quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] Lágrimas na era do branco

Setembro de 2034.

O cargueiro da RRM atravessou o mar escuro por dias.

O inverno nuclear tornava tudo igual.

Céu cinza.

Mar cinza.

Horizonte invisível.

O frio atravessava o metal do casco como se o navio fosse feito de papel.

Dentro de um contêiner esquecido no fundo do convés, Sylvia sangrava lentamente.

A cápsula de nanorrobôs havia fechado parte da ferida na costela, mas não o suficiente.

O ferimento inflamava.

A febre vinha e ia.

À noite, quando o convés ficava quase vazio, ela saía.

Movia-se silenciosamente entre contêineres.

E roubava.

Enlatados.

Barras energéticas.

Água.

Comida para ela.

Comida para Maya.

Voltava sempre antes que algum funcionário percebesse.

O vento gelado entrava pelas frestas do contêiner.

Maya dormia tremendo.

O cobertor era fino demais.

Quando o navio finalmente chegou ao destino, a menina estava pálida.

Hipotérmica.


O desembarque aconteceu à noite.

O porto era improvisado.

Guindastes abandonados.

Estruturas inacabadas.

As obras da corporação Petrikov estavam paradas havia meses.

O cargueiro atracou em silêncio.

Sylvia esperou.

Quando o convés esvaziou, abriu a porta do contêiner.

Pegou Maya nos braços.

E desceu pela rampa metálica.

Sem olhar para trás.


A paisagem parecia saída de um sonho estranho.

Colinas brancas de neve.

Ao longe, uma cidade erguia-se no meio da noite.

Torres negras fumegantes.

Fábricas gigantes.

Chaminés cuspindo fumaça.

Luzes de neon azuis e vermelhas piscavam entre os prédios.

Era Valex City.

O refúgio.

A última promessa de civilização.

Sylvia estava fraca.

Cada passo doía.

Mas precisava continuar.


O frio piorava.

A bateria do traje tático piscava em vermelho.

Energia crítica.

Quando acabasse, o traje deixaria de aquecer.

Viraria apenas uma carcaça pesada de metal.

Um peso morto.

Depois de horas caminhando na neve, o cinturão industrial da cidade começou a aparecer.

Tubulações enferrujadas cobertas de gelo.

Prédios industriais.

Poluição.

Luzes tremendo no nevoeiro.

Nos braços dela, Maya murmurou:

— Elena…

A voz era fraca.

— Tô com fome…

— E frio…

O coração de Sylvia se partiu.

Ela apertou a menina contra o peito.

— Eu sei, meu anjo.

Ela respirou com dificuldade.

— Já estamos chegando.

A visão começou a turvar.

Pontos negros dançavam no campo de visão.

Então ela ouviu.

Motores.

Snowmobiles.

Longe.

Ela forçou as pernas.

Mais alguns passos.

Mais alguns.

Finalmente chegaram ao perímetro urbano.

Trabalhadores caminhavam entre as fábricas da Sonysoft Industries.

Sylvia tentou falar.

Não conseguiu.

O mundo girou.

Ela caiu.


Maya rolou pela neve.

Sylvia ainda respirava.

Muito fraco.

Ela murmurou:

— Desculpa… Maya…

A voz falhou.

— Eu… falhei…


Maya rastejou pela neve.

— Elena…

A menina chorava.

— Não morre… por favor…

Sylvia mal conseguia manter os olhos abertos.

— Ah…

A voz dela tremia.

— Desculpa…

Ela estava pálida.

Sem forças.

O traje tático apagou.

A última luz azul morreu.

Agora era apenas uma carcaça de metal pesada.

Maya rastejou até ela.

Abraçou a clone.

Tirou o cabelo preto dos olhos dela.

— Elena, não…

A voz da menina quebrou.

— Eu preciso de você…

— Eu te amo… mamãe.

Sylvia piscou lentamente.

— Mamãe…?

Um sorriso fraco apareceu.

— Dessa vez… você não está sonhando…

Maya soluçava.

— Não…

— Elena…

As palavras eram interrompidas pelo choro.

Sylvia respirou uma última vez.

— Minha filha…

Ela sussurrou.

— Eu te amo.


Num último esforço, Sylvia ergueu a pistola Gauss.

Apontou para o céu.

Disparo.

O estampido metálico ecoou na noite congelada.

Mais dois tiros.

O som atravessou o vento.

Chamando atenção.

Então a arma caiu da mão dela.


Alguns trabalhadores correram até ali.

Um deles parou bruscamente ao ver a cena.

Uma mulher caída na neve.

Uma criança chorando sobre ela.

— Ó Deus!

Ele gritou.

— Marvin! Ajuda aqui!

Outro trabalhador chegou correndo.

— O que foi, Dan?

Mais pessoas se aproximaram.

Eles pegaram Maya.

A menina se debatia.

— Não!

— Não!

— Eu quero minha mamãe!

Mas Sylvia já não respirava.

O rosto dela estava tranquilo.

Um sorriso leve nos lábios.

Como se finalmente tivesse encontrado paz.

Dan olhou melhor para o rosto da mulher.

Cabelos pretos.

Olhos azuis.

Fechados.

— Uma clone…

Ele murmurou.

— Pobrezinha…

O som de snowmobiles cresceu no horizonte.

Luzes cortando a neve.

Dan olhou para trás.

Problema.

— Desculpa, moça…

Ele murmurou.

E saiu rapidamente.


Os snowmobiles chegaram segundos depois.

Dois homens desceram.

Keller.

E Gavin Nelson.

Eles caminharam lentamente até o corpo.

O vento movia a neve ao redor.

Maya ainda chorava nos braços de um trabalhador.

Nelson observou a cena. Incentivou-os a levar a criança dali.

"Não pode ser em vão" pensou Nelson.

O traje tático.

A pistola caída.

O sangue congelado.

Ele respirou fundo.

— Encontramos.

Keller assentiu.

— Sim.

Nelson puxou o comunicador.

— Vou avisar os homens da GeniCorp que a clone morreu.

Ele olhou para Maya.

— E que a criança está oficialmente em Valex City.

Pausa.

— Não há mais nada a ser feito.

Keller já acendia um cigarro.

O isqueiro tremeluziu no vento.

Ele tragou devagar.

— Bom trabalho, Nelson.

Nelson assentiu.

E caminhou para interceptar os outros snowmobiles que chegavam. Veículos com modelos Walker.

O trabalhador e Maya já não estavam mais ali. Estavam dentro da cidade de Valex, monólitos pretos com leds e neons no meio da brancura infindável. Maya agpra estava numa cozinha industrial, aquecida por chocolate quente e um aquecedor. Mas nada disso aquecia o coração despedaçado da menininha que perdeu duas mães em pouco tempo.


Keller ficou sozinho.

Ele se ajoelhou ao lado de Sylvia.

Passou a mão pelo rosto gelado dela.

A neve começava a cobrir o corpo.

Ele olhou para o sorriso leve nos lábios da clone.

E murmurou:

— Bom trabalho, garota…

O vento soprou mais forte.

A neve começou a cair novamente.

Keller deu mais uma tragada.

— Você venceu o sistema.

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