— Mas o Brasil sobreviveu a muitas crises ao longo de sua história.

— E sobreviverá novamente.

06:09

A transmissão mudou.

Agora surgiam vídeos.

Granulados.

Baixa resolução.

Restos do que ainda funcionava da internet mundial.

Uma cidade.

Sirene.

Um clarão no horizonte.

Depois um cogumelo nuclear subindo lentamente.

Outro vídeo.

Uma metrópole distante.

Luzes.

Depois uma esfera branca engolindo tudo.

Outro.

Uma câmera tremendo.

Pessoas correndo.

Alguém gritando em uma língua que ninguém ali entendia.

06:10

Na viatura, Frias desligou o rádio.

Devagar.

A rua estava exatamente igual.

Padaria aberta.

Um ônibus passando.

Uma mulher levando um cachorro para passear.

Mas agora tudo parecia diferente.

Matos falou baixo.

— O mundo acabou…

Frias respondeu:

— Não.

Ele olhou para o céu claro da manhã.

— O mundo continua.

Ele fez uma pausa.

— Só que agora é outro.

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