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| 22 de Abril de 2059 às 00h |
A chuva batia lentamente contra os vidros fumê da casa em Templeton Hill, escorrendo em linhas tortas que refletiam o brilho distante do centro financeiro do outro lado do rio Valex. A ponte Ahmed cintilava sob o mau tempo, como se cada luz tentasse respirar no meio da neblina.
Archibald Reese estava sentado na velha cadeira de couro negro, o corpo ligeiramente curvado para frente, os dedos entrelaçados, o rosto cansado. O livro aberto sobre a mesa estava virado de cabeça para baixo — ele não lia havia horas. Só observava a chuva. Só tentava, no silêncio, fazer as pazes consigo mesmo.
Foi quando sentiu o toque leve dos passos dela.
Peax apareceu na porta da sala como um vulto terno, misto de sombra e luz. Seu cabelo branco brilhava sob o reflexo das lâmpadas quentes. Ela o analisou por um instante — aquele homem enorme, carregando dentro do peito algo muito mais pesado que o seu porte físico sugeria.
Sem dizer nada, caminhou até ele, subiu devagar sobre o colo dele e se ajeitou como se aquele lugar sempre tivesse sido seu. Reese quase prendeu a respiração.
— Você voltou… — ele murmurou, a voz mais baixa que o som da chuva.
— Voltei — sussurrou Peax, inclinando-se para beijar seus lábios.
O beijo foi leve, contido, como se ela precisasse provar que ele ainda era real. As mãos de Reese subiram pelas costas dela, puxando-a com cuidado, com medo de quebrá-la, com medo de quebrar o momento.
— Eu não sabia onde estava com a cabeça quando deixei você ir, Peax — disse ele, enfim.
Ela encostou a testa na dele.
— Eu te perdoo. Todos têm medo.
— Você teve medo de que eu ficasse sozinho — respondeu Reese.
— Tive — admitiu ela. — E você? Teve medo de quê?
— Dos meus próprios devaneios.
Peax ergueu o rosto devagar, como se buscasse algo nas pupilas dele.
— Você acha que eu não enfrentaria uma bala por você? — ela provocou.
Reese sorriu de lado, triste.
— Você enfrentaria. É isso que me assusta.
— E você? — a voz dela ficou baixa, um fio de seda. — Faria o mesmo por mim?
Ele inspirou.
— Sim. Sem hesitar.
Peax acomodou a cabeça no ombro dele.
— Então não se subestime — murmurou. — Somos iguais.
Eles se beijaram novamente, dessa vez mais devagar, como se estivessem aprendendo o tempo um do outro. O mundo lá fora ficou suspenso entre trovões e silêncios.
Depois de alguns minutos, Peax virou o rosto para a janela.
— Hum… falando em julgar pessoas — ela começou, com a voz distraída — eu gosto da Roxxy. Ela é incrível. Genial. E eu acho que você fez certo em dar espaço para ela na NeuralDesk.
Reese soltou um suspiro profundo.
— Roxxy e eu pensamos diferente — disse ele.
— Diferente como? Ética? Ciência?
— Não — ele sorriu com um cansaço antigo. — Diferente sobre sociedade. Sobre o que o mundo nos força a ser.
Peax ficou pensativa, inclinando a cabeça.
— Mas… você acha mesmo que vocês são parecidos?
— Essencialmente, sim.
— Por quê?
Reese fechou os olhos por um instante, procurando as palavras certas.
— Porque tanto eu quanto ela acreditamos que a ciência é um dom, Peax. Uma virtude humana. A mais frágil, a mais infantil, a mais preciosa. É o que nos separa da barbárie. É o que faz uma mãe poder segurar o filho que deveria ter morrido. É o que nos permite olhar as estrelas sem medo. É o que faz alguém tentar curar o Alzheimer mesmo sabendo que talvez não haja cura.
Peax sorriu de leve, emocionada.
— Ok… eu vejo isso nela. Mas você sabe. Ela ainda tem aquela visão mecanicista dos replorgues…
— Ela é jovem — disse Reese. — Tem muito tempo para se frustrar e aprender... E o problema nunca foi a ciência. O problema é o mundo à volta dela.
Ele respirou fundo. Um silêncio pesado caiu entre os dois — o tipo de silêncio que precede verdades dolorosas.
— Peax… quando um cientista se forma nas grandes universidades de Valex City, ele sonha alto. Quer curar o câncer. Criar vida. Resolver a morte. E as corporações…
— Capturam tudo, né? — completou ela.
— Tudo — confirmou Reese. — Elas olham para nossos sonhos e dizem “Nós financiamos. Nós acreditamos em você”. Então, quando a pesquisa começa a avançar… alguém do topo aparece dizendo que é preciso mudar a direção. Que os acionistas querem resultados rápidos. Que o neurobot para Alzheimer agora precisa virar um instrumento de controle. E se você não aceita…
— Você perde tudo — murmurou Peax.
— Sim. E aí você cede. Só por um pouco. Só até garantir a segurança dos seus filhos. Só até pagar as dívidas estudantis. Só até não perder tudo o que construiu.
— E esse “só até”… nunca acaba — concluiu ela.
Archibald assentiu, sombrio.
— E de repente o aparelho que você criou para curar o cérebro de uma criança… termina na cabeça de uma garota de cabelos roxos… que corta os pulsos em uma banheira. Foi assim que o sistema sempre operou.
Peax fechou os olhos por um momento, sentindo o peso da confissão.
— E Roxxy? — perguntou. — O que você quer com ela?
— Quero que ela me ajude a provar a Lei de Woo-Reese... E... Acho que também quero dar a ela a chance que eu não tive — respondeu Reese. — Aqui na NeuralDesk, Peax, nossa margem de lucro é pequena. Poderia ser cem vezes maior se fabricássemos armas ou ferramentas de controle. Mas eu preferia falir tentando fazer o certo… do que morrer sabendo que traí tudo em que acredito.
Peax então o encarou com uma suavidade rara, quase triste.
— Então… você não está salvando só a ciência.
— Não.
— Você está salvando ela.
Reese baixou o olhar.
— Estou tentando dar a ela o futuro que roubaram de mim. Que roubaram do Pável.
Peax sorriu, acariciando o rosto dele.
— Archie… você é tão triste que chega a ser brilhante.
— E você é a única pessoa que ainda vê luz em mim.
— Alguém precisa ver — ela disse. — Afinal… se a vida é breve, como você mesmo disse, tudo o que podemos fazer… é tentar ser melhores uns com os outros.
Reese puxou-a para mais perto.
Peax repousou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater como um motor cansado que ainda teima em funcionar.
A chuva continuava do lado de fora.
E, pela primeira vez em meses, Archibald Reese não sentiu medo do futuro — apenas a melancolia doce de quem sabe que ainda é capaz de amar… e de tentar salvar alguém do mesmo abismo que quase o consumiu.









