15 de Abril de 2059, 19:30h.
A chuva caía torrencialmente na noite de Valex City: um halo de neons pulsa contra o brutalismo preto do cinturão industrial se formava nas pesadas gotas de água que ajudavam um bombeiro e um droid a apagar um incêndio. O lixão de Groove Street ainda fumaçava num serviço que foi ajudado pela natureza decadente mas ainda funcional. Cinza quente, cheiro de plástico queimado, ratos queimados sendo devorados por ratos vivos.
Anderson Telles, máscara no pescoço, apaga o último foco com
a mangueira do caminhão velho da VxS Firefighters. A pintura desbotada ainda
deixa ver, por baixo, o nome antigo: Petrikov Firefighters — uma cicatriz do
crash da quarta-feira negra de 2056. Ele fecha a válvula e dá dois toques na
carcaça metálica.
- BR33! Hora de abafar aquele setor! – Ele aponta para um
monte de lixo ainda rubro em brasas. O droid vai.
Vindo das paragens de Little Brazil, do setor Alpha, no meio
das ruínas do que um dia fora o setor de casas de design levemente colonial, um
TesyD Bedshaped encosta, quadrado e mal-humorado, como se fosse um Crown
Victoria com ângulos demais. O símbolo da General Security Inc num decalque no
vidro traseiro, a escria Police em dourado na lateral. Dele saem Kel Herrera, um
policial de Little Argentina com hálito de destilaria doméstica, e Hayley
Quinn, menina loira de Templeton Hill, terno feminino skinny, com mais jeito de
escritório que de patrulha, olhar afiado, bottom da General Security Inc. A ralé
da GS a chama de “a nova Sato”. Se sobreviver.
— Isso aqui foi o quê? — Kel acende, trêmulo, um cigarro.
— Resposta — Telles fala sem olhar. — Alguém bateu nas
Beetches; o lixão pegou fogo em troca. Pelo menos foi o que uma velhinha que
mora no 23 ali atrás contou.
— “Beetches”? — Quinn anota. – Groove Street não tem gangue.
– Ela pontuou suspeitosa.
— Meninas da prostituição de O’Higgins provavelmente.
Testemunhas viram um capataz mandar duas delas jogarem molotov — Telles aponta
um arco queimado, garrafas rachadas na lama. — Vidro com pano. Improviso de
fábrica.
— Forçar trabalhadoras do sexo a tacar fogo num lixão? Não
fecha com padrão de retaliação. Vou levar isso pra chefe de Polícia.
Kel dá um passo à frente, desinteressado de padrões:
— Fecha a noite... Teles. – Ele fala o nome do bombeiro
depois de olhar pra o ceachá sujo de cinzas - Aqui é zona sem santo. Vai pra
casa. Você deve ter família.
“Família”... Essa palavra. Telles engole seco. Groove Street
vibra no osso — lembrança de tiros, sirenes, o asfalto onde a esposa caiu dois
anos antes, saindo do turno na fábrica de baterias nióbio-sódio pra VTOL, uma
subsidiária falida ligada a MVIDEO. Ele respira o ar sujo. Pensa em Nária, oito
anos, ursinho gasto, cabelo preso em marias chiquinhas com presilha de plástico.
Sua pequena alegria na vida. Sua filha.
— Bot33 — chama – Guardar mangueira! O andróide da Brazil
Robotics desperta, pintura apagada, passos de máquina cansada suja de óleo.
Guarda a mangueira com gestos quadrados e sobe pro estribo.
Telles olha pro droid. O ranço volta.
Por que a Valexsynthesis não bota replorgues nas equipes?
Replicantes ciborguizados de nascença, empáticos, capazes de ler nuances. Não
confundem ironia com ordem. Os droids ainda travam com semântica. Em incêndio,
semântica mata.
Ele se vê de novo recebendo a notícia da morte da sua amiga
que olhava sua filha nos dias de folga dela, ela estava em Kazuma: Augustine
Chaves gritando “reabastecer!”. O droid dela entende “reabastecer o caminhão”,
não o tanque de água. Sai em disparada pra um posto diesel, arrebenta a
mangueira, deixa Augustine sozinha no quarto andar. Ela detona uma C4, derruba
a caixa-d’água pra conter o fogo, e morre sufocada em gás carbônico. O filho, Diego,
dez anos, recebeu o quê? Nada. A VxSCM, o tribunal interno da Valexsynthesis,
“encontrou” um aviso prévio datado do dia anterior. Caso encerrado.
— Telles? — Quinn chama, quebrando a espira de lembrançasl.
— Já tô indo.
Ele sobe no caminhão. O TesyD recua, luzes azul-branco
riscando o lixo. Kel, já com outro trago aceso, murmura:
— Some daqui.
Telles engata. Groove Street corre pelas laterais como um
filme ruim, ele estava no pior lugar do cinturão industrial, que já era um
lugar ruim. Ali o lugar era tão ruim que o cheiro de lixo era intenso, o
chorume escorria pelas ruas e havia lixo por todos os lados. Então, perdido em
pensamentos, surgem motos e um jipe baixo, faróis estourando a noite.
Tiros de aviso.
A diarquia.
— Merda — ele diz, voz baixa.
Os primeiros tiros para valer atravessam a chapa como papel.
O para-brisa estrelado vira teia. Bot33 recebe vários impactos diretos; braço
destruído, fluido vazando do peito, por fim, a cabeça explode e ricocheteia no
painel, tela apaga, braços moles. Telles abaixa, pisa fundo. O caminhão urra
metálico. Ele sente o tremor ao atropelar dois — um corpo some sob a roda
traseira, o outro voa contra um pilar de concreto, um borrão lilás de neon na
jaqueta.
Mais tiros. Um calor agudo na costela, outro no abdômen. O
volante escorrega na mão — sangue. Ele fecha a curva seguinte por instinto, o
motor tossindo. Atrás, as motos desistem; o jipe quebra eixo no trilho de
manutenção. O rádio chiando: palavras cortadas, códigos. Provavelmente outro
incêndio... Algo sobre OStermann Heights ou algo assim.
Telles respira em cacos. O hospital da P&K Prosthetics
and Health Services ficava a 20 km. Com trânsito uma hora, com sorte, coisa
raríssima, dez minutos. Sem sorte, nunca. E o plano básico? Ele sabia de cor:
ferimento letal por arma de fogo não cobria. Hospital: 90.000 na tela da conta.
Dívida que passaria pra Nária, já que ele não sobreviveria.
Ele tomou, então, a decisão que cabia. Não a mais heroica. A
mais humana. O medo de deixar sua filha sozinha naquele mundo-cão era o que
invadia sua cabeça... Mas ao mesmo tempo deixar sua filha endividada tão jovem,
a empurraria para a prostituição, ser agredida por cafetões, para pagar por uma
dívida hospitalar que até ela completar 18 anos, já passaria de um milhão. Não
sua pequena Nária. Não a menina no ursinho e das marias chiquinhas...
Valex City abre espaço diante do caminhão moribundo: torres
pretas, passarelas de vidro, um holograma de uma igreja vendendo um lote no
paraíso. Ele corta por Little Argentina, escapa de uma blitz, atravessa um
corredor de prédios onde a chuva cai em peso. Vira na rua de casa, já está em
Little Brazil.
Freia.
A porta se abre como se estivesse a espera, e Nária corre. O
ursinho desbotado balança na mão pequena. A HoloTV dentro late notícias e
concursos de slogan.
— Papai!
Ele desce do banco com esforço, acena de leve, como quem
volta do mercado. O sangue colando o macacão, a luz de azul de um anúncio de
CyberShen fazendo a poça brilhar como petróleo.
Ela o envolve com braços de passarinho que mal completam sua
cintura.
— Papai, você tá… molhado. Vamos entrar!
Ele sente o cheiro do shampoo barato e do talco. A casa
conhece a respiração dele. O corredor, os azulejos, a cama por arrumar. Ele
tenta responder. Solta metade de um “claro”. O resto vira ar. “Valeu a pena”...
Ele pensa. Ouviu a voz de seu anjinho uma última vez. Ainda que não a tenha
visto. Sua vista estava escura. Ele sabia, sua pressão arterial estava caindo.
Depressa.
Silêncio. A HoloTV faz a vez de narradora do mundo:
“…Hard Light Corp apresenta proposta para trabalhadores que
recusarem o novo programa HCC: realocação subsidiada para colônia na antiga
Europa…”
A voz segue explicando benefícios, métricas de
produtividade, vales-luz. Nária, sem entender, procura o rosto do pai.
— Papai?
O sorriso de Telles é pequeno e verdadeiro, mesmo de joelho em
frente a filha, o que ele conseguia oferecer. O corpo cede no abraço. A noite
segura os sons, como se a cidade inteira tivesse prendido o fôlego.
“Em parceria com a ValexSynthesis, o programa Control 2.0
vai providenciar a cada trabalhador e cidadão de Valex, uma vida sem
reclamações de trabalho, Vocês nunca mais precisarão fazer piquetes, motins,
nunca mais terão a sensação de salários insuficientes. Basta instalar o novo HCC
no córtex pré-frontal. A P&K fará o procedimento gratuitamente por conta de
seu empregador! Fale com seu patrão, e nunca mais terá de se preocupar com
sofrimento no trabalho!” – Seguia a propaganda na HoloTV, enqunto uma criança,
com o ursinho, não entendia o porquê o pai “dormia sorrindo” de joelhos no
portão de casa.

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