quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] Hanna e o Delator

 A neve caía lenta sobre a colônia de repovoamento Good Hope.

Flocos escuros, misturados à fuligem da atmosfera envenenada, pousavam sobre telhados tortos, placas quebradas e ruas que já tinham visto dias melhores.

Good Hope era apenas mais um ponto de sobrevivência no mapa do que restara dos Estados Unidos.

Um lugar onde ninguém fazia muitas perguntas.

E ninguém queria saber muito sobre o passado de ninguém.


Sylvia entrou em um beco estreito.

Os LEDs azuis de sua armadura estavam apagados. A placa de identificação removida. A arma escondida sob o casaco pesado que pegara em uma casa abandonada.

Ainda assim, qualquer um que soubesse olhar perceberia.

Ela não andava como humana.

Andava como um predador treinado.

Nos braços dela, Maya tremia de frio.

A menina estava enrolada num cobertor velho que Sylvia havia encontrado no caminho.

— Está frio… — murmurou Maya.

Sylvia apertou a menina contra o peito.

— Eu sei.

No fim do beco havia uma porta metálica com uma lâmpada vermelha fraca.

Sylvia bateu duas vezes.

A porta abriu alguns centímetros.

Uma mulher de cabelos castanhos desgrenhados olhou para fora.

Olhos cansados.

Experientes.

Quando viu Sylvia, cruzou os braços.

— Me diz… qual a treta dessa vez, clone?

Era Hanna.

Uma antiga contata de Sylvia.

Uma garota de programa que morava nos subúrbios de Hittington, um bairro decadente dentro da decadência de Good Hope.

Sylvia não respondeu.

Apenas olhou para os lados.

Depois puxou Maya para frente.

Hanna franziu o cenho.

— Não entendi.

Ela inclinou a cabeça.

— Eu não conheço essa garota.

Sylvia falou baixo.

— Não é pra conhecer.

Pausa.

— Eu preciso tirar ela daqui.

Hanna piscou algumas vezes.

— Como assim tirar daqui?

Silêncio.

Ela estreitou os olhos.

— Você sequestrou uma criança?

Sylvia respondeu:

— Eu salvei uma criança.


Hanna observou Maya.

A menina segurava o cobertor com força.

Olhos vermelhos.

Rosto sujo de poeira e lágrimas secas.

— Qual o nome dela? — perguntou Hanna.

Sylvia congelou.

Algo travou dentro dela.

Percebeu naquele instante.

Carregava a menina havia três horas.

Tinham conversado apenas em respostas curtas.

Sim.

Não.

Frio.

Medo.

Ela não sabia o nome da criança.

Hanna percebeu imediatamente.

Suspirou.

— Ser clone é foda, né?

Ela apoiou o ombro na porta.

— Vocês não são treinadas pra sentir nada… e mesmo assim, olha você.

Sylvia abaixou a cabeça.

Foi então que a menina falou.

Baixo.

— Eu sou Maya.

Ela olhou para Sylvia.

— Você é Sylvia, não é?

Sylvia assentiu.

— Eu já vi várias de vocês onde meu papai trabalhava.

A menina fungou.

— Vocês são todas iguais.

Era verdade.

Todas baseadas no mesmo modelo genético.

Sylvia Hatchkoff.

Uma lenda do serviço secreto do mundo antes da guerra.

A melhor agente de campo que já existira.

Boa demais.

Boa o suficiente para que a GeniCorp decidisse cloná-la.

Porque jamais conseguiria alguém como ela novamente.

Sylvia respondeu automaticamente:

— Eu sou Sylvia-04-132.

Hanna fez uma careta.

— Isso lá é nome?

Ela deu de ombros.

— Pelo menos, se vai ser mãe da criança… arruma um nome pra si mesma.

Sylvia ficou em silêncio.

Nunca pensara nisso.

Nunca precisara.

Clones não tinham nomes.

Tinham números.


Foi Maya quem resolveu o problema.

A menina sorriu um pouco.

Talvez esquecendo por alguns segundos a cena terrível que presenciara.

— Elena.

Ela abraçou a perna da clone.

— Você tem cara de Elena.

Sylvia piscou.

— Elena?

— Era o nome da minha boneca favorita.

Algo estranho aconteceu dentro dela.

Um calor leve no peito.

Desconhecido.

Agradável.

Um sorriso mínimo apareceu no canto da boca.

Quase invisível.

Quase.

Hanna viu.

E disse:

— É…

Ela abriu a porta um pouco mais.

— Vocês vão ficar bem.


Hanna apontou para o final da rua.

— Tem um prédio ali.

Ela fez um gesto vago.

— Dá acesso a um porto da Adrenaline Corporation.

Sylvia prestou atenção imediatamente.

— Não é fácil chegar — continuou Hanna.

— Vão mandar gente atrás de você.

Ela cruzou os braços novamente.

— Mas se conseguir entrar… vai dar num bote.

— E o bote leva a um navio.

Ela fez uma pausa.

— Um cargueiro da RRM.

Hanna olhou diretamente para Sylvia.

— Indo para a Ilha Refúgio de Valex City.

O vento gelado passou pelo beco.

A neve acumulava nas calçadas.

O céu estava permanentemente escuro.

Afinal…

Era inverno nuclear.


Sylvia assentiu.

— Obrigada.

Mas então disse:

— Se eu te pagar… a Genicorp vai chegar até você.

Hanna deu de ombros.

— Não tem problema. Use seu recursos se já não bloquearam, para pegar o vigia pra deixar vocês entrarem. Como zarpa hoje, vão descobrir que vocês fugiram, mas não vão conseguir alcança-los.

Ela olhou para Maya.

— A humanidade não congelou completamente neste lugar.


Sylvia pegou a menina no colo.

As perninhas de Maya balançaram enquanto ela era levantada.

De repente a menina começou a chorar de novo.

Talvez lembrando dos pais.

Talvez lembrando da casa.

Talvez apenas porque finalmente estava segura o suficiente para chorar.

O coração de Hanna apertou.

E pela primeira vez na vida…

Sylvia sentiu algo parecido com tristeza.

Ela passou a mão no cabelo da menina.

Cabelos pretos.

Maria-chiquinhas.

— Está tudo bem.

A voz dela saiu baixa.

Quase humana.

— Nós vamos tirar você daqui.


Elas caminharam para longe pela neve.

Hanna ficou olhando por alguns segundos.

A silhueta da clone e da criança desapareceu na escuridão da rua.

Então Hanna voltou para dentro.

Mais um dia de trabalho.

A neve já não caía quando Sylvia alcançou o porto improvisado.

O cargueiro era um gigante enferrujado, com letras apagadas na lateral indicando a companhia RRM Logistics. O casco estava manchado de ferrugem e fuligem radioativa. Refletores fracos iluminavam o convés, criando ilhas de luz entre sombras profundas.

O vento vindo do mar cortava como lâmina.

Maya tremia nos braços dela.

Os dentes da menina batiam.

Sylvia subiu a rampa metálica.

No topo havia um homem encostado numa grade, fumando um cigarro barato. Uniforme gasto, jaqueta de segurança com o logotipo da RRM Logistics bordado torto.

Ele olhou Sylvia de cima a baixo.

Parou nos ombros largos.

No jeito de caminhar.

Depois no volume rígido escondido sob o casaco.

Traje tático.

Ele sorriu de canto.

— Frio da porra hoje.

Sylvia respondeu apenas:

— Sim.

O homem olhou para Maya.

— A menina vai congelar antes de chegar em Valex City.

Sylvia tirou um pequeno pacote de créditos da bolsa improvisada.

Entregou.

O segurança pesou o dinheiro na mão.

Baixo salário.

Acostumado a bicos.

Olhou para o redor.

Depois fez um gesto com a cabeça.

— Vem.


Eles caminharam entre pilhas de contêineres.

Metal rangendo.

Cabos batendo ao vento.

O segurança abriu um contêiner vazio.

— Fica aí.

Sylvia entrou.

Dentro havia duas pessoas.

Uma senhora idosa, cabelos brancos desgrenhados.

E um homem de meia-idade com olhar cansado.

Refugiados.

Tentando fugir do inferno radiativo da América.

O homem levantou a cabeça.

— Valex?

Sylvia respondeu:

— Sim.

Ele assentiu.

— Terra da promessa.

A senhora sorriu com ternura ao ver Maya.

— Venha aqui, querida.

Maya hesitou.

Depois se aproximou.

A velha envolveu a menina em um cobertor grosso.

— Você precisa dormir um pouco.

A menina assentiu.

Sylvia ficou encostada na parede.

Observando.

Sem participar.

O homem tentou puxar conversa.

— Quem é você?

— Sylvia.

— E a criança?

— Maya.

— Sua filha?

Sylvia hesitou.

— Não.

Silêncio.

Monossílabos.

A senhora começou a contar histórias para Maya.

Do mundo antes da guerra.

Parques.

Cidades vivas.

Céus azuis.

Maya ouvia em silêncio.

Os olhos pesados de sono.


Então Sylvia ouviu.

Passos.

Firmes.

Cadência de soldado.

Quatro… talvez cinco homens.

Lanternas.

Metal raspando.

Armas longas.

Sylvia ativou o modo auditivo militar.

As frequências se ampliaram.

Capacetes.

Armas 7,62.

Clones Walker.

Ela entendeu.

O segurança havia vendido a informação.

Sylvia puxou a pistola Gauss.

E a faca.

Maya e os refugiados olharam confusos.

Ela levou o indicador aos lábios.

Silêncio.

Depois forçou a porta do contêiner apenas o suficiente para espiar.

Lá estavam eles.

Soldados da GeniCorp.

Lanternas cortando a escuridão.

O segurança caminhava à frente.

— Foi por aqui.

Sylvia pegou um pente sobressalente da pistola.

Calculou distância.

Arremessou.

O metal caiu no convés.

CLANG.

Os soldados pararam.

— Movimento.

Um Walker empurrou o segurança.

— Vai ver.

Eles caminharam para a isca.

Funcionou.

Sylvia voltou ao contêiner.

— Saiam.

O homem piscou.

— O quê?

— Fomos delatados.

Mentira funcional.

Ela precisava de movimento.

Mais gente no convés.

Distração.

Sylvia colocou Maya nas costas.

A menina estava com frio.

E sono.

Eles saíram.

Espalharam-se.


Um Walker encontrou o pente.

— Ela esteve aqui.

Outro soldado seguiu.

De repente—

Tiros.

O homem e a senhora gritaram.

Os corpos caíram.

O rádio de um soldado chiou.

— Alarme falso.

Sylvia já corria.

Carregando Maya.

Ela entrou em outro contêiner.

Dentro havia caixas empilhadas.

Etiquetas indicavam carga:

Comunicadores cocleares militares.

Sylvia colocou Maya no chão.

— Espere aqui.

A menina soluçava.

Os tiros lembravam a morte dos pais.

Sylvia fechou a porta.


Ela saiu.

E emboscou o primeiro Walker.

A pistola magnética MaoTeng Gauss 5 mm vibrou em sua mão.

Sibilo metálico.

A bateria liberou energia.

Estampido seco.

Ar comprimido.

Efeito pistão.

O projétil atravessou o capacete.

A cabeça do Walker estourou.

Ele caiu morto.

Sylvia pegou o rifle dele.

7,62 mm.

Modelo sniper.

Ela caminhou silenciosamente.

Subiu em um contêiner.

Mirou.

Outro soldado.

Respiração controlada.

Disparo.

Tiro seco.

O projétil atravessou o crânio.

O corpo caiu.

Mas outro soldado viu o flash.

— Contato!

Sylvia murmurou:

— Merda.

Dentro do contêiner Maya chorava.

Os tiros lembravam os pais sendo executados.


O último soldado chegou rápido.

Não havia espaço para rifles.

As armas longas serviam apenas para aparar golpes.

Combate corpo a corpo.

A soldado investiu.

Movimentos idênticos.

Precisos.

Ela começou a render Sylvia.

Sylvia recuou até um contêiner.

A soldado ergueu a faca.

Sylvia puxou a tranca da porta.

CLANG.

A porta abriu violentamente.

Dezenas de caixas caíram sobre a soldado.

Sylvia avançou.

Cotoveladas.

Uma.

Duas.

Três.

O visor do capacete rachou.

Quebrou.

Revelando o rosto.

Sylvia congelou.

Era o rosto dela.

Idêntico.

O nome na armadura:

Sylvia-04-874.

A clone hesitou apenas um segundo.

Tempo suficiente.

A 874 puxou a faca.

Enfiou na costela de Sylvia.

Na emenda entre as placas do traje.

Dor lancinante.

Sylvia tentou reagir.

A clone torceu a faca.

Desarmou Sylvia com a outra mão.

Sylvia quase desmaiou.

O mundo ficou branco.

Ela puxou a Gauss.

Um movimento instintivo.

E disparou.

A cabeça da clone explodiu.

Sangue.

Fragmentos.

Silêncio.

Sylvia caiu de joelhos.

Respiração pesada.

A faca ainda na costela.


Ela se levantou com dificuldade.

Caminhou até o segurança.

Ele estava ajoelhado.

Tremendo.

— Não me mate por fav—

O tiro interrompeu a frase.

O sangue espalhou-se pelo chão do convés.

Sylvia encostou na parede.

Puxou a faca da costela.

O sangramento começou a correr.

Ela abriu um slot de emergência do traje.

Retirou uma cápsula.

Nanorrobôs cicatrizantes rápidos.

Injetou.

O sangramento diminuiu.

Mas não parou.

Ela sabia.

Daria para sobreviver até Valex City.

Alguns dias.

Talvez.

Mas precisaria de um médico de verdade.

Sylvia respirou fundo.

E caminhou de volta ao contêiner.

Onde Maya chorava.

Esperando.

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