O vento do porto soprava forte quando Keller desceu pela rampa do cargueiro.
O metal rangia sob seus passos. A névoa cinzenta do inverno nuclear rastejava sobre a água negra, e o mar parecia tão morto quanto o continente.
Atrás dele, o cargueiro da RRM Logistics ainda estava sendo preparado para zarpar rumo à Ilha Refúgio de Valex City.
Keller caminhou alguns metros pelo cais.
Acendeu outro cigarro.
A busca ainda continuaria por horas.
Oficialmente.
Passos rápidos se aproximaram atrás dele.
Gavin Nelson.
O jovem investigador parecia inquieto.
Ele parou ao lado de Keller.
— Ela estava no cargueiro?
Keller soltou fumaça devagar.
— Sim.
Nelson esperou.
— E?
— Gravemente ferida.
Ele observou o horizonte cinzento.
— Não vai sobreviver.
Pausa.
— Mas a garota vai.
Nelson ficou olhando para a água por alguns segundos.
Pensativo.
— E agora?
Keller respondeu com calma cansada.
— Vamos esperar a GeniCorp ordenar que a gente siga o cargueiro.
Ele tragou novamente.
— Consigo segurar o processo por um dia.
— Mas amanhã estaremos em alto mar.
Ele olhou para o navio.
— Eles vão chegar em Valex antes da gente.
Nelson ficou quieto.
O vento balançava o sobretudo de Keller.
Depois de alguns segundos ele murmurou:
— Uma vez em Valex… não poderemos fazer mais nada.
Keller deu uma tragada longa.
— Assim espero.
Nelson virou a cabeça.
— Por quê?
Keller ficou em silêncio por alguns segundos.
O cigarro queimava lentamente entre seus dedos.
— Já falsifiquei relatórios.
Ele soltou a fumaça.
— Manipulei provas.
— Fiz várias coisas erradas pra foder gente simples e poupar corporações.
Ele deu um meio sorriso cansado.
— Estou cansado, Nelson.
Pausa.
— Muito cansado.
Nelson franziu o cenho.
— Dor na consciência?
— É isso?
Keller deu de ombros.
— Talvez.
Ele levou a mão ao peito.
Debaixo do sobretudo havia um colar.
Um pequeno pingente metálico.
Ele abriu.
Dentro havia uma foto antiga.
Uma mulher sorrindo.
Uma criança pequena.
Família.
— Eu queria ser como pai pra minha filha…
Ele respirou fundo.
— Metade do que a Susan foi de mãe pra ela.
Keller fechou o pingente devagar.
O vento frio soprou novamente.
— Aquela garotinha nunca vai ter sua família de volta.
Ele olhou para o cargueiro.
Agora quase pronto para partir.
— Mas aquela clone…
Pausa.
— Ela ama aquela garotinha.
Nelson pigarreou.
O silêncio ficou pesado entre os dois.
Ele assentiu devagar.
— Entendi.
Sem dizer mais nada, ele se afastou.
Keller ficou sozinho no cais.
O cargueiro soltou um longo som grave de buzina.
Preparando-se para deixar o porto.
Keller jogou o cigarro no chão.
Pisou nele.
E observou o navio desaparecer lentamente na névoa cinzenta do inverno nuclear.
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