quarta-feira, 11 de março de 2026

[CONTO] First Hours - Parte 3

 06:00 — Dentro da viatura, Zona Leste de São Paulo

A rua ainda estava meio vazia.

O céu começava a clarear com aquele tom azul acinzentado típico das madrugadas paulistanas.

Matos olhou o relógio do painel.

06:00.

— Já começou — disse ele.

Frias, no banco do passageiro, pegou o celular.

Sem sinal de dados.

Sem notícias.

Sem transmissões.

— Nada… — murmurou.

— Internet?

— Travada.

Matos assentiu.

Era previsível.

Quando o governo bloqueava alguma coisa, bloqueava tudo.

— A gente está longe da DP demais pra voltar a tempo.

Frias suspirou.

— E eu queria ver essa transmissão.

Matos pensou por um segundo.

Então apontou para o painel.

— Liga o rádio.

Frias franziu a testa.

— Rádio?

— Sempre retransmitem coisa do governo.

Era verdade.

Desde antes da ditadura.

Quando havia pronunciamentos oficiais importantes, todas as estações eram obrigadas a retransmitir.

Como na antiga Hora do Brasil.

Frias pegou o seletor da central da viatura.

Desligou a frequência policial.

Girou o botão.

Estática.

Outra frequência.

Estática.

Mais um giro.

De repente, uma vinheta cortou o chiado.

“Rede Nacional de Radiodifusão — transmissão obrigatória do Governo Federal.”

Os dois ficaram imóveis.

Então veio uma voz.

Calma.

Grave.

Extremamente controlada.

— Bom dia, cidadãos brasileiros.

06:00 — Apartamento na Zona Sul

Henrique e Camila estavam sentados no sofá.

A televisão ligada.

Todos os canais estavam transmitindo exatamente a mesma imagem.

Um estúdio simples.

Uma estante cheia de livros.

Uma bandeira do Brasil à direita.

O brasão da República à esquerda.

No centro, sentado atrás de uma mesa escura:

General Von Humberg.

Uniforme impecável.

Olhos cansados.

Ele começou a falar.

— Bom dia, cidadãos brasileiros.

Camila apertou o controle remoto.

— É ele…

Henrique não respondeu.

06:00 — Apartamento da Vila Mariana

Lucas desligou o filme no streaming.

Agora a televisão transmitia apenas o pronunciamento.

Ele aumentou o volume.

O general continuou.

— É com enorme pesar que trago uma notícia nada auspiciosa…

Ele pausou.

Como se estivesse escolhendo as palavras.

— …e que revelará um destino desconcertante e muito sofrido para todos nós nos próximos anos.

Lucas se inclinou para frente no sofá.

06:01 — Rádio da viatura

A voz do general saía levemente comprimida pelo áudio da rádio.

Mas perfeitamente audível.

— Durante a madrugada de hoje ocorreu um evento que já entra para a história humana como o início e fim da Terceira Guerra Mundial.

Frias olhou para Matos.

Nenhum dos dois falou.

— Uma troca massiva de armas nucleares ocorreu entre grandes potências do hemisfério norte.

A rua parecia normal.

Mas dentro da viatura o ar parecia mais pesado.

— As informações ainda são escassas.

A voz continuou.

— No entanto, os dados iniciais indicam que os Estados Unidos, a Federação Russa e grande parte da Europa Ocidental foram atingidos por múltiplos ataques balísticos intercontinentais.

Frias sussurrou:

— Meu Deus…

06:02 — Televisão

O general mantinha a postura rígida.

— A troca de ogivas nucleares parece ter durado aproximadamente quinze minutos.

Henrique falou baixinho:

— Quinze minutos…

— Algumas ogivas de menor impacto também atingiram regiões do norte da China.

Camila cobriu a boca.

— Ainda não sabemos quantos milhões — ou dezenas de milhões — de pessoas morreram nas primeiros minutos do conflito.

06:03 — Viatura

O rádio chiou brevemente.

Mas a voz continuou firme.

— As consequências imediatas, contudo, vão muito além das explosões.

Matos apertou o volante.

— A quantidade de poeira, fuligem e aerossóis lançados na atmosfera provavelmente cobrirá o sol em grande parte do planeta.

Frias murmurou:

— Vai esfriar…

— As projeções iniciais indicam que essa nuvem atmosférica poderá persistir por dez… ou até quinze anos.

06:04 — Apartamento da Vila Mariana

Lucas estava completamente imóvel.

O general prosseguiu.

— O hemisfério norte será o mais afetado.

— Mas o hemisfério sul também sofrerá quedas significativas de temperatura.

Imagens começaram a aparecer discretamente no canto da tela.

Mapas climáticos.

Modelos atmosféricos.

— Falhas massivas de colheitas são esperadas em escala global.

— A logística internacional entrará em colapso nas próximas semanas.

06:05 — Rádio da viatura

— O Brasil, neste momento, declara oficialmente estado de guerra.

Frias soltou o ar devagar.

— Mesmo sem entrar na guerra…

Matos respondeu:

— Isso dá poder total pro governo.

Como se o general estivesse ouvindo.

— Mesmo que o Brasil não tenha sido diretamente atacado, a situação global exige mobilização nacional absoluta.

06:06 — Televisão

O general juntou as mãos.

— O governo federal está, neste momento, assumindo controle estratégico de recursos essenciais para a sobrevivência da nação.

A tela mostrou documentos sendo assinados.

— Serão decretados atos institucionais emergenciais.

A lista apareceu.

AI-1: suspensão temporária de eleições.

AI-2: controle federal sobre produção agrícola.

AI-3: mobilização obrigatória de trabalhadores estratégicos.

AI-4: censura informacional total em tempo de guerra.

AI-5: suspensão de direitos de propriedade de grandes latifúndios para controle alimentar nacional.

AI-6: controle estatal sobre distribuição de combustível.

Henrique ficou pálido.

— Eles estão estatizando tudo…

Camila respondeu:

— Eles estão tentando evitar fome.

06:07 — Pronunciamento

O general continuou.

— Antecipando o risco de uma guerra global, o governo brasileiro acumulou nos últimos anos reservas estratégicas de sementes adaptadas a climas temperados e continentais.

Mapas agrícolas apareceram.

— Essas sementes permitirão a adaptação da agricultura nacional a cenários de queda brusca de temperatura.

Lucas murmurou:

— Desgraçados... Eles sabiam!

06:08

O general parecia mais cansado agora.

— Cidadãos brasileiros…

Ele respirou fundo.

— Os próximos anos serão difíceis.

— Muito difíceis.

— Mas o Brasil sobreviveu a muitas crises ao longo de sua história.

— E sobreviverá novamente.

06:09

A transmissão mudou.

Agora surgiam vídeos.

Granulados.

Baixa resolução.

Restos do que ainda funcionava da internet mundial.

Uma cidade.

Sirene.

Um clarão no horizonte.

Depois um cogumelo nuclear subindo lentamente.

Outro vídeo.

Uma metrópole distante.

Luzes.

Depois uma esfera branca engolindo tudo.

Outro.

Uma câmera tremendo.

Pessoas correndo.

Alguém gritando em uma língua que ninguém ali entendia.

06:10

Na viatura, Frias desligou o rádio.

Devagar.

A rua estava exatamente igual.

Padaria aberta.

Um ônibus passando.

Uma mulher levando um cachorro para passear.

Mas agora tudo parecia diferente.

Matos falou baixo.

— O mundo acabou…

Frias respondeu:

— Não.

Ele olhou para o céu claro da manhã.

— O mundo continua.

Ele fez uma pausa.

— Só que agora é outro.

[CONTO] First Hours - Parte 2

 04:41 — 34ª Delegacia de Polícia, Zona Leste de São Paulo

O silêncio na sala tinha acabado.

Agora havia barulho de cadeiras arrastando, gavetas abrindo e policiais falando ao mesmo tempo.

— Meu celular também recebeu isso — disse um investigador no fundo da sala.

— O meu também.

— O meu veio como alerta presidencial.

Gouveia olhou em volta.

Quase todos estavam olhando para os próprios celulares.

A mesma mensagem.

ALERTA NACIONAL

Ligue a televisão às 06:00

Comunicado emergencial do Governo Federal

Farias coçou a barba.

— Cara… isso não é exercício.

Um policial mais velho levantou-se da cadeira.

— Exercício não envolve IA confirmando matrícula.

Outro policial, ainda meio sonolento, perguntou:

— O que ela falou exatamente?

Gouveia respondeu:

— Disse que tem conflito nuclear no hemisfério norte.

A sala ficou quieta.

— Nuclear? — alguém repetiu.

— Foi a palavra que ela usou.

O delegado plantonista apareceu na porta da sala, vestindo o paletó às pressas.

— Todo mundo armado e nas viaturas.

Os policiais olharam para ele.

— Instrução federal — continuou. — Vamos fazer ronda no bairro inteiro.

— Ronda pra quê?

— Pra acordar a população.

Alguns riram.

Achando que era piada.

O delegado não riu.

— Porta em porta.

Agora ninguém riu.

— Avisem que às seis da manhã vai ter pronunciamento obrigatório.

Farias pegou as chaves da viatura.

— Parece filme ruim.

Gouveia respondeu:

— Filme ruim não liga pra delegacia com IA do governo.

04:55 — Ruas da Zona Leste

As primeiras viaturas começaram a circular.

Luzes azuis piscando.

Sem sirene.

A cidade ainda estava mergulhada na madrugada.

Padarias começando a abrir.

Alguns ônibus noturnos passando.

Mas a maioria das casas ainda estava completamente escura.

Os policiais começaram a bater nas portas.

TOC TOC TOC

— Polícia!

Dentro de uma casa, uma voz irritada respondeu.

— Que foi?!

— Polícia civil! Precisamos que o senhor ligue sua televisão às seis da manhã!

Silêncio.

Depois:

— Vocês estão me acordando pra isso?!

O homem abriu a porta só o suficiente para olhar.

— Alguma coisa aconteceu?

O policial respondeu:

— Possível conflito internacional.

— Que conflito?

O policial hesitou.

— Guerra.

— Guerra onde?

— Mundial.

O homem ficou olhando para ele.

Depois riu.

— Ah, vai dormir, meu amigo.

E fechou a porta.

Em outra rua, a reação foi pior.

Uma senhora abriu a janela do segundo andar.

— Vocês estão malucos?!

— Senhora, por favor, ligue a televisão às seis.

— Eu tenho que acordar às cinco pra trabalhar!

— É importante.

— Importante como?

O policial respirou fundo.

— Há possibilidade de guerra nuclear.

A mulher ficou em silêncio.

Depois respondeu:

— Isso é alguma pegadinha?

A janela fechou.

05:07 — Limite de jurisdição

O investigador Matos estava em uma das viaturas mais afastadas da delegacia.

As ruas estavam cada vez mais vazias.

O bairro já quase acabava.

Quando ele viu luzes azuis piscando do outro lado da avenida.

Outra viatura.

De outra delegacia.

As duas pararam quase ao mesmo tempo.

Matos saiu do carro.

O outro policial também.

— Que DP vocês são? — perguntou Matos.

— 41ª.

— Ah.

Eles ficaram se olhando por um segundo.

O outro policial perguntou:

— Vocês também receberam a ligação?

Matos assentiu.

— IA do governo?

— Confirmando matrícula e tudo.

— Mesma coisa.

O vento frio da madrugada passou pela rua vazia.

Um dos policiais da outra viatura disse:

— Cara… o que tá acontecendo?

Matos deu de ombros.

— A ligação falou de conflito nuclear.

Os outros policiais ficaram imóveis.

— Nuclear?

— Foi a palavra.

Um deles passou a mão no rosto.

— Então é verdade…

— O quê?

— A gente estava ouvindo rumores.

— Que rumores?

O policial respondeu baixo:

— Que o mundo estava prestes a explodir.

Matos olhou para a rua silenciosa.

A cidade ainda dormia.

Carros estacionados.

Luzes apagadas.

Pessoas completamente alheias.

— Parece que já explodiu — disse ele.

05:18 — Mais uma rua

Outra casa.

Outro morador acordado à força.

Um homem abriu a porta furioso.

— Vocês não têm o que fazer?!

— Senhor, precisamos que ligue a televisão às seis da manhã.

— Pra quê?

— Pronunciamento do governo.

— Do governo de quem?

O policial respondeu automaticamente.

— Do governo federal.

O homem bufou.

— Ah, claro.

Ele cruzou os braços.

— Mais um discurso do Von Humrberg?

Ninguém respondeu.

O homem continuou.

— Vocês sabem que metade do que aparece na TV é filtrado, né?

Silêncio.

O policial respondeu:

— Mesmo assim o senhor precisa assistir.

— Por quê?

O policial hesitou.

Então disse:

— Porque parece que começou uma guerra mundial.

O homem olhou para ele.

Sem expressão.

Depois deu uma risada curta.

— Guerra mundial?

Ele apontou para a rua silenciosa.

— Aqui?

— Não.

— Então boa noite.

E fechou a porta.

05:26 — Dentro da viatura

Matos dirigia lentamente.

O parceiro olhava o celular.

— Nada na internet.

— Bloqueio?

— Provavelmente.

Isso já tinha acontecido antes.

Desde que o general Von Humberg assumira o poder quatro anos antes, o controle de informação era brutal.

Sites caíam.

Redes sociais desapareciam.

Notícias internacionais chegavam filtradas.

A maioria da população só sabia o que o governo decidia mostrar.

O parceiro de Matos falou:

— Se isso for verdade…

— O quê?

— Guerra nuclear.

Ele olhou pela janela.

As ruas ainda pareciam normais.

Padarias abrindo.

Algumas pessoas caminhando.

Um ônibus passando.

— A gente devia estar vendo alguma coisa diferente, né?

Matos respondeu:

— Talvez o resto do mundo esteja vendo.

05:41

As viaturas continuavam circulando.

Bairro após bairro.

Rua após rua.

Porta após porta.

Acordando pessoas.

Irritando moradores.

Confundindo todo mundo.

E enquanto São Paulo lentamente começava a despertar…

Ninguém ali ainda entendia.

Que as primeiras bombas nucleares já tinham caído horas antes.

[CONTO] First Hours - Parte 1

 04:07 — 34ª Delegacia de Polícia, Zona Leste de São Paulo

O barulho do ventilador antigo girando no teto era constante, quase hipnótico.

A madrugada em São Paulo tinha aquele silêncio estranho que só existia entre quatro e cinco da manhã. A cidade ainda não tinha acordado, mas também não estava completamente adormecida.

O agente Gouveia digitava lentamente.

O relatório aberto no computador já estava quase terminado. Era sobre um sequestro que havia terminado bem — algo raro o suficiente para deixar qualquer policial satisfeito.

O sequestrador tinha sido preso na tarde anterior em Guarulhos. A vítima, um comerciante, já estava em casa com a família. Restava apenas a burocracia.

Gouveia esfregou os olhos e continuou digitando.

“Indivíduo detido às 15h42… arma apreendida… vítima localizada sem ferimentos…”

Do outro lado da mesa, o investigador Farias estava inclinado para trás na cadeira, navegando em alguma página esportiva no computador.

— Você viu a tabela do Brasileirão? — disse ele.

Gouveia não tirou os olhos da tela.

— Nem começou ainda direito.

— São Paulo e Inter semana que vem.

Isso fez Gouveia parar por um segundo.

— Clássico dos anos 2000…

Farias riu.

— Bons tempos.

Ele girou a cadeira.

— 2005, 2006, 2008… São Paulo dominando. Inter também forte. Libertadores boa de assistir.

— Hoje em dia — disse Gouveia — é só Flamengo e Palmeiras.

— Ninguém aguenta mais.

— Concordo.

O ventilador continuava girando.

Um policial dormia numa cadeira no fundo da sala, boné sobre o rosto.

Outro mexia no celular.

Era uma madrugada comum.

Até o telefone tocar.

O toque estridente ecoou pela delegacia quase vazia.

Gouveia franziu a testa.

— Quem liga pra delegacia às quatro da manhã…

Ele atendeu.

— Trigésima quarta DP, agente Gouveia.

Por um segundo houve silêncio.

Então uma voz respondeu.

Mas não era humana.

Era perfeitamente articulada, neutra, sem emoção.

Uma voz de inteligência artificial.

— Confirmação de identidade requerida.

Gouveia piscou.

— Como?

— Agente policial civil: Gouveia. Matrícula final 4921. Confirma?

Ele ficou imóvel.

— ...Confirmo.

Farias levantou a cabeça.

— Que foi?

A voz continuou.

— Esta comunicação é emitida em nome do Governo Federal da República Federativa do Brasil.

Gouveia colocou a mão no telefone, sinalizando silêncio.

— Unidade receptora confirmada: 34ª Delegacia de Polícia Civil do Estado de São Paulo.

A voz começou a listar dados.

— Endereço institucional… bairro… registro estadual… CNPJ… jurisdição territorial…

Farias agora estava em pé.

Algo estava errado.

Muito errado.

— Agente Gouveia, o senhor está autorizado a receber instruções emergenciais nível federal.

O policial sentiu um frio subir pela espinha.

— Pode falar.

A resposta veio imediatamente.

— Às 06:00 horas da manhã será transmitido um comunicado emergencial obrigatório em todos os canais de televisão e rádio do território nacional.

Gouveia franziu a testa.

— O que aconteceu?

A IA ignorou a pergunta.

— Todas as unidades policiais devem iniciar rondas imediatas em suas áreas de cobertura.

— Rondas…?

— Objetivo: acordar a população civil.

Farias aproximou-se devagar.

— Bater de porta em porta se necessário.

Agora o silêncio na delegacia era total.

— Instrução a ser transmitida à população:

A voz pausou por meio segundo.

— “Liguem a televisão às seis da manhã. Em qualquer canal.”

Gouveia sentiu o coração acelerar.

— Isso é algum exercício?

A resposta veio sem emoção.

— O Governo Federal declarou estado de guerra em todo o território nacional.

O ventilador continuava girando.

Mas ninguém respirava.

— Guerra…? — murmurou Farias.

A IA concluiu:

— O estado de guerra foi ativado para assegurar ampliação imediata dos poderes federais em cenário de conflito global em andamento.

Gouveia apertou o telefone.

— Que conflito?

A resposta veio clara.

Fria.

— Conflito nuclear confirmado no hemisfério norte.

A linha ficou muda.

E a chamada encerrou.

04:19 — Apartamento na Zona Sul

Camila acordou primeiro.

O celular vibrando na mesa de cabeceira fazia um barulho irritante contra a madeira.

Ela abriu os olhos devagar.

— Henrique… seu celular…

Henrique estava completamente apagado.

Ela pegou o aparelho.

A tela mostrava algo estranho.

Não era WhatsApp.

Não era SMS.

Era um alerta do governo.

A mensagem tinha apenas uma frase:

ALERTA NACIONAL

Ligue sua televisão às 06:00.

Camila piscou.

— Que porra é essa…

Henrique abriu um olho.

— Que horas são?

— Quatro e vinte.

Ele fechou o olho de novo.

— Então ignora.

Mas o celular vibrou novamente.

Agora o telefone dele também.

E depois o tablet na sala.

Henrique sentou na cama.

— Tá…

Ele pegou o celular.

A mesma mensagem.

Idêntica.

Sem explicação.

Sem link.

Sem nada.

Camila olhou para ele.

— Isso é golpe?

Henrique coçou a cabeça.

— Não faço ideia.

O silêncio voltou ao quarto.

Lá fora, São Paulo ainda estava dormindo.

04:32 — Apartamento pequeno, Vila Mariana

Lucas não conseguia dormir.

De novo.

A insônia tinha virado rotina.

Ele estava no sofá, com uma coberta nas pernas, assistindo um filme antigo no streaming.

Um thriller policial dos anos 90.

A luz azul da televisão iluminava a sala escura.

A cidade lá fora estava silenciosa.

De repente:

VIBRAÇÃO

O celular na mesa de centro acendeu.

Lucas pegou o aparelho.

A mensagem apareceu na tela.

ALERTA DO GOVERNO FEDERAL

Ele franziu a testa.

Leu.

Uma vez.

Depois outra.

“Ligue sua televisão às 06:00.

Comunicado emergencial nacional.”

Lucas deu uma risada curta.

— Que estranho.

Ele desbloqueou o celular.

Foi procurar notícias.

Nada.

Twitter.

Nada.

Sites de jornal.

Nada.

O filme continuava rodando na TV.

Um personagem gritava em uma perseguição de carro.

Lucas olhou pela janela.

A cidade parecia normal.

Mas algo dentro dele dizia que alguma coisa tinha mudado.

Algo grande.

Algo que ainda ninguém estava vendo.

Ele pegou o controle remoto.

E aumentou o volume da televisão.

Como se isso fosse, de alguma forma, ajudar.

sábado, 13 de dezembro de 2025

[CONTO] Turning Point

23 de Abril de 2059: 23:39


O vidro não se partiu de imediato.

Primeiro veio o som — um estalo grave, quase elegante — e só depois a explosão branca.

Dois mechas emergiram do céu como espectros mecânicos, soltando-se dos helicópteros em pleno ar. Caíram de joelhos contra as vidraças da VxS Tower, atravessando o prédio como lâminas de porcelana armada. O impacto esmagou câmeras, tripés, corpos. Repórteres e jornalistas desapareceram sob toneladas de liga branca antes mesmo de entenderem o que estava acontecendo. O noticiário virou ruído. O chão virou silêncio.

Gritos. Alarmes. Fumaça.

Os seguranças de Valex Junior reagiram por instinto — um enxame humano formando um casulo em torno dele. O puxaram pelos braços, empurrando-o para a saída principal, como se a pressa pudesse reescrever o protocolo.

Debaixo das cadeiras tombadas da sala de convenções, Motoya rastejava com dificuldade, o vestido rasgado, os olhos atentos demais para o caos. Ela se inclinou para Caio, a voz baixa, urgente:

— Eu baixei a planta do prédio… é um arquivo público, da Biblioteca Histórica de Valex City. Em caso de ataque, o protocolo manda sair por uma porta secreta atrás da cortina do palco.
(pausa, o som distante de tiros)
Tem algo errado, Caio. Muito errado.

Caio engoliu em seco.
Tudo dentro dele girava em torno de um único eixo: Susi.
Susi de volta.
Motoya viva, como uma irmã mais nova doce que ele nunca teve. A Bruna era maluca demais para preencher aquele vácuo do jovem Caio desesperado por alguém que pudesse proteger e mimar. Bruna nunca tinha precisado de proteção. Em geral, ele é que precisava proteger os outros da Bruna. 
A família que ele já havia construído dentro da própria cabeça não podia ruir ali.

Ele ergueu o olhar e então viu.

Rade Brunner. Ou melhor — PeaX.
Ela conduzia Archibald Reese pelo mesmo corredor por onde Valex Junior era evacuado. Caio assoviou — um som agudo, cortante, quase animal.

— TIRA A MOTOYA DAQUI! — gritou.

PeaX virou-se num reflexo. Estendeu a mão. Puxou Motoya para junto de si com força, tirando-a de debaixo de pilhas de cadeira enquanto os mecas avançavam esmagando jornalistas e socialaites.

— Tem uma saída de emergência atrás da cortina… — Motoya tentou explicar, ofegante.

— Não. — Reese cortou, seco. — Essas saída são mapeadas em arquivos que são públicos. A VxS Tower é patrimônio histórico. A Hard Light conhece essa saída e certamente montou uma interceptação. Provavelmente a equipe de segurança pessoal de Valex Junior sabe disso e tem um plano de contingência.
(apontando para baixo)
Vamos para a passarela do 40º andar. Ela liga a torre ao prédio da SonySoft. É a melhor chance dos civis escaparem.

Motoya, surpresa, quase sendo arrastada por PeaX, assentiu em silêncio.

— PeaX — disse Reese, mudando o tom — ajude a retirar os civis.

Ela hesitou.
Era o mesmo homem que tentara afastá-la para protegê-la.
Agora pedia que ficasse na zona de combate.

— Preciso acessar os servidores da VxS Tower — continuou ele. — Há drones de defesa embutidos nas paredes. Eles deveriam ter sido ativados. Se não foram, a segurança do prédio já foi comprometida, Adrian está dependente de seus seguranças pessoais, o que é desnecessário dizer, insuficiente. Eu preciso assumir o controle.

Motoya respirou fundo.

— Vai precisar de uma webrunner.

Reese fechou os olhos por um instante.

— Droga. Maldita hora em que aceitei a demissão da NETalie…

— Eu sou webrunner — disse Motoya. — Posso ajudar. E sei onde fica a sala, li os arquivos públicos.

— Ótimo. — Reese assentiu. — Vamos.

PeaX soltou a mão de Motoya. Ela correu à frente, guiando Reese pelos corredores laterais.

Atrás de uma pilastra estilhaçada, protegidos do fogo cruzado, Reese e PeaX ficaram por um segundo a mais — tempo suficiente para que o mundo se calasse entre eles.

— Ajude as pessoas — disse ele. — E me encontre na passarela.

— Por quê? — ela perguntou, a voz trêmula. — Por que agora?

— Porque eu aprendi com meu erro. — Reese sorriu, cansado. — Não vou ser paternalista de novo. E sem você… eu sou mais fraco.
(pausa)
Nada disso faz sentido se não for pra ajudar as pessoas.

— Archie… — PeaX começou.

— Eu te amo. — Ele se inclinou, rápido, urgente. — Tome cuidado.

O beijo foi breve, desesperado, real demais para aquele cenário de aço e fumaça.
Então Reese se afastou, correndo na direção de Motoya.

PeaX respirou fundo, virou-se para o caos —
e correu para salvar quem ainda podia ser salvo. Ela viu Reyna se posicionar na frente de Akira, nos olhos dela a disposição de proteger a chefe de polícia. Imediatamente percebeu uma replorgue bem vestida do lado do que parecia ser a irmã de Hanzo Hasashi, a replorgue esguia de cabelos longuíssimos, abrigava a menina com o próprio corpo, elas saiam do meio de uma chuva de balas das forças da VxS que chegaram pela porta de saída pra conter os invasores. 3 soldados da guarda de elite da VxS Tower e pelo menos 2 SpecOps da General Security. 

A replorgue topou de cara com 4 soldados da Hard Light, os invasores, e teria sido baleada e morta junta com a irmã de Hanzo, se não fosse Kicilov arrancando o coração de um deles com a mão, e arrancando a cabeça de outro com a outra. Imediatamente, os fuzis que apontavam para as duas fugitivas, se viraram para o líder dos ST4L1N, ele tomou três tiros, mas resisitiu como se não fosse nada. Pegou os dois atiradores restante e arremessou pela janela do 80º andar em chamas como se fossem crianças.

— Sigam, senhoritas! Protejam-se!  - Exclamou o replorgue comunista mostrando a saída.

Distante dali:

Roxxy dormia pesadamente quando sentiu o empuxo de uma mão puxá-la das profundezas do sono. Um som disforme, como se viesse de um encanamento emanava da HoloTV.

— Acorda, Roxxy! - Era a voz de Markus Kyle

— Caralho! Que porra é essa!? - Roxxy acordava grogue pelo tombo, pela bebedeira, pela noite caótica, seu corpo desvestido debaixo de um fino lençol ainda estava dolorido.

— A HoloTV! - A voz de Markus Kyle soava emergencial.

Roxxy se sentou na cama prendendo o lençol ao corpo com o antebraço que ainda tinha ralados cobertos por cascas de nanobots, que formavam o padrão geométrico de transistores. Ela estreitou os olhos e depois esfregou-os com os punhos.

— A VxS Tower está sob ataque. - Markus Kyle se vestia as pressas.

Roxxy então prestou atenção na notícia da VXC News.

"Estamos ao vivo sobrevoando o Centro Financeiro de Valex City, por ordem do conselho de acionistas da ValexSynthesis o espaço aéreo de Valex City foi fechado. Nós estamos aqui enquanto ninguém nos retira a força, o que é uma mera questão de tempo. Mas a Guerra Civil Corporativa atinge seu ápice com um ataque coordenado da Hard Light e da ex-ghostcorp BioSynthesis contra a VxS Tower, o símbolo do poder corporativo mundial. As informações relatam pelo menos 90 mortos até o momento."

Roxxy então, viu perplexa, a torre de leds coloridos, em chamas no terraço, os vidros do andar da sala de conferências em chamas, e pessoas se jogando desesperadas do último andar para escapar das chamas. Muitos funcionários menores, copeiros, garçons, zeladores, gente desimportante demais para que a GS desse atenção. Eles - é obvio - estavam protegendo as grandes fortunas da cidade. Roxxy estava vendo um golpe administrativo, muito possivelmente, uma tentativa desesperada de remover Adrian Valex e assassinar Kicilov e Archibald Reese. 

— Ô seu palerma, porque você tá botando a roupa? - Gritou Roxxy.

— Você não está em condições de dirigir depois do tombo que tomou. Já pedi meus assessores pra mandar um VTOL... E você provavelmente vai lá ajudar seus amigos, então... Deixe-me pelo menos dirigir.

Roxxy levantou-se, rapidamente, engatando-o pela gola da camisa amarrotada e dando uma rasteira nele, arremessou-o sobre a cama.

Kyle ficou surpreendido e em choque. Roxxy subiu sobre ele, deu-lhe um leve beijo e com olhar malicioso sorriu.

— Ás suas ordens, Roxxy — Finalmente Markus falou algo.

— Assim que eu gosto. — Roxxy respondeu. — Você é um amor, Kyle... Quando é um bom menino, obediente... — E deu um sorriso malicioso. — Deixa que eu me viro... Mas você ganhou pontos comigo depois de se preocupar com esses detalhes. Eu não preciso estar lá para acabar com isso ainda hoje. Vou ligar pra "mamis"... Ela vai saber o que fazer...

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

[CONTO] True Talk, Trash Talk

22 de Abril de 2059 às 00h

A chuva batia lentamente contra os vidros fumê da casa em Templeton Hill, escorrendo em linhas tortas que refletiam o brilho distante do centro financeiro do outro lado do rio Valex. A ponte Ahmed cintilava sob o mau tempo, como se cada luz tentasse respirar no meio da neblina.

Archibald Reese estava sentado na velha cadeira de couro negro, o corpo ligeiramente curvado para frente, os dedos entrelaçados, o rosto cansado. O livro aberto sobre a mesa estava virado de cabeça para baixo — ele não lia havia horas. Só observava a chuva. Só tentava, no silêncio, fazer as pazes consigo mesmo.

Foi quando sentiu o toque leve dos passos dela.

Peax apareceu na porta da sala como um vulto terno, misto de sombra e luz. Seu cabelo branco brilhava sob o reflexo das lâmpadas quentes. Ela o analisou por um instante — aquele homem enorme, carregando dentro do peito algo muito mais pesado que o seu porte físico sugeria.

Sem dizer nada, caminhou até ele, subiu devagar sobre o colo dele e se ajeitou como se aquele lugar sempre tivesse sido seu. Reese quase prendeu a respiração.

— Você voltou… — ele murmurou, a voz mais baixa que o som da chuva.

— Voltei — sussurrou Peax, inclinando-se para beijar seus lábios.

O beijo foi leve, contido, como se ela precisasse provar que ele ainda era real. As mãos de Reese subiram pelas costas dela, puxando-a com cuidado, com medo de quebrá-la, com medo de quebrar o momento.

— Eu não sabia onde estava com a cabeça quando deixei você ir, Peax — disse ele, enfim.

Ela encostou a testa na dele.

— Eu te perdoo. Todos têm medo.

— Você teve medo de que eu ficasse sozinho — respondeu Reese.

— Tive — admitiu ela. — E você? Teve medo de quê?

— Dos meus próprios devaneios.

Peax ergueu o rosto devagar, como se buscasse algo nas pupilas dele.

— Você acha que eu não enfrentaria uma bala por você? — ela provocou.

Reese sorriu de lado, triste.

— Você enfrentaria. É isso que me assusta.

— E você? — a voz dela ficou baixa, um fio de seda. — Faria o mesmo por mim?

Ele inspirou.

— Sim. Sem hesitar.

Peax acomodou a cabeça no ombro dele.

— Então não se subestime — murmurou. — Somos iguais.

Eles se beijaram novamente, dessa vez mais devagar, como se estivessem aprendendo o tempo um do outro. O mundo lá fora ficou suspenso entre trovões e silêncios.

Depois de alguns minutos, Peax virou o rosto para a janela.

— Hum… falando em julgar pessoas — ela começou, com a voz distraída — eu gosto da Roxxy. Ela é incrível. Genial. E eu acho que você fez certo em dar espaço para ela na NeuralDesk.

Reese soltou um suspiro profundo.

— Roxxy e eu pensamos diferente — disse ele.

— Diferente como? Ética? Ciência?

— Não — ele sorriu com um cansaço antigo. — Diferente sobre sociedade. Sobre o que o mundo nos força a ser.

Peax ficou pensativa, inclinando a cabeça.

— Mas… você acha mesmo que vocês são parecidos?

— Essencialmente, sim.

— Por quê?

Reese fechou os olhos por um instante, procurando as palavras certas.

— Porque tanto eu quanto ela acreditamos que a ciência é um dom, Peax. Uma virtude humana. A mais frágil, a mais infantil, a mais preciosa. É o que nos separa da barbárie. É o que faz uma mãe poder segurar o filho que deveria ter morrido. É o que nos permite olhar as estrelas sem medo. É o que faz alguém tentar curar o Alzheimer mesmo sabendo que talvez não haja cura.

Peax sorriu de leve, emocionada.

— Ok… eu vejo isso nela. Mas você sabe. Ela ainda tem aquela visão mecanicista dos replorgues…

— Ela é jovem — disse Reese. — Tem muito tempo para se frustrar e aprender... E o problema nunca foi a ciência. O problema é o mundo à volta dela.

Ele respirou fundo. Um silêncio pesado caiu entre os dois — o tipo de silêncio que precede verdades dolorosas.

— Peax… quando um cientista se forma nas grandes universidades de Valex City, ele sonha alto. Quer curar o câncer. Criar vida. Resolver a morte. E as corporações…

— Capturam tudo, né? — completou ela.

— Tudo — confirmou Reese. — Elas olham para nossos sonhos e dizem “Nós financiamos. Nós acreditamos em você”. Então, quando a pesquisa começa a avançar… alguém do topo aparece dizendo que é preciso mudar a direção. Que os acionistas querem resultados rápidos. Que o neurobot para Alzheimer agora precisa virar um instrumento de controle. E se você não aceita…

— Você perde tudo — murmurou Peax.

— Sim. E aí você cede. Só por um pouco. Só até garantir a segurança dos seus filhos. Só até pagar as dívidas estudantis. Só até não perder tudo o que construiu.

— E esse “só até”… nunca acaba — concluiu ela.

Archibald assentiu, sombrio.

— E de repente o aparelho que você criou para curar o cérebro de uma criança… termina na cabeça de uma garota de cabelos roxos… que corta os pulsos em uma banheira. Foi assim que o sistema sempre operou.

Peax fechou os olhos por um momento, sentindo o peso da confissão.

— E Roxxy? — perguntou. — O que você quer com ela?

— Quero que ela me ajude a provar a Lei de Woo-Reese... E... Acho que também quero dar a ela a chance que eu não tive — respondeu Reese. — Aqui na NeuralDesk, Peax, nossa margem de lucro é pequena. Poderia ser cem vezes maior se fabricássemos armas ou ferramentas de controle. Mas eu preferia falir tentando fazer o certo… do que morrer sabendo que traí tudo em que acredito.

Peax então o encarou com uma suavidade rara, quase triste.

— Então… você não está salvando só a ciência.

— Não.

— Você está salvando ela.

Reese baixou o olhar.

— Estou tentando dar a ela o futuro que roubaram de mim. Que roubaram do Pável.

Peax sorriu, acariciando o rosto dele.

— Archie… você é tão triste que chega a ser brilhante.

— E você é a única pessoa que ainda vê luz em mim.

— Alguém precisa ver — ela disse. — Afinal… se a vida é breve, como você mesmo disse, tudo o que podemos fazer… é tentar ser melhores uns com os outros.

Reese puxou-a para mais perto.

Peax repousou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater como um motor cansado que ainda teima em funcionar.

A chuva continuava do lado de fora.

E, pela primeira vez em meses, Archibald Reese não sentiu medo do futuro — apenas a melancolia doce de quem sabe que ainda é capaz de amar… e de tentar salvar alguém do mesmo abismo que quase o consumiu.

sábado, 22 de novembro de 2025

[CONTO] O Solilóquio de Reese

Sabe… às vezes eu penso que nós passamos a vida inteira

tentando enganar a única coisa que nunca nos abandona:

nós mesmos.

Eu vi homens tentando domar a morte como quem tenta fechar a mão sobre o vento…

Vi corpos duplicados como arquivos, cérebros copiados como versões de software, pessoas acreditando que poderiam escapar da verdade mais antiga do universo.

Mas… não importa quantas memórias você transfira, não importa quantas máquinas você construa… a experiência — esse olhar silencioso que testemunha o mundo de um único ponto no tempo — isso você não copia. Isso não viaja. Isso não renasce no corpo de outro.

Eu vi consciências artificiais sentindo dor real.

Vi autômatos tremendo diante da escuridão como qualquer criança humana.

Vi faíscas do nascimento de uma alma… onde diziam que só havia progrmação.

E vi homens poderosos…

rezando para um espelho digital acreditando que poderiam enganar a morte

enquanto já estavam mortos por dentro. Sabe o que aprendi, depois de tudo isso?

A morte não é o inimigo.

O inimigo é a mentira que nos faz esquecer

que cada instante é único —

porque é vivido por alguém que nunca existiu antes

e nunca existirá de novo.

Só se vive uma vez, então, por que gastar seus dias e seus momentos odiando pessoas que você nem conhece? Se a vida é um breve testemunhar do que há entre infinitudes de nada antes e depois de nós, por que gastar esse breve momento deixando-se afetar pelo ódio? Aproveite a vida, memento mori,

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

[CONTO] Ozzymandias

Valex City, 20 de Abril de 2059 - 00:00

A casa em Templeton Hill estava silenciosa, iluminada apenas pela luz opaca que atravessava as cortinas translúcidas. Lá fora, a névoa se apoiava nos telhados como um animal adormecido, e o som do vento contra o vidro parecia mais um lamento distante.

Rade caminhava pela sala de estar com passos leves. Silenciosos demais para alguém da DSM. —mas exatamente como PeaX se movia. Ela conhecia cada textura daquela casa, cada tábua que fazia ruído, cada canto onde a luz falhava. E lá estava ele, sentado no sofá de couro preto, o corpo inclinado, um livro aberto entre as mãos.

Macbeth, de William Shakespeare.

A tragédia refletia nos olhos dele como se estivesse sendo projetada diretamente em sua alma.

— Archie… — ela engoliu o deslize — Digo, senhor Reese…

Reese ergueu os olhos devagar, sem marcar a página. Ele já tinha memorizado o trecho.

— Roxxy acabou de me informar que o Caio foi atacado e ferido pela BioSynthesis.
— O bunker dele foi destruído. Alguns dos soldados morreram.

A expressão de Reese contraiu levemente, como se tivesse recebido um golpe preciso.

— Como ele está?

— Sendo cuidado diretamente pela Roxxy na A-Verheyen. Ela cruzou as mãos atrás do corpo, postura militar impecável. — Ela conseguiu estabilizá-lo e implantou uma perna biônica.

Reese soltou um ar que parecia metade preocupação, metade alívio.

— Ótimo.
Fechou o livro com uma mão e encostou-o ao lado.
— Coloque todo o tratamento na conta da NeuralDesk. E informe a ele, através da Roxxy, que quaisquer danos materiais serão cobertos pelo orçamento da empresa.

Rade se aproximou mais um passo.

— O blindado ainda está operacional, mas severamente danificado.

— Contrate um mecânico.
Levantou-se, ajeitando o casaco.
— Já encomendei um segundo blindado. Deve estar para chegar.

Ela assentiu, mas não saiu. Ficou ali, observando-o com algo que não era profissional—um cuidado antigo, familiar, quase instintivo. Ela olhava-o como alguém que queria abraçá-lo.

Reese percebeu.

— O que foi, Rade?

Ela respirou fundo, prendeu o ar por um instante e o soltou devagar.

— Apenas me indagando porquê está lendo um clássico.

— Gosto dos clássicos... E além do mais, acabei de ser informado pela Akira Sato… que Shui Hao…
A voz falhou por um instante.
— Que ela está morta.

O silêncio que se seguiu parecia uma lápide caindo.

Rade parou no meio do movimento. Um músculo em seu maxilar tremeu.

— Meu Deus… — ele murmurou. — Mas o que aconteceu?

Reese manteve o olhar firme, Rade também, mesmo que por dentro PeaX estivesse despedaçando-se. Ela não conhecia Shui Hao, mas se compadeceu por ter vivido a mesma coisa que ela. Peax empatizou com a história de Shui contado por Huyang Chin mais cedo.

— Contaram a verdade pra ela. Ela conseguiu um tempo sozinha… e tirou a própria vida.
Ele baixou os olhos.
— Quando perceberam, já era tarde.

Reese fechou a mão em punho—forte.
Tão forte que os estalos ecoaram pela sala como pequenos tiros abafados.

Rade conteve o impulso de tocá-lo.

— O senhor a conhecia? — ela perguntou, com a voz cuidadosamente neutra.

— Não.
Ele caminhou até o bar da sala e serviu-se de um uísque âmbar.
— Mas eu imagino o que o Hanzo deve estar sentindo… e a Akira também.

Rade abaixou um pouco a cabeça.

— O Togall… não é? Você disfarça bem, mas quem o conhece ou presta muito atenção, dá pra ver que por dentro ainda está consumido pela raiva.

— Sim. Isso tem que acabar... 

Ele tomou um gole lento, olhou pela janela, inspirou o cheiro do mundo lá fora como se fosse fumaça de um campo de batalha. A chuva voltava a cair...

— Amanhã é o velório dela...
Virou-se para Rade ao dizer.
— Decidiram enterrá-la, não cremá-la. Uma decisão bela. É uma forma de reconhecer a humanidade daquela pobre criança.

Ele pousou o copo, mas não soltou o livro. Passou os dedos pela capa.

— Rade... Espero que não tenha se chateado por eu ter ido até Kazuma contra suas recomendações.

Rade ergueu o olhar, mas PeaX piscou por trás dos olhos dela.

— Foi só preocupação, Archibald.
O nome escorregou antes que ela pudesse impedir.
— Mas acabou que você estava certo. Já sabe que, se a BioSynthesis descobrir que o Control 2.0 e os Neurobots estão sob sua posse, você vai virar alvo novamente, não sabe?

Reese sorriu, mas era um sorriso frio, calculado.

— Sim… mas eu tive uma bela ideia com a Reyna... E o Hanzo me deu uma boa ideia também... Os dois trabalham muito bem juntos sem nem perceberem...
Voltou a andar pela sala, como um general estudando o terreno.
— Vamos devolver tudo. Vou dizer bem claramente que não tenho interesse na tecnologia e devolver tudinho... Com um vírus. 

Rade estreitou os olhos.

— Um vírus?

— Precisamos de uma webrunner ou hacker nível 5. Capaz de destruir os servidores da BioSynthesis.
Ele pegou o copo de volta, levantou-o levemente como quem faz um brinde à própria insanidade.
— Talvez eu consiga vencer a guerra sem disparar um único tiro.

— Acha mesmo que isso é possível?

Ele parou diante dela.
O ar entre os dois parecia eletrificado.

— Sim, Rade. Verão minha devolução como uma rendição, uma bandeira branca... Vão baixar a guarda...
Reese respirou fundo.
— Acabo de nomeá-la minha nova Fixer.

Ela piscou.

— Fixer… eu?

— Sim... Seu nome já está no site... Quero que procure Harley Crimson, fixer da ValexSynthesis.
A voz dele ficou mais baixa, mais decisiva.
— Quero propor um acordo ao Adrian Valex Junior.

Rayde deu um passo à frente, tentando esconder a perplexidade.

— Que tipo de acordo?

Reese ergueu o copo, como se estivesse fazendo um juramento silencioso ao destino.

— Quero que a ValexSynthesis e a BioSynthesis dividam o mesmo cavalo de troia.
Seu sorriso era sombrio.
— Quando ambas estiverem de joelhos… vou me reunir com Kicilov. E juntos, vamos derrubar a Hard Light. Um tiro... Três coelhos... 

Rade sentiu um arrepio subir pela espinha.

— Você planejou tudo isso?

Reese largou o copo.
O som seco ecoou pela sala.

— Não.
Virou-se com calma.
— Mas o cavalo passou selado… e eu não vou perdê-lo.

Ele apoiou uma mão no ombro dela.

— Akira Sato me ensinou isso. Ela só teve uma chance para resolver o Heist. E aproveitou.

Os olhos dele brilhavam com algo entre fúria e esperança.

— Eu não vou deixar a sorte me escapar. Amanhã mesmo, após o velório, irei com Roxxy até Ostermann Heights, quero colocá-la ajudando Park Woo no projeto HAET, ele é a segunda parte do meu plano... Depois de fazer um ataque poderoso contra todos os três, vou expor a farsa do HCC para o mundo todo.

— Archie... Vão matá-lo! 
— Rade se aproximou vermelha de preocupação.

— Estarei bem guardado.

— Por um gangster perneta e uma gangue de replorgues e motoqueiros comunistas pouco confiáveis?

— Sim... Serei o aríete deles. Depois de verem o meu trabalho, perceberão que precisam de mim.

— Archie, isso é megalomania... Não posso permitir você fazer isso.

Reese riu e citou um poema de Percy Shelley: “Meu nome é Ozzymandias, Rei dos Reis; Contemplai minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”

— Isso é loucura! — Rade já estava a ponto de chorar.

— É o meu testamento para aquela que amo, Rade... Você me sugeriu isso.
— Ela não quer que faça isso... — A voz saiu mais de Peax que de Rade.

— Como você sabe? Nem a conheceu.
— A conheço desde que a libertou e retirou memórias traumáticas da cabeça dela.

Reese se afastou um pouco perplexo:

— Como sabe disso?

Peax develou-se diante dele, quando a máscara de Rade foi retirada. Os cabelos brancos venceram a holografia traseira da máscara, e os olhos vermelhos surgiram com o cair dos cabelos brancos.

— Porque a Peax nunca te abandonaria,...Porque eu te amo... E sei que você me ama... Não quero que morra...

Reese caiu sentado no sofá perplexo... De repente, tudo fazia sentido. Mas ele não se irritou de imediato, ele foi inebriado pelo beijo desesperado da replorgue, e por um cheiro quase metafísico que vinha de Peax. 

08:00



A manhã chegou silenciosa, Reese despertou confuso... Ao seu lado estava PeaX, nua, cabelos brancos repousados sobre seu peito, cabeça sobre seu braço esquerdo levemente dormente. Ela dormia tranquilamente, ele tentava processar tudo. Lembrava-se muito pouco do que ocorrera desde a conversa, mas seu coração pela primeira vez não tinha raiva nem megalomania... Ele deveria se irritar por tudo, mas de alguma forma, estava feliz.

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...