Agosto de 2034, 4 horas depois.
O utilitário parou rangendo sobre o asfalto rachado.
O motor desligou.
O silêncio das ruínas voltou a dominar o bairro morto de Atlanta.
Do veículo desceu um homem alto, de barba grisalha curta e sobretudo pesado. As botas bateram no chão molhado enquanto ele observava a casa destruída diante dele.
Não usava armadura corporativa.
Não precisava.
Era um investigador.
Chamava-se Keller.
Veio das colônias agrícolas do interior — lugares onde a terra ainda crescia sob domos de filtragem e onde os sobreviventes tentavam fingir que o mundo não havia acabado.
A GeniCorp o contratara para investigar um caso incômodo.
Um clone militar da linha Sylvia-04 havia desaparecido.
Isso por si só não era impossível.
Clones desertavam às vezes.
Mas Sylvia-04-132 havia sumido levando algo muito pior.
O segredo genético mais valioso da corporação.
Uma criança.
Keller permaneceu alguns segundos olhando para a casa antes de entrar.
O cheiro metálico da morte ainda estava no ar.
Velho.
Pesado.
Persistente.
Atrás dele entrou Gavin Nelson, jovem investigador recém-integrado à polícia corporativa.
Ainda tinha postura correta demais.
Olhar limpo demais.
Gavin ainda acreditava que o mundo funcionava.
Keller já tinha perdido essa ilusão havia décadas.
1
Dentro da casa, a cena era silenciosa.
Os corpos dos cientistas permaneciam onde haviam caído.
Execução limpa.
Rápida.
Keller ajoelhou-se ao lado de uma parede.
Passou os dedos pelas marcas profundas no reboco.
Sulcos largos.
Curvos.
Ele franziu o cenho.
— Hm.
Gavin se aproximou.
— O que foi?
Keller levantou a mão.
— Isso não foi feito por humanos.
Ele mediu o tamanho com dois dedos.
— Garras.
Grandes demais para qualquer animal comum.
Keller suspirou baixo.
— A Denliz Corporation.
Gavin engoliu seco.
Os brinquedos da Denliz eram lendas sombrias do mundo corporativo.
Armas biológicas.
Criaturas criadas em laboratório.
Predadores projetados para guerra urbana.
— Provavelmente trouxeram um deles — murmurou Keller.
Gavin olhou ao redor.
Subitamente o quarto parecia menor.
2
Eles começaram a vasculhar a casa.
Armários destruídos.
Terminais queimados.
Papéis espalhados.
Keller andava lentamente.
Mas dentro da cabeça dele a cena se montava.
Soldados corporativos entram.
Descobrem os corpos.
Depois algo mais chega.
Algo com garras.
Algo que não deveria existir.
Ele chegou ao quarto da criança.
Parou.
Ajoelhou-se.
Olhou debaixo da cama.
Havia algo ali.
Um pequeno bichinho de pelúcia.
Ele puxou o brinquedo.
O tecido estava úmido.
Keller passou o dedo no pano.
Não havia infiltração no teto.
Não havia água no chão.
Ele sabia exatamente o que era.
Lágrimas.
A criança estivera escondida ali.
Por um segundo algo apertou o peito dele.
Ele pensou na própria filha.
Desde que a esposa morrera, a menina era tudo que restava em sua vida.
Ele fechou o punho.
Atrás dele Gavin percebeu.
Deu um leve tapa no ombro do investigador.
— Está tudo bem?
Keller respondeu com a mesma frieza analítica de sempre:
— A criança estava aqui.
Ele apontou para o chão.
— A clone a encontrou.
Gavin franziu o cenho.
— E depois?
Keller levantou o olhar para a janela quebrada.
— Depois saiu com ela por ali.
3
Gavin se aproximou da janela.
Vidro quebrado em apenas um ponto.
Tranca arrebentada.
Ele analisou com cuidado.
— Um golpe só.
Passou a mão na madeira.
— Cotovelo ou punho.
Gavin assentiu.
— Profissional.
Keller respondeu:
— Profissional desesperado.
Gavin seguiu a trilha no chão.
Alguns objetos deslocados.
Entulho arrastado.
— Ela passou correndo por aqui.
Ele se virou para Keller.
— Investigador Keller… o senhor tinha razão.
Pausa.
— Fugiram por aqui.
Ele respirou fundo.
— O que fazemos agora?
Keller olhou para o chão.
Uma pequena mancha de sangue.
Nada espalhado.
Provavelmente um corte superficial.
Ele se agachou.
Tocou o sangue com dois dedos.
Ainda úmido.
Calculou rapidamente.
Depois se levantou.
— Ela fugiu há duas horas.
Gavin assentiu.
— Então ainda está perto.
Keller respondeu calmamente:
— Não deve estar longe.
Gavin ficou em silêncio.
Por alguns segundos.
Então percebeu.
Keller mentiu.
Ele virou lentamente.
— Por quê?
Keller ficou quieto.
Observando o horizonte destruído pelas janelas quebradas.
A cidade morta de Atlanta estendia-se até onde a névoa radioativa permitia ver.
Depois ele falou:
— Ela está mais longe do que isso.
Gavin franziu o cenho.
— Então por que diminuir o perímetro?
Keller respondeu:
— Porque assim ela tem mais chance de fugir.
4
Gavin ficou confuso.
— Por que ajudar um clone a fugir com uma criança?
Ele balançou a cabeça.
— Eles não são capazes de amar.
Keller virou o rosto.
Os olhos cansados encontraram os dele.
— Então por que ela está fugindo com a criança…
Ele apontou para a janela.
— …se não levou a menina para a corporação que ela serve?
Gavin não respondeu.
O silêncio tomou o quarto.
Alguns segundos depois Gavin tentou novamente.
— Mas ela vai morrer.
Keller permaneceu quieto.
— Clones Sylvia vivem dez anos no máximo.
Gavin respirou fundo.
— Ela deve ter… seis ou sete anos restantes.
Ele olhou para o chão.
— A criança… se ganhar uma nova mãe… vai perder outra pessoa.
Pausa.
— Vai sofrer de novo.
Keller observou o bichinho de pelúcia em suas mãos.
O pano ainda úmido.
Depois falou.
Calmo.
Simples.
— Então é melhor que ela viva.
Ele se ajoelhou novamente.
Colocou o brinquedo de volta debaixo da cama.
E completou:
— Os mortos já têm demais companhia.
Lá fora, o vento atravessava as ruas destruídas de Atlanta.
Muito longe dali,
uma clone que não deveria sentir nada corria pela escuridão.
Carregando uma criança.
E, pela primeira vez,
um futuro que ninguém havia programado.
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