quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] Metade de um pai

O vento do porto soprava forte quando Keller desceu pela rampa do cargueiro.

O metal rangia sob seus passos. A névoa cinzenta do inverno nuclear rastejava sobre a água negra, e o mar parecia tão morto quanto o continente.

Atrás dele, o cargueiro da RRM Logistics ainda estava sendo preparado para zarpar rumo à Ilha Refúgio de Valex City.

Keller caminhou alguns metros pelo cais.

Acendeu outro cigarro.

A busca ainda continuaria por horas.

Oficialmente.

Passos rápidos se aproximaram atrás dele.

Gavin Nelson.

O jovem investigador parecia inquieto.

Ele parou ao lado de Keller.

— Ela estava no cargueiro?

Keller soltou fumaça devagar.

— Sim.

Nelson esperou.

— E?

— Gravemente ferida.

Ele observou o horizonte cinzento.

— Não vai sobreviver.

Pausa.

— Mas a garota vai.

Nelson ficou olhando para a água por alguns segundos.

Pensativo.

— E agora?

Keller respondeu com calma cansada.

— Vamos esperar a GeniCorp ordenar que a gente siga o cargueiro.

Ele tragou novamente.

— Consigo segurar o processo por um dia.

— Mas amanhã estaremos em alto mar.

Ele olhou para o navio.

— Eles vão chegar em Valex antes da gente.

Nelson ficou quieto.

O vento balançava o sobretudo de Keller.

Depois de alguns segundos ele murmurou:

— Uma vez em Valex… não poderemos fazer mais nada.

Keller deu uma tragada longa.

— Assim espero.

Nelson virou a cabeça.

— Por quê?

Keller ficou em silêncio por alguns segundos.

O cigarro queimava lentamente entre seus dedos.

— Já falsifiquei relatórios.

Ele soltou a fumaça.

— Manipulei provas.

— Fiz várias coisas erradas pra foder gente simples e poupar corporações.

Ele deu um meio sorriso cansado.

— Estou cansado, Nelson.

Pausa.

— Muito cansado.

Nelson franziu o cenho.

— Dor na consciência?

— É isso?

Keller deu de ombros.

— Talvez.

Ele levou a mão ao peito.

Debaixo do sobretudo havia um colar.

Um pequeno pingente metálico.

Ele abriu.

Dentro havia uma foto antiga.

Uma mulher sorrindo.

Uma criança pequena.

Família.

— Eu queria ser como pai pra minha filha…

Ele respirou fundo.

— Metade do que a Susan foi de mãe pra ela.

Keller fechou o pingente devagar.

O vento frio soprou novamente.

— Aquela garotinha nunca vai ter sua família de volta.

Ele olhou para o cargueiro.

Agora quase pronto para partir.

— Mas aquela clone…

Pausa.

— Ela ama aquela garotinha.

Nelson pigarreou.

O silêncio ficou pesado entre os dois.

Ele assentiu devagar.

— Entendi.

Sem dizer mais nada, ele se afastou.

Keller ficou sozinho no cais.

O cargueiro soltou um longo som grave de buzina.

Preparando-se para deixar o porto.

Keller jogou o cigarro no chão.

Pisou nele.

E observou o navio desaparecer lentamente na névoa cinzenta do inverno nuclear.

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