A manhã chegou sem sol.
Na verdade, nenhuma manhã tinha sol havia décadas.
O céu sobre o porto era uma massa pesada de nuvens negras, sempre iguais, sempre opressivas. A luz que chegava ao chão era fraca, difusa, cinzenta — como se o mundo inteiro estivesse preso em um eterno entardecer.
Era o inverno nuclear.
As cidades haviam morrido.
O que restava da civilização sobrevivia em colônias corporativas como Good Hope, cidadelas pobres cercadas por muros, scanners e contratos de dívida. Pequenas ilhas de sobrevivência controladas por megacorporações.
Era o mais próximo de civilização que ainda existia naquele continente devastado.
Um utilitário de investigação parou no porto.
Do banco do motorista desceu Keller.
Sobretudo gasto.
Chapéu inclinado contra o vento.
Um cigarro pendendo da boca.
Atrás dele veio Gavin Nelson, segurando um scanner portátil.
O cargueiro da RRM ainda estava ancorado, preparando-se para zarpar rumo à Ilha Refúgio de Valex City.
O convés parecia um campo de batalha.
Corpos espalhados.
Sangue escuro congelando sobre o metal.
Fragmentos de crânio.
Keller caminhou lentamente entre os cadáveres.
Os olhos cansados analisavam tudo.
Nada ali o surpreendia.
Apenas confirmava.
Nelson chamou do outro lado do convés.
— Keller… aqui!
Keller se aproximou devagar.
Ajeitou o chapéu.
Deu uma tragada no cigarro.
No chão estava o corpo de uma clone.
Armadura tática negra.
Capacete destruído.
Rosto exposto.
Nelson apontou.
— Encontrei a clone.
Keller observou.
Depois soltou a fumaça devagar.
— Alarme falso.
Nelson franziu o cenho.
— Como assim?
Keller apontou para a armadura.
— É uma Sylvia.
Pausa.
— Mas não é a 132.
Ele se abaixou e virou levemente o corpo.
O número estava gravado na placa lateral.
Sylvia-04-874.
Nelson soltou um sorriso triste.
Trágico.
Keller deu um tapinha no ombro dele.
— Tranquilo, rapaz.
— É assim mesmo.
Ele olhou ao redor.
— A gente sempre quer ver um caso resolvido.
Nelson deu um sorriso sem graça.
Mas Keller já não estava mais olhando para ele.
Estava olhando para o chão.
Havia marcas no metal.
Marcas de mãos.
Manchas de sangue arrastadas.
Como se alguém tivesse colocado a mão sobre um ferimento…
…e depois engatinhado.
Keller seguiu a trilha com os olhos.
Calculando.
Nelson encontrou algo no chão.
— Keller.
Ele ergueu uma pequena cápsula metálica.
— Cicatrizante de nanorrobôs.
Os dois se olharam.
A conclusão veio ao mesmo tempo.
— Ela sobreviveu — disse Nelson.
Keller assentiu.
— Gravemente ferida.
Nelson passou a mão pelo cabelo.
— Mas… onde elas podem estar?
Keller levantou os olhos.
O cargueiro ainda estava ali.
Tripulação correndo.
Preparativos de partida.
Ele tinha certeza.
Elas ainda estavam no navio.
Ele caminhou lentamente pelo convés.
Observando o padrão do sangue.
Calculando direções.
Distâncias.
Tempos.
Nelson observava.
Curioso.
Mas não sabia o que Keller estava pensando.
Keller parou.
Olhou para Nelson.
Depois para os policiais corporativos que acabavam de chegar.
Alguns soldados da GeniCorp também desembarcavam no porto.
Keller deu a ordem.
— Observem ao redor do navio.
Ele apontou para o cais.
— Ela deve estar em algum lugar do porto.
Depois olhou diretamente para Nelson.
— Você também.
— Acompanhe os homens.
— Eles precisam saber as orientações mais apropriadas.
Nelson ficou em silêncio por um segundo.
Ele conhecia Keller há tempo suficiente.
Sabia reconhecer quando ele queria silêncio.
Ou quando estava mentindo deliberadamente.
Nelson assentiu.
— Certo.
Ele reuniu os homens.
Policiais.
Soldados.
E desceu para o porto.
Logo o convés ficou vazio.
Keller caminhou calmamente entre os contêineres.
O cigarro ainda aceso.
O vento frio puxando a fumaça para o céu cinza.
Ele parou diante de um contêiner.
Respirou fundo.
E bateu.
Três batidas.
Gentis.
toc. toc. toc.
A porta demorou alguns segundos.
Depois se destrancou.
Dentro estava Sylvia.
Ferida.
Muito pálida.
Uma das mãos pressionando o curativo improvisado na costela.
Na outra, a pistola Gauss.
Apontada diretamente para Keller.
Atrás dela, Maya dormia enrolada num cobertor.
Keller continuou fumando.
Tranquilo.
Como se a arma fosse irrelevante.
Sylvia falou.
— Vai nos prender… porque bateu?
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
Keller bateu levemente na ponta do cigarro.
A cinza caiu no chão.
Ele tragou novamente.
Depois respondeu.
— Você sabe que não faz parte do protocolo prender clones.
Sylvia não disse nada.
A arma continuava apontada.
Ela respirou fundo.
— Me mate…
A voz falhou.
— Mas deixe ela ir.
As lágrimas escorreram.
Keller tirou mais cinza do cigarro com o dedo.
Pensou por um segundo.
Depois disse calmamente:
— Eu não vi nada aqui hoje.
Sylvia piscou.
Confusa.
Keller deu meia-volta.
— Boa viagem.
Ele fechou a porta do contêiner.
E foi embora.
Sylvia continuou apontando a arma para a porta.
Sem entender.
Sem confiar.
O coração batendo rápido.
Maya começou a se mexer no cobertor.
Sinais de que estava acordando.
Sylvia abaixou a arma apenas o suficiente para pegar o cabelo da menina.
Tirou algumas mechas dos olhos dela.
— Está tudo bem, querida.
Ela parou.
Percebeu a palavra.
Querida.
Ela nunca imaginara usar aquilo.
Maya murmurou sonolenta.
— Tô sim… mamãe.
Sylvia sentiu algo quente dentro do peito.
Algo novo.
Algo que nunca havia sido programado.
E que, estranhamente…
era maravilhoso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário