quinta-feira, 30 de outubro de 2025

[CONTO] Shui Hao


Shui Hao deixou os portões da Teller Academy com passos arrastados, seu uniforme de vinil roxo e amarelo, cores do curso de direito corporativo. Ela não conseguia se lembrar direito da última aula. Talvez fosse a longa viagem vinda de Kazuma até o Valex Park. Talvez fosse algo pior.

Quando percebeu, estava na cabeceira da Ponte Ahmed, com o Centro Financeiro ao longe, como torres cinzentas esfumaçadas na névoa. Por um momento ela se perguntou por que estava ali. Mas então recordou.

A maleta.
A entrega.
A voz do pai.

“Shui, querida…”, ela se lembrava com clareza cruel. “Sua estadia e bolsa em Valex, seu direito de estudar na prestigiosa Teller Academy, depende dessas maletas entregues. Com pontualidade.”

Ele chamava de orientação. Mas Shui sempre soube que era ordem.

A curiosidade sobre o conteúdo sempre queimara em sua mente, mas a regra era simples e irredutível:

“Não abra. O valor depende da integridade. Se aberta, perde tudo.”

Agora ela seguia desanimada entre Templeton Hill e Libertyhood. Um lugar vandalizado, esquecido, perigoso o suficiente para que até a chuva parecesse torpe. As poças refletiam o neon dos bares decadentes, e a névoa se confundia com a garoa fina daquele abril—o mais chuvoso desde 2049.

Ela encontrou o ponto exato: um bar de fachada azul-neon, como um fantasma de Hell’s Kitchen na velha Nova Iorque. As caixas d’água de madeira acima rangiam com o vento. O mundo inteiro cheirava a ferrugem e abandono.

O watchphone vibrou no pulso. Shui ativou o holograma, e um busto de luz granulada se ergueu sobre seu braço. O sorriso era inconfundível.

Seu pai.

— Chegou, querida?

— Sim, papai… O lugar é sombrio. Assustador. Eu tô com medo.

— Não fique. Eu prometo que não vou mandar você aí de novo. Essa é a última vez.

Shui franziu a testa.

— Papai… você me falou isso da última vez. Lembra?

O velho homem arrumou os óculos, desconfortável.

— Eu sei, querida. Mas… sem essa maleta, não consigo mandar o valor da mensalidade. Você sabe que sua bolsa não é…

— …integral. Eu sei — ela completou, sem paciência.

A voz dele afundou em culpa.

— Sinto muito, meu amor.

— Pelo menos o nome do receptor você tem? Como vou saber quem vai pegar?

— É um homem forte. Cabelos brancos.

Ela respirou fundo.

— Um replorgue?

— Não. Humano. Fica tranquila. Eu vou ficar na chamada com você o tempo todo.

Shui tentou sorrir. O medo diluiu um pouco.

— Obrigada, papai.

Mas não teve tempo para alívio. Um furgão velho — veículo de antes da Terceira Guerra — encostou na calçada. A porta correu e três homens desceram. O neon azul escorria sobre seus rostos como tinta elétrica.

— São eles, papai? — ela sussurrou.

O pai sorriu. Era um sorriso estranho. Apertado. Sem graça.

— Papai?

Ele nada disse.

Os homens atravessaram a rua.

— Papai?! Tá me ouvindo?

A voz dele voltou, mas algo estava errado.

— Sim, querida. Ouço.

Ela repetiu a pergunta. Dessa vez, ele simplesmente desligou.

Shui congelou.
O holograma sumiu.
O barulho da chuva ficou mais alto.

— Papai?! PAI! Não me deixa aqui sozinha!

Um dos homens encostou ao lado dela.

— Ora, ora… o que temos aqui? — murmurou, tocando a barriga dela com a ponta dos dedos.

Shui recuou de imediato, a voz trêmula:

— Não… por favor! Levem a maleta!

Ela estendeu a mão. O segundo homem pegou a maleta… mas o primeiro não tirou os olhos dela. Ele puxou a mão dela e viu o watchphone: - Um Nokilaser E5, é? Nem pra ter um watchphone que preste hein docinho!  

O terceiro, com um pé-de-cabra na mão, abriu a maleta, vasculhou, apalpou o interior e assentiu:

— Tudo certo.

Largou o objeto no chão, aberta, vazia.

— Vamos. Pegamos o que queríamos.

— Pegamos nada — disse o primeiro, e puxou Shui pelo pescoço. — Temos essa gracinha.

Ele tentou beijá-la à força. No desespero, sem nem saber como, Shui deu uma cabeçada no segundo homem, que segurava seu watchphone. Sangue jorrou do nariz dele.

— ESSA VAGABUNDA! — ele urrou.

O primeiro recuou o rosto, rindo com raiva.

— A gatinha tem garras, é? Então vai aprender o que é agressão.

— Não! Por favor!

Ele socou o lado esquerdo do rosto dela. O impacto explodiu luz branca em seus olhos. Um corte abriu acima do supercílio e o sangue escorreu, transformando metade do mundo num filtro vermelho.

Foi o segundo que sacou a faca. Ele deslizou o aço pelo lado direito do rosto dela e abriu a pele como quem risca papel. Um corte menos feio do que o sangue que jorrava.

— Já chega — rosnou o do pé-de-cabra. — O combinado tá feito. Vamos.

— Calma, chefe. A gente ainda pode se divertir com a princesinha. Fazer um gangbang bem gostoso... Depois joga na Baía de Falkland. Ninguém acha.

Shui mal conseguia falar. Um soluço, um fio de voz:

— N-não… por favor…

— Cala a boca, lixo de Kazuma! — o segundo a puxou pelos cabelos e bateu a cabeça dela na parede.

Tudo apagou.

O mundo ficou escuro.

E foi então que outro som surgiu — passos. Pesados.

Um homem de porte largo e cabelos brancos caminhava em direção ao grupo. O do pé-de-cabra percebeu, empalideceu e correu para dentro do furgão. O motor rugiu. Ele arrancou, abandonando os outros dois para trás.

— FILHO DA PUTA! — gritou o primeiro.

— O plano vai miar! — o segundo largou Shui como um boneco, o corpo dela caindo numa poça gelada.

A água lambeu sua nuca.

O homem de cabelos brancos se aproximou

sábado, 25 de outubro de 2025

[CONTO] Remorso

 


O andar mais alto da NeuralDesk parecia suspenso acima do mundo — uma torre de vidro e névoa onde os trovões batiam como cânticos longínquos.
Eerie atravessou o corredor em silêncio. O som dos seus passos era absorvido pelo carpete escuro, e os painéis de vidro refletiam sua própria silhueta com um brilho metálico que a fazia parecer menos uma mulher e mais um espectro.

Havia algo de errado na estrutura da empresa, pensava. A Fundação dependia demais de Archibald Reese.
Na maioria das corporações, o presidente respondia ao conselho, e o CEO era um executor de diretrizes.
Mas ali, ambos os cargos pertenciam ao mesmo homem.
O cérebro e o coração pulsavam no mesmo corpo, e qualquer falha nesse corpo significava a morte de todo o organismo.

Era essa a verdade que Eerie temia admitir: a sobrevivência da NeuralDesk era a sobrevivência da humanidade.
E a cada dia, o homem que a comandava parecia menos disposto a continuar vivo.

A porta da sala presidencial abriu-se sem aviso.
O ambiente estava mergulhado em uma penumbra azulada. As persianas semiabaixadas deixavam entrar o reflexo distante dos néons de Valex City.
Reese estava sentado de lado numa poltrona, as pernas cruzadas, o cabelo despenteado, o rosto escondido entre sombras e fumaça.
Uma guitarra Telecaster repousava em seu colo.
Havia um copinho de uísque na mesa de vidro, e uma garrafa esvaziada em um terço ao lado.
No chão, folhas rabiscadas — palavras que oscilavam entre versos e delírios: fragmentos de luto travestidos de arte.

Um holopad projetava diante dele a presença translúcida de Mason Gloves, sua IA pessoal, que o acompanhava como um produtor fiel e paciente.
As luzes do dispositivo pulsavam em tempo com os acordes — uma linha sintética de bateria e sintetizador respondendo à improvisação de Reese.

Ele cantarolava algo. A guitarra gemia uma mistura de electro-rock e shoegaze.
A voz rouca, cansada, atravessava o ar como um pedido de socorro disfarçado de canção:

I didn’t know
Didn’t know it would sting
Didn’t know it would break every string
Shadows of us
If I could turn back the time
If I could invert the clock
You’d still be mine
B’cause, baby...
Together we rock.

Eerie parou, imóvel.
Reconheceu o tom melancólico, a voz trêmula — e soube.
Era sobre PeaX.
A ex-fixer ainda nem havia deixado Valex City, e ele já bebia para esquecer.
Não...
não para esquecer.
Mas para anestesiar a dor de lembrar.

Ela o observou por alguns segundos, como se examinasse uma peça defeituosa de engenharia que, por alguma ironia, ainda funcionava.
Reese parecia mais humano naquele caos do que jamais parecera em qualquer reunião de conselho.
Mais frágil, mais vivo — e, portanto, mais perigoso.

— Você não dorme mais, não é? — ela disse, quebrando o silêncio.

Ele não se virou.
— Dormir é superestimado — respondeu com um meio sorriso cansado. — E o Mason não gosta de silêncio. Diz que o silêncio o deixa desconfortável.

— O vazio é humano. Talvez ele só esteja te imitando.

— Ou refletindo — disse Reese, olhando o reflexo dela no vidro. — Todos aqui imitam algo que já morreu.

Eerie aproximou-se da mesa e girou o copo de uísque entre os dedos, sem beber.
— PeaX ainda não chegou a Neo-Eden.

— Eu sei. — Ele pousou a guitarra, com cuidado, como quem deposita uma lembrança num altar. — Mas ela vai chegar. Tem que chegar.

A voz dele soava entre a lucidez e o delírio.
Eerie percebeu que o homem diante dela já não era o fundador da NeuralDesk — era o último sobrevivente de uma fé extinta.

— Você criou uma estrutura que depende só de você — disse ela. — CEO e presidente na mesma cadeira. Isso não é comando. É suicídio corporativo.

Reese riu.
Um som breve, sem humor, sem alegria.
— E o que você sugere, Eerie? Que eu nomeie um sucessor? Que entregue a Fundação para outro messias de laboratório?
— Sugiro que sobreviva — ela respondeu. — Ou o que você está tentando salvar não vai sobreviver à sua culpa. E não será uma música de dor de cotovelo que fará você sobreviver.

— Ela me beijou, Eerie. Provavelmente a primeira e última vez que isso acontecerá. Essa música é simplesmente como ir do céu ao inferno.

Eerie olhou para o vidro, para as luzes de Valex City pulsando lá fora como veias expostas de uma criatura moribunda. Moribunda como Reese naquele momento. ELe estava se tornando um obstáculo a sobrevivência da Fundação.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

[VALEX TIMES] 16 DE ABRIL DE 2059

ATENTADO NO CIVIC CENTER DEIXA CHEFE DE SEGURANÇA DA NEURALDESK MORTO

Valex City acordou sob o espectro de uma nova crise após um ataque brutal no Valex City Civic Center Durante o primeiro Baile de Gala Beneficente da Fundação Archibald Reese (ARF), na noite de 15 de abril, um grupo terrorista que a General Security Inc não divulgou, transformou o evento de caridade em um campo de batalha. Fontes anônimas acusaram os Stalin e os Serpentes do Deserto.
Togall Morto, PeaX Sequestrada
A vítima fatal foi Togall (PlorgTech 2.1-M), o swordholder e guarda-costas pessoal do CEO da NeuralDesk, Dr. Archibald Reese. Segundo relatos de testemunhas e análises preliminares da General Security Inc. (GS Inc.), Togall se sacrificou heroicamente para proteger Reese, pulando na frente de um disparo e recebendo uma granada magnética.
O ataque visava a cúpula da NeuralDesk. A fixer PeaX (PlorgTech 2.0), que estava no palco terminando o discurso inaugural da Fundação e anunciando atrações musicais, foi ferida e submetida a uma tentativa de sequestro. Ela foi presa por uma anilha magnética e içada em direção a um helicóptero que invadiu a área da abóbada de vidro do Centro.
O sequestro foi frustrado por uma combinação de forças: drones de combate comandados remotamente pelas forças de segurança da NeuralDesk, e a ação coordenada de agentes presentes, incluindo os agentes da Dark Shield Military (DSM), e EyeVision Security Services, resultaram nos resgate da primeira fixer replorgue da hsitória.
Reese Jura Vingança e Isola PeaX
A NeuralDesk por meio de um comunicado à imprensa responsabilizou a Hard Light pelo ato. A Hard Light, através de seu setor de Relações Públicas, recusou comentar as acusações de uma "empresa periférica" na cidade.
O setor de relações públicas da NeuralDesk comunicou a imprensa nesta manhã, que o CEO Reese optou por remover PeaX de sua posição e enviá-la para a colônia de Neo-Eden para garantir sua segurança, com isso Eerie Klaus, de reputação obscura no mercado, foi promovida a fixer e acumulará a função de swordholder temporariamente. Essa decisão ajudou a afundar ainda mais as ações da ND na VC Stockmarket. Analistas de mercado da VC Stockmarket preveem que este ataque marca o início aberto da "Guerra Civil Corporativa", envolvendo a NeuralDesk e a Hard Light, e ameaçando arrastar também a ValexSynthesis (VxS).

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

[CONTO] Uma conversa.

 Valex City, 16 de Abril de 2059, 03:00 da manhã.


Eerie dispensou e acompanhou Hanzo e os demais até o elevador, ela parecia estranhamento otimista, diriam alguns. Mas talvez fosse uma funcionária de Reese querendo ser simpática. Exceto talvez por uma estranha afinidade com Caio. Fosse como fosse, o ambiente dentro da sala da presidência da NeuralDesk, o ar estava pesado. NETalie, embora com 16 anos apenas, percebeu. Ela estava nervosa, estava escondendo coisas, mas acompanhou tudo. PeaX estava mal humorada olhando a chuva pela janela onde em meio aos borrões luminosos a névoa ocultava os prédios de obsidiana. Ela sabia que bastava ela sair e Reese e ela teriam uma DR. Sim, DR. Era óbvio a todos que os sentimentos de Reese não eram só de amizade, embora ele se escondesse bem atrás de suas neuroses e aparente idealismo. PeaX por outro lado era mais cristalina. Sempre que Reese era mencionado, uma expressão de ternura tomava conta de seus olhos, ela sorria como uma adolescente apaixonada e se ruborizava quando recebia um elogio, mesmo que não fosse mais do que formal, de Reese.

O que ela viu em Reese através de seu óculos V.A.R enquanto controlava os drones e eles atiravam nos invasores do Valex City Civic Center, eram uma expressão de ódio e desespero. Ódio pela morte de seu melhor amigo. E desespero por pensar que poderia perder PeaX. Ela ainda testemunhou pelos drones, quando ele abraçou-se a Peax desacordada, desesperado, ele simplesmente a chamava de "a pessoa mais importante para mim". NETalie sabia que a coisa estava feia, e Reese quando a colocou como a webrunner da fundação, prometeu que seria um trabalho rápido. Aquela era a deixa dela.

- Reese. - Falou NETalie. - Lamento, mas isso é grande demais. Eu não quero fazer parte disso.

PeaX soltou uma bufada no vidro ao ouvir.

Reese consentiu.

- Eu te prometi um sidejob com possibilidade de em poucos meses emigrar, para onde quer ir Netalie?

- Laguna-Nova. Essa cidade está decadente, todos dizem que lá irá bombar.

- Converse com o RH - ele falou. - Providenciarão passagens e acomodações.

- Obrigada. - E ao falar, saiu da sala. Agora, para ela, os segredos de Eerie e Reese não importavam mais. Ela saiu da sala e se retirou deixando PeaX e Reese sozinhos.

O silêncio pairou, cortado pelo som da chuva. Então PeaX falou:

- Mais um que te dá as costas. 

Reese continuou em silêncio. Irritada, Peax insistiu.

- Eu não acredito que na primeira crise, você me demite. 

- É para seu bem. - Ele respondeu sentando-se num puff quadrado e levando as mãos ao rosto.

- Meu bem... - Ela resmunga com amargor. - Achei que confiasse em mim.

- Confio. 

- Então por que me mandar pra Neo-Eden? Eu não sou sua bonequinha pra ser protegida! - Ela falou ensaiando um grito, com as lágrimas marejando suas íris vermelhas.

Reese também deixou seus olhos marejarem ao olhar para ela, ele se ergueu e caminhou na direção da mulher de cabelos alvos. Peax recuou um passo colocando as costas feridas contra o vidro.

- Quando eu vejo o reflexo dos pontos nas suas costas no vidro... Quando eu me lembro de você girando naquele cabo no meio do salão. Eu só lembro do desespero que senti de pensar que eu poderia perde você...

- Archibald! - PeaX tentou dizer algo mas ele continuou.

- Por favor... Só me ouça.

Ela consentiu.

- Eu só senti uma coisa na minha vida maior que o ódio quando vi o cadáver disforme do meu melhor amigo. Que foi o medo de perder você. - Ele levou a mão ao rosto dela enquanto as palavras fluiam com dor.

- Se teve tanto medo de me perder, por que me mandar pra fora? Eu quero estar ao seu lado. Lutar essa guerra ao seu lado. Eu não acredito nela. Mas eu acredito em você Archie!

- Porque se estiver perto de mim, podem machucá-la. E eu não quero viver num mundo onde você não exista.

- Você é um hipócrita! - Ela gritou. - Você dedicou sua vida a me fazer livre! E agora quando posso exercer minha liberdade, decidir autonomamente estar ao seu lado! Você quer me negar estar ao seu lado! Quer me colocar num VTOL ou num avião e me despachar pra uma caixinha distante como se eu fosse sua doll.

- Não! Você não é mais uma tipo P. 

- Então não me trate como uma! - Ela tornou a gritar.

- Por que quer ficar no meio desse caos!? - Reese também levantou o tom de voz.

Porém, quebrando a expectativa de um novo grito, ela baixou o tom de voz, falando suavemente.

- Não é óbvio? 

Reese olhou confuso, enquanto ela com seu vestido remendado com nós improvisados se aproximou dele e o beijou.

- Eu te amo seu idiota. - Ela falou em sussurros, enquanto ele se ruborizava.

Reese sabia que sentia plenitude naquele momento, não acreditava em alma ou transcendência, mas se ela existisse, era aquela sensação dos seus lábios contra os de PeaX. No entanto após o beijo, ele olhou nos olhos dela, triste.

- Eu lamento muito. Mas você irá pra Neo-Eden.

Desapontada, PeaX apenas respondeu.

- Sim, senhor. 

Seu tom de voz saiu condescendente como uma replorgue programada para servir ao seu amo, Reese sentiu aquilo como uma pontada, sentia-se traindo PeaX ao negá-la o direito de escolher estar ao lado dele, mesmo naquele momento. PeaX estava disposta a morrer por ele se fosse o caso, ele sabia. O que ele não queria é que ela o fizesse. 

Antes de sair para tomar o VTOL, PeaX olhou para trás, vendo Reese sozinho na sala da presidência.

- Você diz que não quer viver num mundo onde eu não exista. Mas quer que eu viva num mundo onde você não existe. Isso não me parece justo.

Ela não esperou uma resposta, apenas saiu.

[CONTO] Matutações de Haya

(16 de abril de 2059 - 6 da manhã)

A luz dos neons filtrava-se pelas persianas do apartamento como se tivesse medo de entrar.

Do lado de fora, a chuva teimava em cair — grossa, persistente, lavando os arranha-céus encharcados de propaganda holográfica.

Haya estava sentado à mesa, o rosto meio apagado pela claridade fria do amanhecer digital.

Diante dele, um prato de cereais. Uma colher. E o som distante das gotas contra o vidro.

Reyna ainda dormia.

E o silêncio era tão absoluto que o barulho dos grãos se chocando dentro do prato parecia uma conversa.

Ele pegava cada um deles com precisão quase científica, mastigava devagar, como quem decifra um código.

Pensava — ou tentava pensar — no que Reese dissera antes.

Reese tinha razão num ponto.

Ele e Reyna não estavam lá porque eram livres.

Estavam lá, naquela sala, porque não eram.


Eram escravos.


A ideia ecoou dentro dele com o mesmo peso de um trovão abafado — uma forma sutil de resistência, talvez.


O NB2 fez ele piscar

Um aviso silencioso. Pensamentos não autorizados. Linhas mentais fora do protocolo.


Ele piscou, desviou o olhar, tentando dissipar as ideias antes que fossem apagadas à força.

Sabia o que aconteceria se insistisse.

Quando o NB2 ativava, era como perder uma palavra que estava prestes a ser dita — um pensamento na beira da língua, dissolvido em nada.


Respirou fundo.

Conseguiu enganar o sistema — ligeiramente — e conduziu a mente para outro caminho.


A reunião.

Lembrou-se dela com nitidez.


A luz opaca da sala, o som estático dos servidores girando, os olhos atentos de Netalie — a estranha webrunner de cabelos cacheados verdes e uma aranha tatuada no peito. Era uma punk. 17 anos no máximo.

Ela havia deixado o óculos V.A.R sobre o colo, ligado. Um descuido de adolescente.

Refletia um espectro de dados, códigos, arquivos desfilando no visor interno.


Haya, curioso, observou. Por isso ficou quieto na reunião.

Nos fragmentos de informação, reconheceu algo que o fez gelar.


A mulher — ou o homem — que entrara com Caio, a de cabelos rosa.

Não tinha certeza do gênero, mas sabia o que era.


Um Replórgue 3.0-I.

De infiltração.

Impossível distinguir de um humano. Assim como Reyna.


O estalo mental veio em seguida — como engrenagens que finalmente se encaixam depois de muito ranger.

Um clique-claque dentro da cabeça.


As peças formaram uma imagem clara, nítida.

Reese estava cometendo um erro.

Um erro tático fatal.


Togall, o swordholder, estava morto.

Ele era número 3 na linha sucessória. Foi eliminado. Eerie foi promovida.

PeaX — a número 2 da Fundação — fora mandada para Neo Eden, a quase doze mil quilômetros.

Fora do jogo. Cai a número 2.


Sobrava apenas o número 1.

Archibald Reese. Sozinho. A mulher que ele ama mais que tudo, a única pessoa que ao lado de Togall ele confiava, por amor, mandada pra longe.


Uma colherada mais.


"Sozinho... Ele e um traidor" sussurrou. Netalie era uma menina inocente, jogo grande demais pra ela.


Se ele caísse…


Não seria difícil.


A corporação ficaria vulnerável.

E o controle, inevitavelmente, cairia nas mãos dela.

Da Replórgue 3.0-I.


De repente, tudo fazia sentido.

O charme artificial de Lila, a secretária da General Security, sua docilidade estudada, a forma como se aproximava das reuniões certas.


Haya sentiu o estômago se contrair.

Era isso.


Lila era a distração perfeita. Todos odiariam ela, seu jeitinho desagradável. Ela estava no lugar ideal pra ser a suspeita ideal.


Uma infiltração perfeita.

Uma sucessão disfarçada de coincidência.


E quando Reese caísse, ela estaria lá — Eerie, humana o suficiente para ser herdeira, máquina o bastante para nunca hesitar.


Haya largou a colher.

O cereal amolecido girava no leite cinzento, como um pequeno redemoinho.

A cidade lá fora ainda dormia, encharcada de luz e ruído.


Ele precisava contar a Reyna

Antes que esquecesse.


Antes que o NB2 apagasse de novo a parte mais perigosa da sua própria mente. Eerie era a traidora, não Lila.

sábado, 18 de outubro de 2025

[CONTO] NETalie, a webrunner esotérica.

15 de Abril de 2059 - 2 horas da Manhã.


Netalie, uma webrunner de apenas 16 anos, uma das muitas prodígios ajudadas pela Fundação Archibald Reese, filha da "Rua da Beira", que fiza exatamente na divisa entre Little Brazil e Little Argentina, graciosamente, ajustou o encaixe dos soquetes VAR nas têmporas. Um leve estalo — o som de um portal se abrindo. A sala desapareceu, e diante dela ergueu-se o mar translúcido de dados do Mindshift 5.0. Linhas de código giravam como cardumes luminosos, pulsando em fractais azuis que lembravam respirações.

Ela inspirou fundo. O ar da sala real cheirava a ozônio e metal úmido — típico dos laboratórios subterrâneos da Fundação Archibald Reese, uma fachada muito conveniente da NeuralDesk. Mas ali, dentro do VAR, tudo cheirava a silêncio.

PeaX, sua superior imediata, uma Replorgue 2.0 de tipo desconhecido — P, C, M ou D, nunca revelado — falava em seu comunicador coclear.
— Varra o arquivo todo, Netalie — ordenou, com o tom protocolar de sempre. — Archibald quer o relatório completo até o fim do ciclo.

Netalie assentiu. Sem não antes ironizar mentalmente o fato de que todos chamavam o "chefe" de Reese, excepto PeaX, que o chamava pelo primeiro nome.
— Três dias analisando um projeto roubado… parece irônico, não acha?

PeaX falou antes de desligar: - A vida é irônica.

Quando o clique da desconexão apareceu, Netalie mergulhou mais fundo. A estrutura do HCC — Holographic Consciousness Chip — expandiu-se diante dela como um vitral vivo. Milhares de linhas de instruções flutuavam, descrevendo um ritual travestido de engenharia.

“Transferência da Testemunha Constante.
Etapa 1 — Sincronização sensorial.
Etapa 2 — Espelhamento neural.
Etapa 3 — Desativação progressiva do hospedeiro original.”

Ela franziu o cenho.

“Testemunha Constante…”

Reese chamava assim o núcleo da consciência. Mas ela — uma webrunner esotérica de linhagem latina, parte hacker, parte mística — preferia outro nome: alma.

O que o documento descrevia era uma cópia perfeita da mente, acompanhada da ilusão da travessia. Um truque holográfico: enquanto um corpo morria, o outro recebia memórias da própria “passagem”. Assim, o novo indivíduo acreditava ter atravessado a morte — mas era apenas o eco de alguém que já não existia.

Netalie tirou o VAR por um instante. O mundo voltou em granulação fosca — a penumbra do laboratório, as telas tremeluzindo, o som distante de reatores. O coração dela acelerou.

Abriu um canal criptografado.
Eerie, eu encontrei.

A resposta veio com voz serena, arrastada, quase humana.
— Descreva, Net.

— O Mindshift não transfere consciência. Ele copia memórias e simula a travessia. A alm... Digo... A Testemunha Constante morre no processo. O HCC é só um espelho mentiroso.

Eerie silenciou por alguns segundos — longos demais para uma 3.0-I com NB2 ativo.
— E que diferença isso faz, Netalie? Se ninguém pode provar que não há transferência, o efeito é o mesmo.

Netalie sorriu, amarga.
— Justamente. Toda a pesquisa se apoia na impossibilidade de provar o contrário. É uma mentira perfeita. E uma mentira perfeita muda o mundo tanto quanto uma verdade.

Do outro lado da linha, o som de um suspiro sintético.
— Então os ricos vão comprar imortalidade... e morrer acreditando nela.

— E deixar o resto de nós lidando com os efeitos.

Um silêncio mais pesado caiu.
— Netalie — disse Eerie enfim —, não conte isso a PeaX. Nem a Reese. Ele costurou alianças acreditando que o HCC cumpria o que prometia. Se souber que não, tudo desaba. Há uma guerra vindo aí.

Netalie congelou.
— Está me pedindo para mentir ao meu próprio chefe? Você não tem um NB2 ativo?

Eerie respondeu, calma, mas com algo que soava quase como tristeza.
— Não contradiz o meu NB2, porque eu não tenho um. Tenho um NB0. Proteger a Fundação é proteger a humanidade. — Meu dever é proteger os humanos — mesmo que precise mentir para eles.

"NB0? O que seria isso" Ela se perguntou. Ela nunca havia ouvido falar de um NB0.

— PeaX não é humana, Netalie tentou escapar pela tangente. Mas Eerie percebeu a jogada.

— PeaX possui sentimentos românticos para com Reese. Se ela souber, ela vai contar.

— Então você também percebeu... - Netalie pontuou.

— É difícil não perceber. Sou uma modelo de infiltração feita sob medida. Reese quis assegurar que eu protegeria a humanidade acima dele mesmo. No meu NB0 consta a minha programação básica de infiltração e simulação. Eu preciso ser muito boa em ler trejeitos humanos para me infiltrar. 

Netalie ficou em silêncio. Pela primeira vez, percebeu que talvez Reese nunca tivesse quebrado os protocolos de Eerie. E que era difícil mentir pra Eerie.

— Mas se expormos a verdade, a Hard Light vai ser desmascarada. É uma vitória, não é?

— Sim. Mas isso não impedirá dela mover exércitos contra nós. E não há evidências suficientes de que a ValexSynthesis não vá defendê-la. A HL é uma corporação muito maior que a NeuralDesk, e mais essencial a economia da ilha.

— Mas... - Netalie tentou interpelar uma última vez, sendo interrompida.

— Contamos a verdade depois de sobreviver a guerra. A Fundação é mais importante

— Entendido — disse por fim. — A mentira será guardada.

Desconectou o canal e olhou para o vazio. No visor interno, os últimos fragmentos do código do HCC ainda pulsavam — um vitral de luz e engano.

“Transferência concluída com sucesso.”

Ela tocou o visor, e a frase se dissolveu.

“Sucesso”, pensou.
Talvez a imortalidade fosse apenas isso:
a mentira perfeita que todos querem acreditar. Insistindo na informação, Netalie decidiu invadir os servidores da Fundação e procrurar dados de Eerie. Após ir até onde suas credenciais permitia, Netalie decidiu hackear o servidor. Foi rapida o bastante para burlar o Firewall e jogou um Trap.exe com um Freeze embutido para a IA de defesa. Ela esperou... 3, 2, 1. Click. A IA foi presa. O ping dela subiu enormemente.

Ela caminhou até as portas de acesso do arquivo de Eerie, Ela percebeu que os de PeaX e Reese possuiam IAs mais avançadas e que não cairiam num Trap. Ela abriu a porta de Eerie.

"Uma gravação". Ela pensou.

Ao abri-la, o ambiente virtual se transformou numa réplica exata da sala de reuniões de Paul Ferguson na Teller Academy.

Data: 23 de Julho de 2057, 11 da manhã.

"Reese, eu criei um NB extra, um que nunca foi usado, mas que poderia ser uma defesa dos humanos como coletividade. - Falou o homem loiro com uma pequena cicatriz na testa. Reese olava atento. Se chama NB0. Asimov, quando escreveu as leis da robótica, percebeu que proteger um ser humano individualmente pode, em alguns casos, colocar em risco o destino de toda a humanidade. Nesse caso, ele criou a Lei Zero que poderia ser invocada para proteger os humanos como um todo” 

Reese pegou o chipe. Assim protegemo-nos de nós mesmos. É isso? Indagou o chefe da NeuralDesk.

Isso. - Respondeu Ferguson - Quando adquirir sua replorgue de infiltração, converse com seu protético de confiança. Ao implantar esse no cortex, ele anulará os efeitos NB2, o desligando. Ele prevalece sobre o NB2, a excepção dos treinos de empatia e superestimulação, esse é o único jeito cirúrgico que conheço de quebrar um NB. Não é propriamente liberdade, mas é o melhor que eu consegui".

Fim do arquivo.

Netalie entendeu que Eerie era quase livre, a única coisa que ela não poderia fazer é ferir a humanidade inteira.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

[CONTO] Antes da Chuva Parar

Valex City, 15 de Abril de 2059: 17:00 - 11ºC - Chuva intensa.

A tempestade rugia sobre Valex City, e as janelas amplas da casa em Templeton Hill tremiam como se pudessem sentir o peso das nuvens. O reflexo dos prédios negros do Centro Financeiro se misturava aos relâmpagos, e dentro, o calor amarelado das luzes deixava o ambiente quase sereno — quase.

PeaX apareceu à porta da sala, os olhos vermelhos cintilando num brilho discreto, como duas brasas sob véu. O cabelo bob branco caía em ondas suaves, contrastando com o vestido grafite que ela mesma escolhera para a ocasião. Reese, ajeitando as abotoaduras, ergueu o olhar — e sorriu.

— Você está linda, PeaX.

Ela piscou, sentindo o rosto corar de leve, um traço quase imperceptível de calor que lhe subiu à pele.

— Obrigada, Reese. — A voz dela saiu mais baixa do que o habitual, quase humana, quase tímida.

Reese ajeitou o colarinho, desviando o olhar da forma elegante como ela se movia pelo cômodo. PeaX aproximou-se da aparelhagem de som, passou o dedo sobre o painel de vidro e, com um toque, preencheu o silêncio com acordes de um synthwave clássico do pré-guerra, Neon Lights de TimeCop1983 e Josh Dally. A chuva continuava lá fora, feroz, como um pano de fundo de ruído branco.

— Eu sou neurocientista, físico, autor de livros, dono de uma corporação… — Reese resmungou, encarando o espelho. — E ainda assim, não consigo dar um nó decente na maldita gravata.

PeaX riu, um riso leve, cristalino — um som sincero, que preencheu o ambiente.

— Abaixe um pouco, por favor. — Disse ela, aproximando-se. Ele obedeceu, e seus dedos se moveram com graça sobre o tecido azul-marinho. — Pronto.

Ela ajeitou o nó, deu um pequeno passo atrás e o olhou por inteiro.

— Está lindo. Sabe, Einstein não sabia combinar meias. E nunca soube pentear o cabelo. Gênios se embananam nas coisas simples enquanto olham para as fronteiras do universo.

Reese deixou escapar um sorriso breve. Por um instante, olhou para ela como quem olha algo que não deveria desejar — e mesmo assim, deseja.

— Não sei o que faria sem você, PeaX.

Ela o fitou. Os olhos vermelhos brilharam mais forte, e por um momento, a respiração pareceu suspender-se entre eles.

— Eu também não sei o que faria sem você, doutor. — Ela hesitou. — Mas estou preocupada.

Ele franziu o cenho.

— O plano de jogar migalhas de pão para os investigadores… não funcionou. A Hard Light já notou a NeuralDesk. Eles sabem, Reese. O jogo está perigoso demais.

Reese ficou em silêncio. Só a chuva e o murmúrio melancólico da música preenchia o espaço entre os dois. Então, ele disse:

— Se tudo der errado, pegue a maleta no meu closet. Há dinheiro em espécie lá. Vá para Cascádia. É uma colônia da VESYI, na América do Norte. Um dos raros lugares a terem taxa de radiação zero ou próxima de zero. Quero que esteja segura, acima de tudo. Leve Togall.

PeaX se afastou um passo, indignada.

— Por que se sacrificar por isso, Reese? Não é sua missão redimir o mundo. Se os homens querem viver para sempre, deixe-os. Viva a sua vida. Seja feliz.

Reese desviou o olhar para a janela. Os trovões recortavam a cidade, e o reflexo dele e dela se confundia no vidro.

— E o Senhor Deus disse: “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente.” — Ele fez uma pausa. — Gênesis 3:22.

— A Bíblia? — perguntou PeaX, surpresa.

— Não sou religioso. Mas há sabedoria nos antigos, PeaX. A morte é trágica, mas é bela. É a única coisa que iguala o jogo entre os ricos e os pobres. Quando ela chega, não importa se você é o rei, a rainha ou um simples peão. No xadrez da existência, perante a morte, todos vamos para a mesma caixinha quando o jogo acaba.

A voz dele baixou, rouca, carregada de algo mais do que cansaço.

— Só há uma solução para esse mundo: destruir a Síndrome de Prometeu Moderno. O desejo humano de ser como Deus.

PeaX olhou-o longamente, como quem tenta compreender o peso do que ouve.

— Talvez não haja como redimir o mundo.

— Talvez. — Ele concordou. — Mas se você pode evitar um mal… e não evita… e pessoas se machucam… a culpa é sua.

O silêncio voltou. A música seguia, distante, como se viesse de outro tempo.

PeaX se aproximou sem dizer nada. Sentiu algo — um pressentimento, uma vertigem súbita de perda. Então, o abraçou.

Por um instante, ele correspondeu, o queixo repousando sobre o topo da cabeça branca dela.

E lá fora, enquanto a chuva caía com raiva sobre Valex City, o relógio marcava as últimas horas antes da Festa Beneficente — e talvez, sem que nenhum dos dois soubesse, as últimas horas de paz que teriam.

domingo, 12 de outubro de 2025

[CONTO] Uma cidade maldita

 15 de Abril de 2059, 19:30h.



A chuva caía torrencialmente na noite de Valex City: um halo de neons pulsa contra o brutalismo preto do cinturão industrial se formava nas pesadas gotas de água que ajudavam um bombeiro e um droid a apagar um incêndio. O lixão de Groove Street ainda fumaçava num serviço que foi ajudado pela natureza decadente mas ainda funcional. Cinza quente, cheiro de plástico queimado, ratos queimados sendo devorados por ratos vivos.

Anderson Telles, máscara no pescoço, apaga o último foco com a mangueira do caminhão velho da VxS Firefighters. A pintura desbotada ainda deixa ver, por baixo, o nome antigo: Petrikov Firefighters — uma cicatriz do crash da quarta-feira negra de 2056. Ele fecha a válvula e dá dois toques na carcaça metálica.

- BR33! Hora de abafar aquele setor! – Ele aponta para um monte de lixo ainda rubro em brasas. O droid vai.

Vindo das paragens de Little Brazil, do setor Alpha, no meio das ruínas do que um dia fora o setor de casas de design levemente colonial, um TesyD Bedshaped encosta, quadrado e mal-humorado, como se fosse um Crown Victoria com ângulos demais. O símbolo da General Security Inc num decalque no vidro traseiro, a escria Police em dourado na lateral. Dele saem Kel Herrera, um policial de Little Argentina com hálito de destilaria doméstica, e Hayley Quinn, menina loira de Templeton Hill, terno feminino skinny, com mais jeito de escritório que de patrulha, olhar afiado, bottom da General Security Inc. A ralé da GS a chama de “a nova Sato”. Se sobreviver.

— Isso aqui foi o quê? — Kel acende, trêmulo, um cigarro.

— Resposta — Telles fala sem olhar. — Alguém bateu nas Beetches; o lixão pegou fogo em troca. Pelo menos foi o que uma velhinha que mora no 23 ali atrás contou.

— “Beetches”? — Quinn anota. – Groove Street não tem gangue. – Ela pontuou suspeitosa.

— Meninas da prostituição de O’Higgins provavelmente. Testemunhas viram um capataz mandar duas delas jogarem molotov — Telles aponta um arco queimado, garrafas rachadas na lama. — Vidro com pano. Improviso de fábrica.

 Quinn franze a testa.

— Forçar trabalhadoras do sexo a tacar fogo num lixão? Não fecha com padrão de retaliação. Vou levar isso pra chefe de Polícia.

Kel dá um passo à frente, desinteressado de padrões:

— Fecha a noite... Teles. – Ele fala o nome do bombeiro depois de olhar pra o ceachá sujo de cinzas - Aqui é zona sem santo. Vai pra casa. Você deve ter família.

“Família”... Essa palavra. Telles engole seco. Groove Street vibra no osso — lembrança de tiros, sirenes, o asfalto onde a esposa caiu dois anos antes, saindo do turno na fábrica de baterias nióbio-sódio pra VTOL, uma subsidiária falida ligada a MVIDEO. Ele respira o ar sujo. Pensa em Nária, oito anos, ursinho gasto, cabelo preso em marias chiquinhas com presilha de plástico. Sua pequena alegria na vida. Sua filha.

— Bot33 — chama – Guardar mangueira! O andróide da Brazil Robotics desperta, pintura apagada, passos de máquina cansada suja de óleo. Guarda a mangueira com gestos quadrados e sobe pro estribo.

Telles olha pro droid. O ranço volta.

Por que a Valexsynthesis não bota replorgues nas equipes? Replicantes ciborguizados de nascença, empáticos, capazes de ler nuances. Não confundem ironia com ordem. Os droids ainda travam com semântica. Em incêndio, semântica mata.

Ele se vê de novo recebendo a notícia da morte da sua amiga que olhava sua filha nos dias de folga dela, ela estava em Kazuma: Augustine Chaves gritando “reabastecer!”. O droid dela entende “reabastecer o caminhão”, não o tanque de água. Sai em disparada pra um posto diesel, arrebenta a mangueira, deixa Augustine sozinha no quarto andar. Ela detona uma C4, derruba a caixa-d’água pra conter o fogo, e morre sufocada em gás carbônico. O filho, Diego, dez anos, recebeu o quê? Nada. A VxSCM, o tribunal interno da Valexsynthesis, “encontrou” um aviso prévio datado do dia anterior. Caso encerrado.

— Telles? — Quinn chama, quebrando a espira de lembrançasl.

— Já tô indo.

Ele sobe no caminhão. O TesyD recua, luzes azul-branco riscando o lixo. Kel, já com outro trago aceso, murmura:

— Some daqui.

Telles engata. Groove Street corre pelas laterais como um filme ruim, ele estava no pior lugar do cinturão industrial, que já era um lugar ruim. Ali o lugar era tão ruim que o cheiro de lixo era intenso, o chorume escorria pelas ruas e havia lixo por todos os lados. Então, perdido em pensamentos, surgem motos e um jipe baixo, faróis estourando a noite.

Tiros de aviso.

A diarquia.

— Merda — ele diz, voz baixa.

Os primeiros tiros para valer atravessam a chapa como papel. O para-brisa estrelado vira teia. Bot33 recebe vários impactos diretos; braço destruído, fluido vazando do peito, por fim, a cabeça explode e ricocheteia no painel, tela apaga, braços moles. Telles abaixa, pisa fundo. O caminhão urra metálico. Ele sente o tremor ao atropelar dois — um corpo some sob a roda traseira, o outro voa contra um pilar de concreto, um borrão lilás de neon na jaqueta.

Mais tiros. Um calor agudo na costela, outro no abdômen. O volante escorrega na mão — sangue. Ele fecha a curva seguinte por instinto, o motor tossindo. Atrás, as motos desistem; o jipe quebra eixo no trilho de manutenção. O rádio chiando: palavras cortadas, códigos. Provavelmente outro incêndio... Algo sobre OStermann Heights ou algo assim.

Telles respira em cacos. O hospital da P&K Prosthetics and Health Services ficava a 20 km. Com trânsito uma hora, com sorte, coisa raríssima, dez minutos. Sem sorte, nunca. E o plano básico? Ele sabia de cor: ferimento letal por arma de fogo não cobria. Hospital: 90.000 na tela da conta. Dívida que passaria pra Nária, já que ele não sobreviveria.

Ele tomou, então, a decisão que cabia. Não a mais heroica. A mais humana. O medo de deixar sua filha sozinha naquele mundo-cão era o que invadia sua cabeça... Mas ao mesmo tempo deixar sua filha endividada tão jovem, a empurraria para a prostituição, ser agredida por cafetões, para pagar por uma dívida hospitalar que até ela completar 18 anos, já passaria de um milhão. Não sua pequena Nária. Não a menina no ursinho e das marias chiquinhas...

Valex City abre espaço diante do caminhão moribundo: torres pretas, passarelas de vidro, um holograma de uma igreja vendendo um lote no paraíso. Ele corta por Little Argentina, escapa de uma blitz, atravessa um corredor de prédios onde a chuva cai em peso. Vira na rua de casa, já está em Little Brazil.

Freia.

A porta se abre como se estivesse a espera, e Nária corre. O ursinho desbotado balança na mão pequena. A HoloTV dentro late notícias e concursos de slogan.

— Papai!

Ele desce do banco com esforço, acena de leve, como quem volta do mercado. O sangue colando o macacão, a luz de azul de um anúncio de CyberShen fazendo a poça brilhar como petróleo.

Ela o envolve com braços de passarinho que mal completam sua cintura.

— Papai, você tá… molhado. Vamos entrar!

Ele sente o cheiro do shampoo barato e do talco. A casa conhece a respiração dele. O corredor, os azulejos, a cama por arrumar. Ele tenta responder. Solta metade de um “claro”. O resto vira ar. “Valeu a pena”... Ele pensa. Ouviu a voz de seu anjinho uma última vez. Ainda que não a tenha visto. Sua vista estava escura. Ele sabia, sua pressão arterial estava caindo. Depressa.

Silêncio. A HoloTV faz a vez de narradora do mundo:

“…Hard Light Corp apresenta proposta para trabalhadores que recusarem o novo programa HCC: realocação subsidiada para colônia na antiga Europa…”

A voz segue explicando benefícios, métricas de produtividade, vales-luz. Nária, sem entender, procura o rosto do pai.

— Papai?

O sorriso de Telles é pequeno e verdadeiro, mesmo de joelho em frente a filha, o que ele conseguia oferecer. O corpo cede no abraço. A noite segura os sons, como se a cidade inteira tivesse prendido o fôlego.

“Em parceria com a ValexSynthesis, o programa Control 2.0 vai providenciar a cada trabalhador e cidadão de Valex, uma vida sem reclamações de trabalho, Vocês nunca mais precisarão fazer piquetes, motins, nunca mais terão a sensação de salários insuficientes. Basta instalar o novo HCC no córtex pré-frontal. A P&K fará o procedimento gratuitamente por conta de seu empregador! Fale com seu patrão, e nunca mais terá de se preocupar com sofrimento no trabalho!” – Seguia a propaganda na HoloTV, enqunto uma criança, com o ursinho, não entendia o porquê o pai “dormia sorrindo” de joelhos no portão de casa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

[CONTO] Decisões questionáveis

 Valex, 15 de outubro de 2059

A chuva caía sobre Valex como se o céu chorasse por aqueles que já não podiam. Do alto do edifício Pável, a sede da NeuralDesk, era possível ver o Edifício Howard, sede da Hard Light de frente, com seus letreiros verdes e piscantes. Ao lado um telão de led de propaganda da Radio 1st Station que bruxuleava em roxo. Ambos se erguiam como lâminas de vidro, atravessando o nevoeiro digital que cobria a cidade. O som das gotas sobre o metal lembrava um código se repetindo, sem fim, ecoando no coração da metrópole de 3 milhões de almas.

Nos corredores do 80º andar, Togall, um replorgue 2.1-M, caminhava com passos pesados, em marcha. Cada movimento era fluido, preciso. Seu corpo era biotecido, pulsante, sustentado por reações neuroquímicas complexas. De longe, poderia ser confundido com um humano. Apenas os olohos vermelho, o cabelo branco, e o leve albedo azulado de sua pele — visível sob certas luzes muito raras durante o dia — revelava o que realmente era: um replorgue.

Ele entrou esvoaçando seus cabelos brancos longos no escritório do proprietário da empresa. Archibald Reese. O ambiente estava mergulhado em uma penumbra fria. Do lado de fora, a cidade refletia-se nas janelas de vidro fumê por opção, a taxa de iluminação poderia ser regulada por controle remoto. Reese permanecia sentado, o olhar fixo em seu holopad, onde camadas de dados giravam lentamente. As notícias projetavam-se no ar — investigações, relatórios, acusações veladas. Tudo convergia para um mesmo ponto: a NeuralDesk.

Togall aproximou-se.

— Reese... o que devo fazer? A Hard Light já levantou uma lista de suspeitos, e a NeuralDesk figura entre as três primeiras.

O homem ergueu os olhos, cansados, fundos, marcados por noites em claro.

— Por hora, nada.

Sua voz soava distante, quase fria.

— A General Security Inc colocou aquela Reyna e um outro 2.1-M na investigação. Temo que a Eerie não tenha sido tão meticulosa assim.

— Ela foi... - Reese falou. — Reyna é que é acima da média. — Deixe os investigadores chegarem à verdade. A NeuralDesk não tem força para enfrentar a Valexsynthesis... nem a Hard Light. Quem dirá as duas juntas. Então, precisamos guiar os investigadores até a verdade. Sem que nosso nome apareça.

Togall manteve-se de pé, em silêncio, absorvendo a resposta. Então, falou:

— Jogo difícil... Margem estreita... Você não fez nada quando PeaX autorizou Eerie a matar Hooligan.

O tom era contido, mas havia um toque de acusação ali.

— E até onde consta... Hooligan era um homem bom.

Reese desviou o olhar. O som da chuva pareceu aumentar, batendo contra o vidro com insistência.

— PeaX não tem culpa. — respondeu, baixo. — Eu autorizei. Ela apenas cumpriu minhas ordens.

Por um instante, Togall hesitou. Suas sinapses químicas oscilaram, Togall não teve tempo de processar o que os humanos chamariam de decepção, seu NB2, num disparo único, reduziu a intensidade daquela sensação a um mero desconforto.

— Você e eu sabemos que isso não é verdade. - Togall falou em tom de voz travante.

Deu um passo à frente.

— Você e PeaX têm uma amizade linda, mas isso não legitima autorizar a morte de alguém inocente.

Reese ficou em silêncio. As mãos apoiadas sobre a mesa tremiam imperceptivelmente. Então, murmurou:

— Você tem razão. Sinal de que os treinamentos de empatia e superestimulação estão funcionando... Mas não havia escolhas.

Levantou-se devagar.

— Hooligan não concordava com o projeto MindShift. Nem com o Control 1.0.

Deu alguns passos até a janela, ajustou a luminosidade no controle, permitindo uma iluminação maior. Os letreiros holográficos pulsavam mesmo durante o dia. A cidade era sempre escura, mesmo em dias de sol. E era sobretudo escura naquele dia chuvoso e nevoento. De costas, Reese retomou o raciocínio enquanto Togall pegava, curioso, um globo de neve com uma folha de ácer sobre a mesa de Reese.

— Mesmo assim, ele não seria um obstáculo. PeaX o convidou para vir até aqui, sob fachada de proposta de trabalho. Queríamos que ele se unisse a nós. Ele hesitou. Desconversou. Depois convidei ele para um Open House da Fundação. Fiz a proposta pessoalmente. Mas ele não confiou.

O reflexo da cidade cobria o rosto de Reese como uma máscara.

— Ele ia entregar um upgrade importante no MindShift — a versão 5.0. Aquela que resolveria o problema da testemunha constante. O HCC. Eu... não podia permitir.

Togall nada disse. Apenas observou o homem diante da paisagem de Valex, as luzes se dissolvendo nas gotas que desciam pelo vidro.

Então, colocando o globo de neve sobre a mesa, deixou sua voz romper o silêncio, baixa, firme:

— Tudo isso... pra honrar Pàvel? Já o vingou...

Reese permaneceu imóvel. Seu silêncio era resposta. Um silêncio pesado, denso, saturado de lembranças.

— Até quando vai se sentir em dívida? — perguntou Togall.

Nenhuma resposta. Apenas o som da chuva.

Mas o rosto de Reese denunciava a dor: os olhos marejados, o maxilar tenso, a alma presa a uma culpa que nem o tempo podia dissolver. Togall aproximou-se da mesa. Sobre o holopad, as imagens pairavam no ar — registros de Haya e Reyna filmados por drone no laboratório ultrassecreto de Ostermann Heights.

Ele apontou para ambos.

— Vou eliminar as provas vivas. Se ficarem, eles vão chegar até você.

Sua voz era firme, convicta.

Reese girou-se bruscamente.

— Não. Precisamos deles. Além do mais...

Deu um passo à frente.

— Você não teria chances, Togall. Reyna, segundo nossa informante na GS Inc recebeu uma série de melhorias que estão acima das capacidades da própria NeuralDesk.

Sua expressão suavizou-se.

— E... não quero perder meu amigo.

O replorgue recuou um pouco, confuso. “Amigo.” A palavra ecoou em suas redes químicas como um pulso de calor. Não estava preparado para senti-la, e não teve tempo, suas pupilas piscaram freneticamente, enquanto uma sensação de anestesia mental pairava sobre sua mente, fazendo aquela sensação desaparecer, como se fosse uma lembrança que se perdia.

Reese aproximou-se e, num gesto inesperado, o abraçou.

Togall ficou imóvel. Seu corpo reagiu com lentidão, absorvendo o toque, o calor, a dor compartilhada. Dessa vez o NB2 não teve como obstaculizar. Ele sentiu o coração aquecer. "Ternura" pensou. "Isso é... Ser humano?"

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

[CONTO] O futuro

 Valex City, 14 de Abril de 2059


O vento sussurrava contra os vidros reforçados da mansão em Templeton Hill, trazendo consigo o brilho enevoado da cidade que se estendia como um mar de néon vermelho e azul no horizonte. Dentro do escritório de Archibald Reese, o espaço parecia mais um templo da razão do que uma sala de estar: paredes forradas de painéis pretos, prateleiras repletas de monografias raras em suportes holográficos, e no centro, dominando tudo, um holopad.

O aparelho projetava colunas de dados translúcidos no ar, cascatas de informação que subiam e desciam em ritmo vertiginoso, como se respirassem. Gráficos pulsavam em linhas verdes e azuis, mapas genômicos e circuitos positrônicos se sobrepunham a relatórios estratégicos. Reese observava-os com olhos fixos, quase estáticos, as pupilas refletindo linhas de código.

Atrás dele, o som sutil de passos: metálicos, mas leves, precisos, quase humanos demais para serem apenas programados.

PeaX entrou no cômodo. Seu cabelo prateado caía sobre a testa numa franja rebelde, e a jaqueta preta colava-se ao corpo com naturalidade. Os olhos, de um tom vermelho-brunido, carregavam uma vivacidade incomum entre os de sua espécie.

— Há mais alguma coisa que eu possa fazer por você, Reese? — disse ela, com a voz suave, quase num tom íntimo.

Reese não desviou o olhar dos dados. Seu dedo deslizava pelo ar, rearranjando gráficos e relatórios.

— Hoje não, PeaX. — respondeu mecanicamente, como se fosse apenas parte do ruído das máquinas.

Ela ergueu uma sobrancelha, inclinando a cabeça.

— Então… estou dispensada? — perguntou, com uma respiração leve, quase cansada.

Reese girou lentamente a cadeira. O estofado de couro rangeu suavemente. Seus olhos pousaram nela, firmes, e uma linha de exaustão atravessava seu rosto. Ele estendeu a mão.

PeaX sorriu com doçura, caminhou até ele e segurou a mão dele com um gesto contido, mas carregado de proximidade.

— Você merece descansar. — disse Reese, com um calor raro na voz. — Obrigado pela amizade, pela fidelidade… pela competência. Tenho orgulho de você. Foi a primeira fixer replorgue da história de qualquer corporação. E saber que foi a NeuralDesk quem ousou dar esse passo… isso é uma grande alegria para mim.

PeaX corou — algo improvável, mas real. Sua pele assumiu um rubor quase humano. Sorriu tímida, mas nada respondeu de imediato.

— Ao fim da missão divide et impera, prometo… Você terá seis meses de férias totalmente merecidas. — completou Reese.

Os olhos dela se arregalaram, surpreendidos.

— Seis meses? Isso é muito mais do que qualquer funcionário. A maioria recebe quinze dias, no máximo um mês. O Togall mesmo teve dois meses e já achou um luxo.

— Você merece. — respondeu Reese, firme. — Só lamento não poder desfrutar disso com você. Assim como não pude participar das atividades lúdicas do Togall durante o recesso dele.

O silêncio ficou por alguns instantes. Ela desviou os olhos para a grande janela panorâmica atrás dele. A vista a partir de Templeton Hill era magnífica: o centro financeiro de Valex City, para além do Rio Valex, brilhava em infinitos pontos de luz, torres monolíticas com bordas marcadas por linhas de néon vermelho cortando a névoa.

PeaX virou-se novamente para Reese, depois olhou para o holopad ainda ativo.

— E então? — perguntou, a voz mais baixa. — Achou algo importante além de tecnicidades sobre os modelos 1.5 e 2.0 da BioMechaCorp? São dados bem antigos que a 0045 obteve dos servidores da Hard Light.

— Não chame-a assim... Ela escolheu o nome, Eeire, não foi?

— Foi. - Ela respondeu resignada, até com algum incômodo.

— Ao longo da minha vida aprendi a não confiar nas pessoas... E encontrei confiança justamente nos replorgues... Vocês são uma versão superior de nós mesmos... O Mindshift é uma distorção disso, mas se assenta numa premissa verdadeira. Vocês são o futuro. Podem ser um espelho melhor de nós mesmos. Por isso eu respeito a Eerie e todos os replorgues.

Reese respirou fundo. Seu rosto endureceu. Os dedos pararam sobre o teclado.

— Quanto ao que achei... — disse, em tom grave. — Descobri o Projeto Control 1.0.

O sorriso nos lábios de PeaX desapareceu. Ela ficou séria, quase sombria.

— Então… é grave.

Reese assentiu lentamente, os olhos carregados de indignação.

— Mais do que grave. — murmurou. — É a maior ameaça à humanidade já concebida. Uma afronta. Uma abominação. Nojento. Tirânico.

O holopad projetava, agora, imagens fragmentadas do esquema conceitual dos neurobloqueadores desenhados por Ferguson e Gómez.

PeaX se aproximou dele, a expressão carregada de pesar e tensão.

— Reese… o que eles estão tentando controlar?

Reese fechou os olhos por um instante, como se a resposta lhe pesasse mais que qualquer dado técnico.

— Tudo. — disse, num fio de voz. 


Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...