Agosto de 2034, a chuva ácida caía fina sobre as ruínas de Atlanta, transformando concreto pulverizado em lama escura. Arranha-céus carbonizados erguiam-se como dentes quebrados contra um céu permanentemente cinza. Entre os escombros, veículos blindados avançavam devagar.
Pertenciam à GeniCorp, uma das chamadas ghost corporations — empresas que sobreviveram ao colapso do mundo antigo escondendo laboratórios, bancos de dados e exércitos privados em bunkers subterrâneos.
O ativo mais eficiente da corporação era a linha Sylvia-04.
Clones militares.
Projetados para obedecer.
Programados para viver pouco.
E morrer sem perguntar.
1
A unidade Sylvia-04-132 caminhava à frente do esquadrão.
A armadura tática preta refletia a chuva sob a luz azul de pequenos LEDs no peito e no capacete. O rifle pendia firme nas mãos, estabilizado por microservos internos.
Atrás dela vinham quatro clones Walker, soldados mais pesados, criados para combate direto.
Todos eram propriedade da GeniCorp.
Todos eram descartáveis.
No capacete de Sylvia, o rádio estalou.
— Objetivo confirmado. — disse a voz metálica do comando.
— Dois cientistas desertores. Dados tecnológicos roubados. Possível negociação com a Denliz Corporation. Recuperar ativos. Eliminar testemunhas.
Sylvia respondeu com uma única palavra:
— Recebido.
Os cientistas haviam fugido com a filha.
Segundo a inteligência da corporação, pretendiam entregar segredos genéticos à rival brasileira DenlizCorporation, uma das poucas potências industriais que sobreviveram fora dos Estados Unidos.
Traição corporativa.
Punição automática.
2
A casa surgia no meio de um bairro devastado.
Um antigo subúrbio.
Telhado parcialmente queimado. Janelas quebradas. Porta aberta.
Sylvia levantou o punho.
Os Walkers pararam.
— Entrada tática. — disse ela.
A equipe invadiu.
Silêncio.
O cheiro de sangue era antigo.
Na sala, os dois cientistas estavam caídos.
Mortos.
Execução limpa.
Sem sinais de luta prolongada.
Um Walker examinou os corpos.
— Não fomos os primeiros.
Outro respondeu:
— Denliz Corporation.
Sylvia não comentou.
A Denliz era conhecida por interceptar operações corporativas como um predador invisível.
3
Enquanto os Walkers revistavam a casa, Sylvia conectou um cabo ao terminal destruído do laboratório improvisado.
Arquivos fragmentados.
Dados incompletos.
Ela analisou os fragmentos rapidamente.
Sequências genéticas.
Modelos de criptografia biológica.
Então entendeu.
Não havia disco.
Não havia servidor.
Os dados estavam codificados em DNA.
E o DNA pertencia à filha dos cientistas.
Um cofre vivo.
Sylvia fechou os arquivos.
Nesse instante—
um som.
Muito baixo.
Um soluço.
Vinha do quarto.
Ela avançou lentamente.
O rifle apontado.
Sob a cama.
Algo se movia.
Sylvia puxou o colchão com um movimento brusco.
Uma menina estava escondida ali.
Talvez nove anos.
Coberta de poeira.
Olhos enormes.
Sylvia possuía aestesia neural — uma modificação genética que removia a capacidade de perceber beleza ou feiura.
Ela não via inocência.
Não via fragilidade.
Via apenas:
alvo humano pequeno.
A menina olhou para o rifle.
A voz saiu trêmula.
— Por favor… não me mate.
Sylvia não respondeu.
O dedo repousava no gatilho.
A criança continuou:
— Ou… se for matar… não me faça sofrer muito.
Ela respirou fundo.
— Meu papai e minha mamãe já gritaram demais.
4
Algo falhou.
Não no rifle.
Não nos sensores.
Dentro dela.
Sylvia ativou o rádio.
— Sobrevivente detectado. Procedimento?
A resposta veio instantânea.
Fria.
— Extermínio.
A menina fechou os olhos.
Aproximou a testa do cano do rifle.
— Sem sofrimento… por favor.
Por algum motivo inexplicável, Sylvia hesitou. Seus olhos começaram a lacrimejar dentro do capacete.
Ela não entendia por quê.
Abaixou a arma.
Falou baixo:
— Fique escondida.
A menina abriu os olhos.
— Vou tentar dispersar o pessoal.
5
Sylvia entrou no banheiro.
Um espelho quebrado refletia seu rosto.
Lágrimas escorriam.
Ela tocou o visor do capacete.
Confusão.
Aestesia não incluía lágrimas.
No rádio, um Walker perguntou:
— Status?
Sylvia respondeu:
— Alarme falso. Era apenas um animal doméstico.
Silêncio.
— Confirmado? — disse outro Walker.
— Confirmado.
Ela voltou à sala principal.
— Os dados roubados estavam codificados no DNA da filha dos cientistas. — explicou. — Provavelmente a Denliz Corporation já recuperou o ativo.
Os Walkers trocaram olhares.
Missão encerrada.
— Retornando ao blindado. — disse um deles.
Então um perguntou:
— Você não vem?
Sylvia respondeu calmamente:
— Vou fazer uma última vistoria. Me aguardem no blindado.
Eles saíram.
A porta se fechou.
6
Sylvia voltou ao quarto.
A menina ainda estava sob a cama.
Os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Eles foram embora? — perguntou.
Sylvia assentiu.
Ajoelhou-se.
Estendeu os braços.
A menina hesitou um segundo.
Depois se lançou neles.
Sylvia a levantou.
E então algo estranho aconteceu.
A criança começou a chorar.
E Sylvia também.
Sem entender.
Sem qualquer algoritmo que explicasse aquilo.
As lágrimas escorriam pelo visor do capacete e pingavam sobre a armadura tática iluminada por LEDs azuis.
Ela caminhou até a janela dos fundos.
Abriu.
O vento frio da cidade morta entrou.
7
Ao longe, os Walkers já estavam junto ao blindado.
Tinham poucos minutos antes de perceber que algo estava errado.
Sylvia apertou a menina contra o peito.
— Segure firme.
— Para onde vamos? — perguntou a criança.
Sylvia respondeu a única coisa que sabia:
— Longe daqui.
Elas saltaram.
Desapareceram entre as sombras das ruínas de Atlanta.
Uma arma descartável da GeniCorp havia desertado.
Carregando o segredo mais valioso da corporação.
E uma criança que deveria ter executado.

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