quinta-feira, 27 de novembro de 2025

[CONTO] True Talk, Trash Talk

22 de Abril de 2059 às 00h

A chuva batia lentamente contra os vidros fumê da casa em Templeton Hill, escorrendo em linhas tortas que refletiam o brilho distante do centro financeiro do outro lado do rio Valex. A ponte Ahmed cintilava sob o mau tempo, como se cada luz tentasse respirar no meio da neblina.

Archibald Reese estava sentado na velha cadeira de couro negro, o corpo ligeiramente curvado para frente, os dedos entrelaçados, o rosto cansado. O livro aberto sobre a mesa estava virado de cabeça para baixo — ele não lia havia horas. Só observava a chuva. Só tentava, no silêncio, fazer as pazes consigo mesmo.

Foi quando sentiu o toque leve dos passos dela.

Peax apareceu na porta da sala como um vulto terno, misto de sombra e luz. Seu cabelo branco brilhava sob o reflexo das lâmpadas quentes. Ela o analisou por um instante — aquele homem enorme, carregando dentro do peito algo muito mais pesado que o seu porte físico sugeria.

Sem dizer nada, caminhou até ele, subiu devagar sobre o colo dele e se ajeitou como se aquele lugar sempre tivesse sido seu. Reese quase prendeu a respiração.

— Você voltou… — ele murmurou, a voz mais baixa que o som da chuva.

— Voltei — sussurrou Peax, inclinando-se para beijar seus lábios.

O beijo foi leve, contido, como se ela precisasse provar que ele ainda era real. As mãos de Reese subiram pelas costas dela, puxando-a com cuidado, com medo de quebrá-la, com medo de quebrar o momento.

— Eu não sabia onde estava com a cabeça quando deixei você ir, Peax — disse ele, enfim.

Ela encostou a testa na dele.

— Eu te perdoo. Todos têm medo.

— Você teve medo de que eu ficasse sozinho — respondeu Reese.

— Tive — admitiu ela. — E você? Teve medo de quê?

— Dos meus próprios devaneios.

Peax ergueu o rosto devagar, como se buscasse algo nas pupilas dele.

— Você acha que eu não enfrentaria uma bala por você? — ela provocou.

Reese sorriu de lado, triste.

— Você enfrentaria. É isso que me assusta.

— E você? — a voz dela ficou baixa, um fio de seda. — Faria o mesmo por mim?

Ele inspirou.

— Sim. Sem hesitar.

Peax acomodou a cabeça no ombro dele.

— Então não se subestime — murmurou. — Somos iguais.

Eles se beijaram novamente, dessa vez mais devagar, como se estivessem aprendendo o tempo um do outro. O mundo lá fora ficou suspenso entre trovões e silêncios.

Depois de alguns minutos, Peax virou o rosto para a janela.

— Hum… falando em julgar pessoas — ela começou, com a voz distraída — eu gosto da Roxxy. Ela é incrível. Genial. E eu acho que você fez certo em dar espaço para ela na NeuralDesk.

Reese soltou um suspiro profundo.

— Roxxy e eu pensamos diferente — disse ele.

— Diferente como? Ética? Ciência?

— Não — ele sorriu com um cansaço antigo. — Diferente sobre sociedade. Sobre o que o mundo nos força a ser.

Peax ficou pensativa, inclinando a cabeça.

— Mas… você acha mesmo que vocês são parecidos?

— Essencialmente, sim.

— Por quê?

Reese fechou os olhos por um instante, procurando as palavras certas.

— Porque tanto eu quanto ela acreditamos que a ciência é um dom, Peax. Uma virtude humana. A mais frágil, a mais infantil, a mais preciosa. É o que nos separa da barbárie. É o que faz uma mãe poder segurar o filho que deveria ter morrido. É o que nos permite olhar as estrelas sem medo. É o que faz alguém tentar curar o Alzheimer mesmo sabendo que talvez não haja cura.

Peax sorriu de leve, emocionada.

— Ok… eu vejo isso nela. Mas você sabe. Ela ainda tem aquela visão mecanicista dos replorgues…

— Ela é jovem — disse Reese. — Tem muito tempo para se frustrar e aprender... E o problema nunca foi a ciência. O problema é o mundo à volta dela.

Ele respirou fundo. Um silêncio pesado caiu entre os dois — o tipo de silêncio que precede verdades dolorosas.

— Peax… quando um cientista se forma nas grandes universidades de Valex City, ele sonha alto. Quer curar o câncer. Criar vida. Resolver a morte. E as corporações…

— Capturam tudo, né? — completou ela.

— Tudo — confirmou Reese. — Elas olham para nossos sonhos e dizem “Nós financiamos. Nós acreditamos em você”. Então, quando a pesquisa começa a avançar… alguém do topo aparece dizendo que é preciso mudar a direção. Que os acionistas querem resultados rápidos. Que o neurobot para Alzheimer agora precisa virar um instrumento de controle. E se você não aceita…

— Você perde tudo — murmurou Peax.

— Sim. E aí você cede. Só por um pouco. Só até garantir a segurança dos seus filhos. Só até pagar as dívidas estudantis. Só até não perder tudo o que construiu.

— E esse “só até”… nunca acaba — concluiu ela.

Archibald assentiu, sombrio.

— E de repente o aparelho que você criou para curar o cérebro de uma criança… termina na cabeça de uma garota de cabelos roxos… que corta os pulsos em uma banheira. Foi assim que o sistema sempre operou.

Peax fechou os olhos por um momento, sentindo o peso da confissão.

— E Roxxy? — perguntou. — O que você quer com ela?

— Quero que ela me ajude a provar a Lei de Woo-Reese... E... Acho que também quero dar a ela a chance que eu não tive — respondeu Reese. — Aqui na NeuralDesk, Peax, nossa margem de lucro é pequena. Poderia ser cem vezes maior se fabricássemos armas ou ferramentas de controle. Mas eu preferia falir tentando fazer o certo… do que morrer sabendo que traí tudo em que acredito.

Peax então o encarou com uma suavidade rara, quase triste.

— Então… você não está salvando só a ciência.

— Não.

— Você está salvando ela.

Reese baixou o olhar.

— Estou tentando dar a ela o futuro que roubaram de mim. Que roubaram do Pável.

Peax sorriu, acariciando o rosto dele.

— Archie… você é tão triste que chega a ser brilhante.

— E você é a única pessoa que ainda vê luz em mim.

— Alguém precisa ver — ela disse. — Afinal… se a vida é breve, como você mesmo disse, tudo o que podemos fazer… é tentar ser melhores uns com os outros.

Reese puxou-a para mais perto.

Peax repousou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater como um motor cansado que ainda teima em funcionar.

A chuva continuava do lado de fora.

E, pela primeira vez em meses, Archibald Reese não sentiu medo do futuro — apenas a melancolia doce de quem sabe que ainda é capaz de amar… e de tentar salvar alguém do mesmo abismo que quase o consumiu.

sábado, 22 de novembro de 2025

[CONTO] O Solilóquio de Reese

Sabe… às vezes eu penso que nós passamos a vida inteira

tentando enganar a única coisa que nunca nos abandona:

nós mesmos.

Eu vi homens tentando domar a morte como quem tenta fechar a mão sobre o vento…

Vi corpos duplicados como arquivos, cérebros copiados como versões de software, pessoas acreditando que poderiam escapar da verdade mais antiga do universo.

Mas… não importa quantas memórias você transfira, não importa quantas máquinas você construa… a experiência — esse olhar silencioso que testemunha o mundo de um único ponto no tempo — isso você não copia. Isso não viaja. Isso não renasce no corpo de outro.

Eu vi consciências artificiais sentindo dor real.

Vi autômatos tremendo diante da escuridão como qualquer criança humana.

Vi faíscas do nascimento de uma alma… onde diziam que só havia progrmação.

E vi homens poderosos…

rezando para um espelho digital acreditando que poderiam enganar a morte

enquanto já estavam mortos por dentro. Sabe o que aprendi, depois de tudo isso?

A morte não é o inimigo.

O inimigo é a mentira que nos faz esquecer

que cada instante é único —

porque é vivido por alguém que nunca existiu antes

e nunca existirá de novo.

Só se vive uma vez, então, por que gastar seus dias e seus momentos odiando pessoas que você nem conhece? Se a vida é um breve testemunhar do que há entre infinitudes de nada antes e depois de nós, por que gastar esse breve momento deixando-se afetar pelo ódio? Aproveite a vida, memento mori,

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

[CONTO] Ozzymandias

Valex City, 20 de Abril de 2059 - 00:00

A casa em Templeton Hill estava silenciosa, iluminada apenas pela luz opaca que atravessava as cortinas translúcidas. Lá fora, a névoa se apoiava nos telhados como um animal adormecido, e o som do vento contra o vidro parecia mais um lamento distante.

Rade caminhava pela sala de estar com passos leves. Silenciosos demais para alguém da DSM. —mas exatamente como PeaX se movia. Ela conhecia cada textura daquela casa, cada tábua que fazia ruído, cada canto onde a luz falhava. E lá estava ele, sentado no sofá de couro preto, o corpo inclinado, um livro aberto entre as mãos.

Macbeth, de William Shakespeare.

A tragédia refletia nos olhos dele como se estivesse sendo projetada diretamente em sua alma.

Archie… — ela engoliu o deslize — Digo, senhor Reese…

Reese ergueu os olhos devagar, sem marcar a página. Ele já tinha memorizado o trecho.

Roxxy acabou de me informar que o Caio foi atacado e ferido pela BioSynthesis.
O bunker dele foi destruído. Alguns dos soldados morreram.

A expressão de Reese contraiu levemente, como se tivesse recebido um golpe preciso.

Como ele está?

Sendo cuidado diretamente pela Roxxy na A-Verheyen. Ela cruzou as mãos atrás do corpo, postura militar impecável. — Ela conseguiu estabilizá-lo e implantou uma perna biônica.

Reese soltou um ar que parecia metade preocupação, metade alívio.

Ótimo.
Fechou o livro com uma mão e encostou-o ao lado.
Coloque todo o tratamento na conta da NeuralDesk. E informe a ele, através da Roxxy, que quaisquer danos materiais serão cobertos pelo orçamento da empresa.

Rade se aproximou mais um passo.

O blindado ainda está operacional, mas severamente danificado.

Contrate um mecânico.
Levantou-se, ajeitando o casaco.
Já encomendei um segundo blindado. Deve estar para chegar.

Ela assentiu, mas não saiu. Ficou ali, observando-o com algo que não era profissional—um cuidado antigo, familiar, quase instintivo. Ela olhava-o como alguém que queria abraçá-lo.

Reese percebeu.

O que foi, Rade?

Ela respirou fundo, prendeu o ar por um instante e o soltou devagar.

— Apenas me indagando porquê está lendo um clássico.

— Gosto dos clássicos... E além do mais, acabei de ser informado pela Akira Sato… que Shui Hao…
A voz falhou por um instante.
Que ela está morta.

O silêncio que se seguiu parecia uma lápide caindo.

Rade parou no meio do movimento. Um músculo em seu maxilar tremeu.

Meu Deus… — ele murmurou. — Mas o que aconteceu?

Reese manteve o olhar firme, Rade também, mesmo que por dentro PeaX estivesse despedaçando-se. Ela não conhecia Shui Hao, mas se compadeceu por ter vivido a mesma coisa que ela. Peax empatizou com a história de Shui contado por Huyang Chin mais cedo.

Contaram a verdade pra ela. Ela conseguiu um tempo sozinha… e tirou a própria vida.
Ele baixou os olhos.
Quando perceberam, já era tarde.

Reese fechou a mão em punho—forte.
Tão forte que os estalos ecoaram pela sala como pequenos tiros abafados.

Rade conteve o impulso de tocá-lo.

O senhor a conhecia? — ela perguntou, com a voz cuidadosamente neutra.

Não.
Ele caminhou até o bar da sala e serviu-se de um uísque âmbar.
Mas eu imagino o que o Hanzo deve estar sentindo… e a Akira também.

Rade abaixou um pouco a cabeça.

O Togall… não é? Você disfarça bem, mas quem o conhece ou presta muito atenção, dá pra ver que por dentro ainda está consumido pela raiva.

Sim. Isso tem que acabar... 

Ele tomou um gole lento, olhou pela janela, inspirou o cheiro do mundo lá fora como se fosse fumaça de um campo de batalha. A chuva voltava a cair...

Amanhã é o velório dela...
Virou-se para Rade ao dizer.
Decidiram enterrá-la, não cremá-la. Uma decisão bela. É uma forma de reconhecer a humanidade daquela pobre criança.

Ele pousou o copo, mas não soltou o livro. Passou os dedos pela capa.

— Rade... Espero que não tenha se chateado por eu ter ido até Kazuma contra suas recomendações.

Rade ergueu o olhar, mas PeaX piscou por trás dos olhos dela.

Foi só preocupação, Archibald.
O nome escorregou antes que ela pudesse impedir.
Mas acabou que você estava certo. Já sabe que, se a BioSynthesis descobrir que o Control 2.0 e os Neurobots estão sob sua posse, você vai virar alvo novamente, não sabe?

Reese sorriu, mas era um sorriso frio, calculado.

Sim… mas eu tive uma bela ideia com a Reyna... E o Hanzo me deu uma boa ideia também... Os dois trabalham muito bem juntos sem nem perceberem...
Voltou a andar pela sala, como um general estudando o terreno.
Vamos devolver tudo. Vou dizer bem claramente que não tenho interesse na tecnologia e devolver tudinho... Com um vírus. 

Rade estreitou os olhos.

Um vírus?

Precisamos de uma webrunner ou hacker nível 5. Capaz de destruir os servidores da BioSynthesis.
Ele pegou o copo de volta, levantou-o levemente como quem faz um brinde à própria insanidade.
Talvez eu consiga vencer a guerra sem disparar um único tiro.

Acha mesmo que isso é possível?

Ele parou diante dela.
O ar entre os dois parecia eletrificado.

Sim, Rade. Verão minha devolução como uma rendição, uma bandeira branca... Vão baixar a guarda...
Reese respirou fundo.
Acabo de nomeá-la minha nova Fixer.

Ela piscou.

Fixer… eu?

— Sim... Seu nome já está no site... Quero que procure Harley Crimson, fixer da ValexSynthesis.
A voz dele ficou mais baixa, mais decisiva.
Quero propor um acordo ao Adrian Valex Junior.

Rayde deu um passo à frente, tentando esconder a perplexidade.

Que tipo de acordo?

Reese ergueu o copo, como se estivesse fazendo um juramento silencioso ao destino.

Quero que a ValexSynthesis e a BioSynthesis dividam o mesmo cavalo de troia.
Seu sorriso era sombrio.
Quando ambas estiverem de joelhos… vou me reunir com Kicilov. E juntos, vamos derrubar a Hard Light. Um tiro... Três coelhos... 

Rade sentiu um arrepio subir pela espinha.

Você planejou tudo isso?

Reese largou o copo.
O som seco ecoou pela sala.

Não.
Virou-se com calma.
Mas o cavalo passou selado… e eu não vou perdê-lo.

Ele apoiou uma mão no ombro dela.

Akira Sato me ensinou isso. Ela só teve uma chance para resolver o Heist. E aproveitou.

Os olhos dele brilhavam com algo entre fúria e esperança.

Eu não vou deixar a sorte me escapar. Amanhã mesmo, após o velório, irei com Roxxy até Ostermann Heights, quero colocá-la ajudando Park Woo no projeto HAET, ele é a segunda parte do meu plano... Depois de fazer um ataque poderoso contra todos os três, vou expor a farsa do HCC para o mundo todo.

— Archie... Vão matá-lo! 
— Rade se aproximou vermelha de preocupação.

— Estarei bem guardado.

— Por um gangster perneta e uma gangue de replorgues e motoqueiros comunistas pouco confiáveis?

— Sim... Serei o aríete deles. Depois de verem o meu trabalho, perceberão que precisam de mim.

— Archie, isso é megalomania... Não posso permitir você fazer isso.

Reese riu e citou um poema de Percy Shelley: “Meu nome é Ozzymandias, Rei dos Reis; Contemplai minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”

— Isso é loucura! — Rade já estava a ponto de chorar.

— É o meu testamento para aquela que amo, Rade... Você me sugeriu isso.
— Ela não quer que faça isso... — A voz saiu mais de Peax que de Rade.

— Como você sabe? Nem a conheceu.
— A conheço desde que a libertou e retirou memórias traumáticas da cabeça dela.

Reese se afastou um pouco perplexo:

— Como sabe disso?

Peax develou-se diante dele, quando a máscara de Rade foi retirada. Os cabelos brancos venceram a holografia traseira da máscara, e os olhos vermelhos surgiram com o cair dos cabelos brancos.

— Porque a Peax nunca te abandonaria,...Porque eu te amo... E sei que você me ama... Não quero que morra...

Reese caiu sentado no sofá perplexo... De repente, tudo fazia sentido. Mas ele não se irritou de imediato, ele foi inebriado pelo beijo desesperado da replorgue, e por um cheiro quase metafísico que vinha de Peax. 

08:00



A manhã chegou silenciosa, Reese despertou confuso... Ao seu lado estava PeaX, nua, cabelos brancos repousados sobre seu peito, cabeça sobre seu braço esquerdo levemente dormente. Ela dormia tranquilamente, ele tentava processar tudo. Lembrava-se muito pouco do que ocorrera desde a conversa, mas seu coração pela primeira vez não tinha raiva nem megalomania... Ele deveria se irritar por tudo, mas de alguma forma, estava feliz.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

[CONTO] De que vale ao homem conquistar o mundo se perder a sua alma?

 19 de Abril de 2059 - 12:00

O TesyD Bloodshed cortava a névoa sobre o Rio Valex como uma navalha cromada. O VTOL — um modelo de luxo recém-lançado pela TesyD, com hélices estabilizadoras e propulsão a jato — carregava discretamente o logo da NeuralDesk, iluminado por LEDs azulados na fuselagem. Era rápido, elegante e incrivelmente silencioso, exceto pelo zumbido constante das turbinas ajustando altitude.

Reese observava a cidade abaixo pela parede de vidro do cockpit. As faixas de néon refletiam na água como circuitos líquidos. Ele se perguntava, pela décima vez naquela semana, por que a Hard Light ainda não havia simplesmente derrubado seu VTOL. Bastaria um único míssil guiado. Aquele era o trecho mais vulnerável do seu dia — o voo entre Templeton Hill e a Borda do Centro Financeiro, onde seu prédio e o da Hard Light se encaravam como dois obeliscos negros, revestidos de painéis reflexivos e quase sem janelas. Irônicos, sombrios e vizinhos.

Ao seu lado, Rade apreciava a vista. O rosto dela estava meio oculto pela luz azul que atravessava o cockpit, mas os olhos observavam silenciosamente tudo.

O watchphone de Reese vibrou.

ID: desconhecido.

Ele franziu o cenho.

— Doutor Reese? — a voz saiu instável, atravessada de ruído digital. O sotaque denunciava alguém que havia emigrado recentemente para Kazuma.

Reese reconheceu de imediato o contraste: o Inglês dele — canadense, suave — quase sempre destoava do sotaque valexiano típico com seus “ee’s” e “y’s” no final das palavras.

— Sim. Com quem falo?

O holograma piscou, deformado por interferência.

— Consegui seu ID graças ao banco de dados da inteligência da BS. Sou Chin. Huyang Chin.

— BS? BioSynthesis.

— Isso. Preciso de ajuda…

Reese ergueu uma sobrancelha.

— Tá? E que mal lhe pergunte…

Antes que completasse a frase, Rade tocou seu ombro e fez sinal para que ele se calasse.

Com movimentos rápidos, ela tirou um cabo USB do coldre lateral e conectou seu próprio watchphone ao dele. Em segundos, iniciou um rastreamento ativo e uma gravação criptografada. Os dedos dela trabalhavam com precisão militar.

Reese arregalou os olhos por um instante. Aquele tipo de atitude vinha mais de um agente de inteligência corporativa do que de um guarda-costas comum.

Rade continuou em silêncio, concentrada.

A voz de Chin voltou, ainda distorcida:

— Reese? O sinal desapareceu…

— Não! Estou aqui. — Ele ajeitou o dispositivo. — Que mal lhe pergunte, mas por que você — crítico ferrenho da Darwinorrobótica, que sempre dizia que autômatos biossintéticos eram pura programação — está me procurando?

O holograma estável por um momento.

— Foi graças a mim que a BS, ouvindo meus conselhos, recomendou à Hard Light deixar você quieto.

Uma pausa pesada.

— Deveria me ouvir.

Reese estreitou os olhos.

— Não foi isso que perguntei, embora a resposta seja interessante. Podemos falar mais tarde sobre os vínculos da BS com a Hard Light.

Chin respirou fundo, e o ruído do microfone ampliou seu nervosismo.

— Eu estava errado, dr. Reese. Pável, Ferguson, você… vocês estavam certos. E eu… eu fiz uma monstruosidade.

Outra pausa, mais curta.

— Preciso de abrigo. Preciso que alguém me escolte até um lugar específico… onde talvez eu não seja bem recebido.

Reese manteve o tom frio:

— E o que eu ganho com isso? Por que eu deveria confiar em você? Afinal, você está prestes a ganhar um Nobel por uma teoria baseada em algo que agora diz estar errado.

Huyang Chin soltou um riso amargo.

— O Nobel é um prêmio corporativo, dr. Reese. Ele não premia a melhor pesquisa científica — premia a que enriquece as corporações.

A voz dele falhou, mas não pela interferência.

— E não existe razão para confiar em mim. É pegar ou largar. Mas eu lhe asseguro… você não vai se arrepender. O que eu tenho em mãos…

O holograma se estabilizou por um segundo.

— …é o segredo dos neurobots.

Reese virou-se para Rade, perplexo.

Ela já havia concluído o rastreamento.

— Doutor Reese, localizamos. — sussurrou. — Altitude equivalente a Trinidad e Tobago. Movendo-se em direção a Valex a 900 km/h.

Reese voltou ao holograma.

— Por que você me daria sua maior pesquisa? Não faz sentido.

O VTOL começou a reduzir altitude, aproximando-se da plataforma de pouso da NeuralDesk. As hélices mudaram de ângulo, e a vibração da cabine aumentou.

A resposta veio com uma honestidade que Reese não esperava:

— Para salvar minha alma…

Uma pausa longa o suficiente para gelar o cockpit.

— …e minha filha.

Reese sentiu a verdade naquelas palavras. Não sabia o que aquilo significava, mas sabia reconhecer desespero — e sinceridade — quando ouvia.

O Bloodshed aproximou-se do heliporto, flutuando alguns metros acima antes do pouso suave.

— Me encontre na minha residência, em Templeton Hill. — disse Reese, firme. — Pedirei à minha guarda-costas para lhe passar instruções detalhadas.

— Não. — Falou Chin com sua voz obstruída por ruídos de distância — Xin Jin Yang Boulevard, Distrito de Kazuma.

— Por que lá? — Reese questionou. Rade insistiu em voz sussurrada que não era seguro.

— Preciso salvar a minha... filha... Ela está lá. — A voz era um desabafo.

— Tudo bem. Te encontro lá assim que entrar no espaço aéreo de Valex.

Do outro lado, Chin suspirou como alguém que voltava a respirar depois de horas submerso.

— Obrigado, dr. Reese.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

[CONTO] Femininidades hiperativas


Shui Hao estava terminando de se arrumar para ir ao shopping, cabia a ela terminar de se arrumar, sair, fechar a porta. O relógio no criado-mudo marcava sete e quinze, e o sol filtrado pela neblina que entrava pelas frestas da persiana parecia zombar dela, com seu brilho de garota hiperativa muito necessitada de ritalina. Lá fora, Akira, Akame, Akali e Yumi esperavam pacientemente no corredor — a algazarra contida dos que sabiam respeitar o espaço alheio.

Ela respirou fundo. O uniforme de vinil roxo e amarelo da Teller Academy, que usara na noite anterior, estava pendurado na lavanderia, gotejando sobre o azulejo. Ainda exalava o cheiro agridoce de sangue, medo e suor.

"Não dá mais pra usar isso. Cheira à noite que eu quero esquecer."

Com delicadeza, Shui escolheu um short e uma camisa simples — nada demais, nada chamativo.

"Hoje, eu só quero ser invisível" — pensou.

Enquanto abotoava a camisa, a lembrança do que fizera na noite anterior retornou como uma onda fria: a conversa precipitada, o contato com o pai — ou com aquele que dizia ser o pai. Ela não sabia mais em que acreditar. A forma de escrever era familiar demais, quase paternal demais. E talvez fosse isso que doía: a ideia de que pudesse ser apenas um fantasma eletrônico, uma fraude.

Shui olhou para a janela. A névoa sobre Valex parecia densa, como um espelho sujo.

"Recomeçar", dissera Hanzo. "Você precisa recomeçar, Shui. Não é tão ruim assim". — Ela se lembrou.

E ela tentou. Chegara à casa de Akira com o coração nas mãos, rosto afundado em tristeza, confusão e vergonha, no colo da chefe de polícia. Ela chegou ali destruída, mas disposta a enterrar o passado. O passado, no entanto, não se deixa enterrar facilmente. Ele cava de volta, arranha, insiste, como se conduzido por cordas invisíveis. A memória do antigo e-mail corporativo da firma — aquele endereço impessoal e inofensivo — piscou na mente dela como um lampejo de tentação. Chegou como se trazido de fora a mão.

Foi tudo o que bastou, no entanto, Shui afastou a lembrança daquele erro. Shui pegou a bolsa.

Com lembranças de seu cavaleiro etílico de armadura brilhante, pensou: "Talvez eu compre uma blusa nova, talvez algo azul… será Hanzo gosta de azul?". E de repente um sorriso tímido e apaixonado tomou conta de seu rosto. Seu coração de aqueceu em ternura, com a memória dos braços dele a segurando naquela noite. Era paradoxal que a mesma noite que lhe trazia calafrios, era a que trazia borboletas no estômago... Ela nunca tinha se sentido tão protegida como naquele momento, após despertar. Era como dormir numa cama confortável numa noite de chuva.

Ela já se encaminhava à porta quando uma voz grave e inconfundível ecoou do corredor.

— Oka-sama... Bom vê-la.

O som congelou o ar.

Era ele.

Hanzo.

A respiração de Shui falhou. Por um instante, sentiu-se uma criança pegando algo que não devia, um bichinho com asma. Olhou para si num espelho decorativo na sala: a camisa larga, o short simples, o cabelo preso sem graça.

Não. Assim, não. Ele não pode me ver assim.

Hanzo era um homem de presença rara — alto, fortíssimo, belo, a postura firme de quem carrega o mundo sem reclamar. Mesmo depois da notícia terrível daquela manhã — o assassinato em Subferro, o assassino que se parecia demais com ele pra não ser, os nomes sussurrados —, ela não conseguia duvidar dele.

"Eles estão errados. Hanzo não seria capaz daquilo... Ou seria? Ele matou um de seus agressores... Se for — Shui conjecturou — Ele devia ter um motivo... Estava protegendo alguém... Certamente."

A ideia de que pudesse ser outra mulher acendeu ciúmes em seu coração. Como assim, ele protegeria outra que não ela?

Shui afastou aqueles devaneios de sua mente apressada. "Que ridículo... Ele não é nada meu. Nem nos beijamos ainda... Ele não olharia pra mim com pensamentos impuros... Ele é um cavalheiro..."

— Céus... Preciso de ritalina, ou um calmante... — Sussurrou pra si.

Ela ajeitou a pose, ensaiou um sorriso. "Ele é um cavalheiro... Por isso preciso incentivá-lo".

Com o coração em disparada, ela correu de volta ao quarto. O armário de Yumi estava semiaberto, exalando o perfume doce e contido da dona. Shui puxou um cabide, depois outro, depois outro — tecidos macios, cortes discretos.

Ela é tão pura, até nas roupas.

Não havia nada provocante, nada que dissesse “olhe para mim”. Mas Shui precisava — precisava — ser vista. Improvisou: subiu a saia até o diafragma, ajustou o cós com um broche, vestiu uma meia-calça retirada do cesto de roupas lavadas, não sabia de quem era... Talvez fosse de Akira. Cheirou.

Está limpa. Está boa o suficiente.

Enquanto se trocava, sua mente se encheu de imagens que não sabia controlar.

Ele vai me ver. Vai sorrir. Vai dizer que estou linda... Será?

As cenas brotavam como se alguém as projetasse dentro dela: o primeiro beijo, as risadas cúmplices, o toque das mãos sob a chuva.

Depois — filhos. Um menino e uma menina, com olhos puxados e cabelos de bronze.

A briga por qual escola escolher.

Ela, vestida de noiva.

Akira e Akali sorrindo, Yumi chorando discretamente. Naria de dama de honra.

Hanzo esperando por ela no altar.

Mas a fantasia se quebrou quando a imagem do pai surgiu — a mão dele oferecendo o braço, conduzindo-a até o noivo.

Papai…?

O coração apertou. As memórias voltaram em sequência violenta: o apartamento vazio, o eco metálico da secretária da embaixada, o telão exibindo um pai que não era mais o seu, os agressores, os gritos, o frio no chão.

Ela se apoiou na penteadeira.

As mãos tremiam.

O peito parecia pequeno demais para tanto ar.

— Calma, Shui. — sussurrou para o reflexo pálido no espelho. — Hanzo precisa do seu melhor sorriso... Ele não pode perceber que você está cheia de rachaduras...

O eco da própria voz soou oco, mas suficiente.

Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo, passou o batom com precisão cirúrgica e ergueu o queixo.

De repente, a menina vulnerável desapareceu, e em seu lugar surgiu uma mulher decidida — ou, pelo menos, alguém que sabia fingir ser uma.

Shui fez e pensou tudo isso em cerca de oito minutos. Abriu a porta e saiu.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

[CONTO] Café e Adjetivos

Valex City, 19 de Abril de 2059.

Eram dez horas da manhã quando Archibald Reese deixou o escritório doméstico. O som do teclado RGB cessou, e a luz azulada do holopad foi substituída pela claridade fria que entrava pelas janelas de Templeton Hill. A névoa sobre o Rio Valex parecia mais espessa naquele dia, e as torres do centro financeiro se perdiam em seu preto e o azulado, como se a cidade respirasse devagar.

Rade o seguiu em silêncio pelo corredor. Seus passos eram leves demais para ecoar, quase um som aprendido de convivência. Ela parou a uma distância respeitosa quando Reese se apoiou na sacada e observou a cidade lá embaixo. As luzes incessantes da madrugada ainda pulsavam, refletindo nas poças que restavam da chuva.

Senhor Reese? — a voz dela ressoou, firme mas hesitante.

Ele virou-se apenas o suficiente para olhá-la.
Sim?

— Eu quero saber se estou incomodando. Se eu estiver, pode me falar. Deve ser estranho ter um guarda-costas te seguindo até dentro da própria casa.

Reese demorou a responder. Fitava a névoa, como se as palavras tivessem de atravessar aquele manto para ganharem sentido.
Não. Tá tudo bem.

Pausou.
— A Peax era assim também… ou quase. Ela tinha mais autonomia. Fazia as coisas dela, mas quando estávamos juntos, passávamos o dia nos mesmos cômodos — na empresa, aqui… sempre falando sobre qualquer coisa.

Rade manteve o olhar firme, embora algo dentro dela começasse a estremecer.
Não quero substituí-la.

Nem pode. Nunca poderá. — Ele bebeu um gole de café, como se fosse ofendido pela mera sugestão. — Mas vocês têm algo em comum. Passam pelos cômodos ajeitando o que eu deixo fora do lugar. Nunca quis um modelo D porque a Peax tinha TOC com arrumação. A casa estava sempre impecável. Você parece ter o mesmo impulso.

Rade — ou melhor, Peax — sentiu o sangue subir-lhe ao rosto sob a máscara. Percebeu que estava deixando escapar demais, na sua cabeça, quando imaginou o plano de estar ao lado de reese, ela imaginou aquilo sendo muito mais fácil. A voz falhou por um instante.
Se quiser, eu paro.

Não. Continue. — Reese virou-se um pouco, apoiando o cotovelo no corrimão. — Isso me faz sentir à vontade, familiar, como se nada tivesse mudado. A essa hora, a Peax já deve estar chegando a Cascadia Town. Saber que ela está em segurança me dá paz para pensar.

As palavras cortaram fundo.
Peax sentiu algo entre culpa e perda.

Então ela era um fardo pra você? — perguntou, quase num sussurro.

Reese a olhou, como se a pergunta tivesse vindo de longe.
Não. De maneira nenhuma. — A voz dele ficou mais baixa, mas carregada de ternura. — Ela era brilhante. Eloquente, inventiva, sagaz, perspicaz, doce, dedicada, gentil, espirituosa… Amável, às vezes desafiadora, sempre criativa, acolhedora, cativante, comunicativa, era também leal, inspiradora, confiável, serena nas horas certas, determinada quando se precisava... Os olhos dela sorriam antes dos lábios — e isso fazia o meu dia melhor. Eu poderia passar o dia descrevendo as qualidades dela e ainda assim faltariam palavras. Talvez eu tivesse de inventar novas só pra chegar perto.

Peax desviou o olhar. O coração, esse velho traidor, reagiu antes da lógica: acelerou. Aquelas palavras eram de um homem apaixonado, e aquela reação era de uma mulher apaixonada. Como esconder?

E ainda assim, com tudo isso… você a mandou embora? - Peax/Rade tentou tirar o foco para a imagem idealizada que Reese tinha dela.

Reese levou a xícara aos lábios e respondeu sem pressa:
Sei que está me julgando... E também sei que sou mais fraco sem ela. — Respirou fundo. — Mas prefiro morrer a deixá-la morrer. Se tudo der errado, quero que ela saiba que fiz o que fiz por amor. Não sei se fiz certo ou errado. Talvez tenha errado, mas eu gostaria que ela soubesse que eu coloco a vida dela acima da minha.
Fez uma pausa.
Já sentiu isso por alguém, Rade?

Ela não respondeu de imediato.
Sete anos ao lado dele e nunca o ouvira falar assim.
Lembrou-se de Sasha, do frio do cano da arma contra a pele, e do olhar de Reese — desesperado, humano, real — quando trocaria tudo, até a própria vida, só para salvá-la.

Peax piscou, e uma lágrima quase se formou, oculta pelo disfarce.
Você ficou triste, Rade. — Ele a observava com doçura. — Acho que isso responde à minha pergunta.

Ela tentou sorrir, fracamente.
É… acho que sim.

Quer falar sobre isso? — perguntou Reese, voltando a tomar o café.

Ainda não estou pronta. — respondeu. — Mas… talvez devesse dizer isso à Peax. Nem que fosse num testamento, caso as coisas desandem.

Reese arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Fazer de uma hipotética morte minha um gesto de amor? Talvez a maior declaração que o mundo já viu... Boa ideia. Daquelas que a própria Peax teria.

O sorriso dele quebrou o ar frio da sacada.
Sorria, Rade. Estou te comparando com alguém incrível. A Roxxy sabe o que faz. Escolheu bem quem me acompanha.

Peax conteve a emoção.
A Roxxy é boa. Melhor que a Jenny… Só mas não diga a ela que eu falei isso. Já esteve perto dela nos surtos de arrogância dela? É...

— Insuportável. Eu sei. - Reese riu. É… sei bem como ela é. Quer um café?

Peax assentiu, pegou um copo na cozinha e se serviu.
Voltaram juntos à sacada. O vento carregava o cheiro metálico da chuva, e as luzes de Valex City tremulavam sobre o rio como um coração pulsando sob vidro e vapor.

Os dois ficaram lado a lado, encostados no parapeito.
Nenhum deles disse mais nada.

[CONTO] Improvisação e genialidade

19 de Abril de 2059 - 9:00 


Archibald Reese observava os diagramas flutuantes no ar com o cenho franzido.

As linhas de código e as estruturas esquemáticas da Forja Neurotermal se moviam lentamente diante de seus olhos, como se o próprio projeto respirasse, tentando se justificar. Roxana Verheyen deixava rastros de personalidade até mesmo em sua engenharia — fios nervosos traçados com a mesma insolência com que falava. Reese respirou fundo, apoiando as mãos sobre seu holopad pessoal na sua casa em Templeton Hill. Rade estava no canto escuro da sala observando-o em silêncio. Ele achava curioso a forma como ela a seguia, mas de alguma forma aquilo não o incomodava, era até reconfortante, quase familiar. havia algo no jeito em que ela o olhava, em que cuidava da casa quando ele não estava vendo (ou achava que não estava) que era quase dócil, se não dócil mesmo. Dócil demais para um militar. Um militar acordava rigidamente no mesmo horário, dobrava cobertores e lençóis quase mecanicamente como quem dobra uma bandeira. Rade não, ela esticava lençóis e os alisava como um carinho. E depois o seguia, o observando de longe, em silêncio. Seu escritório em sua casa, estava silencioso, mesmo com a presença dela, exceto pelo zumbido tênue dos servidores e o estalo ocasional do sistema de refrigeração.

Lá fora, a chuva fazia o ar vibrar com eletricidade. Ele voltou aos seus pensamentos.

Ele ampliou a estrutura do Chip Neurotermal, o que seria evidentemente o produto final da forja.
Era brilhante, sem dúvida. Engenhoso. O tipo de invenção que só poderia nascer da mistura entre genialidade, improviso e imprudência.
Mas quanto mais ele analisava, mais via a assinatura de Roxy — e os seus vícios.

Ela tratava o cérebro como um engenheiro trataria uma máquina. Para ela, o córtex era uma placa-mãe. Os axônios, circuitos.
O lobo frontal, um processador esperando ser alimentado com um código limpo, elegante, simétrico. E o chipe se encaixaria no córtex pré-frontal como um chipe se encaixa num soquete soldado de forma improvisada. Reese percebeu que Roxxy, diferente dele que recebeu desde jovem a melhor educação formal, era uma scrapper - pessoas que fazem suas rebimbocas tecnológicas catando lixo e montando do jeito que dá.

Reese sorriu, cansado.
— Genial… Mas ignora o básico... — murmurou.

O cérebro não era uma placa de silício.
Não era um produto racional do desenho de um projetista.
Era o resultado caótico de bilhões de anos de evolução, uma colagem orgânica de soluções temporárias que nunca foram substituídas porque, por acaso, funcionavam bem o suficiente.

Instabilidade funcional baseada em improvisação, tentativa e erro”, dizia seu antigo mentor, Dr. Pável, em suas aulas. O cérebro, pensava Reese, era um amontoado de remendos — um programa sem backup, cheio de redundâncias, registros inúteis, e atalhos tortos que a natureza esqueceu de deletar. Uma colcha de retalhos que poderia ser usado para estudar cada etapa da evolução humana assim como diferentes níveis de solo poderiam entregar períodos geológicos diferentes da vida da Terra.

E ali estava Roxxy, tentando inserir um chip limpo, matematicamente perfeito, no meio dessa bagunça de sinapses imperfeitas. Um sistema que só compreendia o caos e a adaptação.

Reese murmurou em voz alta: - Isso explica porque você acha que replorgues são droids muito evoluídos... 

Reese abriu a subcamada térmica do projeto do chipe e viu o problema real:
Os neutralizadores eram engenhosos, mas ignoravam a arquitetura e a linguagem de programação dos neurobloqueadores. O NB0 controlava os outros NBs porque tinham a mesma estrutura e linguagem de programação. Mas o chipe dela era diferente.

Aqueles pequenos reguladores de temperatura neural eram eficientes, mas ingênuos. O primeiro erro, a linguagem de programação era TK12 e usavam arquitetura SSC, produto típico da Takahashi Inc; como se fosse um game designer usando a Unreal Engine. Os professores Gómez e Ferguson precisaram criar sua própria arquitetura e linguagem de programação para tornar os neurobloqueadores funcionais. O que Roxxy pretendia com seu chipe seria como tentar colocar um cartucho de Nintendo num moderno Playbox ou ainda, esperar que o Luminum OSII lêsse um programa do velho Windows 12. 

Mas dava para ver que ela tinha pelo menos pensado certo ali... Ao modular o fluxo sanguíneo para desativar por aquecimento os NBs, eles criavam microzonas de estagnação — pequenas bolhas de morte celular. Trombos. Mini-AVCs. Uma forma engenhosa de causar pequenos danos calculados mas isolando os NBs do restante do cérebro. Se tivesse a programação e a arquitetura certas poderia funcionar, mas sem isso, geraria uma resposta autoimune agressiva que mataria o replorgue. O chip, ao tentar isolar e sobreaquecer os NBs, acabaria matando o hospedeiro.

Ele se recostou na cadeira, encarando a projeção azulada do holopad.

Ele sabia porém que ela estava no caminho certo, com a orientação de Park Woo e a supervisão dele o projeto era realmente promissor. Mais uma vez ele entendeu seu mentor, cuja foto com ele ainda estava num prota-retratos na mesa. Se Roxxy tivesse tido uma educação formal brilhante como a que ele teve, ela certamente ganharia um Nobel.

Quantos milhões de talentos como Roxxy aquela cidade desperdiçava ao não ofertar condições mínimas de educação e desenvolvimento? Roxxy deu sorte de encontrar alguém que a ajudasse, mas e os outros que não davam essa sorte ou terminavam vitimados pela violência urbana? Quantos Einsteins talvez não morreram nos becos escuros de Valex? 

Reese tinha a chance de corrigir esse erro da sociedade com Roxxy. Se Jenny a tinha salvado da pobreza e dado a ela educação formal tardia mas de qualidade, Reese poderia ser o mentor do futuro da ciência, como Pávell foi para ele. E ele o faria, sem pedir nada em troca a não ser os royalties pelo uso das instalações do Centro de Pesquisas Julya Karpova.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

[CONTO] Entre Isaías e Prometeu


19 de Abril de 2059

A porta de vidro deslizou com um sopro discreto, e Rade entrou. O cheiro de produto de limpeza ainda flutuava no ar — a zeladoria havia sido eficiente, apagando os vestígios de Eerie. A janela estava nova, as superfícies brilhavam. Nenhum fragmento, nenhuma mancha. Tudo em ordem, como se nada tivesse acontecido ali.

Reese estava sentado, de costas para o Rade, diante de um quadro branco que parecia mais um espelho da própria mente. As linhas de marcador formavam constelações de símbolos, equações, números, setas, breves frases que oscilavam entre a física e o misticismo. A caligrafia era precisa, mas não fria. Havia emoção contida até na forma das setas.

PeaX — escondida atrás do disfarce de Rade — observava em silêncio. Achava tudo aquilo bonito, quase sagrado. O jeito como ele segurava o marcador, o olhar absorto, a respiração que se tornava medida de pensamento. Havia algo de devocional em Reese quando escrevia; parecia conversar com as próprias teorias, ela esboçou um sorriso familiar ao estar do lado de quem agora sabia que desejava mais que como amigo. E, naquele dia, o fascínio dela tinha virado desejo.

Mas PeaX não podia deixar transparecer nada. Nem uma hesitação, nem um olhar mais longo do que o permitido. A distância entre eles era de dois metros e um segredo.

Trocaram apenas um aceno de cabeça quando ela chegou com Roxxy no dia anterior. Reese voltou ao quadro. O watchphone em seu pulso brilhou, projetando o holograma de Park Woo no ar. As vozes misturaram-se à luz fria do escritório — trechos dispersos, fragmentos científicos que escapavam pela transparência da porta. PeaX se afastou, ficando atrás do vidro, onde apenas o som filtrado da conversa chegava.

Palavras flutuaram como espectros: HCC… ponte holográfica… consciência… Nobel.

Quando o diálogo terminou, ela esperou alguns segundos. Depois respirou fundo e voltou.

— Parece difícil — disse, num tom calmo, que escondia o nervosismo ao tentar pela primeira vez puxar conversa. Ainda sem jeito, sem coragem, medo de ser descoberta.

Reese se virou. Um sorriso surpreso.
— Primeira vez que ouço sua voz em quase vinte e quatro horas… mas sim, é difícil.

— Deve estar cansado de gente sem formação como eu te perguntando o que tudo isso significa.

— Cansado? — ele ergueu o olhar. — Ao contrário. Eu gostaria que mais pessoas se perguntassem. Explicar me faz companhia.

Ela sorriu... Aquele jeito melancolicamente fofo e pessimista de falar... Ela temeu não mais ouvir.
— Talvez devesse virar professor em Oxvard. Ouvi dizer que estudou lá.

— Estudei. — Ele apoiou o marcador no queixo, pensativo. — É um sonho meu, dar aula. Mas, por enquanto, não posso. Não enquanto não enterrar Prometeu.

Ela inclinou a cabeça, intrigada.
— Prometeu?

— O titã que roubou o fogo dos deuses — respondeu, com uma serenidade antiga. — Deu a razão ao homem. Eu não quero que o homem perca a razão… apenas quero impedir que ele tente sentar-se no trono dos deuses.

— Você acredita neles? Nos deuses?

— Não. — Ele sorriu, quase melancólico. — Mas isso não impede o homem de querer subir aos céus; erguer o trono acima das estrelas; sentar-se no ponto mais elevado do monte santo.

— Isaías — murmurou PeaX.

— Sim. — Reese olhou para o quadro, sem vê-lo. — Gosto da poesia da Bíblia. Ela nos lembra a nossa posição humilde diante das grandes potestades do cosmos.

Foi então que PeaX sentiu a lágrima escorrer antes mesmo de perceber que chorava. Rápida, silenciosa.

— Está tudo bem? — perguntou ele. — Você está chorando.

— N-nada… — ela hesitou, buscando uma mentira que soasse humana. — Lembrei do meu pai. Ele era idealista. Citava a Bíblia.

— Falecido?

— Sim.
— Acha que seria possível trazê-lo de volta? — Indagou Peax tentando desconversar.

Reese virou-se devagar. O olhar era tão gentil que doía.
— Não. Longa história, mas não.

Ela respirou fundo.
— Você disse que queria explicar. Ensinar. Tente comigo.

Por um instante, ele a observou como quem tenta lembrar um rosto esquecido. O nó da gravata estava torto e a gravata lamentavelmente amarrotada, e ela ao perceber aproveitou a brecha.

— Me permite? — perguntou, apontando para o tecido desalinhado.

— Claro. Sou péssimo com essas coisas. — Reese respondeu.

— Os grandes gênios costumam tropeçar no simples. — A voz de PeaX escapou na forma pela voz rouca de Rade.

Reese riu, curioso com aquela frase.
— Onde você ouviu isso antes?

— Não lembro. Deve ter sido meu pai ou algum tutor da DSM... Não sei.

Ela arrumou a gravata com cuidado, evitando olhar demais para ele. O silêncio entre os dois era denso, quase elétrico.

— Então — disse ela, ainda próxima — me explique o que é o HCC.

Reese recostou-se, retomando o tom de professor cansado.
Holographic Consciousness Chip. Um chip que cria uma ponte entre um corpo novo, feito de synthcells, e o conecta ao corpo antigo. O objetivo é transferir a consciência — pouco a pouco — de um para o outro.

Enquanto falava, voltou ao quadro e desenhou duas figuras, unidas por linhas onduladas.

— Durante dias, o HCC liga o cérebro novo em etapas e vai desligando o antigo. Entre eles, mantém uma ponte. Um canal por onde passam estímulos e memórias. Testes são feitos em paralelo: desligam a visão do corpo velho, ligam a do novo. Mostram uma bola diante do corpo novo, e o velho é quem diz “eu vi a bola”. É um truque de sincronização. Parece elegante. Em teoria resolve o problema da testeminha constante.

PeaX observava o traço, o ritmo das palavras.
— Em teoria?

— Sim — ele repetiu, sorrindo de leve. — Mas não resolve. O problema é simples e mortal: não há como provar que a consciência migrou. É uma teoria e uma prática não falseável, e se não é falseável não é ciência. É um golpe bem articulado.

— Gostaria de entender como o golpe funciona. — Falou PeaX genuinamente curiosa.

Quando o corpo velho é desligado, a testemunha constante desaparece. E o corpo novo, mesmo que acredite ser o antigo, pode ser apenas uma cópia perfeita — com a memória de uma travessia que nunca aconteceu.

Ela ficou em silêncio. Reese apagou parte do quadro com o dorso da mão.

— A única maneira de provar seria interromper o processo. — Sua voz baixou. — Ativar o corpo novo sem desligar o velho. Se ambos acordassem, e ambos tivessem as mesmas memórias da “migração”, ficaria claro: não houve travessia. Houve duplicação. O chip não transfere consciências; só copia padrões.

Ele escreveu: Memória não é identidade.

— Isso — concluiu — provaria que a consciência está ancorada ao tempo, ao espaço e ao corpo. Que não existe alma viajante. Só continuidade física.

PeaX sussurrou:
— E aí... Bingo! Você enterraria Prometeu.

Reese assentiu.
— Enterraria. Sem negar o fogo. Apenas devolvendo ao céu.

Ela quis sorrir, mas conteve.

— Obrigada, doutor Reese. Consegui entender… quase tudo.

— Quase é o começo de todo entendimento. — Ele olhou para ela, e por um segundo, o olhar pareceu reconhecer algo por trás daquela máscara de guarda-costas. — E quanto a você? Tem um jeito diferente...

— Diferente como? — PeaX se reposturou como Rade.

— Não fala como militar. — Falou Reese. 

Ela desviou o olhar.
— Professores atraem perguntas demais. E sou mais de trabalho de infiltração... Se aparentar sempre ser uma militar, fica evidente que não sou quem digo ser.

— Faz sentido. - Reese sorriu.

Do corredor, a luz refletia os dois no vidro, como se houvesse mais de uma versão de cada um. Rade ajustou o sobretudo, formal outra vez.

— Se precisar, fico na porta. A janela nova não vai dar trabalho.

— Ótimo — respondeu ele, sem tirar os olhos dela. — E obrigado… pela gravata.

Ela assentiu, já de costas.

[CONTO] Espere


Drasa arrumava as malas como quem tenta organizar o caos por dentro. Cada dobra era uma tentativa de alinhar o que se quebrara — não o tecido, mas o sentido. A luz fria do dormitório realçava a mistura estranha de rigidez e vulnerabilidade que ela carregava no olhar. O som do zíper cortava o ar, metódico, quase ritualístico. Sua pele de synthcells era indistinguível da humana, produto que o caos das Guerras de 30 e 38 aperfeiçoaram. Hanzo dissera que já falara com a Roxxy, representante da DSM. A transferência estava pronta. Ela seria vendida — e, enfim, livre do peso de sentir. Livre da confusão que os sentimentos estavam provocando em seus NBs.

Dissera isso com a calma calculada de quem se resigna. Drasa sabia que aquilo estava machucando Hanzo por dentro, mas parecia ser o certo. Ela estava ferindo seu proprietário e a quem devia guardar por instabilidades de processamento. As portas se abriram com um ruído suave. Xin entrou. Parou ali por um instante, observando a amiga — a irmã de alma — dobrar uma camisa pela terceira vez.

— Então é verdade — disse, sem rodeios. — Vai mesmo?

Drasa não respondeu. Continuou arrumando a mala, obstinada.

— Hanzo já resolveu tudo. Amanhã cedo irei.

Xin deu um passo à frente.

— E você quer isso?

Drasa hesitou.

— Quero o que é certo.

— Cuidado — respondeu Xin, calma. — “Certo” nem sempre é o mesmo que “se salvar”.

Drasa apertou a camisa nas mãos, os nós dos dedos brancos.

— Eu não sei mais o que é meu, Xin. Não sei se o que sinto é real ou se são os NBs distorcendo os sinais.

— E o que você acha?

— Acho que ele tem razão — disse, num sopro. — Eu… eu sinto medo. Medo de fazer algo que o machuque. Medo de perder o controle. Medo de… querer ficar. — Seus olhos piscaram e sua voz titubeou na hora de dizer. Xin percebeu.

Então, se aproximou mais.

— Olha, quando eu não gosto de algo, tendo a ser muito rigorosa, e tive uma conversa com ele que sinceramente... eu acho que passei do ponto.

Drasa olhou curiosa.

— Acho que vivi em meio ao caos e a desordem tanto tempo, vendo gângsteres de vida caótica me explorando, que acabei vendo um pouco deles no Hanzo.

— Trauma?

— Não quero falar sobre isso. O que importa e o que eu quero dizer é que vou tentar quebrar esse padrão, começando por você. e depois pedirei desculpas pra ele.

— E o que isso tem a ver comigo?

— O que eu quero dizer é que você não está com defeito, Drasa. Está sentindo. Isso é o que sempre tentaram arrancar dos replorgues. Nós humanos valorizamos a liberdade de forma hipócrita, e criamos replorgues porque não sabemos lidar com a liberdade de outros humanos. A liberdade de fazer o que quiser, por ser universal, implica na liberdade de não se ser amado. Não se pode obrigar os outros a te amar. A liberdade de não se ser servido. A não ser que pague alguém por isso, ninguém obrigado a te servir. A liberdade de não se ser cultuado. A não ser que você seja realmente especial, ninguém te admirará. Eu aprendi isso vivendo anos sob as mais variadas tiranias, e quando você é uma mola pressionada sempre, é praticamente impossível não passar da conta quando você se sente livre. Hanzo escolheu beber, eu escolhi... Soltar os cachorros.

Drasa balançou a cabeça.

— Eu fui feita pra lutar, Xin. Não pra me perder num beijo. E não preciso ser pagar por isso.

— Quem decidiu isso? Você? - pontuou Xin. — Ou o que colocaram na sua cabeça?

Drasa sentiu sua cabeça latejar.

— Eu sou um objeto. Não posso ser amada.

— Ele já te tratou como coisa alguma vez?

A dor aumentou.

— N-não... Mas eu não mereço ser amada.

— Quando se é cativa de outros, saber reconhecer pequenos trejeitos, saber diferenciar raiva verdadeira de ameaça simples é essencial para sobreviver. È a diferença entre uma surra ou um pouco de respiro... Eu aprendi a ler minúcias facilmente. E eu sei ver amor. Mesmo que nunca tenha amado ninguém.

Xin respirou fundo e falou:

— Drasa, não há ninguém. Nenhum ser humano na face da Terra que mereça ser amado. O amor é dado. Sem porquês. Sem motivos aparentes. Beleza, dinheiro, carisma, são coisas que atraem alguém pra tentar algo, mas só a vontade de duas pessoas de darem-se uma a outra as mantém juntas. Você quer?

Drasa pensou, seus NBs novamente dispararam, ela sentiu dor e vertigem. Xin a apoiou.

A lembrança veio como uma lâmina: o toque rápido, o gosto suave, o olhar inocente e surpreso de Hanzo antes de ela se afastar. E o vazio depois.

— Ele não me pediu pra ir — continuou Drasa. — Fui eu quem disse que devia. Que era o melhor. E ele não me impediu.

Xin respirou fundo.

— Então espera. Espera pelo menos uns dias. Você não pode decidir nada agora, não com tudo isso latejando. Dá tempo pros NBs serem contornados… e pra você escutar o que sobra quando o eles se calam.

Drasa olhou para a mala fechada. Por um instante, parecia enorme. Pesada demais para uma decisão tão leve quanto “ir”.

— Cinco dias — murmurou.

Xin assentiu.

— Cinco dias. Se ainda quiser ir, eu mesma acompanho. Mas se ficar… a gente descobre juntas o que fazer com esse coração novo.

Drasa ergueu o olhar, uma centelha tímida de alívio no meio do medo.

— Não conta pra ele. Ele acha que eu não sinto medo.

Xin sorriu, melancólica.

— Eu duvido que ele pense isso... Mas não contarei. Você deve contar.

A porta se fechou atrás dela.

Drasa ficou sozinha, o som do zíper ecoando outra vez.

Mas, dessa vez, ela não fechava a mala.

Ela apenas a abria — como quem admite que ainda não está pronta para partir.

sábado, 1 de novembro de 2025

[CONTO] Hipótese Espaço-Temporal

Valex City, 18 de abril de 2059 - 11:20

Reese e Park woo

Ostermann Heights estava silencioso demais para uma manhã de quinta-feira.

O Centro Julya Karpova de Pesquisas — um complexo subterrâneo reforçado por concreto leve, fibra de titânio e painéis anti-vibração — sempre tivera o costume de cantar um coro metálico de robôs cirúrgicos, drones de laboratório e servidores respirando como baleias de aço. Mas naquela tarde, o silêncio parecia um aviso. Um intervalo tenso entre dois trovões.

Archibald Reese passou seu crachá biométrico, sentiu o zumbido da trava magnética e empurrou a porta.

Lá dentro, encontrou Park Woo inclinada sobre um microscópio com as luvas ainda sujas de grafeno.

Ela levantou a cabeça, e o rosto exausto floresceu num sorriso caloroso.

Reese… — disse ela, num suspiro de alívio.

Ele não esperou formalidade: aproximou-se, segurou os ombros dela e a puxou para um abraço firme. Um abraço de gente que sobrevive junto.

— Eu precisava ver você — disse ele, a voz rouca, o cheiro de álcool ainda escapando de sua respiração.

Woo retribuiu o abraço, batendo de leve nas costas dele, como quem tenta conferir se todas as peças continuam no lugar.

— Estão dizendo que a guerra civil corporativa é real. — Ela o soltou e cruzou os braços. — É verdade, Reese?

Reese respirou fundo. Não havia mais espaço para ilusões.

— É real. E está perto demais.

Woo assentiu, com aquele olhar de quem já esperava a resposta — mas torcia secretamente para estar errada.

— Você está bem depois do ataque ao Centro Cívico? — perguntou. — O noticiário fala em corpos… e drones não identificados…

Felizmente — Reese respondeu — Mas sim, teve morte. Teve sangue. E… o Togall... Se foi.

Ele hesitou, olhando para baixo, como se a culpa tivesse peso físico.

— Peax…?

Woo inclinou o corpo para frente, tensa.

— Não vejo Peax há dois dias — disse ele, por fim. — Pequenos ferimentos. Nada grave. Mas desapareceu depois, deve estar em algum hotel, estou dando tempo a ela. Sei que Roxxy sabe onde ela está, mas não perguntei.

— Roxxy? Aquela Roxxy do heist?

— Ela mesma. Chefe de segurança. — Respondeu ele.

— E você? — ela o examinou com olhos clínicos. — Parece acabado.

— Ressaca. Longa demais. Eu… Me afundei em bebida com amigos... Peax, sabe?

Ele passou a mão pelo rosto; o arranho da barba mal-feita raspou nos dedos.

— Mas temo que ela não queira mais me ver — completou.

Woo se encostou na mesa de análise, levantou uma sobrancelha com curiosidade e um toque de provocação amistosa.

— E por quê? — perguntou.

Reese fechou os olhos um instante.

— Por causa do ataque que matou Togall… e quase matou ela. — Sua voz quebrou na segunda frase. — Eu tô mandando Peax pra Neo-Eden. Para ficar segura.

O silêncio que se seguiu foi profundo, cheio de significados que nenhum dado, nenhum chip, nenhum algoritmo saberia traduzir.

Então Woo sorriu de canto.

— Eu sabia que vocês dois iriam acabar se apaixonando.

Reese abriu os olhos, surpreso.

— O quê?

— Você esqueceu da festa do Martinuccio? — disse Woo, rindo. — Tinha uma stripper do TaoKao Pub que estava vestida de coelhinha quase sentadano seu colo, lembra? A pior fantasia da história da genética aplicada à humilhação feminina. E você só conseguia olhar para a PlorgTech 2.0 das tatuagens de rosas e arabescos.

Reese deixou escapar um quase-sorriso.

— Naquela época… eu não pensava romanticamente sobre ela.
Eu só via a brutalidade com que o Martinuccio a tratava. A postura… a linguagem corporal depravada… as ordens. Como se ela fosse... menos que humana.

Woo revirou os olhos com desprezo.

— Martinuccio sempre foi um verme. Filhote de Little Argentina, simpático ao Alfajor, e já me chamou de “comedora de cachorro” quando eu recusei um convite nojento. Se dependesse dele, mulheres e Replorgs estariam no mesmo catálogo de brinquedos.

Reese ficou sério outra vez.

— Talvez eu esteja sendo autoritário. Talvez… esteja tirando a liberdade dela.

— Reese — Woo aproximou-se, segurou o braço dele. — Você está certo em mandá-la pra um lugar seguro. Cargo se reconstrói. Carreira se reconstrói. Vida não.

Ele engoliu seco.

— A vida não é lógica.

Woo concordou.

— Ninguém gosta de admitir isso. Nós prezamos a liberdade. Pregamos a autonomia. Juramos que nunca abriremos mão de nossa liberdade, mas damos poder e legitimamos governantes.
No fim… sempre alienamos parte da liberdade em troca de segurança. Thomas Hobbes, lembra?

Reese riu sem humor.

Homo homini lupus.

— Exato — disse ela. — Às vezes, para proteger alguém, você precisa fazer o que ela mesma não faria. Isso não te torna carrasco. Te torna humano. Hoje você tem poder, e tem uma autoridade. Tem a responsabilidade de tomar decisões difíceis.

Reese respirou fundo. No laboratório silencioso, os painéis de dados pulsavam em azul fraco — como o bater distante de um coração sintético.

— Ainda assim me sinto mal.

— É porque a decisão é difícil. — Woo apertou de leve o braço dele. — Não existe escolha que não custe alguma coisa.
Se ela fica, corre risco de morrer.
Se ela vai, corre risco de te odiar.
As duas opções têm vantagens e desvantagens. Não é falta de lógica. É só o mundo sendo cruel.

Reese encostou na bancada e olhou para as cápsulas frias do laboratório Karpova.

— Eu queria ter a certeza de que estou salvando ela… e não me salvando de perdê-la.

Woo sorriu com tristeza.

— Reese… nenhum de nós tem essa certeza. Nem os que amam, nem os que mandam. Mas sei de uma coisa: se Peax está viva, a chance de vocês se reencontrarem continua existindo. Se ela morre aqui… acaba tudo.

O silêncio voltou, espesso como fumaça.

E, pela primeira vez em dias, Reese respirou fundo sem tremor.

— Obrigado, Woo.

Ela puxou o jaleco, sorriu, e respondeu:

— Estamos em Ostermann Heights, Archibald. Debaixo da cidade que nunca dorme. Cercados por corporações que acham que podem brincar de Deus.
Se não nos ajudarmos… quem vai?

O silêncio entre Reese e Woo já tinha se tornado confortável quando ele resolveu quebrá-lo:

— Woo… como está a análise do MindShift 5.0?

Ela retirou as mãos da bancada, o sorriso murchando como uma lâmpada perdendo energia.

— Estava bem — respondeu. — Até anteontem.

Reese franziu o cenho, a tensão voltando como uma lâmina antiga.

O que aconteceu?

Woo respirou fundo. Era o tipo de assunto que deixava cientistas com gastrite instantânea.

— A Eerie Klaus, a nova fixer de inteligência, ela monocraticamente impôs restrições ao acesso aos testes novos. Travou parte dos blocos experimentais da pesquisa.

Reese se endireitou.

— Restrições? Quais?

Woo olhou para a tela de holograma — como se a resposta estivesse ali, escondida.

— A webrunner NETalie fez a simulação final e conseguiu decompactar os arquivos do MindShift, mas… — Woo ergueu o olhar. — Parte da análise dela foi colocada sob o firewall corporativo avançado. Trancada atrás da IA de defesa mais pesada da NeuralDesk.

Reese piscou, incrédulo.

— Trancaram o trabalho dela?

— Sem aviso. Sem justificativa. E sem chave de acesso para a equipe.

Reese levantou os braços, indignado:

— Mas por quê?

Woo deu de ombros, irritada e frustrada em igual medida.

— Não sei. Ninguém aqui sabe. A única instrução oficial foi: “trabalhem com o que têm. E não peçam mais.”

Reese virou o rosto, como se o ar de Ostermann Heights tivesse ficado pesado demais para respirar.

— Isso não faz sentido — murmurou. — Os resultados da decompactação eram essenciais para sabermos se a transferência da Testemunha Constante é teoricamente viável ou apenas um sonho bonito.
E se não for viável… então eu estou iludindo aliados. Estou prometendo o impossível. E isso, Woo, isso não é justo.

Woo inclinou-se, tocando o braço dele outra vez — não como cientista, mas como amiga.

— Reese... Quem está no controle da sua corporação?

Reese ficou em silêncio. Woo arfou e falou:

— Mas ainda assim… gostei de trabalhar nessa hipótese.
A Hipótese de Ancoragem Espaço-Temporal mudou o modo como vejo o cérebro. Mudou como vejo o mundo.

Reese bufou, mas um brilho orgulhoso passou nos olhos cansados.

— Foi magnífico, não foi? — disse ele, quase com um riso triste. — Um exercício intelectual incrível. Propor que a Testemunha não está presa ao corpo, mas ao próprio espaço-tempo…
Se comprovada, Woo… isso valeria um Nobel.
E acabaria com essa ideia infantil de que podemos transportar almas como arquivos ZIP.

Woo sorriu com olhos cheios de faísca científica.

— Derrubaria o Prometeu Moderno. Todos os CEOs brincando de deuses ficariam nus. Sem desculpas. Sem simulacros vendendo imortalidade de mentira.

Reese passou a mão nos cabelos negros, exausto.

— Mas sem os resultados da NETalie… estamos cegos.
Não podemos testar.
Não podemos comparar fluxos de instâncias.
Não podemos ver se duas consciências em corpos diferentes compartilham continuidade fenomenológica.

Woo assentiu, mordendo o lábio — cientista frustrada é um animal ferido.

— Sem a análise da NETalie… — disse ela, empurrando alguns hologramas de lado — é impossível fazer experimentos.

— Isso não vai ficar assim, hoje Peax embarca para Neo-Eden, vou me despedir dela, mesmo que ela não queira me ver... E ordenarei a Eerie destrancar a pesquisa. - Falou Reese.

Woo ficou com olhos brilhantes de alegria.

— Maravilhoso, Reese... Maravilhoso.

Aviso Importante: Qualquer Semelhança é Meramente Coincidencial

 Todas as pessoas, nomes, empresas, eventos e locais mencionados neste contexto ou história são puramente fictícios. Qualquer semelhança com...