quarta-feira, 15 de outubro de 2025

[CONTO] Antes da Chuva Parar

Valex City, 15 de Abril de 2059: 17:00 - 11ºC - Chuva intensa.

A tempestade rugia sobre Valex City, e as janelas amplas da casa em Templeton Hill tremiam como se pudessem sentir o peso das nuvens. O reflexo dos prédios negros do Centro Financeiro se misturava aos relâmpagos, e dentro, o calor amarelado das luzes deixava o ambiente quase sereno — quase.

PeaX apareceu à porta da sala, os olhos vermelhos cintilando num brilho discreto, como duas brasas sob véu. O cabelo bob branco caía em ondas suaves, contrastando com o vestido grafite que ela mesma escolhera para a ocasião. Reese, ajeitando as abotoaduras, ergueu o olhar — e sorriu.

— Você está linda, PeaX.

Ela piscou, sentindo o rosto corar de leve, um traço quase imperceptível de calor que lhe subiu à pele.

— Obrigada, Reese. — A voz dela saiu mais baixa do que o habitual, quase humana, quase tímida.

Reese ajeitou o colarinho, desviando o olhar da forma elegante como ela se movia pelo cômodo. PeaX aproximou-se da aparelhagem de som, passou o dedo sobre o painel de vidro e, com um toque, preencheu o silêncio com acordes de um synthwave clássico do pré-guerra, Neon Lights de TimeCop1983 e Josh Dally. A chuva continuava lá fora, feroz, como um pano de fundo de ruído branco.

— Eu sou neurocientista, físico, autor de livros, dono de uma corporação… — Reese resmungou, encarando o espelho. — E ainda assim, não consigo dar um nó decente na maldita gravata.

PeaX riu, um riso leve, cristalino — um som sincero, que preencheu o ambiente.

— Abaixe um pouco, por favor. — Disse ela, aproximando-se. Ele obedeceu, e seus dedos se moveram com graça sobre o tecido azul-marinho. — Pronto.

Ela ajeitou o nó, deu um pequeno passo atrás e o olhou por inteiro.

— Está lindo. Sabe, Einstein não sabia combinar meias. E nunca soube pentear o cabelo. Gênios se embananam nas coisas simples enquanto olham para as fronteiras do universo.

Reese deixou escapar um sorriso breve. Por um instante, olhou para ela como quem olha algo que não deveria desejar — e mesmo assim, deseja.

— Não sei o que faria sem você, PeaX.

Ela o fitou. Os olhos vermelhos brilharam mais forte, e por um momento, a respiração pareceu suspender-se entre eles.

— Eu também não sei o que faria sem você, doutor. — Ela hesitou. — Mas estou preocupada.

Ele franziu o cenho.

— O plano de jogar migalhas de pão para os investigadores… não funcionou. A Hard Light já notou a NeuralDesk. Eles sabem, Reese. O jogo está perigoso demais.

Reese ficou em silêncio. Só a chuva e o murmúrio melancólico da música preenchia o espaço entre os dois. Então, ele disse:

— Se tudo der errado, pegue a maleta no meu closet. Há dinheiro em espécie lá. Vá para Cascádia. É uma colônia da VESYI, na América do Norte. Um dos raros lugares a terem taxa de radiação zero ou próxima de zero. Quero que esteja segura, acima de tudo. Leve Togall.

PeaX se afastou um passo, indignada.

— Por que se sacrificar por isso, Reese? Não é sua missão redimir o mundo. Se os homens querem viver para sempre, deixe-os. Viva a sua vida. Seja feliz.

Reese desviou o olhar para a janela. Os trovões recortavam a cidade, e o reflexo dele e dela se confundia no vidro.

— E o Senhor Deus disse: “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente.” — Ele fez uma pausa. — Gênesis 3:22.

— A Bíblia? — perguntou PeaX, surpresa.

— Não sou religioso. Mas há sabedoria nos antigos, PeaX. A morte é trágica, mas é bela. É a única coisa que iguala o jogo entre os ricos e os pobres. Quando ela chega, não importa se você é o rei, a rainha ou um simples peão. No xadrez da existência, perante a morte, todos vamos para a mesma caixinha quando o jogo acaba.

A voz dele baixou, rouca, carregada de algo mais do que cansaço.

— Só há uma solução para esse mundo: destruir a Síndrome de Prometeu Moderno. O desejo humano de ser como Deus.

PeaX olhou-o longamente, como quem tenta compreender o peso do que ouve.

— Talvez não haja como redimir o mundo.

— Talvez. — Ele concordou. — Mas se você pode evitar um mal… e não evita… e pessoas se machucam… a culpa é sua.

O silêncio voltou. A música seguia, distante, como se viesse de outro tempo.

PeaX se aproximou sem dizer nada. Sentiu algo — um pressentimento, uma vertigem súbita de perda. Então, o abraçou.

Por um instante, ele correspondeu, o queixo repousando sobre o topo da cabeça branca dela.

E lá fora, enquanto a chuva caía com raiva sobre Valex City, o relógio marcava as últimas horas antes da Festa Beneficente — e talvez, sem que nenhum dos dois soubesse, as últimas horas de paz que teriam.

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