domingo, 12 de outubro de 2025

[CONTO] Uma cidade maldita

 15 de Abril de 2059, 19:30h.



A chuva caía torrencialmente na noite de Valex City: um halo de neons pulsa contra o brutalismo preto do cinturão industrial se formava nas pesadas gotas de água que ajudavam um bombeiro e um droid a apagar um incêndio. O lixão de Groove Street ainda fumaçava num serviço que foi ajudado pela natureza decadente mas ainda funcional. Cinza quente, cheiro de plástico queimado, ratos queimados sendo devorados por ratos vivos.

Anderson Telles, máscara no pescoço, apaga o último foco com a mangueira do caminhão velho da VxS Firefighters. A pintura desbotada ainda deixa ver, por baixo, o nome antigo: Petrikov Firefighters — uma cicatriz do crash da quarta-feira negra de 2056. Ele fecha a válvula e dá dois toques na carcaça metálica.

- BR33! Hora de abafar aquele setor! – Ele aponta para um monte de lixo ainda rubro em brasas. O droid vai.

Vindo das paragens de Little Brazil, do setor Alpha, no meio das ruínas do que um dia fora o setor de casas de design levemente colonial, um TesyD Bedshaped encosta, quadrado e mal-humorado, como se fosse um Crown Victoria com ângulos demais. O símbolo da General Security Inc num decalque no vidro traseiro, a escria Police em dourado na lateral. Dele saem Kel Herrera, um policial de Little Argentina com hálito de destilaria doméstica, e Hayley Quinn, menina loira de Templeton Hill, terno feminino skinny, com mais jeito de escritório que de patrulha, olhar afiado, bottom da General Security Inc. A ralé da GS a chama de “a nova Sato”. Se sobreviver.

— Isso aqui foi o quê? — Kel acende, trêmulo, um cigarro.

— Resposta — Telles fala sem olhar. — Alguém bateu nas Beetches; o lixão pegou fogo em troca. Pelo menos foi o que uma velhinha que mora no 23 ali atrás contou.

— “Beetches”? — Quinn anota. – Groove Street não tem gangue. – Ela pontuou suspeitosa.

— Meninas da prostituição de O’Higgins provavelmente. Testemunhas viram um capataz mandar duas delas jogarem molotov — Telles aponta um arco queimado, garrafas rachadas na lama. — Vidro com pano. Improviso de fábrica.

 Quinn franze a testa.

— Forçar trabalhadoras do sexo a tacar fogo num lixão? Não fecha com padrão de retaliação. Vou levar isso pra chefe de Polícia.

Kel dá um passo à frente, desinteressado de padrões:

— Fecha a noite... Teles. – Ele fala o nome do bombeiro depois de olhar pra o ceachá sujo de cinzas - Aqui é zona sem santo. Vai pra casa. Você deve ter família.

“Família”... Essa palavra. Telles engole seco. Groove Street vibra no osso — lembrança de tiros, sirenes, o asfalto onde a esposa caiu dois anos antes, saindo do turno na fábrica de baterias nióbio-sódio pra VTOL, uma subsidiária falida ligada a MVIDEO. Ele respira o ar sujo. Pensa em Nária, oito anos, ursinho gasto, cabelo preso em marias chiquinhas com presilha de plástico. Sua pequena alegria na vida. Sua filha.

— Bot33 — chama – Guardar mangueira! O andróide da Brazil Robotics desperta, pintura apagada, passos de máquina cansada suja de óleo. Guarda a mangueira com gestos quadrados e sobe pro estribo.

Telles olha pro droid. O ranço volta.

Por que a Valexsynthesis não bota replorgues nas equipes? Replicantes ciborguizados de nascença, empáticos, capazes de ler nuances. Não confundem ironia com ordem. Os droids ainda travam com semântica. Em incêndio, semântica mata.

Ele se vê de novo recebendo a notícia da morte da sua amiga que olhava sua filha nos dias de folga dela, ela estava em Kazuma: Augustine Chaves gritando “reabastecer!”. O droid dela entende “reabastecer o caminhão”, não o tanque de água. Sai em disparada pra um posto diesel, arrebenta a mangueira, deixa Augustine sozinha no quarto andar. Ela detona uma C4, derruba a caixa-d’água pra conter o fogo, e morre sufocada em gás carbônico. O filho, Diego, dez anos, recebeu o quê? Nada. A VxSCM, o tribunal interno da Valexsynthesis, “encontrou” um aviso prévio datado do dia anterior. Caso encerrado.

— Telles? — Quinn chama, quebrando a espira de lembrançasl.

— Já tô indo.

Ele sobe no caminhão. O TesyD recua, luzes azul-branco riscando o lixo. Kel, já com outro trago aceso, murmura:

— Some daqui.

Telles engata. Groove Street corre pelas laterais como um filme ruim, ele estava no pior lugar do cinturão industrial, que já era um lugar ruim. Ali o lugar era tão ruim que o cheiro de lixo era intenso, o chorume escorria pelas ruas e havia lixo por todos os lados. Então, perdido em pensamentos, surgem motos e um jipe baixo, faróis estourando a noite.

Tiros de aviso.

A diarquia.

— Merda — ele diz, voz baixa.

Os primeiros tiros para valer atravessam a chapa como papel. O para-brisa estrelado vira teia. Bot33 recebe vários impactos diretos; braço destruído, fluido vazando do peito, por fim, a cabeça explode e ricocheteia no painel, tela apaga, braços moles. Telles abaixa, pisa fundo. O caminhão urra metálico. Ele sente o tremor ao atropelar dois — um corpo some sob a roda traseira, o outro voa contra um pilar de concreto, um borrão lilás de neon na jaqueta.

Mais tiros. Um calor agudo na costela, outro no abdômen. O volante escorrega na mão — sangue. Ele fecha a curva seguinte por instinto, o motor tossindo. Atrás, as motos desistem; o jipe quebra eixo no trilho de manutenção. O rádio chiando: palavras cortadas, códigos. Provavelmente outro incêndio... Algo sobre OStermann Heights ou algo assim.

Telles respira em cacos. O hospital da P&K Prosthetics and Health Services ficava a 20 km. Com trânsito uma hora, com sorte, coisa raríssima, dez minutos. Sem sorte, nunca. E o plano básico? Ele sabia de cor: ferimento letal por arma de fogo não cobria. Hospital: 90.000 na tela da conta. Dívida que passaria pra Nária, já que ele não sobreviveria.

Ele tomou, então, a decisão que cabia. Não a mais heroica. A mais humana. O medo de deixar sua filha sozinha naquele mundo-cão era o que invadia sua cabeça... Mas ao mesmo tempo deixar sua filha endividada tão jovem, a empurraria para a prostituição, ser agredida por cafetões, para pagar por uma dívida hospitalar que até ela completar 18 anos, já passaria de um milhão. Não sua pequena Nária. Não a menina no ursinho e das marias chiquinhas...

Valex City abre espaço diante do caminhão moribundo: torres pretas, passarelas de vidro, um holograma de uma igreja vendendo um lote no paraíso. Ele corta por Little Argentina, escapa de uma blitz, atravessa um corredor de prédios onde a chuva cai em peso. Vira na rua de casa, já está em Little Brazil.

Freia.

A porta se abre como se estivesse a espera, e Nária corre. O ursinho desbotado balança na mão pequena. A HoloTV dentro late notícias e concursos de slogan.

— Papai!

Ele desce do banco com esforço, acena de leve, como quem volta do mercado. O sangue colando o macacão, a luz de azul de um anúncio de CyberShen fazendo a poça brilhar como petróleo.

Ela o envolve com braços de passarinho que mal completam sua cintura.

— Papai, você tá… molhado. Vamos entrar!

Ele sente o cheiro do shampoo barato e do talco. A casa conhece a respiração dele. O corredor, os azulejos, a cama por arrumar. Ele tenta responder. Solta metade de um “claro”. O resto vira ar. “Valeu a pena”... Ele pensa. Ouviu a voz de seu anjinho uma última vez. Ainda que não a tenha visto. Sua vista estava escura. Ele sabia, sua pressão arterial estava caindo. Depressa.

Silêncio. A HoloTV faz a vez de narradora do mundo:

“…Hard Light Corp apresenta proposta para trabalhadores que recusarem o novo programa HCC: realocação subsidiada para colônia na antiga Europa…”

A voz segue explicando benefícios, métricas de produtividade, vales-luz. Nária, sem entender, procura o rosto do pai.

— Papai?

O sorriso de Telles é pequeno e verdadeiro, mesmo de joelho em frente a filha, o que ele conseguia oferecer. O corpo cede no abraço. A noite segura os sons, como se a cidade inteira tivesse prendido o fôlego.

“Em parceria com a ValexSynthesis, o programa Control 2.0 vai providenciar a cada trabalhador e cidadão de Valex, uma vida sem reclamações de trabalho, Vocês nunca mais precisarão fazer piquetes, motins, nunca mais terão a sensação de salários insuficientes. Basta instalar o novo HCC no córtex pré-frontal. A P&K fará o procedimento gratuitamente por conta de seu empregador! Fale com seu patrão, e nunca mais terá de se preocupar com sofrimento no trabalho!” – Seguia a propaganda na HoloTV, enqunto uma criança, com o ursinho, não entendia o porquê o pai “dormia sorrindo” de joelhos no portão de casa.

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